A retomada das ruas!

Desconhecido
Primeira Praia da Estação
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marcelo santiago · Sabará, MG
28/5/2010 · 39 · 7
 

O ponto em ebulição na cena cultural de Belo Horizonte na atualidade não é nenhuma boate, casa de show ou galeria, mas sim uma velha conhecida de todos: a rua. Quem frequenta ou vive na capital mineira percebeu que nos últimos tempos o espaço urbano está um pouco diferente, com praças se transformando em praias e rotatórias dando lugar a palcos efêmeros para shows.

Mais do que o resultado pela busca de diversão, essa movimentação reflete um posicionamento ativista de parte da população, buscando utilizar de forma democrática e gratuita um espaço que, afinal, é de todos. Problemas nas negociações com casas de shows tradicionais e a falta de apoio do poder público foram alguns dos principais estímulos para que diferentes grupos de pessoas tomassem as ruas para manifestações artísticas, carregadas com um viés político ou não.

Um marco recente no que diz respeito ao uso de espaço público para fins culturais se deu em dezembro de 2009, quando a Prefeitura da cidade proibiu a realização de eventos na Praça da Estação, localizada no centro de BH. Poucas semanas depois, organizando-se através de emails, mensagens no Twitter, Facebook e no bom e velho boca-a-boca, dezenas de pessoas se juntaram em uma manhã de sábado para dar origem à Praia da Estação (em referência à agua das fontes presentes na praça e o calor do verão): em trajes de banho, e mesmo sem as fontes (que não foram ligadas no dia), os manifestantes (se é que este seria o termo para descrevê-los) conseguiram até mesmo um caminhão-pipa para refrescar (e animar) a festa/protesto. A Praia da Estação seguiu acontecendo nos sábados seguintes durante cerca de cinco meses, resultando na revisão do decreto por parte da Prefeitura, que agora irá cobrar R$ 9.600 pela utilização da praça durante um ou dois dias. Vale lembrar que atual administração de BH, do prefeito Márcio Lacerda (PSB), também foi fortemente criticada ao anunciar o cancelamento do FIT – Festival Internacional de Teatro, cuja programação inclui várias ações na rua. Nesse caso, a Prefeitura também reviu a decisão e, posteriormente, divulgou que o festival será realizado.

Casos semelhantes, apesar de não tão emblemáticos quanto o da Praia da Estação, se repetem por Belo Horizonte: o coletivo de músicos e artistas gráficos Azucrina realiza há três anos shows temáticos em rotatórias da cidade – eventos efêmeros que duram até a chegada da polícia; o RoodBoss Soundsystem promove festas com ritmos jamaicanos pelas praças da capital; o coletivo Iml, munido de celulares, gerador e caixas de som, cria ações temporárias sem divulgação prévia em esquinas, praças, pontos de ônibus...

Com ou sem o apoio do poder público (principalmente sem), essas ações têm o potencial de fazer a população se relacionar de forma diferente com os locais com convivem diariamente. Realizado nas noites de sexta-feira desde 2007, o Duelo de MCs é exemplo disso. Inicialmente promovido na (famosa) Praça da Estação e posteriormente transferido para debaixo do Viaduto Santa Teresa, também no hipercentro de BH, o evento se transformou em uma das principais atividades de revitalização da área. Se antes o local tinha entre os (poucos) pontos positivos a proximidade com a Serraria Souza Pinto (multi-espaço que sedia shows e eventos diversos), tendo entre os (muitos) pontos negativos a falta de segurança, o cheiro de urina e fezes nas escadas em direção ao viaduto, o Duelo fez com que um novo grupo de pessoas (oriundas de diferentes classes e regiões da cidade) passasse a frequentar a região e a utilizar o espaço para diferentes manifestações artísticas – de desfiles da Daspu e show de banda de ska da Letônia (sim, ska da Letônia!) até pique-nique vegetariano nas manhãs de domingo.

A transformação tem sido tão forte que até mesmo uma nova casa de shows, chamada Bordello (que ocupa o galpão que anteriormente era de uma igreja evangélica), abriu as portas recentemente nas proximidades do local de realização do Duelo de MCs, dando início ao que alguns já chamam de “a Lapa belorizontina”. Difícil prever o que será da região num futuro próximo, mas, entre as várias lições que podem ser tiradas dessa história, uma delas é a de que a construção do espaço urbano depende de nossas próprias ações.

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Viktor Chagas
 

Muito bom o texto, Marcelo! :)

Achei curiosa essa ideia dos eventos que acontecem "até a chegada da polícia". É quase uma blitz cultural! Será o inversamente-proporcional à proposta do terrorismo cultural ou será um equivalente nos fins que justificam os meios? :)

Impressionante mesmo é o movimento contrário do poder público, querendo esvaziar essa agitação toda. O mais interessante para uma prefeitura não seria que a vida cultural na cidade pudesse andar com as próprias pernas, sem o seu investimento? Isso que dá agilidade e vitalidade aos lugares. Mas a prefeitura de BH parece ter uma outra idéia a respeito. Curioso.

Será que as prefeituras da região metropolitana da grande BH não teriam uma satisfação maior em ver as ruas abrigarem esses eventos que a prefeitura de BH?

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2010 08:58
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Sergio Rosa
 

Bacana o texto, Marcelo. Essa retomada é fundamental para mostrar exatamente isso: as coisas acontecem também sem o apoio do governo.

Sobre a praia da estação, vale citar também o blog criado para divulgar informações relacionadas ao evento e o seu entorno: http://pracalivrebh.wordpress.com/

O interessante é que o blog também é livre, ou seja, o login e a senha estão lá disponíveis para quem quiser postar novas informações.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 28/5/2010 09:39
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luiznavarro
 

isso tudo é muito bom e tem história essa retomada: vide vacas magras em 2005 e 2006: http://www.overmundo.com.br/banco/vacas-magras-a-cow-parodia
http://www.overmundo.com.br/agenda/cow-parodia-bh-vacas-magras-comvida

luiznavarro · Belo Horizonte, MG 28/5/2010 09:55
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Bia Marques
 

arte na rua, alegria no mundo, violência quase nenhuma. toda intervenção que rolou aqui no matão com programação de qualidade foi de emocionar, a gente volta pra casa com ar de nostalgia do passeio na praça de interior domingo à tardinha... pra minha alegria, campão tem aproximadamente sete ações contínuas em espaços fixos e uma que cirula pelas praças e parques da cidade.

Bia Marques · Campo Grande, MS 30/5/2010 20:47
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Rafael Cerqueira
 

ola! como ex banhista e frequentador dessa lapa q esta longe de se assemelhar à do Rio de Janeiro, quero chamar a atenção a algo que notei no seu texto: a cidade não está "bombando" assim não...

para começar, a onda morreu na praia - e cobra-se para usar e fiquei sabendo (por fontes confiáveis) que o motimento tornou motivo de chacota entre os altos escalões da prefeitura;
que tomada é essa das ruas - por quem?
precisa de mini-eventos para dar notoriedade?
convido-os a passar alguns minutos (ou melhor, algumas horas) na praça sete... será uma experiência para além de antropológica; e sem ser espetacularizada.

Rafael Cerqueira · Belo Horizonte, MG 5/8/2010 22:32
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Bia Marques
 

bora pra praço povo que praça não tem elite nem elitismo!

Bia Marques · Campo Grande, MS 6/8/2010 02:32
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Bia Marques
 

ops
quis escrever, praça1

Bia Marques · Campo Grande, MS 6/8/2010 02:33
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