Num momento em que o grafite paulistano ganha espaço privilegiado em museus e galerias nacionais e internacionais, chega às ruas um título (A Arte de Jaime Prades. 252 páginas, R$ 80,00) que joga luz sobre os primórdios da arte urbana na cidade. O livro é sobre a obra de Jaime Prades, responsável, junto com o grupo Tupinãodá, primeiro coletivo brasileiro de arte urbana, pela ação emblemática que inaugurou o concreto ainda virgem do túnel da Avenida Paulista em 1989 (mural As Máquinas). Como os grafiteiros de agora, Jaime foi das ruas para as paredes da Galeria Subdistrito, a mais descolada da época, e para o Masp, buscando novos formatos e suportes que mantivessem o espírito livre e despojado dos muros em suas obras. É interessante notar onde levaram esses caminhos e as reflexões de Jaime, em obras de grande expressividade que, como notou o critico Fábio Magalhães, autor da apresentação do livro, estão hoje mais alinhadas no universo de Frans Krajcberg do que no dos grafiteiros da nova geração.
"Você é Tupi daqui ou Tupi de lá, Você é Tupiniquim ou Tupinãodá?" Esse verso deu origem ao nome do primeiro coletivo de rua no Brasil, o Tupinãodá, no qual o artista Jaime Prades, brasileiro nascido na Espanha, radicado em São Paulo desde 1975, fazia parte. Diferente de hoje, fazer arte nas ruas da São Paulo do início dos anos 80 trazia uma carga pesada de clandestinidade. Com o País dando os primeiros passos rumo à democratização política, tornava-se muito arriscado realizar qualquer tipo de manifestação no espaço urbano. Foi nesse contexto que Jaime Prades e outros artistas de rua desenvolveram técnicas para realizar suas intervenções. Uma solução era a formação de grupos que se revezavam entre o fazer artístico e a vigilância do espaço, para evitar a censura policial. Assim nascia o pioneiro Tupinãodá.
O coletivo realizou uma série de intervenções com altas doses de crítica social, como a instalação com sacos de lixo nos jardins em torno da FAU/USP, em 1984. Painéis produzidos com giz, o que dava aos trabalhos um caráter essencialmente efêmero, viraram uma das marcas do coletivo, que na fase inicial era composto, além de Jaime Prades, pelos artistas plásticos Zé Carratu, Milton Sogabe, César Teixeira e Eduardo Duar. A sede do grupo, na ruazinha Luís Anhaia, na Vila Madalena, era dividida também com o geógrafo Antonio Carlos Robert Moraes, autor do verso que deu nome ao coletivo.
Segundo Fabio Magalhães, Prades construiu uma linguagem poderosa à margem do que acontecia nas galerias, exposições e museus e até hoje se mantém coerente ao espírito livre e transgressor da arte urbana. “O artista e seu grupo ocuparam os espaços da cidade sacralizando-os pela inserção da arte, e profanando a arte pela sua inserção nos muros e nas empenas da cidade”. No início dos 90, Prades passa a atuar sozinho e, ao mesmo tempo, se distancia da rua como suporte para a realização do seu trabalho. Mas, o universo urbano ainda é sua fonte de idéias: “...a rua vai contaminando o ateliê, o ateliê vai contaminando a rua, e eu vou encontrando soluções em um espaço que trago para o outro. Eu vejo como uma espécie de respiração, um processo mútuo de inspirações”, diz o artista.
No ateliê, o autodidata Jaime Prades seguiu experimentando novos materiais. Suportes de madeira, dejetos de construção civil, pedaços de móveis, concreto, ferro, fiberglass, deram formas a diversas séries, como os Bastardos, os Verticais, os Absurdos, os Cósmicos, os Pacificadores, entre outras.
Em 2009, Prades voltou às ruas do centro degradado de São Paulo para colar seus adesivos – um mapa mundi (série Ícones) – em 200 lixeiras, “criando um estranhamento pela obviedade panfletária, denunciando a fragilidade da nossa natureza humana”. Ao mesmo tempo, em seu ateliê debruçou-se sobre o mesmo tema, produzindo a série Natureza Humana, da qual faz parte a árvore que estampa a capa da publicação. Segundo Magalhães, são obras dramáticas, comoventes.
“Jaime reconstrói uma árvore a partir de tábuas e pregos. Cria uma metáfora de vida natural com pedaços de madeira, sobras de construção civil. A tábua é, em si mesma, um cadáver de árvore; já a tábua como dejeto da construção representa uma morte superlativa, um passo adiante na escatologia de todas as coisas. Jaime usa esse elemento morto, escancaradamente morto, para reconstruir a “natureza” árvore. O resultado é surpreendente”, afirma o crítico.
Lançamento: A Arte de Jaime Prades
Editora: Olhares
Número de páginas: 252
Preço: R$ 80,00
Data: 2 de dezembro, às 19h
Local: Livraria Cultura - Av. Paulista 2073 – térreo Conjunto Nacional
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