A rádio subversiva de Roberto Marinho

Arquivo Nacional/Brasília
Detalhe de documento arquivado pelo SNI sobre a Rádio Continental
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luciohaeser · Brasília, DF
8/6/2007 · 279 · 29
 

NA PORTO ALEGRE DA CONTINENTAL
A rádio subversiva de Roberto Marinho


Uma rádio botou Porto Alegre pra ferver nos anos 70. A Rádio Continental, a 1120, fez a trilha sonora de centenas de milhares de jovens gaúchos durante os anos de chumbo da ditadura militar. De 1971 a 1980, a Rádio Continental ousou afrontar o governo, sofreu punições, mas ganhou a simpatia e a cumplicidade de uma geração.

Os noticiários tinham a audácia de tratar os generais Médici, Geisel e Figueiredo com ironia e deboche. Nas entrelinhas, é claro, porque a ação da censura era implacável. Mas o público, formado principalmente por universitários, entendia o recado. Tudo isto em uma rádio que integrava o Sistema Globo de Rádio, de Roberto Marinho.

Sim, Roberto Marinho teve uma rádio subversiva durante toda a década de 70, auge da ditadura. Não estranhe. Nem mesmo o todo-poderoso dono das organizações Globo soube. Uma rádio que debochava dos militares e falava mal de todas as ditaduras possíveis. Uma emissora que recebia cartas ameaçadoras do Movimento Anti-Comunista (MAC) e cujos diretores e jornalistas viviam na Polícia Federal dando explicações sobre os noticiários.

A análise abaixo, feita pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), mostra o quadro da dor:

“a. Das emissoras de rádio de PORTO ALEGRE/RS, a CONTINENTAL é seguramente, a única que não tem dado apoio às obras e realizações da REVOLUÇÃO de MARÇO de 1964. Em seus noticiários procura sempre fazer citações com sentido dúbio, num vernáculo miserável, entremeado de insinuações jocosas às autoridades constituídas. Deixa transparecer uma linha de ação pré-determinada , no empenho de uma luta doentia contra tudo e todos que por qualquer motivo se engajarem com o Governo Revolucionário. Muito embora para seu expediente mórbido e excuso, utilize as franquias da radiodifusão que lhe foram concedidas pelo próprio governo do país.

b. LUIS FERNANDO VERISSIMO, filho do escritor ERICO VERISSIMO, ocupa cargo de PRODUTOR da Rádio CONTINENTAL. Sua linha de conduta, através dos órgãos de comunicação, é de um antagonismo à obra da Revolução de Março de 64, facilmente identificado. Anexo 5 Xerox que poderão dar uma idéia da linha ideológica do nominado, integrante do quadro de funcionários da RÁDIO CONTINENTAL de PORTO ALEGRE/RS.”

Dirigida por Fernando Westphalen, o Judeu, a Continental também teve papel fundamental na história da música do Rio Grande do Sul. No final de 1974 começam a rodar gravações feitas na própria rádio por Almôndegas e Hermes Aquino. Em 1975, com um programa comandado por Júlio Fürst, veio a avalanche: Utopia, Inconsciente Coletivo, Hermes Aquino, Nelson Coelho de Castro, Fernando Ribeiro, Mantra, Cláudio Vera Cruz, Hallai Hallai, Byzarro, Gilberto Travi e Cálculo IV, Toneco, Bobo da Corte, Wanderlei Falkenberg, Status Quatro e Simbiose foram alguns dos músicos e grupos locais que se tornaram conhecidos graças à Continental.

As gravações, que ainda habitam a memória de muitas pessoas que viveram aqueles tempos, foram preservadas durante mais de 30 anos pelo técnico de som da rádio, Francisco Anele Filho, o monsieur Anele, como era chamado.

Para contar a história da Rádio Continental, mais de 80 pessoas foram ouvidas. Muitas delas várias vezes para o cruzamento e checagem de informações. Os entrevistados vão de ex-diretores, ex-funcionários, músicos, ex-censores a ex-ouvintes. Também foram obtidos documentos como os recados da censura à redação de notícias, ameaças do Movimento Anti-Comunista e as análises feitas pelo SNI.


A pesquisa resultou no livro-reportagem Na Porto Alegre da Continental – A rádio subversiva de Roberto Marinho, que será publicado até outubro de 2007. Encartado, virá um CD com as gravações da rádio. Após 30 anos, abre-se o baú com grande parte da história da música de Porto Alegre dos anos 70.

O site www.naportoalegre.com.br pretende complementar o livro de diversas formas. Uma delas é na busca de novas informações ou documentos sonoros ou escritos. Tudo para contar da melhor maneira possível uma das mais incríveis histórias do rádio brasileiro.

Em julho de 2007 estaremos no ar!

Lucio Haeser - Jornalista
Informações: contato@naportoalegre.com.br

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luciohaeser
 

É preciso colocar como tags: rádio, continental, porto, alegre

luciohaeser · Brasília, DF 4/6/2007 14:03
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SILVASSA
 

vc vê como as coisas mudam. o Roberto Marinho...

espero na votação

SILVASSA · Salvador, BA 4/6/2007 21:38
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Helena Aragão
 

Que interessante! Avise por aqui quando o livro for publicado, por favor.
Só pra esclarecer: enquanto está na fila de edição, você pode adicionar as tags. É só clicar no lapisinho abaixo do título e buscar o campo específico para tags. Vale lembrar que palavras compostas devem ter hífen (tipo porto-alegre). Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2007 17:36
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Daniely
 

Gostei. Ha,ha,ha...

Daniely · Brasília, DF 6/6/2007 14:36
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Ana Karina
 

Indiquei para uns portoalegrenses votarem também! Beijo

Ana Karina · Porto Alegre, RS 6/6/2007 17:40
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente história, excelente texto. Ainda bem que iniciativas como essa se espalharam pelo país inteiro. E que audácia desses caras tocarem uma rádio 'antiditadura' em baixo do nariz do seu Roberto, amplamente apoiador desses governos.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 8/6/2007 08:51
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isisbastos
 

Indicarei para os uns conhecidos em Brasília!
Adorei o texto... Muito interessante!

isisbastos · Porto Alegre, RS 8/6/2007 09:12
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Labes, Marcelo
 

Lúcio, é um enorme prazer saber mais sobre a Porto Alegre sob a ditadura militar. Já li a respeito do quanto sofreram os inquietos da cidade durante este tempo. Sei de uma história terrível que aconteceu com atores, mas não lembro bem a peça. Acho que daria um outro texto superinteressante. No mais, sabe que nem me senti estranho à criação da rádio? É que penso que não se poderia esperar menos de um povo tão inquieto. Quanto à brincadeira com Roberto Marinho, acho que se ele soubesse, nem ligaria. Ou melhor, com a queda da ditadura talvez até tenha se sentido feliz por seu trabalho de reaproximação com o povo brasileiro já ter começado antes com a ditadura militar. Estranho isso? Mas não foi exatamente o que a Globo fez? Apoiou, apoiou... e com a queda, passou a apoiar o povo, fez-se do lado do povo. Engraçado, acho. Mas enfim. Belíssimo texto. Parabéns!

Labes, Marcelo · Blumenau, SC 8/6/2007 13:47
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Marcelo V.
 

Rádio é um assunto riquíssimo, ainda hoje um meio de comunicação muito popular, embora não pareça ter grande participação na mídia _culpa dos próprios donos das rádios, que só pensam em lucro imediato, mudando toda sua programação e personalidade de um dia para o outro... Escrevi durante um ano uma coluna semanal sobre rádio na Ilustrada, e a resposta dos leitores me impressionou, recebia dezenas de e-mails por semana... Nem eu imaginava que as rádios ainda faziam tanto a cabeça das pessoas.

Marcelo V. · São Paulo, SP 8/6/2007 13:48
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Tetê Oliveira
 

Muito interessante. Nunca tinha ouvido falar sobre esse pedaço tão rico da nossa História - e aqui vale muito o H maiúsculo mesmo!
Vou aguardar o livro.
Abs.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 8/6/2007 16:53
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Adroaldo Bauer
 

Para ajudar no garimpo, há uma tese do professor universitário Sérgio Endler, da Unisinos, que apresentei ao sítio de resumos de literatura Shvoong. Chama Rádio Continental - Case dos Anos 70.

Dali se pode ir ao texto de Sérgio Francisco Endler, Rádio Continental AM - História e Narrativas em Porto Alegre - de 1971 a 1981, disponibilizado para leitura em .pdf, que nos fala da emissora, de seus momentos sob o regime militar, de suas diversas equipes, uma delas muita me orgulha e honra ter intregado de 1975 a 1980.



Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 8/6/2007 18:08
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luciohaeser
 

Claro Adroaldo
Além de ter lido o Endler, conversamos enquanto fazíamos nosso trabalho paralelamente. Ele começou um pouco mais cedo e terminou em 2005. O Endler até faz citação ao meu nome no trabalho dele, assim como ao Emílio Pacheco, que muito colaborou comigo. É claro que ele também será citado por mim. Conheci o Endler na revisão da Zero Hora e ficamos amigos. Na leitura da tese dele, pude confrontar várias informações e - respeitosamente - me permiti discordar de uma ou duas passagens. No mais, há até um caso de redação de umas cinco linhas feitas de forma muito semelhante. É quando relatamos a reação do locutor Wladimir Oliveira ao ver o texto das latinhas.
Obrigado pelo contato

luciohaeser · Brasília, DF 8/6/2007 18:16
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Ubiratan Saldanha
 

fecho os olhos e ainda hoje escuto Carly Simon com sua inesquecivel interpretação de " You're So Vain, e me transporto aos anos 70 com meu rádinho Zenith ligado na Continental. Ao amigo Lucio um abraço, e parabéns pelo belo trabalho.

Ubiratan Saldanha · Florianópolis, SC 8/6/2007 21:57
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luciohaeser
 

Obrigado a todos. É muito emocionante a primeira experiência no Overmundo. Acho que vou publicar o livro por aqui também. Ainda estou descobrindo essa maravilha. Gostei muito do overmixter. Tem muita experiência interessante de rádio.

luciohaeser · Brasília, DF 9/6/2007 00:08
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Daniel Duende
 

Excelente texto, Lucio. Seu trabalho de pesquisa parece ser de grande relevância e interesse. Conte-nos quando o livro estiver em vias de aparecer nas livrarias.

Além disso, seja bem vindo ao Overmundo.

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 9/6/2007 00:33
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Adroaldo Bauer
 

Por alguma razão o linque oferecido para o resumo em Shvoong não abriu para mim.

Não sei se ocorreu a outros que porventura tenham tentado. Volto a postar: Rádio Continental.

E, Lúcio, a história daquela década da Continental é tão rica que sequer me passou pela cabeça supor que apenas uma tese, de apenas uma pessoa, pudesse ter esgotado o assunto.

Sequer ainda sei da abordagem geral que fazes, se ao menos próxima da que fez Endler. Nem as quis comparar.

Citei-o para informar a quem queira que há documento disponibilizado para leitura. Ponto.

Assim como cito, agora, porque me recordei agora, que um Caderno de Jornalismo, do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, teve uma edição inteira abordando rádio-jornalismo e a Continental foi uma das matérias apresentadas.

Nela tem a já celebrizada fala do Judeu afirmando que, se soubesse de alguém com mais de 25 anos ouvindo a emissora, e gostando, mudava a programação na hora.

Pergunto se não quisesestes dizer Emilio Chagas, o editor do Supermercado de Cultura na programação da emissora, quando dissestes Emilio Pacheco?

A Equipe de 1975 a 1980 ainda contou com Luiz Carlos Merten, Mario Renato Gomes Marona, Bete Portugal, Eduardo (Magrinho) Barreto Viana Meditsch, Rejane (Polaka) Lempek, Carlos Alves Müller, Cintia Nahra, Luís Fonseca (Chuvisco), Denise (Dedé) Ribeiro, Eleonora Rizzo, José Fogaça (o próprio), Clóvis Duarte, Wladymir Ungaretti, a quem sucedi na direção do que administrativamente, Marlene, Marina e Moreira, do Comercial, chamavam de Departamento de Jornais Falados, o Radiojornalismo da emissora.

O 1120 é notícia tinha trilha em back, a mesma que era e ainda hoje é usada pelo Globo Repórter.

A mensagem de Ano Novo 1977, rodou cerca de 20 dias de dezembro de 1976. Composta por Wanderley Falkenberg dizia:

Os tempos andam meio tristes
A incerteza, vai continuar,
Você que é jovem não desista (parece, não recordo)
Pois há tempo pra esperar,
Talvez dê em nada,
Talvez seja igual,
Mas é Ano Novo,
Creia,
É tempo bastante,
Pro mundo mudar...


Transmitimos diretor o discurso de Marcos Klassmann, que criticou a cassação do colega de Câmara vereador Glênio Peres e, pela mesma razão, falar contra o arbítrio da ditadura, foi cassado também.

O convite para a Missa na Catedral pela morte do ex-presidente João Goulart ainda em 1976 no exílio foi ao ar de meia em meia hora, das 8 às 17 horas e todos essperávamos a polícia entrar a cada inserção, o que acabou acontecendo um ano depois pelo prosáico motivo de uma nota sobre a transferência de parte do campus da Ufggrs para o Vale da Agronomia, que levava os universitários a confrontar a medida com atos de protesto e as primeira tímidas passeatas contr a o "arbítrio" da Ditadura Militar e Reitoriana.

A nota redigida pelo Jorge Freitas foi ao ar às 15horas e às 15h45min 12 gentis senhores funcionários da PF armados de metralhadora entraram na emissora sem bater (nem derrubar portas) insinuando que devíamos - eu, Jorge e o Judeu - acompanhá-los até a Avenida Paraná para uma conversa mais próxima do interesse deles.

Judeu falou que sabia o endereço e tinha carteira de habilitação e foi no carro dele mesmo. A mim e ao Jorge os gentis funcionários fizeram questão de dar carona no amplo bagageiro da azulona veraneio.

"Bons tempos aqueles em que a gente votava pra Rainha do Rádio".

O título que dás ao teu estudo concorda com o conceito que a polícia e os milicos tinham a nosso respeito.

Nós, ao contrário, lutando por direitos básicos de expressão contra a ditadura militar e sua censura, nos considerávamos democratas, alguns até socialistas. Dois apenas comunistas, em mais de 30 pessoas em uma emissora que transmitia sozinha para 75 por cento da audiência enquanto todas as demais falavam para os situacionistas, governistas e capachos dedos-duros que nos consideravam subversivos e não passavam de 25 a 30 por cento da audiência.

Roberto Marinho tolerou a emissora - sabendo de tudo que se passava nela, informado diretamente por Armando Falcão, o homem que nomeou para ministro da Justiça - porque a empresa dava lucro e, que eu saiba os Marinho nunca rasgaram dinheiro.

Desejo sucesso ao teu trabalho.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 9/6/2007 00:43
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Zezito de Oliveira
 

B A R B A R I D A D E !!!
Tchê !!!

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 9/6/2007 07:59
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Aldo Votto
 

Grande Lucio!
Que prazer te encontrar aqui neste mundo! E mais ainda, contando, e muito bem, histórias da rádio Continental que até hoje habita nosso mundo virtual interior!! Um abração,
Aldo

Aldo Votto · Florianópolis, SC 9/6/2007 09:41
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luciohaeser
 


Adroaldo

Desculpe se pareceu eu ter dito algo contra a tua colaboração. Jamais seria minha intenção. Não tenho nem de longe a pretensão de esgotar o assunto. Sabemos que ele é muito vasto, tem tantos atores e já se passaram quase 40 anos de alguns episódios. Sei que muitas histórias virão à tona só após a publicação. Pra você ter idéia, recolhi versões totalmente opostas vindas de dois caras que foram e continuam até hoje baita parceiros, irmãos mesmo. Tentei fazer “acareação”, mas não deu certo. Como o episódio não era fundamental, resolvi dar a volta e seguir em frente.

Pena que não moro mais em Porto Alegre, pois entrevistas olho no olho são muito melhores. Fiz quase tudo usando DDD (em várias entrevistas com 60, 90 minutos) e isso infelizmente me trouxe alguns problemas de grana. Teve mês que a conta do telefone comeu metade do meu salário. Claro, o trabalho foi todo feito nas minhas horas de folga e fins de semana com meus recursos. Também usei o expediente de fazer entrevistas por e-mail, mas, embora barato, acho ele pior. Para umas cinco ou seis entrevistas mais fundamentais, como com o Judeu, é claro, viajei a Porto Alegre três vezes. Todas as entrevistas na verdade são fundamentais. Mas como eu tinha que continuar no meu emprego, tive que usar telefone e e-mail.

Tu és uma das fontes mais fundamentais, mas como achei muito boa nossa conversa por telefone, me dei por satisfeito. Considero dos melhores o episódio que me contaste sobre aquela notícia do protesto contra a mudança do campus da UFRGS. Batalhei muito até localizar o Jorge Freitas, mas ele não me respondeu. Ainda vou insistir mais. Repito: todas as entrevistas são fundamentais. Em algumas, não esperava nada. E veio muito. Como quando ouvi o seu Pedro Teixeira, que cuidava (e cuida até hoje na Rádio Rural) do transmissor da 1120. Seu Pedro conta sobre o dia em que os fiscais do Dentel foram lacrar o transmissor por causa da notícia das latinhas. Conta também da tensão pós golpe de 1964 junto ao transmissor (isso é pré-história da rádio, mas vale a pena). É muito legal fazer este trabalho. Embora algumas coisas não fechem e, acho, não fecharão nunca.

Sobre o Caderno de Jornalismo, tive acesso a ele por meio do José Roberto Garcez, hoje presidente da Radiobrás. Material de primeiríssima qualidade mesmo.

O Emílio a que me refiro é Pacheco mesmo. É irmão do falecido locutor da Continental João Carlos Pacheco.
Emílio criou a comunidade sobre a Continental no Orkut (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=175453) e tem uma memória privilegiadíssima. Ele foi fundamental para clarear algumas passagens, como a data e o horário da notícia da “morte” do Jorge Mautner.
A propósito, o Emílio Chagas é autor do texto sobre o Mautner que será reproduzido em áudio no CD. A locução é do Bira Brasil. Felizmente o Anele teve bom senso de guardar estas relíquias.

Quanto aos nomes que citas da equipe entre 1975 e 1980, não consegui localizar o Carlos Muller e o Luís Fonseca (tens algum contato?).

A trilha do 1120 é Notícia tem mais um detalhe interessante que destaco no livro: ela se chama Freedom of. Expression (Liberdade de Expressão). Tudo a ver. E ninguém na Continental tinha noção disso.

A mensagem de Ano Novo 1977 será reproduzida no CD. Também vou reproduzir, em texto, trecho do discurso do Glênio Peres e que foi repetido dias depois pelo Klassmann.

Sobre o uso da palavra “subversiva“, também pensei que muitos poderiam lê-la com o sentido pejorativo. Talvez isso possa ser resolvido com o uso de aspas. Mas, veja, o Houaiss a define primeiramente como:
1 que subverte; que causa subversão
¦2 que ou aquele que prega ou executa atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida; revolucionário
3 que ou aquele que expressa idéias, pensamentos, opiniões opostos ou profundamente diferentes dos da maioria, que, por isso, freq. se sente ameaçada
e, por último cita o sentido pejorativo
4 Uso: pejorativo.
que ou aquele que age de maneira a perturbar, tumultuar as instituições, que é contra a ordem e deseja o caos e a anarquia; perturbador, agitador

É um causo ainda a se pensar.

SEGUE

luciohaeser · Brasília, DF 9/6/2007 10:08
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luciohaeser
 


Sobre o Roberto Marinho ter sabido, há sérias controvérsias. Judeu conta que não. Inclusive é desta entrevista com Judeu que me veio a inspiração para o subtítulo do livro (que aqui no Overmundo coloquei como título). Judeu diz mais ou menos assim ao se referir à punição por transmitir e depois repetir várias vezes o discurso do Klassmann. “Imagina se isso chega aos ouvidos do Roberto Marinho. Que a rádio dele é subversiva. Ele fecha a rádio e bota todo mundo pra rua.”

Tentei ouvir o Marinho, mas não tive sucesso. Ouvi três diretores remanescentes do Sistema Globo de Rádio da época e depreendi que o Marinho não soube mesmo. Tudo chegava só até o número 2 na hierarquia (Queiroz e depois Brunini). Eles faziam o anteparo. Tentei esclarecer esta questão com várias pessoas. Se você ainda usa o mesmo e-mail e tem os mesmos telefones de 2004 vou entrar em contato contigo para dar mais uma assuntada. Se não, escreva para 1120@uol.com.br e me passe seu contato.

Agradeço imenso, de verdade, a tua colaboração. Por favor, não veja em nada do que escrevi uma possibilidade sequer de afronta. Acompanho, mesmo que de longe, a tua trajetória e tenho muita simpatia por ti. Inclusive pude ajudar com meu voto na tua eleição como vereador de Porto Alegre.

É o que eu sempre digo: na palavra escrita, muitas vezes, surgem malentendidos porque não se percebe o tom de voz. Aí mais uma razão para eu adorar o rádio.

Grande abraço

luciohaeser · Brasília, DF 9/6/2007 10:09
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luciohaeser
 

Aldo, querido amigo da Rádio Campeche de Florianópolis. Que bom te achar por aqui. Escreva.

luciohaeser · Brasília, DF 9/6/2007 10:17
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Fábio Fernandes
 

Lucio, excelente texto, de grande lucidez. E sua troca de comentários com o Adroaldo só fez tornar o teu trabalho ainda mais informativo e relevante. Parabéns - e não deixe de avisar quando o livro sair.

abraços jornalísticos!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 9/6/2007 14:53
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Adroaldo Bauer
 

Vamos por partes, querido amigo e colega daqui e de outras tantas batalhas.
O uso faz o monge que fuma cachimbo e entora a boca, não é?
A versão que ficou pro povo, no imaginário, foi infelizmente a última. pergunte na esqquina sobre o que é ser subversivo.
Eu prefiro o que o povo entende sobre o que se diz do que a descrição acadêmica, embora sempre me socorra de Houais e Holanda (os dois) quando necessário.
O trabalho é teu.
O comentário é meu.
Viva a liberdade de expressão.

Sempre me incomodou a versão de que lá no Rio não sabiam do que aqui se passava.
Ali no outro lado da Praça da Alfândega, o cara aquele da escopeta passava tudo pra quem quisesse. nme precisa pedir, ódiuo de classe mesmo. E inveja do sucesso da emissora nossa.
Dedão mesmo. Engessado. Pediu no ar a cassação da Emissora no episódio das medalhas x latinhas x boi gordo x animais dentro ou fora da cerca, aquela nota do alemão Oscar, xará do comandante do III Exército, que ia pra cerimônia do Dia do Soldado na no parque da Redenção. A filha do general oscar Luís da Silva era ouvinte fissurada da Continental e teria dito: Pai, tão falando de nós.

Deu suspensão fora do ar por três dias. Eu ainda não tinha chegado lá, isso ocorreu em 1973.
Era só artesão e ouvinte assíduo da emissora.

Depois da bobagem que fez matando a menina, o dedão ligou pra pedir penico e a gente pegar leve. Nem demos notícia por uma decisão de direção. O mundo ia cair, mas comemos tranca. Se encontrares o Marona, pegunte a ele, que era o primeiro horário naquele dia.

O e-mail é o de sempre e mais o da promoção do livro meu
adroaldo.rs@terra.com.br que, por extrema coicidência não planejada, leva a trama até o início da década de 70.

Sei lá porque outra razão também, acabei àss 13h30min de escrever o primeiro capítulo de um provável próximo episódio da novela que tá lá no meu blog que vai se passar naquela década e irá ate 1994, creio.

Isso que estou fazendo aqui contigo e todos do overmundo que aqui vêm não é qualquer forma de merchandising.

É depoimento e divulgação pura e legítima do que vivi e penso.

Se acharem que é outra coisa me digam que eu paro.

Outra coisa, então: a versão de que os Marinhos sabiam jamais será confirmada.
Que réu com chance de escapar ileso confessa culpa. Dupla moral, dupla versão.

Se, por uma mínima chance, não sabiam de fato, sendo lá o lugar de saber das coisas todas, divulgar ou esconder - que ignorantes seriam, não é fato?

A versão oficial é que não sabiam.

Afinal, só o povo é que precisa saber.
E o povo...
Bem, pra eles o povo é consumidor.

O fato real acontecido é que era assim, foi assim por uma década, teve até ameaça de bomba além de prisão e, por fim, acabaram com a emissora.

Quando?

Quando o torniquete se aplicou sobre os anunciantes que caíram fora e a rádio começou a dar... prejuízo, ao final de 1978, por ironia das ironias, véspera do levantamento da censura de estado à imprensa, transferida que foi aos donos das vozes e das tintas.

Funciona assim: ou coopta ou reprime, em qualquer lugar do planeta.

Não gravei, mas tem a versão do que Marinho dissera a Armando Falcão no epísódio de 1977, do vôo solo da Amália Luci (a fã do
Chico Buarque multicensurado - você não gosta de mim, mas sua filha gosta, do Julinho da Adelaide). Era feriadão, ela só no oneleven presidencial de Brasília pra Guarajá, em plena escassez de combustíveis e simonetas, levou o bilhete de próprio punho do Geisel pro Dilermando Gomes Monteiro prender o Ednardo DÁvila Mello, comandante do II Exército, sendo Dilermando um subordinado do Ednardo, da IV Região Militar (divisões da época) por causa do assassinato do pedreiro Manuel Fiel Filho na tortura em seguida ao de Herzog nas mesmas condições.
Marinho teria dito em resposta a Falcão: "fui traído lá no sul".

Eu acrescentaria: só eu não vi o rei nu, então?
Manda e-mail, pro que der e vier (ops!) que, em podendo, como sempre, ajudo.
Estou sempre, como antes, como para o futuro, à disposição do que for informar o público para agir consciente de seus direitos pra melhorar a vida senão de todos pelo menos da maioria, já que a minoria continua bem, graças ao arrocho de sempre e apropriação privada dos frutos do trabalho de todos.

Ternamente,
(agradecido pelo carinho Fábio Fernandes)
Adroaldo

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 9/6/2007 15:43
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luciohaeser
 

E ainda por cima, o cara teve a coragem de ligar, ainda no meio da madrugada, prô Westphalen pedindo pra Continental não noticiar nada. Ao que o Judeu respondeu: Não te preocupa, a Continental não dá notícia de marginal.

E de acordo. Liberdade de expressão.

luciohaeser · Brasília, DF 9/6/2007 15:54
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Vicki
 

parabéns meu irmão, queremos o livro, a curiosidade tá grande...bj Virgínia

Vicki · Porto Alegre, RS 10/6/2007 18:04
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Pri Cestari
 

Parabéns pelo trabalho. Certamente, você já faz história ao trazer esses momentos bem curiosos para quem não teve a oportunidade de acompanhá-los...
Não se esqueça de chamar a gente pra festa de lançamento do livro, ok!? Grande abraço. Priscila.

Pri Cestari · Brasília, DF 11/6/2007 13:22
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Valdir Lopes
 

Parabéns pelo texto, Lucio. Este é um bom exemplo para quem quer ter a coragem de "transgredir" (em pró da melhoria social), mesmo estando sob a mira desses "destruidores da liberdade".

Valdir Lopes · Salvador, BA 21/6/2007 11:42
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Mestre Jeronimo - JC
 

Radio.... realmente... um assunto diversificado, e muito polemico... bem eleborado o texto, e poderiamos ter mais a respeito, ja que as emisoras atualmente, como mentem, mantem [ em geral ] o nivel da 'ditadura' ainda vigente... vide o tanto de porcaria que temos que escutar, particularmente no que toca ao que 'tocam' de musica...
Manda ver o livro, e outros, que ajudem a melhorar o padrao da.... Radio, sem duvida, um assunto muito interessante.

Axe'

jc

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 26/6/2007 21:46
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Mestre Jeronimo - JC
 

Radio.... realmente... um assunto diversificado, e muito polemico... bem eleborado o texto, e poderiamos ter mais a respeito, ja que as emisoras atualmente, como mentem, mantem [ em geral ] o nivel da 'ditadura' ainda vigente... vide o tanto de porcaria que temos que escutar, particularmente no que toca ao que 'tocam' de musica...
Manda ver o livro, e outros, que ajudem a melhorar o padrao da.... Radio, sem duvida, um assunto muito interessante.

Axe'

jc

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 27/6/2007 08:35
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