O ano era 1999. Em um bar de Taguatinga, cidade-satélite de Brasília, artistas e militantes culturais e sindicais reuniram-se para um pequeno sarau, com números musicais e leitura de poesias. O dia era 1º de maio. Dia do Trabalhador. E esse grupo saiu de lá com a revolução planejada.
Não era uma revolução por meio de fuzis. Pelo menos em um primeiro momento. Mas sim por meio da palavra, da arte e da cultura. Em todas as suas formas.
Estava ali criado o embrião do que, um ano depois, virou o Sarau Tribo das Artes: realizado mensalmente há 5 anos, exceto em janeiro e fevereiro, sempre na primeira terça-feira do mês, é um espaço aberto para qualquer linguagem artística. Seja artes plásticas, artesanato, lançamento de livros, poesia, artes cênicas, exibição de curtas-metragens, música, fotografia ou entrevista. No democrático palco do Cantoria MPBar, na Praça do DI, todos têm voz e têm vez. Até quem não é artista.
"Todo mundo pode participar", afirma o poeta Carlos Augusto Cacá, um dos organizadores. "Nós distribuímos uma ficha para o público, perguntando que relação quer manter com o sarau: apresentar-se, colaborar na organização, escrever e desenhar para a revista Tribo das Artes ou simplesmente ser avisado do evento".
Depois, os organizadores se reúnem, avaliam e discutem as idéias para novas apresentações e selecionam o que consideram adequado para o sarau. "Desejamos acabar com as injustiças sociais e toda espécie de opressão. Então descartamos propostas que atentem contra isso ou revelem conteúdo preconceituoso. Não pensamos que toda arte tem que falar de política. Mas mantemos postura crítica diante de cada obra. Temos um manifesto e um texto sobre política cultural para os trabalhadores que nos servem de referência, e isso influencia no conteúdo dos saraus e da revista Tribo das Artes", afirma Cacá.
A revista Tribo das Artes, aliás, é a primeira cria que extrapola os limites das mesas do Cantoria MPBar. Com tiragem de 7 mil exemplares e distribuição gratuita, sua edição é regida pelos mesmos princípios que norteiam o sarau. Há ainda uma mostra fotográfica itinerante retratando grande parte dos artistas que passaram por lá. Realizada com o apoio do Fundo de Amparo à Cultura, o FAC, a exposição já circulou por alguns lugares. Mas a meta é levá-la a todos os espaços possíveis. E fazer lançamentos com recitais de poesia e debates, para aproveitar a oportunidade e propor a organização de saraus semelhantes em diferentes comunidades. O grupo Radicais Livres já realiza na cidade de São Sebastião um evento nos mesmos moldes.
Mas vem mais por aí. Em breve, também com recursos do FAC, será lançado um livro de fotografias comemorando os cinco anos do sarau. E há em curso projetos de captação de verbas para uma coletânea de poetas do DF e para a gravação de um CD com os intérpretes de poesia e músicos mais assíduos do evento.
Com exceção do apoio do FAC, todos os projetos da Tribo das Artes são realizados sem verbas públicas ou apoio de empresários. Para Cacá, isso confere maior liberdade artística ao trabalho do grupo: "Inventamos isso tudo porque queríamos mostrar nossa arte, difundir nossas críticas às políticas públicas de cultura e valorizar a produção cultural popular. Mostrar que é possível produzir e debater cultura sem apoio do Estado ou de patrocinadores é nossa maior vitória. Assim, estamos livres de compromissos com governantes ou de interesses comerciais e podemos nos manifestar com maior independência".
Calcada em bases políticas de liberdade e igualdade social, mas longe de ser panfletária, a Tribo das Artes é certamente a realização de um sonho. Ou talvez apenas o começo de uma revolução que pretende extrapolar as fronteiras artísticas. "Assim como realizamos nossos pequenos sonhos depois de inúmeras tentativas, também vamos realizar os médios e grandes: um dia levaremos nossa arte a todo o país e um dia acabaremos com a exploração", acredita.
Não é o caso de ser simplista e querer reduzir o trabalho a apenas uma frase. Mas o próprio Cacá disse algo que, creio, explica muito bem a filosofia que norteia todas as realizações ao longo desses cinco anos. Com a palavra, o poeta: "Se há algo que torna o movimento Tribo das Artes importante é o fato de acreditar que somente o público pode ter autoridade para calar o artista". Palmas para eles.
Contato: caca@conectanet.com.br
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