A Vila Dos Bucheiros
“... do pequeno pedaço de chão situado entre as linhas da Mogiana e o Córrego do Piçarrão, limitado pela Avenida João Jorge e a Rua Joaquim Vilac..”
Duzentos metros apenas separam a Vila Industrial do Centro de Campinas. Duzentos metros são a conta certa, a metragem exata, suficiente para aproximar este bairro da cidade que, antes, dava-lhe como função aquela que ainda hoje tem as periferias: segregar quem a sociedade quer esconder, e que naquele tempo eram os variculosos e os morféticos, relegados aos Lazaretos.
Hoje, as periferias são outras; e a Vila é um bairro a 5 minutos do centro. O túnel que, em 1918, tornou-se uma opção — à porteira do Capivara ou à rua Pereira Lima — como passagem para a Vila, hoje revela uma realidade totalmente diferente. Esse portal mágico, fruto da expansão do pátio de manobras do leito ferroviário, desemboca nesse vilarejo bucólico, onde parte de nossa história descansa e, adormecida, aguarda seu resgate resistindo, ainda que de forma improvável, à especulação imobiliária.
Ali, onde residem mais de 20.000 pessoas, 50% da população é composta por aposentados, e ainda resta tempo para uma boa “prosa” de vizinhos que, recostados na esquadria das janelas, sentados nas calçadas, espichados em cadeiras, equilibrados em tocos de árvores ou no beiral da porta — como sempre foi desde há muito tempo —, conversam ao fim da tarde.
As casas — quase sempre com suas portas e janelas na rua —, revelam no seu interior que, noutro tempo, foram ocupadas pelos operários da ferrovia. Ainda lembram gente de além mar que deixou sua descendência bem marcada nesse pequeno pedaço de chão, pois ainda hoje podem ser vistos em rostos juvenis, os traços de “Manelisis e Marias" vindos de lá, misturados com as rosadas bochechas italianas.
Ao visitar a Vila Industrial, é impossível não remontar esse passado que, para quem é morador, ainda é tão presente. Afinal, a Vila transmite, reconta e reinventa sua historia oral: como nas histórias de esqueletos na Rua São Carlos, que são conhecidas por todos e transformadas quase que em “lenda urbana” pela molecada do Antonio Vilela Júnior. Quem estudou lá, bem sabe, conhece a Loira do Banheiro mas, muitas vezes, nem imagina que realmente houve uma escavação, quando foram retiradas ossadas provenientes do antigo cemitério, em 1919.
Esse bairro onde, em 1872, foi inaugurada a linha férrea, viu sua cidade crescer trazendo “o progresso” para a periferia campineira. A ocupação começou perto dos antigos cemitérios que serviam à população antes da construção do cemitério — do fundão — da Saudade. E assim, a Vila ganhou uma de suas particularidades: a numeração de leste para oeste, contrária a todo o resto da cidade. Vila ainda pequena que, em 1900, tinha uma Av. João Jorge ainda com o nome de Estrada de Itu e ruas Sales de Oliveira e Francisco Teodoro, curtinhas, indo até Rua São Carlos.
Os Curtumes Campineiro e Cantúsio, o Matadouro e algumas outras indústrias denominaram esse bairro que tinha uma Francisco Teodoro comprida indo até a Rua Pereira Lima — hoje, via de acesso a Sul-Leste. Um bairro isolado, que tem como visão a face cega do relógio da Estação; um bairro com passagem obrigada pela porteira do Capivara, no atual Viaduto Miguel Vicente Cury ou pela Rua Pereira Lima onde, no cruzamento com a Rua Antonio Manuel, Correa de Lemos — hoje, nome da praça do Teatro Municipal José de Castro Mendes —, tinha sua indústria fabril. Aliás, não só a indústria lhe pertencia, mas também a própria praça que hoje recebe seu nome era propriedade sua. Como Francisco Barbosa Pupo, em suas muitas memórias, menciona: era ali que ficava o Quintalão e o tanque circular que era protegido por um “Manelis”—como para ele, deviam se chamar todos os portugueses de tamancos— zelador.
A Vila foi o bairro onde Florencio Cantuso edificou sua casa, na Rua Sales de Oliveira, esquina com São Carlos. Casa vistosa, tombada em 1992, e que junto da vizinhança — com imóveis azuis, com letreiros, e até camuflados para guerra —ainda hoje forma um interessante conjunto arquitetônico, que resiste aos “tombamentos” comuns na Vila. Pois, na calada da noite, há quem derrube imóveis antigos, dando lugar a áridos estacionamentos. Estacionamentos que contrastam com as 26 árvores tipuanas da rua Franscisco Teodoro, e também com a Rua Venda Grande, lugar tranqüilo embora com nome de batalha.
O Beco — Rua Venda Grande, quarteirão 1280 —, em nada lembra uma batalha ou áridos estacionamentos de especulação comercial. Muito pelo contrário, ali é o sossego que só pode ser visto através de crianças correndo na rua, que impera. O conjunto de casas da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que teve seu processo de tombamento aberto em 8/08/2002 pelo Condepacc, está bem conservado, apesar de não restaurado, com exceção a uma casa que foi “mutilada” por seu morador. Ele, sem dó, cortou-lhe a frente, reduzindo aproximadamente 1,50 metros de altura.
A Venda Grande também nos traz um exemplo de como é difícil para a população carente, que na maioria das vezes é quem ocupa esses imóveis antigos, manter o Patrimônio Histórico em pé. Alana, moradora do numero 53, precisou de muita, muita paciência, para ter seu pedido de ajuda aceito — mesmo com declaração de pobreza e com a legislação que diz que, caso o morador não possa arcar com a reforma, o poder publico é obrigado a fazê-la.
No entanto, mesmo com dificuldade, são os moradores do Beco que cuidam das casas, como declara Simone Martins, moradora há 15 anos “... Aqui a gente cuida...”, a turma do Beco não admite que ninguém, como eles dizem “... venha zoar o pedaço”. Afinal, lá quem manda são eles, e esse pessoal é o mesmo que brincava de bola na rua e viu grandes modificações acontecerem no bairro, e hoje conversa, fala de futebol, faz uma roda de samba, faz churrasco, toma cerveja e, acima de tudo, se identifica com o lugar em que mora. Povo apaixonado, em sua maioria ponte pretanos fanáticos, capazes de em três homens segurarem, quinze outros homens são-paulinos, no peito. Gente que como pode, mantém sua casa de pé, pinta, colore, reconta a história, marcando sua passagem, pois o descascado da parede revela mais que a tinta velha, revela a historia do uso de um lugar.
Mas a Vila Industrial não é só sossego, também tem seu lado “Centro”, afinal, como dito antes, são só 200 metros à pé, ou poucos minutos de carro — debaixo da terra, pelo túnel que, para ser construído, tirou os moradores, em 1986 — que a separam do Centro. É só passar o túnel, buraco gigante e meio acabado, e que ainda hoje guarda uma galeria inundada, escondida por tapumes, e que abriga alguns segregados da sociedade, como os antigos lazaretos faziam. Assim chegamos a Vila, que é “quase Centro”, que é dinâmica e que na Sales de Oliveira, tem um trafego que em nada lembra os dois bondes de tração, que subiam do matadouro, onde se podia ler: carne verde. Sales diferente, que em nada lembra os melhores carnavais da cidade entre 1945 e 1965, nem o bloco de carnaval ‘Nem Sangue nem Areia’ — de mais de 200 integrantes—, mas que, em um olhar mais cuidadoso, revela o passado que está ali as residências de 1918 e 1919, sufocado pelos prédios da década 90, é bem verdade.
Acho interessante essa preocupação em registrar pedaços de história local.
Parece-me que, atualmente, as pessoas estão falando muito mais de suas memórias, de lugares e gentes. A Internet possibilita divulgar estas histórias e há até o site saopaulominhacidade.com.br, só de memórias da cidade, para o qual escrevo. O site é da Secretaria Municipal de Cultura e já publicou um livro com as primeiras mil memórias.
Outras cidades deveriam ter um site assim também, porque ele é de uma riqueza muito grande para as cidades.
Ivette G M
Muito bom. Parabéns pela pesquisa, e pelo texto, que tá muito bem escrito. É sempre bom aprender um pouco mais sobre a história das cidades.
Márcio Garoni · Santos, SP 17/1/2009 14:29Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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