A propaganda...e a alma do negócio

Outdoor Moun Amour/Gustavo
Império dos Sentidos
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SILVASSA · Salvador, BA
8/10/2006 · 81 · 10
 

Vejam bem, não é porque escrevo aqui com alguma freqüência que levo uma vida branda e preguiçosa. Tenho um trampo – alguns aqui já devem ter lido algo a respeito neste relato – que consome uma boa fatia do meu dia. Coisa de doze ou mais horas de relógio.

Claro que existem hiatos em que o bacana aqui se dá ao luxo de sentar ao PC e especular um pouco. Exercitar meu lado “cabeçudo”.

E foi num desses momento de quase ócio que eu comecei a ocupar a cabeça com pensamentos inesperados. Dessa vez, uma única audição da Nação Zumbi, mais precisamente a frase “a alma do negócio é você”, da música Propaganda, me alertou para um fato: a nossa época é a que será lembrada, em grande parte, pela sua vertente consumista.

Livros, música, moda, esporte, arte em geral, tudo é enfiado num saco para se transformar em produto. Algumas marcas já se firmaram em nosso imaginário. Jingles são lembrados pelo resto de nossas vidas como canções de infância. Nosso passado e nossa memória estão impregnados de elementos que são, essencialmente, propaganda.

Não que isso seja de todo ruim. É um fato. Não vou entrar numas de saudosista. Ou virar um xiita de longas barbas e cara emburrada, negando tudo que me cerca. Desse balaio de gato coisas boas pintam, ao lado de um monte de porcarias. Que têm como único mérito “serem vendáveis e lucrativas”.

É daí que vem minha preocupação. Ou seja, o excesso. O famoso e batido joio, misturado espertamente ao trigo.

A coisa anda cada vez mais exagerada.

Um dos exemplos mais recentes foi a Copa do Mundo. Chuteiras, camisas, cuecas, meias, apitos, gramado. Tudo tinha uma logomarca. Uma verdadeira guerra estava sendo travada nos escritórios dos marqueteiros engomadinhos e cheiradérrimos. Nossa seleção voltou mais cedo e totalmente apática. Ronaldinho “gordo” ganhou umas bolhas de uma chuteira de alguns milhões de dólares – somem o investimento total naquilo. E os manés não fizeram nada além de desfilar com suas meias bacaninhas e o batido uniforme amarelo.

A Fórmula Um nem se fala. Além dos carros rodando, rodando e rodando, tomados com os nomes de todos os patrocinadores, aqueles macacões cheios de logos já até fazem parte do famoso "circo". Já são indissociáveis do esporte em si. Tornaram-se elementos ligados ao evento.

Na arte a situação não é lá muito diferente. Num festival de grande porte realizado na capital baiana, ano passado, onde bandas como Barão Vermelho tocaram, podia-se ouvir o som de um celular nos potentes alto-falantes, como anúncio de uma das empresas de telefonia móvel patrocinadoras. A todo tempo éramos lembrados de que empresa X estava bancando a festança - ao menos foi essa a intenção do publicitário "gênio".

Tudo bem, seria até tolerável se não fosse o fato de que este som irritante surgia justamente no meio das músicas executadas pelas bandas.

Temos também o exemplo clássico do “artista vendido”. Num dia o sujeito aparece com cara de poucos amigos, tal qual um verdadeiro punk cuspindo palavras de desordem para, num dia seguinte, sorrir em sua Tv tentando te convencer a comprar um jeans, um papel higiênico dupla face ( provavelmente com vitamina "E", um luxo! ) ou um carro do ano - isso até me lembrou os velhacos dos Sex Pistols que, num golpe genial de sarro e publicidade em causa própria, batizaram uma de suas recentes turnês pelo mundo de “Lucro Sujo”.

Grande sacada, diria eu.

Do jeito que a coisa anda não vai tardar e iremos presenciar situações das mais alucinadas. Não vai levar muito tempo para que padres façam suas orações e, de forma quase despercebida, venham com a lembrança de que esse ou aquele vinho é melhor para acompanhar a hóstia – que, a essa altura, já foi devidamente oferecida com a apoio das Farinha de Trigo Cook Master.

“Vão com Deus e em paz...” diria o padre, “...mas não esqueçam: Tomem vinhos São Roque Maravilha, o vinho da família cristã...”, para encerrar o sermão de forma impactante“...o resto é coisa do Satã”. Ou então num enterro. Onde algum marqueteiro de plantão em meio aquele típico discurso inflamado, citando somente as qualidade do defunto, entre prantos e soluços, diga: ”Ele se foi. Mas foi com classe, graças a funerária Deus te leve”.

Isso sem falar nas garotas do tipo "dispostas".

Vai lá que numa bela noite de luar, antes de realizarem peripécias com a boca, elas venham - num exemplo prático de como fazer um eficiente marketing direto - a sussurrar no ouvido de algum desavisado: “Eu uso Creme Dental Super Fluor Maxxi, gatão...slup!, slup!”.

Obviamente sem esquecer da piscadela de olho e do sorriso faceiro.

Bem, é o mundo. Que gira e evolui – ou involui; mas o tempo, como nos fizeram crer sendo algo linear, vai para “frente”. A grana norteia uma porrada de coisas. Logos, slogans, jingles. O tal marketing, cada vez mais invasivo e agressivo, se aperfeiçoa.

Não dá para viver no mato, na boa, assobiando canções de escoteiro e bebendo água de coco. Temos de estar espertos. Escolher de tudo. Da religião até a música que nos comove, como se a vida fosse um interminável – mas não menos divertido – hipermercado.

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JuNiN
 

estou totalmente com você '' a propaganda é a alma do negocio '

bom texto

JuNiN · Ribeirão Preto, SP 7/10/2006 18:03
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Farion
 

Não consigo imaginar um mundo sem propaganda.
Isso não existe!
Até os homens das cavernas faziam propaganda, quando colocavam as peles de animais na "porta" da caverna. Isso significava que eles estavam dispostos a fazer escambo.
A propaganda nasceu aí ;)

Propagar é preciso.

Farion · Curitiba, PR 8/10/2006 16:40
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Fernand Alphen
 

Legal seu texto, com exceção, claro, de alguns exageros precipitados. Mas tudo bem, faz parte da mística. Acho q é mais do que hora de começarmos a mudar o olhar e enxergar a propaganda, talvez, como uma expressão cultural (q nao significa artística) como outra qualquer. Outro dia, assisti a uma pesquisa, dessas normais q poluem o dia-a-dia de qualquer marqueteiro. A pergunta de aquecimento era "O que você mais ama na vida?". Pergunta tola? Talvez. Mas as respostas eram surpreendentes porq assim como vinha os clássicos "Minha mãe, meus filhos, meus cachorros, meu país, minha moto, meu quarto" também apareciam nomes de marcas. Ufa, que medo? Peça para qualquer dona de casa falar do sabão em pó preferido dela ou para qualquer garotão falar da marca de cerveja que ele mais curte. As respostas são de apavorar um longa-barba-cara-emburrada.

Fernand Alphen · São Paulo, SP 9/10/2006 18:42
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SILVASSA
 

Junin, valeu
Farion, o texto confirma tua opinião

Fernand, valeu. também sou do tipo que concorda com essas coisas. o foda é o excesso.

tipo "amo meu pais, minha mulher e a logo da Esso"

é meio esquisito.

SILVASSA · Salvador, BA 9/10/2006 22:13
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Fernand Alphen
 

Não necessariamente nessa ordem...

Fernand Alphen · São Paulo, SP 10/10/2006 08:53
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Claudiocareca
 

ehhehehe.

Claudiocareca · Cuiabá, MT 10/10/2006 11:28
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Farion
 

Gustavo, creio que você tenha entendido que fiz uma critica ao texto, mas não foi isso. A intenção era concordar mesmo.

E a "logo da Esso" foi exagero mesmo. A da Shell é muito mais bonita.

hehe

Farion · Curitiba, PR 10/10/2006 12:10
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SILVASSA
 

ei Farion. não achei que fosse critica nao
se fosse, tb estaria em casa...

é shell...tem aquele amarelo vivo...bonita mesmo...

SILVASSA · Salvador, BA 10/10/2006 23:09
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Farion
 

mas sabe,... os comerciais da Ipiranga são os melhores :P

Farion · Curitiba, PR 11/10/2006 13:31
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Juliaura
 

Pedir a padres que anunciem vinho da marca x e farinha da marca y ia ser o maior sucesso de vendas dos produtos em questão, dado que são os bam-bans em propagar, na acepção do Farion.
Agora, me assalta (ops!) uma outra questão: se a alma do negócio é a propaganda, teria a propaganda uma alma?
Respostas com os padres nossos.
Gostei que o Gustavo não botou no futuro do mercado publicitário só mulheres em pelo, situação abundante e vexatória que que já está pra lá de Xangri-La.

Juliaura · Porto Alegre, RS 26/3/2007 12:02
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