A Scanner Darkly - 30ª Mostra de Cinema SP

Divulgação
Wallpaper baseado no poster
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Fernando Mafra · São Paulo, SP
23/10/2006 · 69 · 5
 

Como um scanner vê? Claramente ou obscuramente? Esta é uma tentativa tosca de traduzir a frase que dá nome ao conto de Philip K. Dick e ao filme baseado nele. Quão imparcial é um observador? E quando seu objeto de estudo inclui ele mesmo? Quem controla os controladores? Afinal, estamos à serviço de quê? Essas são algumas das perguntas que o observador perspicaz terá ao final da sessão de "A Scanner Darkly" de Richard Linklater.

Nessa época em que temos cada vez menos privacidade (algumas vezes por vontade própria), em que entretenimento rápido é uma opção cada vez mais preferida à relações duradouras e existe uma busca incessante por imagens instantâneas e super-realistas, Linklater parece tomar a decisão certa quanto a maneira de "arte-finalizar" o seu filme.

Aos desavisados, o Scanner a utiliza a versão digital de uma técnica chamada Rotoscopia, em que desenha-se sobre imagens capturadas por uma filmadora ou camera fotográfica (muito utilizada em desenhos animados desde o tempo da Branca de Neve). O filme assim ganha mais uma etapa que parece uma ponte entre produção e pós-produção, quase que aproximando-o do processo de criação de uma história em quadrinhos, onde por mais habilidoso que seja o desenhista, o trabalho final não pertence apenas à ele, mas também ao arte-finalista.

Da mesma maneira, não basta confiar nos fotógrafos e atores do filme, no final, cabe aos animadores (por mais digital que seja o processo) interpretar e de fato nos apresentar com a versão final dos eventos.

E considerando as temáticas de drogas, voyeurismo, conspiração e paranóia embutidas no filme, é difícil pensar em um acabamento melhor. Linklater já havia usado a mesma técnica no etéreo "Waking Life" onde tudo se encaixa muito bem, mas por diferentes motivos.

Pode ser apenas uma questão de distanciamento, mas a técnica agora parece mais apurada, existem mais detalhes a ser notados, e a sensação de flutuação é menor (que em Waking Life pode muito bem ter sido intencionalmente exagerada).

O filme corre com muito bom humor, e confesso que analizar interpretações em rotoscopia não cabe a mim, especialmente em se tratando de Keanu Reeves, que sempre me lembra de uma tábua de passar roupa, e Winona Ryder, a menina chorona do bairro. Mas serei audaz em dizer que Robert Downey Jr., mesmo embutindo canastrices e exageros, pareceu se sair muito bem e é o personagem mais memorável.

Fred, o personagem principal entra e sai do filme da mesma maneira, como uma tela em branco, ou talvez multicolorida. E apesar de o filme encerrar uma grande dúvida que a trama deixa no ar logo no início, várias outras, interpretativas, que surgem ao longo da história permanecem lá, e resta ao observador perspicaz decifrá-las.

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Tatiana Hora
 

Vendo por esse lado, talvez eu seja um scanner às vezes o.0
ah, valeu pelo comentário. mesmo!
bjos

Tatiana Hora · Aracaju, SE 23/10/2006 23:37
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Gregs
 

Havia lido algumas críticas bem negativas sobre o filme... e acabei por perdendo o interesse em vê-lo. Sua crítica me deu um novo estímulo. Parece bem interessante, mesmo ainda deixando uma leve impressão de que o filme ficou ligeiramente aquém do que ele poderia se tornar. Mas vou ver!

Gregs · Belo Horizonte, MG 24/10/2006 08:44
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Fábio Fernandes
 

É uma pena que a distribuidora do filme tenha declarado (antes da Mostra, não sei se já mudou de idéia) que não exibirá Scanner Darkly em circuito comercial - sairá direto em DVD. Ouvi críticas positivas e negativas, mas verei o filme assim mesmo (do jeito que puder, na tela grande ou no DVD). Gosto do Richard Linklater, mas alguém disse há pouco tempo que a adaptação de Scanner Darkly acabou saindo menos dickiana do que Waking Life. Não é impossível.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 24/10/2006 18:02
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Thiago Camelo
 

Fábio, acho o Linklater um dos grandes cineastas atuais. Às vezes a verborragia de seus filmes pode até soar boba, mas ele acerta muito também. Gosto muito mesmo da série amanhecer/pôr-do-sol. Ah! Gostei mais de Waking Life do que Scanner Darkly, mas realmente não sei se a surpresa da animação do primeiro também me conquistou. Achei o segundo meio bobo em alguns momentos. Vi aqui no Festival do Rio, numa sessão um tanto tarde, isso pode ter atrapalhado também... Abraço!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 26/10/2006 14:14
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Fábio Fernandes
 

Pois é, Thiago, ainda estou na expectativa. Vou reler o livro para pelo menos não sair no prejuízo. Infelizmente ainda não saiu em português (a Rocco anunciou que publicaria, mas com a desistência da distribuidora em exibição comercial ela deve ter flexibilizado o prazo).
BTW, já leste a minha nova tradução de O Homem do Castelo Alto? (desculpem o comercial) Estou terminando de traduzir VALIS, o penúltimo livro do Dick, que se não sair no Natal sairá em janeiro.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 28/10/2006 10:39
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