À prova de paparazzi

Aaah... as obras qualquer livrinho de História tem!
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Julia Wiltgen · Rio de Janeiro, RJ
19/4/2008 · 95 · 5
 

Montada na Casa França-Brasil até 11 de maio, a exposição “O Teatro de Debret” está encantadora. Mas vocês não poderão ter nem uma noçãozinha de como ela é, pois não é permitido fotografar lá dentro. Nem as obras, nem a decoração. Nadica de nada. Vocês que pensam que é proibido porque o flash danifica as obras, se enganam. Nem sem flash. Nem o teto.

Tirar foto em museu sem flash, hoje em dia, é lugar-comum. Todo mundo já sabe disso e, na maioria das vezes, respeita a regra. Imagina se você fosse ao Louvre e não pudesse fotografar a Mona Lisa? Não sei qual é o problema da Casa França-Brasil - um órgão do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Mas quando você vai até a administração e pede para falar com alguém da Assessoria de Imprensa - a fim de conseguir uma foto-divulgação que seja - e a funcionária superbem-humorada responde: “Olha, para conseguir foto daqui você tem que comprar o catálogo lá fora," significa que a situação é mais grave do que se pensava.

Então tudo bem, para vocês saberem como é a exposição, precisarão ir até lá, o que não é exatamente um sacrifício. Afinal, é de graça mesmo. Em termos, pois vocês pagam impostos para aquele espaço existir e para aquela exposição estar ali. Mas não têm direito a nem uma fotinho em troca.

Para não dizerem que eu não falei da exposição

Palmas para ela. São 511 obras, entre aquarelas, litografias, telas a óleo e obras relacionadas a Jean-Baptiste Debret, pintor integrante da Missão Artística Francesa que viveu no Brasil de 1816 a 1831. É a maior exposição do artista, apresentando até mesmo os esboços daquele que foi um dos fundadores da Academia Imperial de Belas Artes. Uma aula de História do Brasil, embora deva-se levar em conta que o retrato da sociedade brasileira oitocentista feito por ele não seja 100% fiel à realidade, segundo historiadores. Mas ainda assim é possível ter uma boa noção.

As delicadas aquarelas, pertencentes ao acervo dos Museus Castro Maya, constituem a maior parte da exposição, e também o ponto alto da obra do artista. São 346 no total, entre esboços e obras acabadas. A maioria se concentra em temáticas do Rio de Janeiro, mas algumas extrapolam essas fronteiras e vão até o Sul do Brasil (embora haja aqueles historiadores que duvidem que o francês tenha saído da capital do Império).

O visitante vai reconhecer algumas paisagens e se surpreender com suas mudanças ao longo de apenas 200 anos. Mas o mais interessante é se perder nesse país de contrastes, já naquela época: de um lado os nobres, as damas da Corte, as famílias abastadas, os fazendeiros, os clérigos, as Igrejas; do outro, os escravos desempenhando as mais diversas funções, os festejos populares, a vegetação exuberante, os índios e seus costumes.

Para um pintor oficial da Corte, Debret retratou muito o povo. Pudera. A vida dos mais humildes tinha elementos muito mais interessantes do que a dos aristocratas: basta comparar uma aquarela mostrando os vendedores ambulantes das coisas mais inimagináveis a uma do perfil de D. Pedro I. Mas é nessas obras que também se percebe o quanto a História brasileira é marcada por capítulos sombrios. É difícil encontrar um retrato da cidade sem um escravo apanhando ao fundo (ou no primeiro plano), ou então seus filhos sendo alimentados com restos de comida, como se fossem cachorros.

Os contrastes são tão brutais que nos fazem pensar. Embora não tenha um caráter científico, a obra de Debret é quase uma cobertura jornalística do período. Como ainda não havia a fotografia, pintar era a saída. Debret deu uma cara ao Brasil da época, não se restringindo à aristocracia. Foi até o povo mesmo, e retratou as mudanças velozes daquelas paisagens onde o velho e o novo se encontravam.


Serviço:
O Teatro de Debret
De 25 de março a 11 de maio, de terça a domingo, das 10h às 20h.
Casa França-Brasil: Rua Visconde de Itaboraí, 78, Centro (ao lado do CCBB).
Tel.: (21) 2253-5366.
A exposição conta com 346 aquarelas, 5 telas a óleo, 9 trabalhos relacionados ao artista e 151 pranchas litográficas de sua "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", editada na França entre 1834-39.

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Cintia Thome
 

Palmas prá ela...Palmas para Debret...Palmas para você.
Debret retratou o povo, devemos muito a este artista da Corte, quem está perto deste evento não deve perder.
Parabens. Aplausos.

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/4/2008 09:40
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Julia Wiltgen
 

Obrigada pelo comentário e concordo!

Julia Wiltgen · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2008 17:35
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Tãnia Barros
 

Eu vou. Obrigada pela dica.
votadíssimo.

abraços

e convido para a resenha do livro Pedagogia da Autonomia, do mestre Paulo Freire!
http://www.overmundo.com.br/overblog/resenha-do-livro-pedagogia-da-autonomia

Tãnia Barros · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2008 18:06
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Andre Pessego
 

Ah Julia
Verdade. Pensei tanta coisa antes.
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 19/4/2008 07:00
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mudanças
 

Muito bom este blog. Parabens. Principalmente o link das vaquinhas pintadas.

mudanças · São Paulo, SP 16/6/2009 02:29
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