Como voltei a escrever aqui [no meu blog] muito por causa do Pedro Alexandre Sanches, nada mal que eu comece postando um comentário justo a um texto seu, "A música fora do eixo" (Carta Capital n° 380). Ele trata na matéria da produção musical das periferias brasileiras - "geográficas e econômicas" - e da sua capacidade de distribuição independente das grandes gravadoras. O tema é "da hora", ninguém duvida. Como sempre, ele trata do assunto com extrema competência e conhecimento da causa. O que me atraiu especialmente foi o importante destaque que ele deu à música de Belém do Pará, onde eu nasci.
Não discordo de nenhum ponto do texto e quero alertar que não se trata aqui de nenhuma franca oposição aos conterrâneos do divertidíssimo brega paraense. A grandeza desse fenômeno de produção e distribuição deles é mesmo surpreendente e digno de todos os louros; mas gostaria de ampliar um pouco a conversa.
Eu saí de Belém, pela primeira vez, com 27 anos. Ou seja, eu sou o que se chama de bicho-do-mato. Isso significa que ninguém precisa me dizer o que é brega paraense, e nem a intensidade que tem essa dança. Nas festas em Santo Antônio do Tauá - cidade próxima da capital e onde grande parte da minha família nasceu - o brega sempre foi o estilo mais tocado, há muitos anos, lá e no interior do Pará todo. A lembrança das festas é muito viva em mim, ainda que a maior herança tenha sido a audição, àquela altura descomprometida, de Luiz Gonzaga.
O brega já teve altos e baixos, mas nunca esteve completamente sumida, como parecia acontecer com o carimbó, que não se assemelha ao brega, mas que pode ser considerado um gênero também muito paraense, e igualmente cheio de altos e baixos. Mas, sem dúvida, nada é comparável ao que está acontecendo hoje. O brega é a onda do momento. Basta ligar num canal da TV aberta no fim-de-semana.
Nossa queixa durante muito tempo em Belém - digo, queixa dos músicos; eu também sou músico - era a invasão da axé-music, que impedia qualquer possibilidade de sobrevivência da música local, fosse brega ou não, em nível comercial. Quando o "movimento" brega (acho que eles nunca fizeram nenhuma reunião) começou a tomar conta da cidade e, de certa forma, se sobrepor ao axé, todos os méritos deviam ser dados. Era uma vitória sem precedentes.
Mas, pessoalmente, o que eu louvava era a consciência que os bregueiros pareciam ter do significado e da extensão de sua música. Explico: o axé-music sempre se levou a sério, e sempre teve o aval de medalhões da MPB para isso, o que lhes dava um certo ar de "linha evolutica" (que maldade!). Os bregueiros não, sempre foram especialistas na auto-ironia. O Rubens Mota, o Anormal do Brega, Wanderley Andrade, A Pivazinha do Anaice (ouçam!!!! no site da mesma rádio está praticamente toda a produção do brega paraense, divirtam-se!) e um sem número de artistas eram o retrato do riso-de-si; de uma certa forma - sei lá, posso estar erradíssimo - a Banda Calypso também guarda, ainda que de longe, essa mesma auto-ironia - não é possível que o figurino da Joelma seja pensado. O brega paraense nunca se levou a sério, e isso era seu baratotal. Repito, posso estar enganado (à essa altura é certo que estou), e aí a Banda Calypso pode achar que, de fato, faz parte da história da MPB... ué, e não faz? faz! faz sim.
Se a música comercial não pode ser boa, ou se não pode mais ser boa - sim, porque já foi um dia -, então beleza, o funk carioca, o hip-hop paulista, a tchê music gaúcha, o lambadão mato-grossense, o forró amazonense, o tecnobrega paraense e tudo o que estiver por vir se justifica como um grito social, e isso tem grande importância. É uma derrota das grandes fábricas de artistas que diz muito sobre a história recente desse país. Mas não se pode mais conversar sobre a qualidade disso tudo? é tão aberrante e fora de moda não gostar de brega?
Lembro bem de uma conversa breve com um produtor super bacana do Rio, o Kassin. Quando eu disse que era de Belém, a primeira coisa que ele exclamou foi: "que legal, você é da terra do tecnobrega?" eu fiz uma cara meio sem graça, mas acho que ele não notou. O deslumbramento de pessoas do meio musical com essa música me causa grande espanto. Quero dizer, com isso, que não tenho capacidade de perceber quão grandiosa ela é, moderna, antenada, enfim. Estou sendo muito, muito sincero.
Claro que estou analisando isso de um ponto de vista estritamente pessoal, sem nenhuma pretensão de universalizar essa minha limitação. Acho que já era hora mesmo do eixo Rio-São Paulo descentralizar e olhar para o resto do país. O que gostaria é que outros compositores daquela terra tivessem um décimo da visibilidade da banda Calypso, mas isso é impossível, porque são domínios inteiramente distintos.
Em Belém, brega é música de pobre, mas TODO MUNDO SABE CANTAR E DANÇAR!!!!!! como acontece com o funk carioca, as atrizes globais se acabam no salão, numa quebra de barreiras sociais sem precedentes; será? tolice, claro que não. As lindas atrizes voltam para suas camas brancas com ar condicionado e os pretos pobres esperam o busão para voltar pra casa. Bom, mas isso não interessa não é mesmo? questão menor diante da alegria de "ser brasileiro". O que é a última invasão da Rocinha senão um fato corriqueiro da cidade e sem nenhuma possibilidade de investigação? quem morreu morreu. Aqui é assim.
Tenho uma dificuldade muito grande de aceitar tudo isso sem maiores discussões. É musica para dançar, beleza, não se pode julgar essa música como se julga um cancionista, claro que não. Mas por que não refletir sobre isso como uma face triste da música popular também? Dançar e ouvir são funções já desconectadas?
A facilidade de socializar os meios de produção digitais é a única forma de avaliar as consequências que essa música periférica pode vir a ter para o país? quer dizer: os infinitos estúdios caseiros e a infinita produção que nasce neles é a música brasileira por excelência hoje? ter superado as multi-nacionais já é suficiente para exaltar sem nenhuma crítica essa produção gigantesca?
Viva o Rupinol!
Obs.: texto postado no blog: http://henryburnett.blogspot.com/
Burnt, eu também compartilho da mesma "cara sem graça" quando o assunto é o tecnobrega, concordo que a música tecnobrega tem lá seus méritos sobre a coisa da produção, distribuição e tal, mas quando fui ao Rio de Janeiro, fiquei um pouco sem entender o que pra mim parecia uma espécie de "super-proteção". também fiquei espantada com tantas glórias atribuídas ao ritmo, já que pra mim - desculpem -
Carol Assis · São Paulo, SP 14/3/2006 09:01Burnt, já compartilhando teu sentimento em relação ao brega paraense, acho tb que falta aprofundar essa discussão. Me parece, às vezes uma visão meio exótica do pessoal do RJ/SP em relação ao brega, música de gente pobre etc. Mas eles venceram, e isso não é pouca coisa, tu não achas? Até que ponto isso não reflete uma cena cultural mais ampla no Pará? Na música isso pode ter raízes em escolas, formação, público construído há várias décadas, e que, isso sim passa muitas vezes desapercebido pela opinião do "eixão".
MM · Belém, PA 12/8/2006 13:41Oi, você sabe que eu tenho ficado triste em relação aos desdobramentos dessa discussão. Na verdade, minha relação com essa música sempre foi próxima de um lado e distante por outro, porque o brega está presente desde a infância - minha memória não me deixa mentir - mas ainda assim nunca precisei lidar com o gênero de uma forma profissional, teórica como fazem os colegas do "eixão", como você diz. Mas é claro que as conquistas deles são louváveis, e devem ser reconhecidas. Só não acho que o sucesso massivo deles seja o motivo para que eu olhe e ouça brega (ou tecnobrega) de modo distinto de antes, senão eu seria fã do Alexandre Pires e do Belo que, também, a seu modo, venceram no mercado.
Henry Burnett · São Paulo, SP 12/8/2006 15:49Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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