Em 1942, em plena Segunda Guerra, o mundo se dividia entre nazistas e aliados. Apesar de acompanhar o conflito à distância até aquele ano, os Estados Unidos possuíam sérios interesses comerciais envolvidos no front.
Por isso era necessário mudar a opinião de nações do terceiro mundo, inclinadas a apoiar o fascismo, como era o caso do Brasil de Getulio Dornelles Vargas. Este foi provavelmente um dos motivos, por que nesse mesmo ano uma equipe de roteiristas e desenhistas de historias em quadrinhos de Disney desembarcou na América do Sul.
De acordo com Moya (1996) umm dos grandes entusiastas do estudo das histórias em quadrinhos, em 1942, a equipe dos estúdios Walt Disney chegando ao Brasil, começa uma grande expedição de viagem. No início, está viagem buscava apenas inspirações para novas criações icônicas. Neste “passeio” é criada a película de animação na qual Pateta e Donald fazem novas amizades pelo Brasil, Chile e Argentina. Foi nessa produção cinematográfica, de nome Alô Amigos, que nasceu o papagaio Zé Carioca.
No relatório da viagem consta, uma reunião com o presidente Vargas, ocasião em que Disney falou sobre os princípios que norteavam a boa vizinhança e a disposição das autoridades americanas em estreitar os laços de amizade com o Brasil. Segundo os documentos, o presidente brasileiro mostrou-se receptivo às suas manifestações.
A resposta de Getúlio animou o governo Roosevelt, pois demonstrou a disposição de Vargas em cooperar para o sucesso dos projetos que pretendia desenvolver no país, entre eles a construção de uma base naval no litoral brasileiro, a base que futuramente seria na capital do Rio Grande do Norte, vital para os interesses estratégicos de segurança dos Estados Unidos.
Moya descreve que a equipe Disney retorna aos Estados Unidos e produz os desenhos animados Alô amigos, em 1942, e Os três cavaleiros, em 1945, mais conhecido aqui no Brasil como Você já foi à Bahia? Instrumentos de propaganda da política da boa vizinhança, as duas obras foram lançadas no Brasil.
O desenho foi produzido também com o objetivo de enfatizar os fortes laços de amizade e admiração que os americanos nutriam pelos seus vizinhos do sul. Tal intenção se revela nas seqüências iniciais do desenho, notadamente nos versos da música de apresentação, composta por Edward Plumb, entoada durante a exibição dos créditos.
Na prática, a canção funciona como uma síntese, não apenas do roteiro, mas da própria política da boa vizinhança: "Saudamos a todos da América do Sul/ Onde o céu é sempre azul/ Saudamos a todos os amigos de coração/ Que lá deixamos, de quem relembramos ao cantar essa canção!".
No desenho a América do Sul é representada por um mapa estilizado. Chama atenção, por um lado, o destaque dado à capital do Brasil, à época a cidade do Rio de Janeiro e, por outro, o desconhecimento sobre a importância de São Paulo, que naquele momento já ocupava a posição de maior centro industrial do país.
Porém, no mapa em questão, a cidade é representada apenas por uma praça e uma capela, ou seja, a São Paulo dos jesuítas.
Os personagens de Disney viajaram pela Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia e Chile. Todavia, foi no Brasil e na Argentina que Donald fez a parada mais prolongada, procurando amigos e diversão. A escolha desses países e, em especial, de suas respectivas capitais, dois importantes centros políticos latino-americanos, não foi aleatória. Brasil e Argentina eram alvos prioritários da política externa americana e aspiravam à posição liderança regional.
Segundo Moya a película cinematográfica Alô amigos! , trouxe um presente especial para os brasileiros: a estréia do papagaio Zé Carioca, o mais "novo amigo de Donald". A criação de Disney pretendia resumir, no plano simbólico, os laços de afeto e cooperação que uniam os Estados Unidos ao Brasil.
De fato, a seqüência mais famosa do desenho se passa durante o carnaval brasileiro, quando o Zé Carioca convida Donald para tomar um trago, este não resiste ao ritmo contagiante da música brasileira e "cai no samba" ao lado de uma linda baiana, ao som de Aquarela do Brasil, composição de Ari Barroso e símbolo do nacionalismo do Estado Novo (1937-1945).
Apesar de todos os cuidados da produção em não cometer erros para desempenhar de modo eficiente a missão diplomática traçada, Moya compara as contradições e as ambigüidades do desenho. Donald e seus companheiros não se comportavam como amigos, mas como turistas que visitavam terras exóticas.
O turista interpreta a cultura das regiões que visita como uma seleção de monumentos. O resultado de tal interpretação é a redução dos nativos a tipos, desprovidos de personalidade e história, isto é, estereótipos. “No Brasil, por exemplo, o carioca é caracterizado como o malandro simpático e cordial, sendo a síntese do comportamento do brasileiro”, o argentino é representado pelo vaqueiro e aventureiro.
Esse era o olhar americano sobre seus vizinhos latinos, sem a intenção de observar as diferenças culturais, mas comprometido em reduzir e classificar, estratégias para submeter o desconhecido à condição de inferior.
O segundo desenho produzido por Disney, por encomenda do governo norte-americano, recebeu o título de Os três cavaleiros. O ponto central do roteiro é demonstrar os laços de fraternidade que aproximavam Estados Unidos, México e Brasil, naquele momento, unidos à causa dos Aliados e lutando na Segunda Guerra Mundial.
No desenho, a aliança desses três países aparece simbolizada pela amizade dos personagens Donald (Estados Unidos), Panchito (México) e Zé Carioca (Brasil). Como em Alô amigos, inicialmente é apresentado um mapa da América Latina.
Dessa vez, o mapa destacou, em vez das capitais sul-americanas, a flora e a fauna da região, dando ênfase especial à cordilheira dos Andes e à floresta Amazônica. Donald é convencido por Zé Carioca a acompanhá-lo numa visita à Bahia, "a terra do romance, do luar e de lindas garotas". Ao chegar, Donald não resiste ao clima da terra, rende-se aos encantos de uma baiana, interpretada por Aurora Miranda, e sai dançando pelas ruas de Salvador, embalado pelo som do grupo musical O Bando da Lua.
O espectador menos avisado, ressalta Moya que desconhecesse o contexto da política externa em determinados momentos, teria dificuldades de compreender a ausência da Argentina e o descaso de Donald, que sequer manifestou o desejo de visitá-la. Já o personagem brasileiro, está sempre com os amigos, e é retratado de diferentes formas, sendo na maioria delas, negativamente.
Entre elas malandro folgado, golpista, enganador, caloteiro, namorador e contador de vantagens. Zé Carioca mora em uma favela brasileira, mais especificamente na vila Xurupita. É retratado nas construções narrativas quadrinescas como um papagaio preguiçoso que acorda ao meio-dia, almoça fiado e não nega convite para uma roda de samba e um jogo de futebol.
Logo no início de sua existência, Zé é retratado ao lado de Tio Patinhas, após ter ingerido excessivamente, com seu companheiro norte-americano, uns goles do tradicional aguardente de cana, conhecida como cachaça.
Ele engana quem quer que seja. Seu jeito simpático e habilidoso evita maiores problemas. O personagem estreou nas tiras norte-americanas em outubro de 1942. No Brasil, entretanto, sua história estava apenas começando. Em 1950, chegou ao país às revistas do Pato Donald. O estupim para a entrada do herói no país foi amizade com Zé Carioca, conquistada no cinema.
No texto da Rádio Pataquada, uma espécie de editorial da revista, Zé Carioca é visto como o anfitrião de Donald no Brasil, um malandro que não gosta muito de trabalhar, mas que luta para arranjar um emprego para o amigo estrangeiro.
O brasileiro é mostrado como uma pessoa que não gosta muito de trabalhar. Na descrição, é apresentado com alguns traços de aproveitador: adora contar vantagens e só quer saber de sambar e jogar futebol.
Assim como Donald e Mickey, Zé Carioca também pode ser considerado um herói. Ele sempre está disposto ajudar a quem precisa, envolve-se em aventuras para capturar bandidos, atrapalha-se em algumas situações, mas sempre termina fazendo o bem.
Mesmo que lhe custe caro. Ele é a soma dos dois personagens, se assemelha mais para Mickey. Em algumas histórias é esperto e aventureiro, em outras se apresenta distraído e atrapalhado.
Zé Carioca é a metáfora do brasileiro, segundo Moya. É a imagem que os norte-americanos tiveram ao visitar o país. É uma mistura daqueles cidadãos que utilizavam camisetas listradas, palheta e viviam com um pandeiro na mão – os malandros -, com os boêmios, que passavam as noites bebendo, fazendo serenatas e apresentavam-se bem vestidos. Os roteiristas e desenhistas de Disney misturaram tudo isso e construíram um estereótipo.
Até o ano de 1972, a maioria das historias eram produzidas nos Estados Unidos e só depois deste ano, que as histórias do papagaio começaram a ter uma visão brasileira. Atualmente, as revistas em quadrinhos do Zé Carioca são quinzenais, produzidas na Editora Abril em São Paulo.
Considerações finais
A fascinação que o Estado Novo exerce até hoje, é que ele não foi algo exato, simples, pelo contrário foi muito complexo e ambíguo. Uma das razões na visão de muitos teóricos que explicam esse sentimento – é que há outras circunstâncias ligadas às controvérsias políticas, e o fato de o Estado Novo apresentar faceta bastante variada.
Tornando difícil analisar este momento histórico por uma crítica fria. Busca-se entender, com objetividade possível que fenômeno foi esse que gera essencialmente uma série de fatores ruins a sociedade, e ao mesmo tempo, tem aspectos de progresso.
No Brasil, a presença cultural dos Estados Unidos durante o período do Estado Novo, proporcionou a divulgação de diversos produtos culturais deste país. Nessa relação de cooperação, artistas brasileiros foram apresentar seus trabalhos em terras norte-americanas, como Carmem Miranda.
Analisar esta relação internacional e o jogo duplo de Dornelles Vargas as vésperas da participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália e os efeitos da guerra na industrialização do país. A estratégia política do Estado Novo visando mobilizar a população para seus ideais, na tentativa de construir uma identidade nacional é fundamental, ligação feita entre o “brasileiro”, e o papagaio, Zé Carioca.
O personagem "brasileiro" dispõe de chapéu panamá, sorriso faceiro, olhar sensual, andar solto, ginga, papo despretensioso e as vezes, mortal. Assíduo da boemia, é representado de forma desinteressada ao trabalho.
Essa representação criado por diferentes segmentos culturais, inclusive por Disney, está enraizada para muitas pessoas, a partir desta criação, em nossa história.
Sendo o Rio de Janeiro, capital do país, palco e picadeiro para esse momento político-histórico da nação brasileira cheio de ambigüidades, avanços e fatores antidemocráticos.
Seria legal colocar uns "espaços" entre os parágrafos, para que o leitor pudesse visualizar melhor.
Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal, RN 5/8/2007 09:47
Muito bom o artigo!
Nas considerações finais vc poderia explicar que é o Moya, referência do seu texto. E acho que não há necessidade também de colocar toda vez que faz referencias a ele, o "1996".
é isso..
No primeiro semestre de faculdade, eu e alguns colegas apresentamos um trabalho sobre o Zé Carioca. Por isso este texto me soou familiar.
No trabalho, notamos como as penas traseiras do Zé Carioca eram das cores dos Estados Unidos. E que houve um momento crucial em que ele adaptou toda a vestuária para os tempos atuais.
Também é interessante saber que as primeiras histórias do Zé aqui eram apenas histórias do Mickey adaptadas. Os sobrinhos do Zé, portanto, surgiram apenas por causa dos sobrinhos do Mickey.
Outra informação relevante: no Chile, surgiu o personagem Coné, exatamente em contraposição à Disney. É uma ótima referência.
E tenho cá minha opinião de que o Zé Carioca ajudou a montar a visão do brasileiro ideal como malandro, fazendo dessa malandragem um valor positivo. É uma figura muito presente no imaginário das crianças. Pode ter relação com um dos principais males do país: a corrupção.
No mais, vou divulgar hoje à noite este texto no meu blog, o www.cabruuum.blogspot.com. Está muito bom!!!
O interessante é que foi um gaúcho o autor que melhor trabalhou com o Zé Carioca: o genial Canini.
Romeu Martins · São José, SC 7/8/2007 17:59O interessante deste artigo é como o autor trabalha a instrumentalização ideológica dos quadrinhos pelos EUA, afim de atrair o Brasil para seu campo de influência.
Anderson Calil · Foz do Iguaçu, PR 9/8/2007 04:47Que bacana. Gostei da geopolítica contada através dos quadrinhos. Só ficou faltando mais algumas figuras pra ilustrar bem o texto. Um abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/8/2007 10:47Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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