A rodovia dos Índios

Edson Rodrigues
Índios Paresi-haliti se exibem na nova rodovia
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Alexandre Rolim · Campo Novo do Parecis, MT
13/11/2009 · 4 · 3
 

A cultura de um povo em risco...


Uma estradinha de cascalho fora aberta em meio a Terra Indígena Utiariti no início da década de 1990. Naquela época, Campo Novo do Parecis, hoje uma cidade rica e próspera, era um pequeno amontoado de casebres e uma grande concentração de colonos dispostos a desbravar o que fora chamado de “chapadão inóspito e triste” por Roquette-Pinto em 1917.


Antes de abrir a precária estrada, o então prefeito campopareciense, Zeul Fedrizzi, procurou lideranças indígenas da etnia Paresi-haliti e, por diversas vezes teve um ‘não’ como resposta. João Arezomae (João Garimpeiro), o cacique-geral, foi um dos que negou “de pés juntos” a abertura do caminho ligando os rios Verde e Papagaio, limite geográfico das terras deste povo.


Depois de muito diálogo, Fedrizzi conseguiu convencer os indígenas sobre a importância de se ter uma estrada passando pelas aldeias. Em 1991, ele colocou as máquinas da Prefeitura para abrir o que ele próprio chama de ‘picada’. Motosserra, trator e um correntão foram usados para abrir um corredor em meio ao cerrado que predomina(va) nesta região.


O que ele [Zeul] não esperava é que a Justiça interviesse. Em 1991, quando a estrada já cortava a imensidão Utiariti, o ex-prefeito foi processado por abrir a trilha em terra indígena, ‘intocável’ na época. Hoje, João Garimpeiro, com 99 anos, diz que naquele tempo a Fundação Nacional do Índio (Funai) era ‘mais ruim de mexer’. Zeul responde ao processo até hoje.


Dezoito anos se passaram e a estradinha arenosa virou rodovia estadual asfaltada, batizada de João Arezomae (MT-235), uma homenagem ao ancião chefe do povo Paresi-haliti. Ao discursar para políticos e centenas de populares as margens do Rio Papagaio, no dia da inauguração, o ancião de voz cansada e palavras mal pronunciadas, disse: “índio qué estrada, mas qué cultura de índio preservada também”.


A rodovia passa próximo as aldeias Seringal, Bacaval e 04 Cachoeiras e trará muitos benefícios aos povos que ali habitam (transporte, educação, saúde, renda), mas este progresso deve custar caro. A indescritível cultura de um povo, o colorido de seus penachos, o ruído uníssono de suas canções e a inigualável beleza de suas matas e rios estão em xeque-mate.


Os penachos já dão lugar, há tempos, ao jeans e o som já tem outras notas. Os mais jovens dirigem camionetas 4x4, cantam sertanejo e dançam ‘psy’. Lhes é proibido vender bebidas alcoólicas, mas mesmo assim, eles tem acesso fácil a estas ilicitudes. As matas, que há muito vêm sendo alvo de queimadas e degradações, irão pelo chão.


Os paresi são pioneiros no plantio de soja, arrendam suas terras para sojicultores e já enfrentaram a Funai para poder fazer isso. Em 2004, a cacique Miriam Kazaizokairo declarou: "O artesanato não tem mais valor e a soja é vendida em dólar". Na mesma ocasião Miriam disse que a entidade não atende mais às necessidades dos índios e que eles já adquiriram outra cultura. "Se ficarmos parados no tempo, vamos virar peça de museu", garantiu.


O que dizer de tudo isso se os próprios índios paresi são favoráveis? “Ninguém mantém a cultura morrendo de fome”, relatou um. Atualmente a soja é um tapete verde entorno das aldeias e a caça e a pesca não são mais a principal fonte de alimentação deles. O contato com a civilização criou nos índios necessidades novas, resta saber se eles derrubarão a floresta nativa de suas reservas para a expansão da produção agrícola.


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Viktor Chagas
 

Que relato bacana, Alexandre!

Não posso dizer que essa visão dos índios seja surpreendente, mas é algo de poético, sem dúvida. E muito a ensinar. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 11/11/2009 23:57
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Alexandre Rolim
 

Obrigado Viktor... Tanto pela sugestão quanto pelo comentário. Sei que é clichê falar de índio e preservação ambiental, mas eles tem uma cultura surpreendente, entretanto, estão se vendo obrigados, veja bem, obrigados, a aderir a cultura do que eles chamam de imóti (não-índio).
O que ocorre na imensidão de MT, daria para se escrever livros e mais livros. Abraços!

Alexandre Rolim · Campo Novo do Parecis, MT 12/11/2009 17:14
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Marília Cabral
 

Matéria muito legal, porém um pouco triste essa situação. Complexo... Acredito que não seja só no MT que isso acontece.

Marília Cabral · Viçosa, MG 19/11/2009 14:48
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Cores: Índio Tony Kazaizokairo e seu papagaio zoom
Cores: Índio Tony Kazaizokairo e seu papagaio
Identidade: Cacique João Arezomae fabricando Bola de Látex de Mangaba zoom
Identidade: Cacique João Arezomae fabricando Bola de Látex de Mangaba
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Contraste I: De Cerrado e Plantações
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Contraste II: Parcial da Rodovia do Índio - Dentro da Terra Indígena

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