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“A trajetória de um escritor é o seu presente”

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Patrick Brock · Salvador, BA
27/4/2006 · 119 · 4
 

(ruído de peixes, um aquário, gás carbônico borbulhando, uma lotérica, treze freiras sefarditas, o vendendor de caldo de cana, um chope abandonado no balcão do café do Teatro Castro Alves. um DVD horrível de Fagner. é o mais ou menos como a moça que transcreveu a fita me descreveu o som ambiente. o chope abandonado é por minha conta.)

BROCK: Trouxe as perguntas. Nada complexo demais não. Se liga: vou ler o que tinha planejado pra a abertura. "Mayrant, professor, autor, não gosta de carro próprio ou outras coisas consumistas. Mas não é marxista, comunista ou outras istas mais em voga hoje em dia. Ele tem a consciência profunda, crítica, está imerso no ambiente acadêmico mas não se deixa contaminar pela prosa conservadora ou pelas palavras seguras. Seus contos e poemas mostram uma outra Salvador, diferente das memórias de infância ou dos devaneios pastoris que já se tornaram repetitivos, uma cidade ensolarada e cruel. Depois de Dizer adeus (Edições K, 2005), Recordações de andar exausto (Aboio Livre, 2005) e O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003), ainda tem muita coisa no baú meticuloso de Mayrant. Confira entrevista com o homem"

MG: Lembra a matéria que você fez comigo no Correio, quando lancei o Inédito de Kafka.

BROCK: Talvez eu jogue fora. Tô sem tempo. Escuta, como andam as coisas: trabalho, vida cotidiana, produção literária?

MG: A produção literária vai bem. Estou com um romance quase pronto e três livros de contos. Destes, dois estão finalizados, pois reúnem os relatos que publico, periodicamente, no Correio da Bahia. O outro está em fase de revisão e ainda levará algum tempo para ficar publicável. A vida é a de sempre, e o trabalho, o que se pode fazer nesse país sempre exótico e surpreendente, para o bem e para o mal.

Como você avalia a repercussão de suas obras publicadas até agora?

Há uma repercussão relativa entre os amigos-escritores e meus alunos na Universidade, que em geral estudam e fazem literatura. Apenas. Mas acho isso bom, pois a crítica atual me assusta, com o seu amadorismo, sua arrogância e desejo de fazer da literatura outra coisa.

Para você, o que falta para a Bahia crescer em produção/consumo de literatura?

Falta educação formal de nível e conscientização de que a literatura também é conhecimento, embora sutil, cifrado, indireto, refinado. Mas o que fazer com uma comunidade que acredita que o dicionário é o pai-dos-burros e que ler demais deixa o sujeito maluco? Para muita gente na Bahia, livro é livro didático ou então a Bíblia. No máximo concebem a existência de um poema (e, assim mesmo, com rima e métrica), o que não é nada louvável, já que a poesia é o gênero da alma, das nomeações possíveis, e está dentro de nós muito antes de existirmos.

Como andam as aulas de literatura na UEFS? Você vai de Topic, como se locomove até Feira?

Vou a Feira de Santana num ônibus terrível, que é a própria representação da nau do inferno. De manhã, todos vamos dormindo porque é cedo demais (temos que acordar às 4:30), e de noite, porque estamos estafados, prestes a cair. As aulas são a compensação, embora não para todos os professores.

Ainda é difícil viver de literatura, mas você acha que os meios técnicos aproximaram o autor/leitor, e facilitaram a veiculação da produção?

Penso que a quantidade de leitores de literatura aumentou com a internet. Por outro lado, a rapidez deste veículo de comunicação promoveu uma baixa na qualidade literária do texto, que hoje vem sendo avaliado (e consumido) pelo que diz e não como diz. Em literatura, os assuntos são sempre os mesmos, o que muda é a forma, o tom, a proposta, a intenção, o objetivo. Concluo, portanto, que a disseminação da literatura via internet pode resultar numa cilada, das mais ambíguas e cruéis. Ser ao mesmo tempo um benefício à literatura e a dissolução da mesma.

Qual é o seu objetivo como escritor? Qual é sua orientação artística?

Meu objetivo é escrever. Publicar nem tanto. Mesmo porque os editores não têm muito interesse pelo que escrevo. Estou na contramão. Na verdade, todo escritor genuíno escreve para compensar qualquer coisa, certa inadequação com o mundo. O fato de se tornar mais ou menos profissional é uma conseqüência de sua aceitação junto aos leitores. Minha orientação artística é a de escrever com liberdade e arte, lançar mão de qualquer assunto ou história e da forma que eu julgar mais adequada, a partir do meu ponto de vista. Como disse João Antônio, “exercitar a forma como sombra do assunto”. Em poesia, procuro extrair o máximo da linguagem, fazer com que ela expresse de maneira nova o impossível. Um texto cifrado, polissêmico, musical e irônico.

Beleza. Fale sobre seu cotidiano, como passa o dia.

Tá brincando (inaudível) pô, tá parecendo Contigo isso aqui.

Conta porra! Você não tá levando a sério isso aqui... Pô, envolve dinheiro público, renúncia fiscal... Fale sobre o cotidiano, cotidiano!

Não tenho muito a dizer sobre isso. Observo tudo à minha volta, sonho livros que nunca escreverei, leio outros muito estranhos como O lado escuro dos céus (sobre acidentes aéreos), escrevo sempre, todos os dias, rabisco idéias (que muitas vezes aborto) e trabalho, como todo mundo. Costumo escrever a qualquer hora, mas tenho preferência pelas manhãs, quando a
mente está vazia, limpa, e as idéias se estabelecem melhor. Costumo dizer que sou preguiçoso, meio acomodado, e sou mesmo. Ainda assim, cumpro minhas obrigações, quaisquer que sejam, mesmo as mais difíceis, com certa auto-suficiência. Quando digo que sou preguiçoso, é porque, pessoalmente, deixo muita coisa para o dia seguinte, sem nenhum sentimento de culpa.

Venha cá... Seu trabalho com as oficinas de literatura, como é isso?

É uma espécie de complemento às aulas de Teoria da Literatura. É quando os alunos chegam para ler e escrever textos literários sem a obrigação da avaliação. O deleite estético e de assunto, conhecimento da obra como arte atemporal e estrutura divergente, é o que vigora. Acontece o mesmo quando a oficina é de cinema. Levo para os alunos um grande filme do cinema mundial, e o vemos juntos, pelo prazer da narrativa, das metáforas, das ironias, da eterna novidade da arte. Fiz isso recentemente com Todas as mulheres do mundo, do Domingos de Oliveira, um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, e um dos mais subestimados, e que jamais vai envelhecer. Os alunos não o conheciam e ficaram impressionados com a carga de significados, a estética, a variação narrativa, o arrojo. Ganhamos o dia, então.

Você, que já publicou por uma editora grande, quais as dificuldades que você vê para o escritor no Brasil, e para você em particular?

As dificuldades são inúmeras. Os editores não lêem o que você escreve e devolvem o pacote com a maior cara de pau, dizendo que “o livro, embora de qualidade, não se encaixa na linha editorial da casa”, ou então que “já estão com o biênio de publicações fechado”. A quem eles pensam que enganam? Não passam de uns amadores, que pretendem publicar, por um lado, só Coelhos e, por outro, só clássicos, lidos e relidos eternamente. Mas como vão descobrir os “coelhos”, se não lêem o que os autores lhes enviam? É algo paradoxal. Certa vez, enviei um livro a uma editora de São Paulo numa terça-feira e no sábado o recebi de volta, com um carta lacônica, cujo resumo seria este: “Não nos mande mais nenhum livro, não temos nenhum interesse em publicá-lo”. Pelo menos este foi mais honesto. Mas há diversas outras dificuldades, como o preconceito dos leitores com a literatura brasileira, acostumados que estão com as obras traduzidas, transcritas numa linguagem padronizada, que suprime grande parte do estilo do autor. Daí, quando abrem um Machado, um Graciliano, um João Antônio e se deparam com uma língua diferente a cada autor, se desesperam, não se adaptam e saem pelos salões dizendo que o autor brasileiro não presta, não sabe escrever. Na verdade, é o leitor que não sabe ler. Ignora que existem estilos, formas, estéticas, modelos, variações, procedimentos, e que a língua da tradução é só uma escolha, a mais fiel à gramática talvez, e que os autores vernáculos violam isso de propósito, pois imprimem aos seus livros seu estilo, sua pessoa, pois, afinal de contas, o estilo é o homem, o que o artista é e como vê o mundo. Cada autor brasileiro é uma modalidade nova do português, com a qual o leitor, se competente, deve saber lidar. E devemos seguir o ensinamento de Giacinto Scelci: “Não diminuir o significado do que não se compreende”.

Tô com fome. Você fala demais.

Mas isso aqui não era uma entrevista?

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Balbino
 

Cara muito legal e solta essa forma de entrevistar...vocês devem ser amigos?, deliciosa...
Mayrant, você é tão claro, também tenho essa idéia de que não sabemos ler. "Acordo sempre lendo bulas, navego, navego e bulas, velhas bulas travestidas de roupa nova, limpinha, asseadas bundas cagonas" é isso...valeu!

Balbino · Cuiabá, MT 27/4/2006 12:16
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Viktor Chagas
 

Caras, não sei do que gostei mais: se do estilo da entrevista que o Patrick pôs, se da fala contundente e correta do Mayrant, se do comentário chave-de-ouro do Balbino. Vibrei, vibrei, vibrei... :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2006 13:09
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Delfin
 

Patrick, eu sei que o Mayrant é o Mayrant Gallo, e eu sei que não conheço nenhum outro Mayrant, mas, sei lá, como você o identificou como MG, talvez em algum lugar o sobrenome pudesse ter sido citado.

Abrazón!

Delfin · São Paulo, SP 29/4/2006 15:38
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Demetrio Panarotto
 

Fala Patrick, a entrevista está muito legal mesmo. Parabéns!!
Abs!!!

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 3/5/2006 12:21
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