Henrique Teles é um servidor público de 41 anos, pai de família e surfista de long-board. Sua identidade secreta (mas nem tanto) é ser compositor e cantador. Filho de cantor, seu pai Antônio Teles fez história em Aracaju como seresteiro e também compositor. A música então seria para sempre uma sina da qual Henrique não escaparia.
Os primeiros passos foram no meio metal underground. No começo dos anos 80 o que havia de mais cult pro roqueiro sergipano era ouvir o Kill ‘em all do Metallica, ou discos do Slayer. Duro de imaginar, mas o cara que iria transformar a música sergipana em alguma coisa com identidade própria andava pelas ruas de Aracaju com braceletes “heavy” e tocava baixo em umas das primeiríssimas bandas de rock da cidade. Um baixo em formato de machado - como aquele do Gene Simmons, do Kiss. O mesmo instrumento, muitos anos mais tarde, iria parar nas mãos do baixista do Snooze, mas isso é outra história.
Já nos anos 90, o acúmulo de composições leva o homem a encarar seu destino. As primeiras formações da Maria Scombona incluíam uma flauta que dava um toque lírico à clássica trinca guitarra-baixo-bateria, provável legado de seus discos do AC/DC. Aliás, apesar da nítida influência do trabalho de Alceu Valença nos anos 70, e do sotaque carregando as letras de referências locais e da cultura nordestina, uma característica presente em todas as inúmeras encarnações da banda é um bom guitarrista. Com peso ou sem peso, apesar do violão ora presente de Henrique, pode-se dizer que o som da Maria Scombona tem muito a ver com a guitarra! Talvez como conseqüência inconsciente, o primeiro grande hit dos shows da banda era uma música chamada Cantador Brasileiro, onde o próprio brincava com a linguagem de um cantador de embolada embromando um rock’n’roll em inglês cósmico. Antológico!
Dali, na primeira metade daquela década, já era perceptível que aquele projeto tinha tudo pra se tornar o primeiro grande grupo/artista sergipano a estourar no cenário pop nacional contemporâneo. Infelizmente, nem tudo é perfeito, especialmente no meio musical. Era uma época em que a cultura de se gravar no esquema “faça-você-mesmo” não era tão difundida e possível como hoje em dia. E por razões que somente as circunstâncias e os envolvidos poderiam discutir, a banda nunca registrou o repertório inicial, e a formação, que já havia mudado várias vezes, desmantelou-se.
Pausa para meditação. Enquanto o meio musical sergipano esquecia da Maria Scombona, Henrique Teles foi cuidar da vida: família, trabalho, nada anormal. O merecido sossego. Ainda bem que não durou tanto assim. Depois de ouvir de muita gente o quanto a banda fazia falta, ele novamente topou o desafio. Aos poucos, alguns shows no Espaço Cultural Yázigi mostravam o novo fôlego. Das formações antigas, o guitarrista Hugo Leonardo ainda desfilava seus arranjos e Rafael Jr. voltava a assumir as baquetas, depois de um tempo afastado. Mas a diferença era que desta vez havia um plano. Um disco, ora bolas, o que mais?
No lento processo que levou a banda ao estúdio, novos músicos e um novo elemento: uma gaita. No disco, sai Hugo e entra em cena Álvaro, que junto com o gaitista Júlio Vasconcelos definiria uma nova estética para a Maria Scombona. Róbson Sousa completaria o time fundamental com seu baixo hiper-preciso. O som ganha em peso, em sabor funk, e em roupagem blues. O primeiro disco, Grão, saiu em 2002 com esta cara: um som nordestinês-cabra-da-peste, mas muito, muito bluesy em formato rock. Aliás, quem nunca reparou que um repentista é também um bluesman?
E, meio que para manter a tradição e honrar o nome da banda (que significa basicamente uma cambalhota), mais uma reviravolta. Nos vários shows divulgando Grão, o guitarrista era Abraão Lucas, estreando, e o baixista Dinho Dog voltando à casa. Completava o time Betinho (percussionista) e Thiago Ribeiro, que também havia participado do disco. Com essa formação, a Maria Scombona parecia perto daquele vislumbrado “estouro” de uma década atrás: tocaram em pelo menos uns dez festivais importantes, entre eles o Festival de Inverno de Garanhuns (PE), Ei Me Pegue 3 (RJ), Festival de Verão de Salvador (BA), a Feira da Música (CE) e o local Punka, além de uma belíssima apresentação no Circuito Cultural Banco do Brasil 2003, em Aracaju. Também participaram do programa Bem Brasil da TV Cultura, quando transmitido ao vivo de Sergipe. Mais que isso, só se tivesse vídeo-clipe. Pois gravaram um, dirigido por Pico Garcez. Mesmo assim, parece a maldição da cambalhota. Ou de repente é como as coisas são mesmo. Um grão é o que se planta, afinal. A colheita só pode vir após o semear.
O fato é que o primeiro semestre de 2005 trouxe a notícia de que haviam matado a Maria. Uma lástima para grande parte do público e amigos. Mas os mais antenados com as “scombonas” de Teles desconfiaram desde sempre. Em julho anunciou-se o retorno da Maria Scombona, a volta dos que nunca deveriam ter ido. O lugar de Henrique é no palco e ele sabe muito bem disso a esta altura. Então, um novo projeto, o disco Segundo. Novamente Álvaro, o cara, a guitarra, as idéias. Novamente Róbson, o baixo, o acabamento perfeito pro ainda batera Rafael. Cheiro de velha-guarda, som renovado. Sai a gaita, entra... outra guitarra! Mas só pros shows porque “McÁlvaro” mora no SumPaulo, porém deu conta de várias guitarras ao mesmo tempo no estúdio. Saulinho Ferreira é o novo Maria Scombona pros shows. O som? Deliciosamente novo. Complexo na sua simplicidade.
E esse segundinho já vem dando o que falar. Um show no Sesc Pompéia (SP) com sucesso total foi a prova de que esse time é vencedor. Mas longe do clima "já ganhou", ou talvez calejado por uma trajetória marcada pelo inesperado, Henrique aguarda o lançamento do novo disco, enquanto a banda estuda uma nova investida no Sudeste do país. E a saga continua... ainda bem!
Duas sugestões, Maíra: links em "Snooze" e "Espaço Cultural Yázigi", pra situar melhor a galera que lê e não conhece. A Maria Scombona tá preparando o lançamento do novo CD, que tém até faixa ao vivo.
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 12/7/2006 15:36Certamente, pra quem viveu cada taquinho desse período de existência da Maria Scombona, pode existir informações a acrescentar, mas o que me cabe aqui é agradecer e parabenizar Maíra pelo texto bem construído e instigante. Estamos mais do que nunca com o pé na estrada e textos como este só vitaminam nossa fé. Abraço a todos.
Henrique Teles · Aracaju, SE 12/7/2006 19:38Maíra, parabéns pelo belo texto. Fui dos primórdios da M.S., pré-hugo, e tenho ainda uma vaga lembrança das músicas daquela época, como 'Pela Barão', 'Medo', 'Sobra', 'Farol de Ferro' e outras, que infelizmente não foram registradas, a não ser num punhado de corações e mentes. Abraços em Fábio!
Marcus Vinicius · Aracaju, SE 19/7/2006 02:07Texto emocionante Maíra. Como sempre.
Hilton B. de Aguiar · Aracaju, SE 27/7/2006 10:04Muito bom mesmo, Maíra... Quem é da geração século XXI de bandas de Sergipe, como eu, não conhece a saga do Henrique e da Maria Scombona. Bom pra situar e informar... E com certeza admirar o lutador!
João Melo · Aracaju, SE 12/8/2006 22:01Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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