A volta de Zé do Caixão

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Glauco Faria · São Paulo, SP
9/6/2008 · 112 · 4
 

Quando chegamos para a entrevista com José Mojica Marins, em seu estúdio no Centro de São Paulo, topamos com o cineasta no balcão de um bar ao lado do endereço que seu assessor (e também genro) havia nos passado. Identificados, ele logo explicou que um vazamento no prédio iria atrasar um pouco nossa conversa. A relação com algum indício de fenômeno sobrenatural foi logo aventada, mas preferimos a versão de que o edifício era bem antigo mesmo.

Já no estúdio, vemos rolos de filmes, cartazes e capas de revista onde o mais famoso personagem de Mojica, o Zé do Caixão, é a estrela principal. Alguns outros objetos soturnos também completavam o ambiente algo tenebroso, que contrastava com a simpatia e a acolhida do cineasta e das outras pessoas que trabalham no local.

Como parte do ritual de nossas entrevistas, oferecemos uma cachaça artesanal para o nosso entrevistado. Mas fomos surpreendidos com a informação de que Zé do Caixão também emprestaria seu nome para uma aguardente. Aliás, para dois tipos da “marvada”. Logo, a mesa tinha mais duas garrafas da dita cuja, obrigando os entrevistadores a também degustar do produto que será lançado em breve no mercado.

Durante as quase duas horas de conversa, Mojica falou sobre seus filmes, em especial o que será lançado ainda este ano, Encarnação do Demônio, que encerra a trilogia iniciada com À meia-noite levarei tua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver. Encerra? Talvez não, segundo o que o próprio Mojica deixa escapar, revelando uma certa pressão para que Zé do Caixão (ou Coffin Joe para os fãs gringos) não pereça em sua eterna busca pela mulher perfeita. A entrevista foi concedida para os integrantes do Futepoca (www.futepoca.com.br).

Sua carreira no cinema é toda em cima do medo. De onde surgiu isso?

José Mojica Marins – Acho que fui o homem mais covarde do mundo, muito medroso. Aí, chegou uma hora que não tinha como fazer, estava noivo da mulher mais linda do Brasil. Pertencia à colônia espanhola, era capa de revista direto e, queira ou não, se apaixonou por mim e eu, por ela. Aí tive que raptá-la, mas de um jeito diferente, com apoio dos irmãos e da mãe. Raptei e a levei para a casa da própria mãe do meu sogro. Mandei uma carta dizendo que estava na Argentina, pedindo que autorizasse o casamento. Para não passar vergonha, ele autorizou.

Eu era muito medroso e me perguntava: "Como vou me casar e viver com uma mulher se só durmo com a luz acesa e tenho que escutar a voz do meu pai e da minha mãe?”. Puta que o pariu! Eu era considerado um cara violento demais na aparência, era ator, tinha 18 anos. "Como faço, se passo que sou de uma coragem fora de série, mas sou medroso." Aí, tomei coragem.

Cemitério da Consolação, 1956. Vou direto, assobiando Acorda, Maria Bonita, pulei o muro, fui perto de uma cova. Via sempre no cemitério aquelas coisas surgindo, diferentes, uma coloração verde, amarelo, vermelho, e não sabia o que era. Tinha de descobrir. Vinha assustado, junto com um amigo, e era o fogo-fátuo. Quando você morre, seu cadáver está em decomposição, sai aquela coisa estranha, colorida, muito bonita. Na época não consegui filmar, porque não tinha um negativo com sensibilidade que tinha essa resolução.

Hoje, você pode pegar um cemitério onde houve um massacre, e há muitos corpos [recém-enterrados] em decomposição, e você vai ver coisas sensacionais que nunca viu na vida. Parece fantasma verde, amarelo, azul. Pulei o muro do cemitério da Consolação e cheguei perto de um túmulo e vi um recém-falecido, mas não vi nada. Fui me afastando uns 30 metros, nascia aquela imagem verde e amarela, que era o fogo-fátuo. Quando cheguei perto, desapareceu. Aí falei: "Não existe a não ser na minha mente, isso tem uma explicação científica".

Desse dia em diante, eu pulava o muro, nunca mais teria medo de cemitério, de corpos em decomposição, enfim, perderia o medo completo. E aceitaria me casar, porque enfrentei e destruí meu próprio medo.

Isso é realmente o que aconselho às pessoas. Aquilo que elas têm medo, têm que enfrentar. Não tem que dar aqueles dois segundos e voltar para trás. Você vai em frente, enfrenta, e volta. Você é outro homem. Passei a ser um homem dono do medo, eu passo medo nos outros. Eu faço os outros sentirem medo, convivo com cadáver, com vermes. Vocês vão ver Encarnação do Demônio, que vai sair agora... Sempre disseram: "Não, você faz nos outros". Agora eu deito, e mando encher de aranhas, elas vêm nos meus olhos, já saiu o trailer. São muitas aranhas, cobras... "Pode pôr mais perto do rosto". Disseram: "Não, mas pode te acertar o olho". "Se me acertar é acidente de filmagem" (risos). Pus a cobra e ela dá picada perto dos meus olhos.

Eu era um homem que, só de falar em cobra, dava um pulo. Depois, passei a fazer nas pessoas, só que elas viram que eu já não tinha mais medo. Aí, topei no Encarnação fazer, para mostrar que não tenho medo. Afogo minha companheira onde ninguém – 70 técnicos – ficou, em três mil baratas. Pensei que só mulher tinha medo de barata, mas nenhum técnico chegou perto. Paulo Sacramento [produtor do filme] ficou no terceiro andar com uma vigia para ver se alguma barata ultrapassava a porta.

Qual filme o senhor considera sua obra prima?

Mojica – Finis Hominis. Um filme lançado trinta e tantos anos antes do seu tempo. Ficou duas semanas em cartaz, que achei até muito, e eu dizia que a fita estava muito avançada. Hoje é a época das igrejas. Mostrava as igrejas tomando conta do Brasil, mas estava adiantado. O bispo iria tomar conta do Brasil. E tomou. Só não consegui fazer uma fita que lutei, lutei para fazer, não deu. Mas se fizesse, estaria como um herói. Chama-se Ereto, o Crente. Um roteiro que escrevi há 25 anos, tentei patrocínio, na raça, mas não consegui. O Crente era exatamente o que eu achava que aconteceria depois do ano 2000, "está preso em nome de Deus. Pega a virgem, gira o rabinho, joga... Tá amarrado". Que merda, não existe porra nenhuma. As minhas esposas mais legais do mundo se tornaram crentes e eu tive de me separar. Olha só.

O personagem principal do Finis Hominis é mais nocivo do que o Zé do Caixão?

Mojica – Segundo Glauber [Rocha], eu deveria unir Zé do Caixão e Finis Hominis. Porque Zé do Caixão é um louco consciente. Finis é um louco inconsciente. São dois loucos de jeitos diferentes. Juntando os dois, tenho um roteiro, deve dar uma loucura total. Se conseguir, através do Encarnação, verba suficiente, eu faço.

O senhor tem muitos projetos?


Mojica – Sim, muitos. Mas gostaria de fazer realmente a continuação do Finis se encontrando com o Zé do Caixão. Acho que estaria apropriado para a época. Total. Para 2009 ou 2010, é o filme ideal. O encontro.

A íntegra da entrevista está em http://www.entrevista.futepoca.com.br/

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MarcilioMedeiros
 

Glauco,
Abrindo a votação...
Abs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 7/6/2008 16:43
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Andre Pessego
 

Glauco, interessante o texto. Olha tem pessoas, pelos feitos, pela coragem de fazer, (não importa o gostar de alguém), nunca deveriam ou deverão ser esquecidas.,
Zé é uma dessas pessoas
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 7/6/2008 21:01
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alcanu
 

Zé do Caixão é nota mil !
Um gênio !
Um abraço a ele e a você, Glauco !

alcanu · São Paulo, SP 8/6/2008 21:22
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Larissa Scarpelli
 

Uma figura surpreendente, sem dúvida! Muito bom texto, principalmente pelos detalhes.

Larissa Scarpelli · Belo Horizonte, MG 9/6/2008 14:27
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