Folheando a coleção de jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma interessante notícia, de bastante interesse para a espeleologia e a arqueologia potiguar. Na primeira página, da edição de 19 de abril de 1928, do antigo jornal potiguar “Diário de Natal”, encontra-se um artigo intitulado “A Gruta dos Tapuias”, onde um articulista que se intitulava apenas “Dapraia”, escrevia da cidade costeira de Touros, no dia 7 de abril de 1928 e narrava a visita que havia realizado a uma gruta, na zona rural de Santana do Matos, que ele afirmava ter sido um dos últimos abrigos indígenas que habitaram nosso sertão.
O mistério continua.
Uma descrição rara
Seu artigo, bem escrito e repleto de detalhes, mostra que no final do século XVIII, os portugueses dominavam praticamente toda a região. Nas vizinhanças de um arraial denominado São Miguel, próximo a Vila de Santana do Matos, viviam refugiados em uma gruta, no alto de uma serra, um dos últimos grupos de índios Tapuias que viviam em liberdade. O narrador informava que a gruta estava situada a três quilômetros da estrada que dava acesso a Serra de Santana, consistindo de um abrigo de granito, com duas fendas verticais, onde em seu interior poderia se abrigar um grupo de até vinte pessoas, que ficariam satisfatoriamente protegidas dos raios do sol e da chuva. O local onde se localizava o abrigo estava em um ponto que proporcionava uma excelente visão da região, sendo um ótimo ponto estratégico.
Ainda segundo “Dapraia”, sem fornecer quem, ou de onde conseguiu as informações, os indígenas que habitavam a gruta no alto da serra, sobreviviam através do comércio que mantinham com um mestiço (que em uma parte mais adiante do texto, é tratado como “negro”) que procedia da várzea do rio Açu em direção a região do Brejo Paraibano. Na passagem deste almocreve, os índios trocavam carnes, couros e peles de diversos animais que eles caçavam, por fumo, cachaça, pequenos espelhos, alguma louçania e outras quinquilharias. O acordo mantido entre os Tapuias e o negociante era o sigilo absoluto, para evitar a prisão e morte destes indígenas.
Um dia, sem uma razão aparente, o negociante denuncia a existência do grupo e os habitantes da região realizaram uma expedição que culmina no total extermínio do grupo. Ainda segundo o articulista “Hoje ninguém conhece aquele rochedo escalvado e nu, e pesado e negro, como a traição que simboliza, quase lendário, a não ser algum caçador que se vá abrigar dos raios inclementes do sol, ou algum turista ousado que, como eu, foi reviver uma página do passado, em momentos deliciosos, no augusto silêncio das grutas abandonadas”.
O autor deste antigo artigo não comenta qual a origem do grupo sitiado, nem maiores informações.
O homem que procura pinturas rupestres
Diante de tão interessante e controverso relato, como praticante da espeleologia há mais de vinte anos no Rio Grande do Norte, não poderia deixar de tentar chegar a este lugar e conferir se a Gruta dos Tapuias existia ou era um logro deste antigo articulista.
Observando mapas atuais, percebi que realmente existe ao sul de Santana do Matos, uma estrada que sobe a Serra de Santana e a partir de outros caminhos, é possível chegar a região do Brejo Paraibano. Esta era uma boa indicação, pois sabia que muitas das atuais estradas vicinais existentes pelo interior do sertão nordestino, são as mesmas estradas que eram utilizadas no passado. Seria a estrada no mapa, a mesma do antigo jornal?
Reuni-me ao companheiro da SEPARN (Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte), Jeová Costa França e seguimos para a região de Santana do Matos, cidade a qual não conhecia. A única referência que possuía eram algumas notícias vinculadas na imprensa, que comentavam sobre um cidadão que “descobria pinturas rupestres” no meio do sertão e trabalhava com os pesquisadores da arqueologia da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, de Mossoró.
Já na zona rural do município de Santana do Matos, fomos informados que próximo ao lugarejo conhecido como Residência, na propriedade denominada Cruzeiro, morava um senhor conhecido como “Antonio de Mariquinha” e seu filho Gilson, que poderiam informar algo sobre esta gruta.
De Residência a propriedade Cruzeiro, à distância percorrida gira em torno de quatro quilômetros, em estrada carroçável de boa qualidade. Fomos bem recepcionados pela família do Sr. Antonio, onde conhecemos o seu filho, Gilson Luis da Silva, de 35 anos, considerado o maior conhecedor dos sítios arqueológicos existentes na região.
Gilson nos contou que trabalhava na agricultura, ajudando a família na labuta do dia a dia, quando conheceu o professor da UERN, Valdecir dos Santos Junior, mestre em arqueologia e diretor do Núcleo de Arqueologia desta universidade. A partir daí criaram uma parceria e o trabalho entre eles se iniciou no ano de 2002. Até o final de 2007, foram cadastrados 82 sítios arqueológicos existentes na região, junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístrico Nacional). A maioria destes locais possui registros rupestres na forma de pinturas da denominada Tradição Agreste, sendo todos na região rural de Santana do Matos, apontando para uma concentração muito grande destes sítios com vestígios arqueológicos neste município. Para efeito de comparação, os municípios vizinhos de Cerro-Corá e Angicos, possuem respectivamente 16 e 18 sítios arqueológicos.
As informações sobre a gruta
Buscamos mostrar a Gilson e sua família, as informações que possuíamos sobre a Gruta dos Tapuias. Mas para nossa decepção e surpresa, Gilson não conhecia o local, nem sequer tinha ouvido falar desta gruta, mas sabia de uma pessoa em Santana do Matos que poderia nos ajudar. Seguimos em direção a cidade, que fica a 30 quilômetros da propriedade Cruzeiro. Gilson buscava um amigo por nome de Pedro das Virgens, funcionário da prefeitura local, que gostava de “dar umas caçadas” na região e conhecia muita coisa. Encontramos um senhor na faixa de cinqüenta anos, tranqüilo, com um largo sorriso no rosto e que indicou, para nossa alegria, que a informação da gruta era verídica. Descrevendo o antigo relato ao nosso informante, este confirmou que as informações do desconhecido articulista “Dapraia”, escritas há oitenta anos, só poderiam ter sido feitas por alguém que esteve no local. O que nosso antigo escritor chamou de “arraial”, é na verdade a fazenda São Miguel, onde em suas terras está situada a gruta, sendo esta uma das maiores propriedades da região.
Seguimos o caminho indicado, onde deixamos nosso carro a beira da estrada de terra batida, no inicio da “Ladeira da Coãn” que sobe a Serra de Santana. Com uma altitude máxima de 840 metros, o visual da imponente serra é espetacular. Gilson comentou que a partir desta ladeira, os antigos viajantes poderiam escolher entre três estradas para alcançar a região do Seridó potiguar e depois a Paraíba, eram as estradas do Cabugizinho, Fervedeira e Jaú, muito utilizadas por almocreves e comboieiros no passado, que utilizavam tração animal para o transporte de mercadorias.
Observando a região com a ajuda de binóculos, confirmamos que “Dapraia” realmente visitou o local, pois calculamos a distância da estrada a da região da gruta, em torno de três a quatro quilômetros. Transportávamos oito litros de água e uma rapadura e iniciamos o caminho para a gruta quase as onze da manhã.
As surpresas do caminho
A trilha existente segue primeiramente em declive, depois vai beirando um riacho que estava completamente seco na ocasião. É uma região de caatinga fechada, onde se deve andar com cuidado e atenção. Muitos mandacarus, facheiros, com seus pontiagudos espinhos, estão as margens da picada.
Em certo ponto da caminhada, nos deparamos com uma grande parede de pedra, com mais ou menos sete metros de altura, e quase dois metros de espessura. Gilson comentou que a estrutura fazia parte de uma antiga barragem privada, da qual não sabia o nome, construída em 1941 e destruída durante as enchentes de 1958. Exploramos o local e fiquei imaginando o trabalho que foi construir esta obra, utilizando braços humanos e tração animal.
Seguimos a caminhada agora em aclive, devagar, em meio a um caminho de pedras soltas, que compõem o leito seco do rio que abastecia a antiga barragem. Ao meio-dia o calor era insuportável, mas a idéia de conhecer este estranho lugar animava o grupo. Durante esta parte do caminho, contemplamos muitos lajedos de pedras, que na época do inverno se transformam em corredeiras. Mais um declive para aliviar e depois mais um aclive para penalizar e o altímetro do GPS marcando uma altitude de 430 metros.
Em dado momento paramos para descansar e já contemplávamos a pedra onde se encontra a Gruta dos Tapuias. Iniciamos a ultima parte da nossa subida. Próximo ao final, a vegetação da área já não era tão fechada, mostrando que existe retirada de madeira no local. Com a vegetação mais rala, o sol cobrava um preço alto pela nossa aventura. Agora era só ascensão, de vez em quando parávamos um pouco, seguindo devagar, mas sempre progredindo. Conforme subíamos tínhamos uma bela visão da região.
A Gruta dos Tapuias
Finalmente o grupo chegou ao grande bloco de granito que compõem a Gruta dos Tapuias, sendo esta rocha uma estrutura que possui em torno de 20 metros de altura e uns 3.500 m² de área. Como descreve “Dapraia”, duas fendas servem de entrada, onde uma pequena escalada coloca a pessoa dentro de uma parte da gruta. Como ponto de observação, quem está neste local, não perde nada do que ocorre na região, em nenhuma das direções.
Durante nossa exploração, infelizmente não foi encontrado nenhum registro de pinturas rupestres, ou de material lítico, ossos ou de outros vestígios que indicassem ter sido o local utilizado em tempos passados e que ali ocorreu uma grande atrocidade. Existe um local onde o solo é composto de sedimentos e uma escavação poderia, ou não, comprovar se o abrigo foi utilizado pelo grupo descrito no antigo artigo. Neste local, a leitura do altímetro do GPS confirmou 743 metros de altitude.
Espeleologicamente a Gruta dos Tapuias é um abrigo formado pelo deslocamento, ou desgaste, de grandes rochas graníticas, que ao longo de milhões de anos, se acomodaram de tal forma, que foram criados naturalmente pequenos abrigos, sendo esta a característica normal da formação de cavernas graníticas nesta região.
Ficamos explorando tranqüilamente o local e o silêncio no alto da serra foi quebrado pela presença de um bando de macacos-prego, que ruidosamente chamava nossa atenção por ocupar seu território.
Após um tempo para descanso, iniciamos o retorno. Durante o trajeto, tal era o nosso desgaste, que todo nosso estoque de água acabou, tornando mais penosa à caminhada e só alcançamos o nosso veículo às cinco e meia da tarde.
Através da leitura de obras como as produzidas por Olavo Medeiros, Fátima Martins Lopes e outros, percebi que não seria impossível, no final do século XVIII, um pequeno grupo de indígenas do grupo Tarairiú continuar a sua luta pela sobrevivência em um local como a Gruta dos Tapuios. Estes indígenas poderiam ser das tribos Genipapo, dos Paiacu, dos Panacu-Açu, Caratiú, Ariú, ou os aguerridos Janduís, os Canindés, os Coremas, Panatis ou dos Pegas, que furtivamente buscavam manter um modo de vida fadado à extinção, em uma terra ocupada por brancos europeus, seus descendentes mestiços, seus gados e suas lavouras. Li também que estes mesmos brancos não precisariam de muito estímulo, nem teriam maiores problemas de consciência, para massacrar um grupo errante de indígenas e manter as suas posses.
Mesmo comprovando que o articulista “Dapraia” havia estado no local, pois as suas descrições são extremamente fiéis ao local visitado, não concluímos se a história sobre o abrigo indígena era real, ou uma fantasia de um aventureiro, em um momento idílico, há oitenta anos atrás. Infelizmente não consegui descobrir a identidade do autor do artigo, se habitava realmente em Touros e o porque da sua visita a Gruta dos Tapuias.
Mais um relato bacana, Rostand! Que disposição em ir atrás de algo relatado num artigo tão antigo, com grandes chances de nem ser fiel à realidade! Ainda que não tenha encontrado as pinturas rupestres, dá pra ver que não se arrependeu nem um pouco do esforço. Abraço!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 29/4/2008 14:19
Amiga,
Muito obrigado pela mensagem
Realmente, neste dia, quase que eu bato a caçoleta de tanto calor e esforço (além do mais estou acima do peso), em um típico dia de calor no sertão potiguar.
Quando eu saí de Natal para Santana do Matos (200km), não tinha a menor idéia se realmente a gruta existia, se o lugar era real, nada, nada.
Mas valeu.
O lugar existe, só falta saber se a história do escritor é real e quem era este “cabra da peste”.
Estou na busca.
Valeu e mais uma vez obrigado.
Amiga Helena,mais uma vez obrigado pelo apoio oferecido.
Um abraço.
Rostand que bela aventura! Gostei muito do relato, parabéns pela coragem!
Votado
sinvaline
Olá Sinvaline,
Obrigado pela mensagem e pelo voto.
Em verdade, eu estava sendo "comido" pela curiosidade de saber se a gruta existia ou não e pude comprovar que sim.
Imagino que o "Dapraia" deveria ser da região, provavelmente uma pessoa com curso superior que escutou uma história antiga mantida pela tradição oral, que não sabemos ser verídica ou não. Apenas uma pesquisa mais apurada, associada à arqueologia, poderiam esclarecer este fato.
Em todo caso, pelo menos esta parte valeu muito.
Um abraço.
Rostand
Um belo relato, sem dúvida! Força e luz, Rostand!
Abraços
Rostand,
Aqui mesmo no Overmundo tenho, temos, visto muitas retratos bem feitos, bem batidos, bem trabalhados. Mas, sem exagero, e acho que concordam - como este é dificil = quer pela beleza do proprio corpo fotografado; quer pela angulatura.
- Estou botando na galeria da Luiza (minha filha de 8 anos, e ela vai dizer: "pai onde ocê achou esta? - Demais!!!!!!!!!!!!!!!!"
um abraço
andre.
Uma pergunta:
É de sua autoria ou é de agências do Governo do RN?
Parabéns pela interesse e pelo trabalho de descrição.
Grande abraço Guaicuru!
Valeu amigos,
desculpem pela demora nas respostas. muito agradecido pela atenção de todos e as opiniões.
Ao amigo Andre, eu só posso dizer que foi sorte mesmo, pois imagine um cidadão que bate fotos com baixa qualidade. Eu sou dez vezes pior. A câmera foi uma simples digital Olympus, já velha, com 3 megas na qualidade máxima. Mas sei lá por que, acho que deu certo.
A não ser a foto onde o amigo Jeová me fotografou, as outras são da minha autoria. Na verdade eu até mandei ele bater a minha foto para mostrar a rapaziada em Natal, que não acreditariam que eu, com meus 107 kl, conseguiria chegar a este lugar maravilhoso.
Ao amigo Marcos, ajude a este pobre "cabeça chata", comedor de jerimum com umbu, a descobrir o que é um Guaicuru.
Valeu, um abraço a todos.
Rapaz, passei minha infância morando em Santana do Matos e em diversas ocasiões, fiz passeios pelos vilareijos próximos a cidade. Sua descrição do cenário, das rochas da região me fez resgatar o ar misterioso e tranquilizante que esses lugares transmitiam. Mas o silêncio das picadas na caatinga chegam a ser inquietantes, sem dúvida, esses caminhos são carregados de histórias.
Excelente trabalho, parabéns Rostand.
Cara, gostei muito da tua descrição do lugar e fiquei bastante interessado em conhece-lo. Vc disse que tava com usando o GPS, vc sabe as coordenadas do local da gruta?!
kleitoncass28 · Natal, RN 27/4/2009 15:07Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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