A terra é Redonda

Henrique Araújo
Redonda no "retângulo mágico"
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
21/7/2007 · 273 · 5
 

Redonda é perfeita. Não uma circunferência perfeita, modelar – mas, ainda assim, perfeitíssima. Começa na Ponte, termina na Ponta. Ou o inverso: nasce na Ponta, encerra-se na Ponte. Entre uma e outra, águas claras, larga faixa de praia, três ou quatro pousadas, muito jogo de bola no finalzinho da tarde, jangadas que retornam mansas do mar, cumbucas cheias de lagosta. Uma comunidade de pescadores cujo índice de violência é quase nulo, uma escadaria que nos conduz ao cenário de cartão-postal por excelência, vastas plantações de cajueiros e coqueiros, uma praça chamada Boca do Povo. Uma sessão de cinema. Perfeita, não custa repetir.

A meio caminho da Ponte e da Ponta, local de muita conversa e também de trabalho, um amplo espaço como que originalmente destinado a grandes festejos. Curtas-metragens projetados num telão cujas dimensões superam em muito qualquer vela de jangada, por exemplo. O pescador confirma: “Aqui nos reunimos durante as festividades, no São João, final de ano, carnaval. O espaço é sempre este. Tudo acontece aqui”. Naquela noite de quinta-feira, 12 de julho, não seria diferente. Muito menos igual aos outros 364 dias do ano.

Antes, um parêntese. Primeiro: procure imaginar-se em terras de Icapuí, município distante 200 km de Fortaleza. Está-se a um passo do vizinho Rio Grande do Norte, a palavra denuncia. Melhor: anuncia. Ali diz-se “o peixe é de Raimundo”, “a cerveja é de Henrique” – que maravilha.

Em Redonda, uma das mais belas praias de Icapuí, identificar os extremos – as tais Ponte e Ponta – é fácil. A qualquer hora do dia, com os pés atolados na areia, olhe para o seu lado direito. Antes da curva, a Ponte, um enorme paredão rochoso cor de açafrão. Parece falésia, ou uma duna caduca, já sem mobilidade, encolhida no seu cantinho. “É um rochedo”, explica Sidnéia Luzia, 28 anos, pescadora, massagista, jogadora de futebol e, agora, cineasta. Enfim, duas das grandes atrações de Redonda, ela e a Ponte. Do alto do rochedo, fica fácil entender os motivos que levaram os nativos de lá a batizar aquela praia de Redonda. As pontas parecem tocar-se, o rochedo e a praia de Ponta Grossa, a alguns quilômetros dali, formando-se um grande arco, um quase círculo. Um paraíso sem saídas de emergência.

Um pouco antes do almoço, a caminhonete branca do projeto Revelando os Brasis encosta junto ao meio-fio. Dentro dela, além de duzentas cadeiras de plástico e as tralhas que, se bem-encaixadas e aparafusadas, transformam-se, em algumas horas, num baita telão de cinema, há uma cópia dos filmes que logo mais, a partir das 19h30, seriam projetados como parte do Circuito de Exibição nas Cidades – Ano I. Realizado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (Minc) em parceria com o Instituto Marlin Azul, Revelando os Brasis vem percorrendo, de uma ponta a outra do país, em duas rotas distintas, desde 24 de maio último, os quarenta municípios contemplados – mais vinte e uma capitais – em seu primeiro ano de vigência. Entre eles estão, além de Fortaleza, as cidades de Icapuí e Croatá, no Ceará, ambas com menos de vinte mil habitantes, um dos critérios para escolha das propostas.


Ela é rara

“Uma amiga me falou do projeto, disse que eu tinha de participar. Estávamos em 2004. Eu falei que queria contar a minha história, mas não sabia como. Ela disse ‘você escreve do seu jeito, depois eu faço a inscrição’. Ela fez, sim. Eu também queria muito conhecer o Rio de Janeiro, era um sonho”, relembra Sidnéia, diretora de Uma pescadora rara no litoral do Ceará, documentário que, em quinze minutos, não consegue dar conta da vida da menina. Não por ser deficiente ou vago. Ao contrário, o curta é bem dirigido, tem ótimas imagens e cenas belíssimas do cotidiano de Sid, como é conhecida em sua comunidade. O problema está nesse mesmo cotidiano abordado no filme. Das quatro e trinta da manhã, quando levanta para entrar, em dias alternados, no mar, até o cair da noite, Sid quase nunca pára. Pode ser vista, sim, cortando, montada numa moto duas vezes maior que ela, a praia de Redonda, ciceroneando os amigos de fora ou apenas dando umas voltas. No mais das vezes, está fora da vista de todos, no alto dum coqueiro ou na cozinha de casa.

“Um dia, estava em casa, o telefone público tocou. Era pra mim, fui atender. Essa amiga disse ‘Sid, teu sonho de conhecer o Rio vai se realizar'.” Ela pára. Aqui, Sidnéia chora. Estávamos na pousada onde a equipe do projeto, dos montadores do telão ao fotógrafo, ficara hospedada. Sid, de frente para o mar que conhece como o quintal de casa, ironizou o próprio choro. “E ainda dizem que eu sou forte.”

Ainda em 2004, como um dos quarenta selecionados, ela foi ao Rio, viu o Cristo em seu eterno abraço, tirou fotografias, conheceu as praias, fascinou-se. E, em pouco mais de uma semana, adquiriu noções de roteiro, produção, câmera e som. “A rotina era intensa, a gente mal tinha tempo de visitar a cidade, conhecer alguma coisa.” Na volta, chamou Valdo Siqueira, amigo e produtor, para ajudar na confecção do documentário. O resultado, pronto em 2005 e exibido numa sessãozinha na praça Boca do Povo e, noutra maior, no Cine Ceará daquele mesmo ano, ainda teria uma prova de fogo, marcada para dali a algumas horas.


Os vultos de Maria

Maria Clara assiste à montagem sentada no batente de uma construção em alvenaria inacabada. Parece acompanhar tudo com atenção, enxergar cada movimento realizado pela equipe que, em algumas horas, transforma um emaranhado de alumínio e correntes em um cinema de fazer inveja a qualquer um, porque armado sob um céu magnífico e de frente a um cardume de jangadas multicores.

“Eu tô aqui, mas não tô vendo muita coisa. Só os vultos”, diverte-se a senhora de “setenta e poucos anos.” Ela procura saber o que, afinal, está acontecendo. “Foi a Sid quem trouxe pra cá?”

Operada de catarata há alguns meses, Maria Clara diz não ter se recuperado totalmente e, por isso, não poder acompanhar a sessão de cinema. “Sim, o filme é sobre a menina. Eu sei que ela é muito danada, faz coisas que só homem faz. Trepa em coqueiro, vai pro mar.” Ela, dona Maria, cala-se, apruma a cabeça na mão e olha para o alto. Um homem dá, trepado num “coqueiro” metálico, voltas e voltas com uma corrente, o que a impressiona, mesmo sem conseguir imaginar muito bem a que altura ele está. “A menina é danada mesmo.”

Maria também. Atrás da mercearia de Ribamar, o serrote estende-se chão acima. A escadaria, com cerca de 250 degraus acidentados, serpenteia entre as rochas. É lá do alto da serra, antes de chegar ao cajueiral, que vem dona Maria Clara. “Eu venho pra cá tomar ar, conversar. Aqui é minha vida, meu avô morava ali em frente”, diz apontando. Hoje, dona Maria vive com um dos filhos numa casinha. Os demais cuidaram em espalhar-se Ceará afora e adentro. “Venho no final da tarde, volto umas oito horas. Ninguém mexe com ninguém, ninguém rouba ninguém, ninguém mata ninguém.” Ela coça os olhos com o nó dos dedos, arregala-os um pouco. Em seguida, cospe no chão. “O último que mataram aqui foi morto por alguém de fora.”


O arquiteto de Redonda

A calmaria de Redonda, mais as categóricas afirmações de Maria Clara, são confirmadas por José Ribamar, ex-pescador, comerciante de 55 anos, mestre de obras e avô coruja. “Eu vivo aqui, mas nunca fui assaltado. Eu posso é deixar esse comércio aberto, esses botijões de gás aí que não acontece nada. A não ser que seja alguém de fora.” Rogério, pele queimada, aparência de surfista e amante do reggae vai na mesma toada: “Se você vier pra cá, pra uma festa e cair por aí, vem alguém e te leva pra casa, te coloca num quarto. Ninguém mexe contigo, não”.

Ribamar, evangélico, ainda está em dúvida se assiste ou não ao filme de Sidnéia. Perguntado, demonstra certo interesse, mas logo sai para despachar um freguês. Quando volta, é com outro assunto debaixo do braço. Ribamar considera-se o grande construtor de Redonda. “Tá vendo ali? Fui eu que levantei. Ali do outro lado, também. Essas casas todas aqui na frente eu construí ou ajudei a fazer”, inventaria, sem modéstia. Não fosse o acidente que sofreu no mar – “Caí na jangada e bati com as costas num pedaço de madeira” –, ainda estaria assentando tijolos na comunidade.

Itamara Maria Cecília, 1 ano e 4 meses, aproxima-se, desconfiada. O avô derrete-se, sorri. Um riso contraído, quase duro. Depois de explicar todo o processo de captura da lagosta e de venda do apurado a uma única empresa, a Compescal, Ribamar confessa: “Não saio daqui, Redonda é tranqüila”.

Não quero morar noutro lugar bem que poderia ser o lema de Redonda, o seu mantra, a que rapidamente nos acostumamos e passamos a entoar. Eis o perigo de lá.


Redonda no “retângulo mágico”

Marcada para as 19h30, a aparição de Sidnéia na tela grande só aconteceu mesmo às 20 horas. É que, por uma feliz ou infeliz coincidência, realizava-se, naquele mesmo instante, uma missa alusiva aos trinta dias decorridos desde a morte da avó de Sid, dona Germana, aos 78 anos. A igreja, pintada com um azul clarinho e espremida entre blocos de casas pertencentes à pousada O pescador e a particulares, encheu-se num repente. Crianças, jovens e adultos de Redonda disputavam cada metro quadrado do interior do templo e, do lado de fora, os parapeitos das duas janelas. Da escadaria da pousada tinha-se uma estimativa aproximada do quanto dona Germana era importante para aquela comunidade de pescadores.

“Ela era uma benzedeira, rezadeira. Ajudava todos aqui a fazer a ‘passagem’ de uma forma tranqüila. Todos procuravam ela”, tentou explicar Sidnéia, para quem a avó era, além de tema do próximo documentário (Aos mortos de morte morrida, vencedor do edital da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, ainda em fase de produção), um porto-seguro. Na cidade, logo após a “morte morrida” de dona Germana, o burburinho resumia-se a saber quem, ali, podia substituí-la nas suas funções. A resposta veio rápida: ninguém.

Pouco antes das oito horas, as ondas quebrando calmas na praia, Redonda ocupa as duzentas cadeiras disponíveis em frente à tela, as calçadas próximas, os muros, os meios-fios, a traseira do caminhão-projetor, os banquinhos de cimento. O tampo da mesa de sinuca no alpendre do bar vira uma espécie de arquibancada. Os demais, sem incômodo aparente, ficam de pé, olhos arregalados. Querem ver Sid.

Sid, cujo nome, admite, vem de Sidney Magal, chega acanhada. Ainda na apresentação, agradece aos que a ajudaram durante a produção do filme. Faz questão da presença dos amigos, do pai, que, mais tímido que a própria filha, cruza a platéia para postar-se ao seu lado. Em seguida, vai embora. Ainda abalado pela morte da mãe, ele não aguarda a exibição. Dias depois, Sid relata: “Nem lembrava mais de ter visto meu pai chorar. Naquela noite, ele chorou”. Quem disse que pescador é esse rochedo em forma de gente?

O filme começa com o barulho ensurdecedor das águas do mar, num final de tarde ou começo de manhã, já não se sabe. A platéia suspira, silenciosa. Em seguida, vêm os depoimentos. Vanderlei Bezerra, dono da pousada: “Mulher não foi feita pra tá no mar. Nem mulher, nem criança”.

“Ele tinha dito coisa pior, a gente teve que cortar na edição”, revelou Sidnéia. A platéia ri bastante a cada nova declaração mais ou menos cômica. O “Senhor de Rosa”, por exemplo, arranca gargalhadas ao comentar as múltiplas atividades de Sid. Entanto, nem só de graça vive o cinema, aqui ou em qualquer parte do mundo. Regilene da Costa, pessoa muito querida de Sidnéia, casada e hoje morando na França, em meio a tantos risinhos e piadinhas, põe, sem medo, o dedo na ferida de Redonda. “Uma vez minha mãe disse pra mim: ‘Mulher, num vai lá na casa da Sidnéia, não. Ela pode querer te agarrar’”. Regilene foi. À revelia da mãe, eram muito amigas.

Firmes, as palavras de Regilene parecem mexer um pouquinho com o público, que, mesmo rindo, demonstra certo nervosismo. No dia seguinte, em rápida conversa, Sid explica. Após a primeira exibição do documentário em Redonda, ainda em 2005, Regilene ficou dois dias sem ter onde dormir. A mãe a expulsara de casa quando assistira ao depoimento que a filha havia dado. Sid acabou acolhendo a menina em sua casa.

Mais alguns depoimentos e o filme termina. Quinze minutos entre o silêncio e os aplausos. Fortes e demorados, guardados especialmente para aquela quinta-feira de julho. Givanaldo, de 11 anos, ainda sentado na primeira fileira: “Gostei mais quando ela entra no mar, empurrando a jangada”. O amigo discorda: “Legal foi ela jogando bola”. Fosse jogando bola, subindo em coqueiros, empurrando a jangada ou empunhando uma câmera, Sidnéia, no final das contas, concretizara um sonho: contar a própria história.

A própria e, com ela, a de Redonda. Porque ali, de uma forma ou de outra, todos se parecem, têm traços comuns, dores comuns. Dizer de um é dizer de todos. Em seu último depoimento, nos instantes finais do curta, dona Germana confirma a impressão de quem chega doutras terras. Enquanto trança, habilidosa, uma toalha, ela conversa com a câmera. “Eu gosto muito de Redonda. Aqui é tudo uma família só. Quando um tem uma dor, o outro sente.”

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Ilhandarilha
 

Que rico esse seu texto, Henrique. Logo que olhei, pensei que vc poderia ter colocado algumas fotos de Redonda para a gente (deve ser um lugar lindo!). Mas ao ler o texto, vi que ele é um retrato muito nítido do lugar, da Sid e da gente de lá. Uma fotografia nítida e muito bem enquadrada de um lugar onde "quando um tem uma dor, o outro sente." Acho que senti também, não só a dor, mas a alegria da realização da Sidneia, ao ler o seu texto.

Ilhandarilha · Vitória, ES 17/7/2007 19:40
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Bem, as fotos estão aí, Ilha. Agora, é só comparar as duas Redondas...

Abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 17/7/2007 19:46
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Ilhandarilha
 

As duas são uma só, e linda!

Ilhandarilha · Vitória, ES 19/7/2007 22:14
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Mais fotos de Redonda aqui.

Em tempo: os registros são de Ratão Diniz, um cara 100% que conheci na viagem. Ratão cobriu uma das duas rotas do projeto. Aproveito também para puxar a orelha dele: cara, onde as fotos que você me prometeu enviar, ainda em Fortaleza?! Tô na espera, meu chapa.

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 20/7/2007 09:42
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beatriz leal
 

maravilhoso...

a foto está sensacional.

beatriz leal · Brasília, DF 23/7/2007 13:11
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