A terapia da arte

Arquivo Portugal Ramalho
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Tati Magalhães · Maceió, AL
21/6/2006 · 82 · 3
 

Sabe aquela afirmação meio polêmica (e até preconceituosa), que todo artista é, no fundo, um pouco louco? Pois é. A gente está tão acostumado a ver o mundo com um olhar direcionado, dirigido, que muitas vezes não deixamos aflorar nossa sensibilidade, e ter nas nossas percepções sensoriais nosso principal atestado de (in) sanidade. Mas, se por um lado o artista busca no mundo sensível a construção do seu universo criativo, por outro a arte pode ser também uma forma de externar sentimentos, sem a obrigação de constituir uma obra, ou de agradar mesmo a si próprio. Pode ser, somente, um instrumento, um meio, especialmente para as pessoas que – invertendo a ordem da afirmação do início do parágrafo – são social e cientificamente consideradas loucas e que, através de algumas atividades, revelam o artista que está dentro de si. É que, para essas pessoas, a construção de uma outra realidade, de um universo só seu, pode ser uma fuga, uma doença, mas também – e geralmente é o que acontece – é um processo muito doloroso, que pouco tem a ver com a nossas experiências sensoriais e poéticas.

Por isso mesmo, têm-se levado cada vez mais em consideração a importância da arte como ferramenta no tratamento de pacientes com problemas mentais. Essa proposição tem, aliás, uma alagoana como uma das principais referências: a médica Nise da Silveira, que revolucionou a psiquiatria mundial ao condenar os métodos tradicionais, como o eletrochoque e o coma insulínico, e ao introduzir técnicas de terapia ocupacional entre seus pacientes. Se o limite entre a loucura e arte é tênue, como defendem alguns, então a segunda seria também uma forma de revelar o inconsciente, contribuindo na identificação dos problemas apresentados ou, como diria ela, “superando obstáculos entre o mundo lúcido e a realidade”.

Para Ismael Melo Lins, 37 anos e paciente do Hospital Escola Portugal Ramalho, instituição psiquiátrica localizada em Maceió-AL, a arte é mais do que isso: ajuda o desenvolvimento, traz calma, traz tranqüilidade. Ismael foi parar no Hospital porque era alcoólatra. Foi encaminhado ao CEAD (Centro de Estudos do Alcoolismo e outras Dependências) em estado grave e chegou a pensar que não iria sobreviver. Passou 45 dias internado, mas ao sair, revelou que sabia pintar, embora sua experiência fosse com letreiros. Logo foi encaminhado ao setor de recreação, onde passou a compor quadros e painéis, geralmente tendo paisagens como fonte de inspiração. Hoje é voluntário, e continua fazendo este trabalho, que já foi exposto no shopping Miramar, também na capital alagoana. De acordo com João Neto, psicólogo da instituição, outros artefatos produzidos por pacientes que apresentam diversos tipos de doenças mentais também são mostrados ao público: são tapetes, abajours, panos de mesa, vasos, quadros, enfim: produtos artesanais que ganham um toque especial por terem sido feitos por mãos que, na opinião da maioria das pessoas, estão atadas pelos limites da mente.

“Quando um paciente é internado aqui, a gente identifica as suas habilidades. Alguns vão para a horta, outros, para o atelier, e por aí vai. Com algum tempo de contato com essas atividades, a gente já percebe uma evolução”, conta João, ressaltando que eles também têm acompanhamento de uma terapeuta educacional. Geralmente, a pessoa chega com a auto-estima baixa. A família o tem como um doente e suas potencialidades não são incentivadas. Ao ter contato com trabalhos manuais, sente que é capaz e vê os resultados do que faz, passando a se ver de uma forma mais positiva. Para alguns, é um incentivo para alimentar os sonhos. L., uma paciente que fabrica tapetes de retalhos, por exemplo, idealiza a utilização da ajuda de custo semanal que lhe é repassada pelo Hospital pelo que produz. Ela espera comprar alguns objetos, como uma enxada, para trabalhar com plantação e voltar para casa. Mas há mais de uma década mora lá. As fantasias não são, nesse caso, uma fuga: são um estímulo para que o residente não se prenda em um mundo só seu, mantenha as ligações emocionais com o chamado “mundo lá de fora”.

Boa parte dos objetos produzidos no espaço de recreação é construída com material doado. “Quando conseguimos vender os tapetes, abajours e outras peças, o dinheiro arrecadado é utilizado para a compra de mais material. Nós não exploramos o paciente, muitas vezes demoramos meses para vender”, conta João. O psicólogo lamenta a forma como a sociedade trata as pessoas com problemas mentais, julgando-as incapazes e desvalorizando seu trabalho. “Esses tapetes, por exemplo, normalmente custam R$ 25. A gente vende por R$ 12, mas tem gente que só quer pagar cinco. Os quadros do Ismael, o pessoal também não dá o valor que merece. A sociedade não perdoa quem passa por aqui”, desabafa.

Teatro, dança e festas

Se os preconceitos da sociedade podem ser vistos como empecilho para um maior desenvolvimento das artes na instituição, por outro não falta vontade de inovar e colorir a vida dos internos e residentes. Recentemente, o Hospital apostou no teatro como mais uma atividade que pode contribuir no tratamento dos usuários. Na semana santa de 2005, eles encenaram A Paixão de Cristo, mas trazida para os dias de hoje. Os cenários foram montados com painéis de Ismael, e as roupas confeccionadas com cores chamativas, para alegrar o ambiente. Foi um sucesso. E em janeiro, já repetiram a dose, encenando a vida de São João de Deus, santo protetor dos doentes mentais, cuja história era desconhecida por boa parte deles.

Mas a história não pára por aí. Tem ainda a festa pré-carnavalesca, quando desfila o bloco Maluco Beleza, com alegorias, trio elétrico, marchinhas, alas, carro alegórico... e muita coisa é confeccionada com o apoio dos próprios usuários do Hospital. O exercício das danças e a formação de grupos de folguedos também é mais uma forma de extravasar a energia dos pacientes. As mulheres formam um grupo de pastoril, apresentando as jornadas típicas e todos os seus personagens: as meninas do encarnado e do azul, a borboleta e a Diana, aquela que não tem partido. O grupo já se apresentou em diversos lugares, mostrando que os usuários são capazes de produzir nas mais diversas áreas. A rádio interna Maluco Beleza, que já foi coordenada por João, é outra opção de divertimento. Temporariamente desativada, ela tem em Raul Seixas seu ícone. Uma prova de que hospital psiquiátrico não deve ser concebido como um lugar de exclusão daqueles que não se adaptam à sociedade, mas sim um espaço onde esses obstáculos possam ser, ao menos, minimizados. E o papel da cultura e da arte, mais uma vez, se mostra fundamental.

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Erika Morais
 

nenhum comentário de edição, só te parabenizar por mais um ótimo texto e pela bela pauta.
Parabéns Tati!

Erika Morais · São Paulo, SP 19/6/2006 12:32
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Tati Magalhães
 

Valeu mesmo, Erika. Sei que a vida tá corrida, mas ainda aguardo um texto teu por aqui. Essa matéria eu fiz com todo o carinho, minha sogra, que é psiquiatra de lá, tem um quadro do Ismael. Li uns livros de poesia escritos por pessoas com transtornos mentais e fiquei super senbilizada com os textos. Entretanto, lá no Portugal, arte é como cultura com função pedagógica: não se trata de descobrir talentos ou de explorar a sensibilidade (acho que existem duas vias na sociedade: uns temem, têm ogeriza e repudiam a loucura, e outros a romantizam), mas de proporciornar expressão por outros meios. Isso enriquece o trabalho do hospital e contribui para que tenham uma vida menos difícil.

Tati Magalhães · Maceió, AL 19/6/2006 23:05
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ayruman
 

Não existe Arte separada da Vida plena. Não existe Vida plena se esta for separada da Arte.
Feliz em ler e fruir seu texto. Seu testemunho vivo. Saúde prá todos Nós...jbconrado.

Visite o site
http://www.palavrascoloridas.com.br/convidados/conrado/index.htm .

ayruman · Cuiabá, MT 21/6/2006 19:30
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