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A Terceira Mestra

Escola, de Marcato Pereira
1
Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ
2/10/2007 · 56 · 13
 

As imagens que tenho dos primeiros anos da infância muito se assemelham àquelas vistas nos sonhos e das quais vez ou outra me recordo, porque a lembrança dessas cenas oníricas, cheias de contraste entre luzes e sombras e carregadas de cores desbotadas como as de fotos antigas, é regulada por um diretor de cinema que segue uma misteriosa metodologia de trabalho, à qual tenho pouco ou nenhum acesso.

Ela não foi a primeira, nem a segunda professora que tive; pra ser preciso, foi a terceira. Não que as duas primeiras (que lecionaram nos Jardins de Infância I e II) tenham sido apagadas da memória, não o foram, tenho-as comigo em fotos, e nem que tenham sido desprovidas de importância, absolutamente, já que foram as pioneiras, figuras responsáveis pelo estabelecimento do contato entre esses seres de tribos tão díspares, criança (o bom selvagem de Rousseau) e adulto (nem sempre bom selvagem)- e que vieram em missão de paz-, sem conotações políticas e espelhinhos que não fossem as da política educacional, graças a Deus (brincando com o título de Zélia Gattai, “Pedagogas, Graças a Deus”). Os dois jardins! Época de correrias com e sem destino, entre os brinquedos de um parquinho que ficava num jardim muito bonito, de chão de terra, sempre coberto por folhas amareladas que caíam das inúmeras árvores que cercavam aquela casa que fazia parte do grande complexo que era a Residência Escola Santo Antônio, particular, internato e externato, localizado na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro- e que acabou, sei-lá-por-quê, hoje em dia é um condomínio. Após os Jardins I e II, estando no Curso de Alfabetização, talvez 1980, com a cabecinha um pouco mais desenvolvida, e já tendo dado alguns passos pouco firmes no mundo ainda próximo da toca familiar, mas que parecia tão distante quanto, por exemplo, Buenos Aires o é daqui do Rio, as recordações já se mostram mais fortes porquanto claras, além da noção acerca da figura da professora também se encontrar bem melhor constituída naquele exato momento do passado.

Maria Emília era o nome dela. Lembro-me de que era uma mulher alta- difícil saber a exatidão dessa medição de estatura, já que todos os adultos parecem enormes perante tampinhas de cinco, seis anos de idade-, de cabelos compridos, pretos, e algo grisalhos. A Tia Maria Emília tinha uma expressão severa, de modo geral- será mesmo?, ou era aquele medo infantil? Mais provável que fosse a desconfiança infantil sim-, mas me recordo de sorrisos grandes, gentis, doces. Gostava do nome dela porque era composto também por Emília, e eu era espectador assíduo d’O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ligava uma à outra, curiosas pontes erguidas pela engenharia infantil...

A fantástica e querida figura humana Maria Emília me ensinou- e junto comigo estavam mais uns vinte ou trinta coleguinhas- as vogais, o alfabeto inteiro, os números, as primeiras operações matemáticas e um monte de coisas que naquele tempo pareciam tão estranhas e complicadas, até mesmo non sense, mas que foram ganhando pouco a pouco, com a ajuda de outras mestras que a sucederam, com o passar dos anos, todo o sentido do mundo, porque representaram as fundações do edifício que não pára de crescer- e que não pode, não deve parar, nunca- e que vamos construindo ao longo das nossas vidas; do pé-de-feijão-mágico que vai até o céu, mas que, diferente do da estória, não nos faz encontrar com o gigante, e sim nos faz gigantes, gigantes como todos nós devemos e temos o direito de ser. Está na Constituição e, mais do que isso, na lei da vida.

Lembro-me de que foi com ela que efetivamente aprendi a amarrar os cadarços dos sapatos. Nunca pareceu tão fácil! Se hoje em dia, em pleno século XXI, ainda tropeço no âmbito dos calçados, é por conta de Renatoaragonice minha. Gostaria de recordar-me de um número maior de fatos, de aumentar essa parte da estória. Quem sabe agora, ou num futuro próximo, algum inventor que tenha sido alfabetizado por uma dessas irmãs-que-nossos-pais não-tiveram crie uma máquina que possa resgatar esses trechos que se enterram nas areias mnemônicas com o tempo? Por isso tudo, muito obrigado, Tia Maria Emília. Quisera eu voltar àquela época, com a cabeça que tenho hoje, para te aplaudir de pé com uma noção de reconhecimento de um adulto, mas com os olhos e sorrisos e alma de um aprendiz-criança.

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baduh
 

Marcato.
É uma preciosidade para o nosso já tão desejado e querido livro "Reminiscências da Escola". Uma das crônicas mais belas das já tão belas que foram nos dadas em contribuição...
Estará, com toda certeza, presente no livro que estamos elaborando!
Um grande abraço,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 30/9/2007 20:38
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Marcato:
Eu me permito fazer sugestões, mas quero que entenda que me dou esta permissão na justa medida em que sei que ela é uma opinião, entre outras, isto é, que você pode levar em consideração ou não sem que nenhuma estrutura se abale. Estou dizendo isto porque tenho uma proposta de inversão da ordem e de simplificação do seu texto. Veja abaixo
:

As imagens que tenho dos primeiros anos da infância muito se assemelham àquelas vistas nos sonhos e das quais vez ou outra me recordo, porque a lembrança dessas cenas oníricas, cheias de contraste entre luzes e sombras e carregadas de cores desbotadas como as de fotos antigas, é regulada por um diretor de cinema que segue uma misteriosa metodologia de trabalho, à qual tenho pouco ou nenhum acesso.

Depois desta introdução, bastante poética, embora eu tenha dúvidas se necessária, eu iria direto para o terceiro parágrafo:

Maria Emília era o nome dela. Lembro-me de uma mulher alta, de cabelos compridos, pretos, e algo grisalhos. A Tia Maria Emília tinha uma expressão severa, de modo geral, mas também me recordo de seus sorrisos grandes, gentis, doces. Gostava do nome dela porque era composto também por Emília, e eu era espectador assíduo d’O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Ligava uma à outra, curiosas pontes erguidas pela engenharia infantil.

Como vê, proponho que retire observações que relativizam a descrição que você faz dela. Porque, além de óbvias, retiram a força das lembranças, aquela coisa do "lembro disso mas pode não ser isto" E o mais importante é a impressão que ela te causava, não alguma "verdade" subjacente (continua)

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 1/10/2007 02:20
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

No (seu) segundo parágrafo ( o terceiro, na minha proposta) concentram-se as mais substancias sugestões de mudança que tenho a propor no seu texto, a começar da primeira frase:

"Foi a minha terceira professora. Não que as duas primeiras (que lecionaram nos Jardins de Infância I e II) tenham sido apagadas da memória, e nem que sejam desprovidas de importância, absolutamente. Pioneiras, foram responsáveis pelo estabelecimento do contato entre esses seres de tribos tão díspares, Criança e Adulto.“Pedagogas, Graças a Deus” brincando com o título do mais famoso livro da Zélia Gattai.

Os dois jardins! Época de correrias com e sem destino, entre os brinquedos de um parquinho que ficava num jardim muito bonito, de chão de terra, sempre coberto por folhas amareladas que caíam das inúmeras árvores que cercavam aquela casa que fazia parte do grande complexo que era a Residência Escola Santo Antônio, particular, internato e externato, localizado na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro- e que acabou, sei-lá-por-quê, hoje em dia é um condomínio. Após os Jardins I e II, estando no Curso de Alfabetização, talvez 1980, com a cabecinha um pouco mais desenvolvida, e já tendo dado alguns passos pouco firmes no mundo ainda próximo da toca familiar, mas que parecia tão distante quanto, por exemplo, Buenos Aires o é daqui do Rio, as recordações já se mostram mais fortes porquanto claras, além da noção acerca da figura da professora também se encontrar bem melhor constituída naquele exato momento do passado.

Sinceramente achei muito longo, e cheio de digressões, este parágrafo, dai os cortes propostos e a proposta de dividi-lo em dois

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 1/10/2007 02:57
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Marcato Pereira
 

Querido Joca:
Agradeço as sugestões que você deu, mas discordo delas, e claro, sem abalo de estruturas, uma coisa nada tem a ver com a outra. Não acho que as observações a respeito da professora sejam óbvias; poderiam ser outras, completamente diferentes, e também acho que não comprometem a força das lembranças, até porque são as lembranças que tenho. O início do texto é necessário dentro do estilo de narrativa que decidi usar. Sobre o excesso de descrição, não acho que tenham sido tantas assim, poderia ser uma descrição até mais densa; apenas segui as recomendações feitas com relação a disponibilizar o maior número possível de dados- época, cidade, bairro, etc. A inversão de parágrafos que você sugeriu é até interessante, li da forma como você sugeriu, mas prefiro começar a descrever a professora a partir daquele ponto mesmo em que está. Agradeço novamente pelas sugestões, e fique sempre à vontade para fazê-las. Abraços.

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 22:31
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Marcato:
Só uma coisinha mais: adorei a ilustração, mas você não indicou o seu autor ou, pelo menos, de onde a tirou. Poderia fazê-lo?
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 1/10/2007 22:58
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Marcato Pereira
 

É verdade, Joca, desta vez, ao editar, esqueci de citar a ilustração. Reparado. Abraços.

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 23:02
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Marcato Pereira
 

Baduh, as lembranças que tenho dessa época são belas. Espero ter conseguido externar a beleza delas no texto. Muito obrigado pelas palavras. Abraços.

Marcato Pereira · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 23:05
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querrido Marcato:
Os primeiros 8 votos.
beijos e abraços
do Joca Oeiras,o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 2/10/2007 21:21
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baduh
 

Meti lá mais 7 votos (porque acabo de ser promovido no Over!).

Conclamo os meus overmanos a votar neste lindo texto de reminiscências!

Obrigado,

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2007 05:15
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Letícia L. Möller
 

Oi Marcato,
que bom que li o recado do Baduh em outro texto referindo o teu, e que voltei para reler. Pensei que eu ja tivesse comentado e votado, mas me enganei.
Gostei muito de ler tuas reminiscências, e espero que integrem o livro. Que bela homenagem fazes `a Tia Maria Emília.
Estou com minhas reminiscências em edição, se quiseres dar uma espiada e me dar a tua opinião ("Era uma vez um jardim de infancia").
Um abraço,

Letícia L. Möller · Porto Alegre, RS 4/10/2007 03:12
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Ize
 

Uai Marcato, tenho certeza que já tinha lido esse texto há algum tempinho atrás e que já tinha colocado um recado por aqui. Tenho certeza pq jamais poderia esquecer a expressão que vc usa pra falar das professoras: "irmãs-que-nossos-pais-não-tiveram".
Seu texto além de ser ótimo no que tange ao projeto, é uma peça literia e tanto.
Parabéns
Abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 4/10/2007 15:21
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crispinga
 

Votadíssimo!
BJOCA!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 4/10/2007 19:46
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Lígia Saavedra
 

Não cheguei a tempo, vim por indicação da Cris, li,gostei muito mas cheguei atrasada.
Um abraço.

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 4/10/2007 20:44
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