“-A Capoeira é sabedoria do povo do Brasil.†É assim que o Mestre Angoleiro (Prof. J. Bamberg), discÃpulo do Mestre Bimba, conta como ele definia a Capoeira. Hoje em dia, o Mestre também tem se incomodado muito com a “re-tradicionalização†da Capoeira... Uma figura e tanto!!
Há um tempo atrás chegou em um evento e foi apresentado antes da roda segurando seu berimbau viola. Quando pra começar a roda o responsável pela festa de Batizado disse: “-Mestre, aqui está o gunga para o senhor!â€. O Mestre Angoleiro insistiu no seu berimbau viola e aà veio o comentário: “- Aqui no grupo a tradição é que o gunga “comanda†a roda, e como o Senhor é o mestre mais antigo, TEM QUE tocar o gungaâ€. O Mestre gingou um pouco... (sem entrar na roda), não tocou nem um, nem outro, esperou o desenrolar do evento educadamente, não “comandou†nada e... Ao fim do evento agradeceu a todos e foi-se embora.
Parece que as pessoas afiadas de pensamento, como o Mestre, atraem esse tipo de situação, e o interessante é a forma como esse pensamento afiado trás sempre uma reflexão importante e óbvia sobre o acontecido. Mas mesmo sendo o óbvio a maioria das pessoas até então não haveriam percebido... O comentário do Mestre sobre esse episódio foi umas dessas pérolas: “-Só na cabeça desses “oligofrênicos†é que uma “coisa†(no caso o berimbau gunga) pode substituir o conhecimento de um Mestre do saber popular!â€.
Essa história chama atenção para um fenômeno que o Mestre Angoleiro ironicamente chama de “re-tradicionalização da Capoeiraâ€, ou simplesmente “invenção das tradições†como é conhecido na área dos Estudos Culturais. Hoje, uma prática comum nas escolas tradicionalistas, tanto da Capoeira Angola como Regional. Entretanto, podemos nos perguntar sobre o porquê acontece isso? Ou, como isso de fato se relaciona com a prática da Capoeira? No fundo quase todas as “[t]radições que parecem ou alegam ser antigas, são muitas vezes de origem bastante recente e algumas vezes inventadas... Tradição inventada é um conjunto de práticas, de natureza ritual ou simbólica, que buscam inculcar certos valores e normas de comportamentos através da repetição, a qual, automaticamente, implica continuidade com um passado histórico adequado†(Hobsbawm e Ranger; citados no livro “A Identidade Cultural na Pós-modernidade†de Stuart Hall, 2003).
Este prática de “inventar tradições†está bastante relacionada com a Capoeira e é facilmente identificada quando se pergunta sobre em que ela se fundamenta. Perguntas como “EM QUE se fundamentam estes valores?â€; “QUEM quer inculcar esses valores†ou “QUEM se beneficia deles?†podem ser importantes para descobrir o “PORQUÊ tais tradições foram inventadas?â€.
A abordagem tradicionalista comumente (mas nem sempre) ambiciona inculcar valores de autenticidade e de originalidade pelas mesmas pessoas que proclamam ser “os guardiões das respectivas linhagensâ€. O problema subjaz no discurso tradicionalista desenvolvido por uma pequena comunidade exclusivista de “Mestresâ€, que muitas vezes, mas não necessariamente, descendem da linhagem dos Mestres Bimba e Pastinha e que visam a desvalorização de outras linhagens. Sendo, supostamente, parte de um grupo exclusivo de pessoas que testemunharam as gerações predecessoras da Capoeiragem. Estes poucos radicais teriam herdados a autoridade para determinar como era a Capoeira naquele passado mÃtico e o que passa a ser autêntico hoje de acordo com seus testemunhos.
Inventando tradições e “[buscando] inculcar certos valores e normas de comportamentos através da repetição, a qual, automaticamente, implica continuidade com um passado histórico adequado [ao interesse deles]†essa pequena comunidade de “mestres†tradicionalistas forjam o passado da Capoeira de acordo com suas próprias ambições. Sendo tão radicais e seguros de todas aquelas regras (não rituais) os mesmos perpetuam em seus alunos a noção de que verdadeiramente são os guardiões do passado transmitindo o conhecimento autêntico, portanto, buscando legitimar seu próprio “legado culturalâ€.
No meu ver, o problema desta abordagem tradicionalista com vistas em interesses pessoais é a divergência da maneira sábia, orgânica e focada nas pessoas com a qual os humildes e honestos Mestres levavam as suas atividades no passado em direção a um conjunto de regras dogmáticas à serviço de uma pequena comunidade arrivista e “puristaâ€. Tal divergência pode nos levar em direção a um processo no qual a educação e o verdadeiro sentido da Capoeira (A sabedoria do povo do Brasil) serão substituÃdos por dogmas cegos e identidades fundamentalistas na Capoeira. De tal maneira, as tradições e rituais forjados para manter viva a sabedoria e a cultura da Capoeira, acabam por trazer um ambiente competitivo, segregado e opressivo para nossa Arte-mandinga.
Da mesma forma os alunos são adestrados a desenvolver uma visão estreita e identidades baseadas em grupos, ao invés de um sentimento mais amplo de pertença à Capoeira e à Humanidade.
Como o Mestre Angoleiro diria: “Isso é 'capoeira de prateleira' menino! Não é Capoeira não!â€.
De fato, isso é um movimento organizado por uns poucos “mestres†de forma a justificar um comportamento radical numa empreitada para herdar um legado cultural e conquistar o mercado.
Aqueles que eram, e ainda são, capazes de lecionar com simplicidade, compromisso e devoção; focados nas pessoas e não em dogmas; no processo de ensino-aprendizagem ao invés de mero treinamento, estes sim são os verdadeiros Mestres. E estou certo de que eles vão preparar seus alunos para agir de acordo. Claro que todo esse povo também tem seus próprios rituais e métodos, cada um à sua maneira, entretanto, sempre com vistas a passar seu conhecimento e sabedoria (a Capoeira) aos seus camaradas.
Nós podemos tomar como exemplo a maneira espontânea como alguns desses sábios Mestres praticavam sua Capoeira. O finado Mestre Iziquiel, aluno do Mestre Bimba, levava as rodas cantando chulas e tocando seu pandeiro, e não tocando berimbau e cantando corridos como seria de se esperar pela sua formação. Hoje, o Mestre João Pequeno mudou toda a ordem da sua charanga (colocando o gunga na extrema direita) de onde leva as rodas sentado ao lado só com uma baqueta na mão. Mestre João Grande, ao invés das cores preto e amarelo usadas em tributo ao time Ypiranga pelo Mestre Pastinha, seu mentor, adotou uniformes brancos para sua escola . O finado Mestre Paulo dos Anjos chegou até a promover festas de Batizado em seu grupo.
Todos estes são grandes Mestres, respeitadÃssimos, e todos alteraram de alguma forma o modo como seus Mestres ensinavam ao passar adiante essas lições. No entanto, todos eles são reconhecidos como verdadeiros guardiões do conhecimento e da sabedoria da Capoeira. Todos tomaram seu lugar em suas linhagens culturais com muita honra e orgulho. Obstinados a passar adiante seu legado com gentileza e devoção, sem tomar conhecimento de gradações de autenticidade na Capoeiragem. Pode-se muito bem rotular a maneira como conduzem seus ensinamentos de “tradiçõesâ€, mas isso não quer dizer necessariamente que seja feito exatamente da mesma maneira como o foi em um passado remoto. Nem que tal maneira seja mais ou menos autêntica do que é feito em qualquer outra escola.
No decorrer de anos de compromisso e dedicação estes sábios Mestres passaram às gerações seguintes seu legado cultural e experiência de vida como um instrumento libertário. Sempre concentrados nos seus companheiros e não em usar tal legado maravilhoso para conquistar mercado ou para manter uma hierarquia militarista na qual somente uns poucos “mestres notáveis†decidem o que venha a ser a Capoeira.
Não tenho dúvidas de que todo esse povo maravilhoso que fez da Capoeira uma filosofia de vida (não uma carreira), jamais colocaria seus rituais e tradições acima da educação e dos bons costumes para com seus semelhantes. Mero treino à frente da educação. Antes a sabedoria de um Mestre do que um conjunto de dogmas ou um objeto (ainda que esse objeto seja sagrado para alguns como é o berimbau). Antes de todo ritual ou tradição nós devemos salvaguardar a sabedoria anciã, os fundamentos filosóficos e seus valores gentis e igualitários.
Precisamos estar conscientes de que o mundo da Capoeira está mudando velozmente. Refletirmos sobre quem está se beneficiando com estas mudanças. E, caso tais mudanças não estejam a serviço do bem comum na Capoeiragem, à serviço da diversidade e do aprendizado intercultural, precisamos combatê-las!
É preciso que o conhecimento também esteja imbuÃdo de sabedoria (de propósito) em prol do bem comum, trazendo emancipação aos oprimidos e acima de tudo servindo à solidariedade! “- A Capoeira é um método de preparo para a vida, um caminho para a felicidade universal!†(Mestre Cláudio Danadinho, PhD em arquitetura e um dos fundadores do Grupo Senzala de Capoeira).
É isso aà Mestre Eurico, tão logo o prazo se passou, eis que surge a tradução. Tarefa árdua discutir as incutições de uma cultura na tentativa de libertá-la para que ela cresça com sua força caracterÃstica em tempos tão diferentes. Tá mais que votado!
Robson Araujo · Campina Grande, PB 14/5/2009 22:48
As perguntas que você faz no texto são interessantÃssimas mesmo, e nem sempre é fácil largar a mão da tradição dogmática (a raça humana toda sabe bem disso). É acalmante poder decidir com facilidade o que é "certo" e o que é "errado"...tanto no caso de prática de Capoeira quanto na vida no sentido mais amplo.
Conheço apenas superficialmente o universo de Capoeira, mas pergunto - será que não chegou a hora de conversar sobre o que é que constitui tradição e linhagem no Capoeira? Será que se identifica tradição e linhagem pelo jeito que os discÃpulos imitam os rituais corporais dos seus mestres? Ou poderiam as mesmas ser identificadas no plano de filosofia e sabedoria como você propõe? Fico curiosa para saber como a comunidade mais tradicionalista de Capoeira trataria desse assunto... ainda mais considerando que o tradicionalismo nem sempre é uma atitude de motivações duvidosas, e sim as vezes uma forma de protesto e resistência certos abusos (estou referindo aqui ao tradicionalismo musical do Ilê Aiyê, que na sua resistência contra a sonoridade pop incorporada por vários outros blocos afro em Salvador vê uma resistência contra indústria de entretenimento Baiano ainda disproporcionalmente controlado por brancos). Complicadas essas coisas, né...
Valeu pela tradução, e volte com mais publicações. :)
Pessoal,
Eu vou me permitir, com a permissão antecipada de Mestre Eurico, a citar um outro trecho de O MESTRE DE CAPOEIRA, para que os "de fora" possam ter uma visão mais de perto de como nos sentimos, com esta evolução nossa, da pessoa da Capoeira.
".....Analfabetos ou pouco letrados, assumem o domÃnio do povo - dos "capoeiras" aos presentes, passando pela circunvizinhança. Quase todos vivem num ambiente limitado: numa visão missionária; há os que imprimem viagem mundo afora. Conforto restrito, quase de pobreza material absoluta; de tão absoluta a compensa no seu imaginário pela fama, também absoluta - adquirida NUM ENCANTO INTELECTUAL NÃO SE SABE DE QUE ORIGEM.... " Isto Mestre BenÃcio se referia ao antes.....
E esta colocação também é para frisar o contentamento e o fio de esperança que nos traz, jovens "camarás", como Eurico,
abraço
andré
Posto isto, em separado, era mesmo objetivo, passo as considerações de meu alcance sobre o "ritual", ou o ainda nascente ritual nas Rodas de Capoeira.
a) Conheci tres Mestres ainda na década de 1950:
a.1 - Mestre Aurélio - Mestre de profissão alfaiate;
a.2 - Mestre João Ferreiro - Como tal feirreiro
a.3 - Mestre BenÃcio - Mestre, professor e cantador e dançador.
Mas, professor mesmo de dar aula para sobrevivência.
Os tres, cada um, procurava de quando em vez, ocasião de festa fazer algum ensaio de Capoeira, Samba de Roda, Umbigada..... Capoeira mesmo os padres das Santas Missões, não deixavam. E ainda não tinha a difusão do conceito Mestre de Capoeira. Isto é o Mestre de Capoeira pegava uma carona, via regra, no meio de vida.
b) Décio Freitas, se referindo as informações sobre Palmares:
"Infelizmente temos que pegar, nos valer das informações, dos algozes, dos vencedores e só deles".
vou continuar, se demorar o sistema não aceita
b) Décio Freitas se referindo a Palmares
c) De que data, ou a partir de que data conhecemos algo sobre Capoeira?
- de desenhos de dois ou tres franceses, um holandês e nem um escrito, que date de antes do terceiro quartel do Séc. XIX. Mesmo as notÃcias de polÃcias datam de lá. Antes eram os chavões "Negro bandido.... etc." ( Por isto não creio muito nos termos "bandidos" usados pelo Estado Gerencial Brasileiro". Tem muito de mentira.
d) Toda manifestação cultural comporta e carece de um ritual, limitado, quase sempre, nunca é muito extenso. Certamente Bimba com o auxÃlio de Juraci Magalhães, e seus oficiais militares, numa correria terrÃvel iniciaram, credito a Bimba, a "codificação" da Capoeira. Codificação da prática, não tiveram tempo para a coisa regra em geral, pegando tudo que havia no cais....
e) É compreensÃvel que um grupo de Mestres, ou isoladamente, venham mesmo a ir pingando, um aqui, outro ali, o que acham de ser....
f) No futuro, num tempo que o tempo vai dizer, muito daquilo que hoje se segue, consciente ou aleatóriamente se torne conceito aceito, se torne regra, se torne ritual.
g) Mas o Grande Ritual deva ser, continuar sendo, o culto que temos
ao Mestre. Conheci de verdade Dona Vitória Gama, negra das margens do S. Francisco Baiano, e ela dizia, que nada mais era de oficio ao capoeira render homenagem ao seu Mestre. Isto também é um ritual. Mestre Suassuna foi o primeiro Mestre que conheci em SP. na Praça da República, década de 1970, tenho por êle, na sua presença, uma postura ritualistÃca.
c) Ainda cedo para se excluir esta ou aquela prática ritualistica, o tempo irá aceitando umas, abandonando outras, sem precisar do termo excluir. E as invenções cairão por terra com o tempo tambem.
abraço
andre.
Eurico,
Não tenho conhecimento da capoeira e de seus dignos Mestres, mas leio e voto em solidariedade ao texto e à você que o escreveu, e por saber que a Capoeira, como qualquer outro gênero de esportes, quando direcionada conscientemente e para o bem, tem o poder de tirar muitos jovens (vândalos e pobres) da rua e dar-lhes um significado na vida.
Bjs
Eurico
Em todas as práticas humanas, quaisquer que sejam,se "atracam" à esse "fenômeno", que eu chamo, com o devido respeito pois generalizo agora, de "especulação".
Quantos dogmas foram criados por lendas inventadas e/ou criadas, por "atravessadores" culturais (ou pseudo-culturais,até...) assentados tão somente em "mixers" do (des)conhecimento histórico e cultural humano ?
Nos ritos, nas práticas, nas artes e polÃtica e que tais, o que não se sabe, ou o que se imagina saber-se, torna-se consuetudinário e compulsório, ao comando de alguns poucos que determinam "as normas do dia", desconstruindo, muitas vezes, a universalidade dos fatos, apenas e tão somente pelo empirÃsmo ( não que este tambem não seja importante e tenha seu peso na fomentação histórica e cultural...)
Mas, como bem disso o Pêssego acima, existe o inverso por seu óbvio, da verdade inquestionável da dúvida dos fatos relcionados a história e conhecimento, como um todo, sujeito a reverificações acadêmicas ou não, e que diz com sabedoria que "...Ainda cedo para se excluir esta ou aquela prática ritualistica, o tempo irá aceitando umas, abandonando outras, sem precisar do termo excluir. E as invenções cairão por terra com o tempo tambem..."
O tema é complexo pela enormidade de elementos envovidos.
Contudo, olhando-se pela lado didático e prático da questão, à utilidade sem par da Capoeira como elemento de integração entre povos e diferenças socio-economicas intrinsecas, faço minhas as palavras de Doroni.E, quanto as quesões dos "inventores de plantão" ( pra todas as areas do desenvolvimento humano, aliás...) reitero a "máxima" de Mestre Angoleiro, sabiamente disse : “Isso é 'capoeira de prateleira' menino! Não é Capoeira não!â€.
Seu artigo é "superbe" ( do Francês, "Soberbo"...com tradução e tudo...rsrsrs)
Grande abraço Eurico...continue postando suas ricas vivências Capoeiristicas....mas "in portuguese, please, ok ?"...rsrs
Joe
Muito bom o seu trabalho, por isso mesmo merece muitas e muitas leituras. Divulgarei com os meus alunos. Viva a diversidade que habita em nossa cultura brasileira! Parabens. Grauninha
graça grauna · Recife, PE 15/5/2009 14:31
Quando os velhos Mestres da Angola resolveram batizar depois de 30-50 anos de profissão eu caà duro!
Mas seus alunos não foram nessa e eles tiveram que voltar atrás. O erro existiu e ninguém conserta mais, já está na História da Capoeira Angola!
Quando Bimba quis acabar com a Angola os velhos Mestres bateram o pé e graças a Deus a Angola está aqui hoje!
Krista suscita perguntas interessantes e tentarei respondê-las: Um Mestre entrevistado diz:
Fulano não é Mestre!
O entrevistador:
Mas como não, tem vários anos de trabalho na comunidade e é reconhecido por ela!
Não é porque Eu não sinto isso!
No meu caso depois de quase ter sido assassinado a pauladas dentro de uma "academia" por um, soube que um seu aluno falou:
Fulano não é M...., porque um Mestre não faz oque ele faz!
Este link é para quem quiser se aprofundar na Angola, depoimento de um Regional!
http://www.overmundo.com.br/banco/atenilo-o-relampago-de-mestre-ytapoa-resumo-so-angola-transcrito-por-leiteiro
Aqui no Rio Grande do Sul, para traçar um paralelo, um grupo de jovens estudantes do que se costumava chamar pequena burguesia, em 1935, no milênio passado, século 20 já, propagandeou um conjunto de modismos inventados, vestimentas, procedimentos, usos, e alardeou aquilo como a tradição gaúcha. Vingou.
Hoje é.
Está espalhada igualmente como a capoeira em todoo Brasil e em muitos lugares do mundo a "cultura gaúcha" do CTG, centro de tradições gaúchas.
Na linha da tradição inventada, pode-se dizer, que a cultura é já apropriada por um tanto de gente a mais que os originários estudantes... milhares de peões e prendas e patrões e centros de tradição, m´~usica própria, dança tÃpica, com invernadas e costumes e usos também tÃpicos, até comidas, já de mais de 70 anos ou perto disso.
Então... da boca torta é que se fala, pelo uso do cachimbo, ainda que mais não se fume.
...
Tem uma nota circulando há muito na internet sobre a constituição do paradigma, em que macacos são molhados quando sobem em uma escada para buscar bananas. E depois se a água e ainda assim o grupo espanca quem se atreve a buscar bananas.
São os costumes impostos.
Os próprios impostos são costumes assim.
Se os deixe de pagar e ver-se-á o que fazem os que nos consomem.
Mesmo em português, porque em inglês, há muito deixaram as hipotecas de ser pagas e deu no bucho deles.
Uma das coisas incrÃveis da capoeira é que seu surgimento foi no caes do porto, nas ruas e na classe baixa extrema, principalmente os quase-escravos do recôncavo bahiano. Mas depois de sua grave proibição pelo estado (até Getúlio revogar a Lei que referia-se a um Capoeira como um marginal), ela tem tido muito sucesso nas altas classes da sociedade (internacional).
Não se possa colocar o surgimento da capoeira como exclusivamente na bahia, porque há "evidências" de que ela sofre influências de outros portos (e estados) além das docas de salvador (mas também do RJ; assim como sua associação com o frevo de pernanbuco). Mas é na bahia que se tem os registros de que a Capoeira se transformou num movimento de resistência (onde os relatos tratam do capoeira como pessoas de natureza libertária). Tanto na BA quanto no RJ, ela se afirmavou como um movimento mais "social" pois agora transitava entre as classes sociais. Na Bahia, por um lado, era ensinada por um analfabeto (M. Bimba) à estudantes de medicina da UFBA (alguns mestres "tradicionais de hoje) e, por outro lado, era citada/apoiada pela a elite intelectual bahiana como Jorge Amado, como foi o caso do Mestre Pastinha.
Felizmente os "tradicionalismos" (ou seria totalitarismos?) e "mercadologismos" parecem não agir comletamente sobre a herança da capoeira, desde que hajam informações que possam ser utilizadas como alternativas. Apesar desses problemas atingirem o coração da capoeira, o fato dela ter sido forjada em meio a "desejo incondicional de aceitação do outro (mesmo diferente)" a transforma num conhecimento cultural que permite a integração.
Os registros existentes sobre a Capoeira serviram como alicerce para certas "tradições", e como sua maioria veio da Bahia, se diz que a Capoeira é bahiana. Mas na verdade, como dito no outro debate, a capoeira é um núcleo da cultura brasileira, não só por estar associada a outros folguedos (e a outros estados brasileiros), mas por fazer parte das emanações da cultura popular do brasileiro (sincretismo cultural?).
Usar a capoeira para inclusão social é, na verdade, promover integração, pois há aprendizado e todas as direções, seja qual for a origem sócio-cultural do praticante.
Viva está a sabedoria ancestral do povo brasileiro. Apesar de tudo, dos equÃvocos, das diluições. Tenho um filho, de mãe bahiana que com o pouco que aprendeu, alguns anos de prática, pode dar aulas de capoeira quando estudava na Espanha. É a força da cultura que continua através das gerações. Boa contribuição seu artigo.
romulo andrade · BrasÃlia, DF 18/5/2009 13:30
Brindo aos opinantes deste com um pouco do que sei de "Tradição":
Quando aprendi em 1975 os 3 Berimbaus que atuam numa roda, chamavam-se:
Viola, Gunga (o do meio) e Berra-Boi.
Hoje mudou, e é:
Viola, De Centro que tem o mesmo formato do Gunga antigo e Gunga que tem o formato do Berra-Boi de cabaça gigante!
Uniforme:
Pastinha recebeu o Grupo Nossa Senhora da Conceição do revoltado Mestre Noronha mais Mestre Maré, com o uniforme nas côres azul e branco que mais tarde Pastinha mudou o nome do Grupo para Centro Esportivo de Capoeira Angola e para as côres do time Ypiranga, Preto e Amarelo!
Apelidos:
Um grande da Angola hoje reclama na Net que Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado) dava Apelidos pejorativos. Antes de nascer a parteira fez uma aposta com a mãe de Manoel. Ao nascer ela disse:
É Bimba! ( giria Bahiana para orgão sexual masculino)
Há uns 3 com o apelido de Capeta na Capoeira. Quando alguém pergunta a um aluno com quem treinas:
Com o Capeta!
Enquanto preservativo era preservativo ele era Camisinha, agora...
SÃmbolos:
Sempre achei que os Capoeiristas deveriam/devem dar para um/uns Artistas plásticos a fazeção dos Simbolos, mas que nos anos 80 o Globo Terrestre na beira das rodas, gelava quem não era do Grupo, gelava!
Na minha opinião o nome do Grupo é importantÃssimo e é de lascar nomes como Grupo Wolks.... ou com nome de Universidade!
Acabei de ouvir vindo para casa na radio da rua o lançamento de mais um CD: Doidinhos de Deus!
Se com religião eles estão fazendo isso quanto mais com o resto!
Só me resta dizer:
Que se dane o mundo, eu não me chamo Rai-I-mundo!
Tenho dito.
Leiteiro
Continuando:
TÃtulos:
No meu tempo terminava em Mestre, mas agora:
Mestrando, Mestre, MestrÃssimo, Mestre Aspirante, (AsPIRAVA oque? O bom-senso obrigou o Maior Inventor de Porcarias na Capoeira a retirar este, mas os 2 seguintes também são dele)
Mestre Efetivo, Mestre de Honra e finalmente a Associação Brasileira de Apoio e Desenvolvimento da Arte-Capoeira, Abadá criou o Grão-Mestre!
Eu criei o Bi-Mestre para um aqui neste Estado e outro no Grupo Abadá!
Graduacões:
Enlouqueceram e criaram até Graduações infantis, assim um que começa com 5 anos, com 15 muda de graduação, começando novamente na para aquela idade! Cada Mega Grupo tem a sua, com significado para cada corda que começou possivelmente com Almir das Areias e suas 2:
Escravo e Liberto!
Com isso não se consegue desqualificar um péssimo capoeirista, pois ele é Mestre no Grupo dele!
Valha-me Deus, sinhô São Bento, buraco velho tem cobra dentro!
Leiteiro
Por um tempo, uns quatro anos, e depois de um intervalo de sete, mais outros três anos, relacionei com capoeiras no Rio Grande do Sul.
Eles tem lá seus grupos, suas graduações, seus detalhes, suas diferenças e suas rixas. Vão ao desafio e se machucam entre sim, em forras. Todaos libertos, hoje, e muitos brancos, de jeans e sapato tênis até.
Fizemos encontros de reflexão.
Programávamos oficnas permanentes.
Os encontros, bienais.
Fizemos revistas publicando o debatido, para formar um conjunto teórico para pósteros interessados, a partir dos depoimetnos dos que eram atuantes na capoeira e acatados pelo menos por um grupo de cinco dos destacados aqtuantes aqui.
Ainda não tinha, até 2004, essa guerra da graduação superior a de mestre, mas já havia a diferença grave entre Regional e Angola, uma querendo que a outra não fosse...
O Estado, dizia eu, quando intervém para apoiar um segmento, aniquila o outro ou acaba-se ele, o Estado... então, não metÃamos colher no angu e programávamos sempre Angola e Regional, por igual... em circuitos de demonstração das artes distintas dos capoeiras.
Era canto, jogo, toque, puxada de rede...
Inclusive duas mulheres davam oficinas entre 10, nesse tempo, que duravam oito meses por ano, já.
Ficou assim e já era mundial a recorrência e a ocorrência das disputas e das concorrências.
É como na classe, os de baixo todos não sabem que são da mesma forma explorados pelos de cima, querem ser os de cima.
Soubessem e tivessem um mÃnimo de pontos de acordo, arriavam os de cima.
E fico por aqui, por enquanto.
Saravá!
Camaradas,
Peço licença, dada minha preça para fazer um comentário “bi-postâ€. Postado aqui e no texto Faca de Ponta, do camarada Spirito.
Quem viveu a Capoeira nas décadas de 80 e (começo da de) 90 sentiu na pele a violência causada pela busca hegemônia e mercantilista de alguns poucos grupos de Capoeira pelo mercado. Não por acaso os maiores grupos de Capoeira hoje, são os que adotaram um paradigma tecnicista, violento e opressor no passado. Como o camarada Adroaldo bem coloca, se estivessem de fato praticando um ensino-aprendizagem libertário, tais grupos estariam educando para além da medÃocre troca de papéis entre oprimido e opressor. Lançariam mão de tal dialética (oprimido-opressor) com vistas na transcendente educação libertária, como bem ensina a obra de Paulo Freire.
Muitas atrocidades foram, e ainda são feitas para que uns poucos possam viver DA capoeira, assim como foram, e ainda são muidos, metafórica e literalmente, muitos Mestres de Capoeira de ofÃcio (não os de carreira) que vivem PARA a Capoeira.
Não sou contra as tradições, nem mesmo as inventadas, e muito menos sou um purista. Como bom praticante da nossa Arte-mandinga, há muito aprendi que o dualismo não comporta muito bem as complexas dimensões filosóficas e culturais de nossa cultura popular.
Entretanto, aprendi também que quando esses tradicionalismos são engendrados na Capoeira por 'mega-grupos', 'quantificando' conceitos de autenticidade cultural (como se isso fosse ético ou até possÃvel), muitos dos Mestres que vivem PARA a Capoeira desempenhando papeis de educadores, de lÃderes comunitários, de artistas e facilitadores da expressão cultural local ficam descreditados. Com tamanha inversão de valores em nossa sociedade, como podemos esperar que nossa juventude entenda que muitas vezes 'a maioria' não está, de fato, com a razão; que a Sabedoria do Povo do Brasil está na grande maioria das vezes com os que vivem PARA a Capoeira e não DA Capoeira.
Nesse sentido, fazer os conceitos da área dos Estudos Culturais mais acessÃveis aos capoeiras do mundo todo pode, no meu humilde entender, ser de grande valia contra a empreitada hegemônica e mercadológica dos 'mega-grupos'. Uma vez que, em geral, são estes os inventores das tradições com interesses exclusivamente mercantilistas.
Vou seguir abordando estes assuntos (em inglês) no 4capoeirathoughts e caso encontre tempo, vou publicando no Overmundo também.
Axé!
Putz, que porrada ô meu, estava ouvindo Erc Clapton em sua homenagem ao filho falecido quando li a Morte de Suassuna! Mas a coincidência que ao ver o video, dei com o Link de uma das melhores demonstrações de como era a Capoeira, (Vadiação) e o 2º Link; Witt Many Mestres 9 é uma rara oportunidade de ver que se não fosse a perseguição a Capoeira, como seria a miscigenação dos movimentos Angola/Brasil.
Interessante que quando ele vai jogar com outro negro do, digamos Estilo Abadá, ele tenta imitá-lo, perdendo seu jogo tôda a pujança, mas logo se liberta e...
Vadiação
http://www.youtube.com/watch?v=etZB1zbbglE&feature=related
Witt Many Mestres 9
http://www.youtube.com/watch?v=tD9rQslZtjs
Queria deixar claro que Mestre Suassuna está VIVO!
Abraços
Pessoal, publiquei um comentário-resposta (em português) sobre questões de racismo e discriminação na mÃdia brasileira. Está em moderação e assim que for 'liberado' vou fazer uma errata mencionando a matéria que deu origem ao meu artigo. Espero que gostem.
Axé!
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