A terra dos Janduís

AG Sued
Igreja de Santa Teresinha
1
Alexandro Gurgel · Natal, RN
3/1/2008 · 196 · 7
 

Por Alexandro Gurgel

Naqueles sertões, quem passa serelepe pela estrada em direção à Serra do Lima percebe a brisa catingueira trazendo todos os aromas da terra dos índios janduís, da nação Tarairiú, extintos depois de vários combates em defesa do seu habitat. Situada na ribeira do Riacho dos Sacos, a cidade é encravada estrategicamente no cruzamento de vários caminhos entre o sertão do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, sendo núcleo convergente entre várias fazendas e os grandes centros urbanos.

É verdade que o município de Janduís não possui grandes monumentos ou lugares famosos para o turista visitar. Porém, o incentivo às manifestações culturais deu ao seu povo um talento inato para as artes, como se a identidade dos janduienses estivesse sempre ligada as suas tradições e seus costumes, sem intervenção externa. Um dos grandes alumbramentos culturais da cidade fica por conta da Companhia Cultural Ciranduís e seu teatro mágico pelas ruas do município.

Desde cedo, o pequeno jaduiense aprende que durante a colonização do sertão, existia na região uma confederação de tribos indígenas, hostis à Coroa portuguesa. Entre as nações indígenas, uma das mais destemidas era a dos Janduís, cuja denominação deriva do tupi “nhandu-í-a”, uma corruptela para “a ema pequena”. A ema seria o totem da tribo. Depois que os índios foram dizimados, surgiu o Sítio São Bento.

Conforme o historiador Luiz da Câmara Cascudo, em seu livro Nomes da Terra (editora Sebo Vermelho, 2002. Natal RN), a localidade ficou por muito tempo conhecida como São Bento do Bofete. O nome do lugar deve-se ao fato de que, as feiras ali realizadas, sempre terminavam em tumultos, havendo uma farta distribuição de tabefes, pontapés e bofetões.

A fundação da povoação é atribuída a Canuto Gurgel do Amaral, dono da maior parte das terras, que fez doação de um terreno foreiro para o padroeiro, tentando desenvolver a comunidade. Em 1938, a localidade passou a ser distrito de Caraúbas com o nome de Getúlio Vargas, mudando em 1943 para Janduís, em homenagem aos índios pioneiros da região.

Numa terra seca, castigada por longas estiagens, distante 286 km quilômetros de Natal, o município de Janduís está situado na região do Médio-Oeste, sertão do Rio Grande do Norte, às margens do pequeno rio “Adquinhon” ou “Rio das Croas”. O município sofre com o calor nesses tempos de verão por causa do terreno baixo, situado entre as partes altas do Planalto da Borborema e da Chapada do Apodi.

Por que é necessário redescobrir a história que, recentemente, um grupo de estudantes encontrou inscrições rupestres na localidade conhecida como “Pedra da Biluqueza”, um forte atrativo para a exploração de um turismo de conhecimento e ecológico. Do imaginário popular nascem as lendas da “Oiticica do Bode”, no caminho da cacimba que abastecia a cidade; e do “Serrote da Negra”, que conta a história de uma antiga escrava que morava numa Casa de Pedras e se transformou em serpente.

A noite em Janduís fica mais curta e mal-assombrada. As janelas e portas das casas mais humildes se fecham mais cedo para ouvir as histórias de Lázaro de Liuliu, um artista plástico dedicado a fervilhar a cultura janduiense n’alma dos mais jovens, no recanto chamado “Canteiro das Artes”, onde os pássaros e bichos da região são talhados em madeira e chegam para interromper a monotonia sertaneja, resgatando antigas brincadeiras de criança.

Em outubro, Janduís se adorna para celebrar sua padroeira, Santa Terezinha, quando a solidão das ruas e o ermo dos becos são quebrados pelas ladainhas dos devotos que acompanham o andor, arrastando a Santa até o altar. Da Casa Grande da Fazenda São Bento é possível ouvir o badalar do sino da matriz, avançando sobre os telhados da cidade e anunciando um sertão de lembranças.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Cintia Thome
 

Janduís, beleza de texto. O Brasil que 99% desconhece...Parabéns pela colaboração. Fiquei interesada pelo artista Lázaro, das talhas de Janduís. Teria você fotos?
Voto. Abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 2/1/2008 13:17
sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Alexandro,
Muito boa e oportuna matéria. Não sou dos que defendem
uma re-escrita da Historia do Brasil, apenas. Defendo uma relocação das terras do Brasil. O negro desterrado (e sem terra).
o indio despejado, destronado e abandonado, ambos, dará por
resultado isto: cadáveres em cada esquina a qualquer hora e a enganação em forma de rosas vermelhas na praia de Copacabana.
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/1/2008 22:02
sua opinião: subir
victorvapf
 

Alexandro, exelente texto, abrindo folhas em branco para se reescrever nossa Historia. Muitos ^Tiradentes^participarão desta escrita... Muito bem dito pelo Andre, Parabens pelo trabalho, um abraço,

victorvapf · Belo Horizonte, MG 4/1/2008 08:28
sua opinião: subir
bucadantas
 

Alex, parabéns pelo teu belo texto, tratando com justeza as belezuras do sertão de Janduis. Estamos, nós do cinema processo fazendo um filme aqui, baseado na peça "O Fuxiqueiro" [texto de Berg, companhia Ciranduis], no qual vamos contar com a colaboração do artista Lázaro Roberto.

bucadantas · Natal, RN 17/1/2008 22:11
sua opinião: subir
Rostand Medeiros
 

Alex, parabéns muito bom este teu trabalho sobre a pequena cidade de Janduís.
Lá pelos anos 90, tive oportunidade de conhecer esta cidade e conviver com suas características e seus personagens.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção, foi o gosto que o pessoal possui (ou possuía) pela corrida de “argorinha”, que era praticada perto do cemitério e era promovida por um senhor chamado Narciso. Para quem não conhece, esta é uma corrida onde odois cavaleiros, em duas raias, correm com um pequeno bastão e tem que retirar uma pequena argola de ferro que está pendurada na ponte de um barbante, isso tudo com o cavalo correndo a toda velocidade.
Era muito bonito o espetáculo.
Valeu mesmo pelo texto.
Rostand Medeiros

Rostand Medeiros · Natal, RN 25/1/2008 16:47
sua opinião: subir
Evandro Oliveira
 

"Desde cedo, o pequeno jaduiense aprende que durante a colonização do sertão, existia na região uma confederação de tribos indígenas, Hostiss à Coroa portuguesa."
Desde quando algum povo indígena foi hostil à Coroa Portuguesa?? Estes sim (Coroa Portuguesa), como INVASORES, foram HOSTIS frente aos diversos povos indígenas do país!!! O Estado Brasileiro na atualidade e conduzido pelos herdeiros da política colonial/Coroa Portuguesa ainda mantém a mesma prática Hostil de seus antecessores invasores! Estes sim, são os maiores Hostis!!!!
Vale lembrar que as populações indígenas do país e do continente são os LEGÍTIMOS habitantes da região, pois já estavam por aqui antes mesmo da formação do Estado Brasil ou de outro Estado Nacional do continente!!
Nunca coloquem o Indígena como Hostil/inimigo dos brancos!!! O hostil e inimigo dos indígenas são os brancos! A história mostra isso e tal prática hostil ainda é permanente na atualidade..basta ver o perfil do Congresso Nacional.

Evandro Oliveira · Aracruz, ES 26/12/2012 17:47
sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Há uns versos do autor de cordel que diz assim:

"No combate a invasão
Do holandês bem armado,
Estimulam o casamento
Para produzir soldado.
E, depois, o triste fim:
Dizimaram o janduim
O povo mais misturado.....
................
e por ai. vai;.;;;;;

Andre Pessego · São Paulo, SP 26/12/2012 19:47
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados