A Projeção da Escuridão

Deivyson Fernandes
O quarteto cearense Plastique Noir segue para o WGT, na Alemanha
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Felipe Gurgel · Fortaleza, CE
22/1/2007 · 100 · 4
 

A banda cearense Plastique Noir foi escalada para o WGT, o maior festival gótico do mundo, em Leipzig, Alemanha. O quarteto segue atrás de patrocínio até lá - quando se apresenta em maio de 2007. O vocalista Airton S conta o que representa o Plastique e seu acento na subcultura gótica

O nome é francês ("plástico negro") e a estética soa estranha aos olhares mais puros. O Plastique Noir, rara banda de estilo gótico dark new wave - vertente do rock originária do punk, ganha boa projeção em pouco mais de um ano. Airton S (vocalista) conversa sobre o convite para o Festival Wave Gotik Treffen (WGT). O evento é o maior festival gótico do mundo e será realizado durante os próximos dias 25 a 28 de maio de 2007, em Leipzig, Alemanha. Mais de 150 artistas de todo mundo, adeptos e simpatizantes do goticismo se reúnem entre palcos e barracas de produtos medievais, góticos e culturais.

O Plastique Noir busca apoio público para bancar as passagens de avião até lá. "Eles (do WGT) confirmaram o convite há um mês. Havia um edital do Ministério da Cultura para custear passagens de artistas que fossem para fora, mas fecharam as inscrições logo quando a gente foi convidado", situa Airton.

De fato, o convite parece corroborar para que o release da banda seja devidamente respeitado. Airton S (voz), Márcio Benevides (guitarra), Danyel Fernandes (baixo) e Max Bernardo (teclados e sintetizadores) estão no grosso das manifestações culturais de Fortaleza que não se bitolam em clichês e penam para conseguir bons espaços. Parte da imprensa local deve correr atrás agora.

Antes do WGT, o Plastique Noir estará na Bahia em março de 2007, na maior festa do gênero no Nordeste: a Darktronic. O vocalista conta das origens do grupo até a oportunidade alemã. Pontua a ocupação do tecladista Max Bernardo - na linha da própria estética da banda. Max é agente funerário. "Ele vende a possibilidade de você jazer, faz seguro de vida. Costuma dizer que prepara o último desejo da pessoa em vida", diz, entre tantos assuntos. Obscuros ou não.

Até o estranhamento local: "no show de abertura que fizemos para o Engenheiros do Hawaii, as pessoas riram, houve um certo esvaziamento à frente. Mas todo show da gente aparece um cara de sobretudo para dizer 'vocês salvaram a minha noite'. A gente ri muito disso também. Nossos ensaios são bem engraçados".

Qual foi o caminho até o convite para tocar no Festival?
Airton S - Sempre foi vontade do Max. Uma meta que ele estabeleceu. E a gente sempre quis produzir material e jogar para fora daqui. Sem menosprezar o local. Ele mandou material e já vinha martelando isso há dois meses com eles (a produção do WGT). Nossa primeira demo (Offering) chegou na mão deles. E a gente já tinha referências de lá por contato com o Elegia (SP), banda que já tocou duas vezes no Festival.

Vocês têm informações do Festival a respeito do público? É um perfil mais curioso ou é aquele tipo de platéia que só acolhe os headliners?
Airton S - A coisa é bem democrática. É a celebração de uma subcultura. Por ser um festival temático, antes das pessoas irem porque vai tocar essa ou aquela banda, elas vão para o WGT. Gostam do novo. O festival tenta trazer um certo exotismo. Para eles, uma banda do Brasil é inusitada.

O release da banda começa com uma observação sobre o tédio da cena local em relação a algumas possibilidades artísticas que não seriam bem exploradas por aqui. Hoje vocês vêem uma tendência diversa rolando ou a coisa continua estagnada nesse sentido?
Airton S - Com certeza temos outros ares. A gente tem que, inclusive, reformular aquele texto. O problema é que a base do release é a mesma desde o início da banda, só nos preocupamos em atualizar as conquistas que tivemos. O boom da tríade Karine (Alexandrino)-Montage-Cidadão (Instigado) não havia ainda. Temos referências novas. O ano de 2006 foi divisor de águas. Todo mundo está viajando - antes todos sabiam quando uma banda daqui viajava para fazer show. Hoje não. Sendo de maior ou menor porte, muitas bandas conseguem viajar com seu trabalho. Isso é ótimo.

O fanzine Guilda começou e despertou uma idéia de montar uma banda tal qual o perfil do Plastique Noir. Como anda o trabalho com a publicação?
Airton S - Parada. Completou um ano e só saiu o número zero. A procura é grande. Tem lojas em São Paulo que têm disponibilizado. Era para sair de dois em dois meses. Todos escrevem para o zine. Tem ensaios sobre a cultura gótica beirando o academicismo... Mas a gente já está começando a fazer o número 1. Demora porque somos muito perfeccionistas. O número zero foi lançado na quinta edição da (festa) Dança das Sombras. Na próxima, a Rebel Rockets (grupo cearense já extinto) vai fazer uma reunião - eles foram a primeira banda gótica daqui. Devo cantar com eles agora. A gente costuma dizer que continuamos de onde eles pararam.

É notável que a proposta da banda dialoga com o mundo de forma universal - e absorve isso de forma convicta. Vocês percebem um estranhamento local?
Airton S - Sim. Mas já foi pior. O que a gente sempre quis deixar claro é que houve um equívoco de algumas gravadoras para tentar vender o doom metal como se fosse gótico. Então a primeira coisa que a gente fez foi procurar comunidade (no orkut) de góticos em Fortaleza. Começamos, sem arrogância, a “doutrinar” esse público que é mais teen, influenciado por bandas como o Nightwish. Muitos passaram a investir na drum machine (bateria eletrônica que a banda usa). Até o George Belasco (músico local) comprou uma (risos). A nossa (Sister Hurricane) é maravilhosa. Porque baterista é uma raça ruim, reclama de tudo. Já ela não discute nada e não erra o tempo das músicas.

Ao que parece, o circuito de festivais independentes tem definido um calendário forte de eventos com bandas que têm algum compromisso com a carreira, não apenas com a questão comercial. Vale dizer que o Plastique Noir já surgiu desde o início direcionado a esse mercado?
Airton S - Sim e não. Sim, porque isso vem como conseqüência, ao meu ver. Mas sempre tivemos cuidado em focar na subcultura gótica. E a gente não vê isso como uma bitola estilística. Ela tem uma infinidade de possibilidades. Mas nos festivais rola sempre mídia, que é bem-vinda, a gente não nega essas possibilidades. Sou meio temeroso de público, mas a galera costuma elogiar. A gente tá fazendo um clipe de Silent Shout. Em animação. A gente brinca dizendo que vai ser o primeiro clipe surrealista do Ceará. Busquei uma figura humanóide se debatendo sem boca.

O estereótipo aponta que o dark é uma pessoa negativa - pois aborda a morte de forma natural e essencial. Qual é o maior equívoco dessa impressão?
Airton S - O (equívoco) central de todos é essa relação que não existe. Pois somos pessoas que rimos à beça, por exemplo. E gostamos muito de música melancólica e outras formas de obscurantismo porque há algo de belo nisso. Me sinto bem ouvindo. A gente não confunde fazer música gótica com ser gótico. O gótico até tem um pouco disso. São pessoas meio recatadas, não se definem como góticas. Esse estereótipo se deve em certa parte por ignorância, porque o nascimento da palavra surge de maneira sarcástica. Sempre foi divertido celebrar isso. A gente não procura a solidão para se esconder.

Plastique Noir - Para contatos e informações da banda: (85) 3225.1097. Email: airtonoir@gmail.com. Site: www.plastiquenoir.kit.net. Mais informações e imagens do Festival WGT: www.wave-gotik-treffen.de

Matéria publicada anteriormente no jornal O POVO em 3/1/2007

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Thiago Camelo
 

Taí! Uma cena que eu mal conheço mas que, imagino, deve ter milhares de adeptos por todo o país. Valeu pela entrevista, Felipe!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 18/1/2007 17:12
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Felipe Gurgel
 

É mesmo. E o mais interessante é esse intercâmbio com o resto do mundo. Com certa abertura dos dois lados, sem estranhamento porque há um forte fio condutor. Foi uma das pautas que mais curti fazer ultimamente pelo jornal.

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 18/1/2007 17:14
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Fábio Fernandes
 

O barato está justamente nesse intercâmbio, não é, Felipe? É muito bom pra gente aqui do Sudeste quando vê o que parece sempre um fenômeno restrito a Rio de SP rolar (talvez com mais força até) no Nordeste. Parabéns a você e ao Plastique Noir (deu vontade de ouvir a banda).

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 22/1/2007 10:48
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Débora Medeiros
 

Gostei da matéria, Felipe! Nota-se que você é conhecedor da banda e da cena local. Fiquei interessada em conhecer o Plastique Noir agora. Já tinha ouvido falar bastante, mas nunca tinha ido atrás de saber que estilo eles tocavam.

Quanto à sua resposta ao meu comentário na matéria Nassiri ou..., eu só não me descabelo mesmo porque ainda tenho esperanças de que essa situação mude! As mídias alternativasd tão aí pra ajudar nessa luta. Faço Comunicação Social na UFC e tenho notado um posicionamento bem crítico em relação ao fazer jornalístico, o que é maravilhoso!

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 28/2/2007 12:23
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