As imagens que tenho dos primeiros anos da infância muito se assemelham àquelas vistas nos sonhos e das quais vez ou outra me recordo, porque a lembrança dessas cenas oníricas, cheias de contraste entre luzes e sombras e carregadas de cores desbotadas como as de fotos antigas, é regulada por um diretor de cinema que segue uma misteriosa metodologia de trabalho, à qual tenho pouco ou nenhum acesso.
Ela não foi a primeira, nem a segunda professora que tive; pra ser preciso, foi a terceira. Não que as duas primeiras (que lecionaram nos Jardins de Infância I e II) tenham sido apagadas da memória, não o foram, tenho-as comigo em fotos, e nem que tenham sido desprovidas de importância, absolutamente, já que foram as pioneiras, figuras responsáveis pelo estabelecimento do contato entre esses seres de tribos tão díspares, criança (o bom selvagem de Rousseau) e adulto (nem sempre bom selvagem)- e que vieram em missão de paz-, sem conotações políticas e espelhinhos que não fossem as da política educacional, graças a Deus (brincando com o título de Zélia Gattai, “Pedagogas, Graças a Deus”). Os dois jardins! Época de correrias com e sem destino, entre os brinquedos de um parquinho que ficava num jardim muito bonito, de chão de terra, sempre coberto por folhas amareladas que caíam das inúmeras árvores que cercavam aquela casa que fazia parte do grande complexo que era a Residência Escola Santo Antônio, particular, internato e externato, localizado na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro- e que acabou, sei-lá-por-quê, hoje em dia é um condomínio. Após os Jardins I e II, estando no Curso de Alfabetização, talvez 1980, com a cabecinha um pouco mais desenvolvida, e já tendo dado alguns passos pouco firmes no mundo ainda próximo da toca familiar, mas que parecia tão distante quanto, por exemplo, Buenos Aires o é daqui do Rio, as recordações já se mostram mais fortes porquanto claras, além da noção acerca da figura da professora também se encontrar bem melhor constituída naquele exato momento do passado.
Maria Emília era o nome dela. Lembro-me de que era uma mulher alta- difícil saber a exatidão dessa medição de estatura, já que todos os adultos parecem enormes perante tampinhas de cinco, seis anos de idade-, de cabelos compridos, pretos, e algo grisalhos. A Tia Maria Emília tinha uma expressão severa, de modo geral- será mesmo?, ou era aquele medo infantil? Mais provável que fosse a desconfiança infantil sim-, mas me recordo de sorrisos grandes, gentis, doces. Gostava do nome dela porque era composto também por Emília, e eu era espectador assíduo d’O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ligava uma à outra, curiosas pontes erguidas pela engenharia infantil...
A fantástica e querida figura humana Maria Emília me ensinou- e junto comigo estavam mais uns vinte ou trinta coleguinhas- as vogais, o alfabeto inteiro, os números, as primeiras operações matemáticas e um monte de coisas que naquele tempo pareciam tão estranhas e complicadas, até mesmo non sense, mas que foram ganhando pouco a pouco, com a ajuda de outras mestras que a sucederam, com o passar dos anos, todo o sentido do mundo, porque representaram as fundações do edifício que não pára de crescer- e que não pode, não deve parar, nunca- e que vamos construindo ao longo das nossas vidas; do pé-de-feijão-mágico que vai até o céu, mas que, diferente do da estória, não nos faz encontrar com o gigante, e sim nos faz gigantes, gigantes como todos nós devemos e temos o direito de ser. Está na Constituição e, mais do que isso, na lei da vida.
Lembro-me de que foi com ela que efetivamente aprendi a amarrar os cadarços dos sapatos. Nunca pareceu tão fácil! Se hoje em dia, em pleno século XXI, ainda tropeço no âmbito dos calçados, é por conta de Renatoaragonice minha. Gostaria de recordar-me de um número maior de fatos, de aumentar essa parte da estória. Quem sabe agora, ou num futuro próximo, algum inventor que tenha sido alfabetizado por uma dessas irmãs-que-nossos-pais não-tiveram crie uma máquina que possa resgatar esses trechos que se enterram nas areias mnemônicas com o tempo? Por isso tudo, muito obrigado, Tia Maria Emília. Quisera eu voltar àquela época, com a cabeça que tenho hoje, para te aplaudir de pé com uma noção de reconhecimento de um adulto, mas com os olhos e sorrisos e alma de um aprendiz-criança.
Marcato.
Belas lembranças do momento mágico da alfabetização - e daquela que te conduziu no escuro...
Na Tijuca, meu amigo, tudo vira edifício...
Pudera, todas as crianças (que um dia fomos) pudessem ter a condição espiritual de compreender, de sentir, de descobrir esta verdade, que citarei, abaixo:
porque representaram as fundações do edifício que não pára de crescer- e que não pode, não deve parar, nunca- e que vamos construindo ao longo das nossas vidas; do pé-de-feijão-mágico que vai até o céu, mas que, diferente do da estória, não nos faz encontrar com o gigante, e sim nos faz gigantes, gigantes como todos nós devemos e temos o direito de ser.
Lindo texto, lindo desenho. Parabéns!
Baduh
Pois é, era uma escola enorme, bonita, abrigava crianças carentes, porque era um internato também... Creio que funcionasse ali há muitos anos; tentei pesquisar, mas não achei nada sobre. Virou um super-condomínio- por isso saí de lá-, não sei o que aconteceu. O fermento pro nosso gigantismo é a educação. Obrigado, um grande abraço!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 21/9/2007 01:32
Singelo... De versos simples e elegantes, como: "curiosas pontes erguidas pela engenharia infantil..."
Um abraço.
Que texto bonito Marcato!!! Vc tem lembrança da data do seu encontro com a Tia Maria Emília? Essa ânsia por datas não tem nada a ver com ridícula tendência da revista Caras de colocar, ao lado de cada nome citado, a idade da pessoa rsrsrsrs. É que situar no tempo as memórias facilitam o mapeamento das reminiscências de escola dos overmanos e manas. No espaço vc situou: o colégio Santo Antonio ficava na Tijuca/RJ. Engraçado, nunca ouvi falar desse colégio-residência, embora frequente a Tijuca desde tempos imemoráveis até hj (fiquei super curiosa)
Se vc me permite a respeitosa intromissão no seu belíssimo texto, fiquei achando se não viria a calhar que vc segmentasse o 2º §, especificamente o trecho que inicia com "Após os dois jardins..., que ficou mto grande, dificultando um pouco a leitura...Mas é claro que quem decide isso é vc.
Achei absolutamente expressivo vc ter chamado as tias de "irmãs-que-nossos-pais-não tiveram". Só por isso, vc mereceria um prêmio e o agradecimento eterno das tias de hj. Depois que Paulo Freire escreveu o "Professora sim, tia não", as coitadas passaram a ser meio perseguidas pq não evitam que seus alunos as chamem assim.
Claro que não estou pixando nosso educador maior, porque o que ele queria era valorizar as mestras que se ocupavam da educação de crianças pequenas, cargo que a denominação "tia" desvalorizava pq atribuia ao duro trabalho a conotação de tarefa de mulherzinha. Mas a coisa foi tão longe que, nos considerados bons colégios, é até engraçado observar as professoras explicando pras crianças que não suas tias pq não são irmãs de seus pais.
Vc subverteu isso de uma maneira tão legal que vou até imprimir seu texto e levar pras minhas alunas.
Ai, desculpe o tratado: é que me empolguei com seu texto.
Gde abraço
Ah! ia me esquecendo: será que daria pra vc incluir nas tags a expressão reminiscências-de-escola?
Puxa, marcato, que texto bonito. que lembranças boas e que palavras ternas!! Um beijo bem grande pelo feito.
Joana Eleutério · Brasília, DF 22/9/2007 13:19Felipe, obrigado pelas palavras e pela leitura, um abraço.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2007 18:33
Ize, fiz umas modificações no segundo parágrafo, obrigado pelas dicas, não foi intromissão, de modo algum.
Incluí nas modificações a data do encontro com a Tia Maria Emília e acrescentei um "talvez" só para dar um clima de mistério, hehe. Pelos meus cálculos, foi em 80 mesmo.
O colégio não era visível da rua, ficava um pouco escondido, ao fim de uma ladeira. Pra você ter uma idéia, hoje, no lugar dele, há um condomínio chamado Solar 385, na Barão de Itapagipe.
Não conhecia essa estória do Paulo Freire, muito curiosa! A intenção dele foi boa, porque, a meu ver, a educação infantil é uma das mais complexas, e é menos valorizada do que a educação de adolescentes e de adultos, infelizmente. Mas é tão simpático o chamar de Tia, não é? seria estranho, acho, ver as crianças chamando o mestre pelo nome próprio ou de Senhora ou de Professora. Creio que é um modo de tornar a figura do mestre familiar, próxima. Lembro-me de que nós, alunos, ainda chamávamos, vez ou outra, os professores de tios ou tias, no início da 5ª série do "antigo primeiro grau"- não gosto dessa nomenclatura nova de fundamentais e médios e superiores.
Vou tentar modificar as tags. Obrigado pela sua leitura e atenção, um grande abraço.
Obrigado, Joana. As lembranças boas me ajudaram a escrever o texto, fui envolvido e embalado por elas. Foi uma época muito boa mesmo. Beijos.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2007 19:14Filipe, desculpe, digitei seu nome errado.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2007 19:53Obrigado novamente, Baduh! Abraços!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 23/9/2007 00:38
Muito bom Marcato. "Não nos faz encontrar com o gigante, e sim nos faz gigantes, gigantes como todos nós devemos e temos o direito de ser..." Concordo plenamente! É a lei da vida! Abçs...
Nydia Bonetti · Campinas, SP 24/9/2007 21:43
Querido Marcato:
Acabo de chegar e vi que,mesmo com os meus fotos, a tua colaboração não será publicada (faltam 5 minutos e vinte votos) uma pena!
beijos e abraços
do joca oeiras,o anjo andarilho
Nydia, obrigado pela leitura. É um direito que vem sendo esquecido e negado. Por isso, os obstáculos também estão se tornando gigantes. Abraços!
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 25/9/2007 00:20Joca, meu camarada, foi quase. Fica pra uma próxima ocasião. Te agradeço pela força, abraços.
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 25/9/2007 00:25
Marcato,
adorei teu texto, que bela homenagem fizeste `a professora que te ensinou e encantou.
Uma verdadeira lástima se ficar de fora do projeto... Sinto somente ter descoberto o texto agora.
Um abraço,
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