Depois de George Romero, outro grande nome do terror mundial volta à atividade. Trata-se do brasileiro José Mojica Martins, o Zé do Caixão, que está em cartaz com Encarnação do Demônio. A saga do coveiro em busca de uma mulher para gerar o filho que vai perpetuar seu sangue maligno continua com o novo filme.
Sem dispensar as indefectíveis cartola e capa preta, Zé do Caixão é uma presença teatral, com voz declamatória, uma espécie de Fausto espúrio lidando sempre com os extremos da natureza humana. O filme tem excelentes soluções visuais e não decepciona os fãs de uma bom grindhouse movie: muito sangue e flagelos dignos dos gêneros gore e exploitation.
Outra coisa interessante de Encarnação do Demônio é o uso bem-sucedido da estética das pornochanchadas, que sempre foram um peso incômodo para o cinema nacional. Na nova aventura de Coffin Joe, a volúpia vulgar encontra seu lugar, e apesar da forte ambientação contemporânea, o filme é também uma evocação ao passado inglório e heróico do cinema brasileiro. Tanto que exertos dos antigos filmes de Mojica Martins povoam a produção inteira, dedicada ao diretor Rogério Sganzerla.
Como se não bastasse, o filme traz duas participações muito especiais. José Celso Martinez Correia, mais rocambolesco que o próprio Zé do Caixão, faz um diabo que ciceroneia o coveiro por um purgatório trash tropicalista, que não deixa nada a dever ao espetáculo Os Sertões. O filme também é o último registro cinematográfico de Jece Valadão, outra marca do antigo espírito do cinema nacional que segue redivivo na obra deste original diretor brasileiro.
Convido-te a ouvir meus áudios de terror, que lembram um pouco as radionovelas de antanho. Curta o Assombro Na CAsa do Sidemar!
Rogério Silvério de Farias · Tubarão, SC 19/8/2008 21:25
Meus respeitos a um dos maiores cineastas do mundo, embora náo valorizado em seu pröprio païs. Estou falando de José Mojica Marins, o nosso Zé do Caixão!
Parabéns
tarokid
Salve Zé do Caixão, ainda com presença de Zé Celso e Jesse Valadão? Massa! hehe
Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 20/8/2008 08:45
Gente,
Não estou de mau humor não. Assisti o filme do Zé. Nunca tinha visto um trabalho dele e o admirava como uma espécie de herói do nosso cinema mais popular, um Mazzaropi, um Carlos Manga. Contudo, perdoem-me, mas achei que é trash no sentido estrito da palavra. Baixa qualidade mesmo. Equívoco constrangedor e deplorável. Sei que a crítica vai entender de outra forma e exaltar outras qualidades que me escaparam, como estas que este bom post ressalta.
Tudo é muito relativo, certo? Tem gosto pra tudo.
Abs
Um dos herois do cinema nacional , hoje e visto como uma figura caricata .... Quem tem medo do Ze do Caixão
Acho que gêneros de cinema como gore, splatter, exploitation e outros tem seus códigos próprios, e apreciá-los é questão mesmo de gosto pessoal. É bom destacar que muito do experimentalismo do cinema vem desses gêneros (como do cinema pornô tb, vide o filme Deep Throat). Enquanto nos EUA há público cativo para estas produções, no Brasil quase não temos contato com esse tipo de proposta. Entendo o desconforto do colega acima, mas acho que a gente precisa levar em consideração que se trata de um tipo de linguagem cinematográfica com a qual ainda se tem ainda pouco costume. Sobre isso recomendo a entrevista que fiz com o cineasta Semi Salomão.
Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 20/8/2008 19:55
Bacana a sugestão do Evandro, principalmente porque estimula a busca de parâmetros originais, para se avaliar gêneros aos quais a crítica 'positiva' vai associar o filme do Zé. Esta questão de definir o que ou não é trash real (no mal sentido) e o que é experimentalismo puro, impulso de vanguarda, não é muito fácil mesmo. É preciso traquejo, tempo de praia, para reconhecer cinema ruim maquiado como obra de gênio. E ainda assim, muitos dos que tem os olhos calejados, vão achar exatamente o contrário. Viva Zé do Caixão! Morra Zé do Caixão!
Vou ler a entrevista com o cineasta Semi Salomão.
Evandro,
Aproveito para sugerir que mais colaborações sobre o assunto, de preferência com este foco do seu comentário, sejam produzidas aqui no Over. Este corte que tentamos dar em nossos comentários (nós todos) é muito pertinente para lançar luzes sobre os rumos ainda claudicantes de nossa indústria cinematográfica, baseada ainda num certo elitismo muito recorrente em nossa sociedade. Ainda há alguns dias atrás conversava sobre isto com uma certa colaboradora aqui do site (que aliás não apareceu ainda aqui no debate). Ela me solicitava opinião sobre o fenômeno Blaxplotation (que eu adoro e ela - pelo menos até há pouco - detestava). Comparei o Blax com a nossa chanchada (que eu adoro desde criança), que era tratada como lixo no tempo do Cinema Novo (entre outras coisas por ser 'brega' e ter um formato de edição 'americanizado') e hoje é tida como um clássico da nossa cinematografia. Na minha defesa, além do prazer estético que este gêneros me proporcionavam, citei o papel fundamental que eles desempenhavam na formação de platéias que iriam sustentar financeiramente as produções tecnicamente mais ambiciosasou...de arte.
O que me irrita no filme do Zé é exatamente este meio termo, esta posição em cima do muro: não é filme de arte (pelo menos para mim) nem é filme popular (vamos ver, mas, acho que o público deve passar longe das bilheterias)
E o pior é que o resultado trash real que estou apontando no filme pode até ser, como imagino, um ato involuntário, fruto do amadorismo da proposta mesmo.
O debate sim, este devia ser popularíssimo.
Abs
Grande abraço
Ps.: Acho que vou replicar parte desta mensagem lá no post
Concordo amplamente com vc e acho que o overmundo deve ser um espaço tanto de divulgação como de uma discussão mais reforçada e reflexiva sobre gêneros expressivos ainda pouco comentados, sejam gráficos, musicais, literários ou cinematográficos.
Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 22/8/2008 18:34Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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