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Aaammmééémmm!!!!

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Márcia de Oliveira · Marília, SP
22/3/2007 · 73 · 2
 

Era um aaammmééémmm que não chegava a ser um grito, mas começava antes e terminava muito depois de todos os améns. Sua devoção enchia todos os espaços da pequena igreja da Vila. Era moreno, magro, alto e encurvado para frente. Vestia sempre o mesmo terno cinza desbotado e apertado.

Estava sempre no primeiro banco do lado direito, quase na frente do altar. Carregava um terço de sementes de manonas entre as mãos sempre em posição de oração. Durante a missa, mantinha uma concentração invejável. Não desviava os olhos do padre para nada.

Já eu, sempre viajava pelos quadros a óleo pintados na parede lateral retratando o sofrimento de Jesus Cristo durante a via sacra. Também perdia ou ganhava tempo me entretendo nas imagens imensas e tristes de São José e Virgem Maria colocadas uma de cada lado do altar.

Ao contrário dele adulto, eu ainda criança já mantinha a atenção desconcentrada que até hoje me acompanha. Meus olhos iam fotografando roupas, véus, sapatos, anéis, cabelos, bocas, caras ou qualquer outra forma atraente pelo belo, esdrúxulo ou feio. Até as trilhas das formigas nas paredes na igreja me abstraiam. Admirava a indiferença prepotente com que passavam pelo mundo dos humanos pecadores.

Vez ou outra minhas viagens eram interrompidas pelas crises de espirros e coriza. Perfumes misturados mexiam com minha rinite hoje crônica. Muitos ácaros grudados em roupas pareciam agradecer os passeios dominicais dos católicos solitários, felizes pela possibilidade de atingirem narinas frágeis como as minhas.

Em meio às viagens eu o olhava. E lá estava ele arquejado, com testa enrugada e olhos fixos no padre. Sua expressão era sempre de paz e resignação. No momento da comunhão era o primeiro a entrar na fila. Eu não entendia como alguém podia ser tão fiel ao silêncio do ambiente, quebrado apenas pelo bom e arrastado aaammmééémm. Não dizia nada, além disso,

A expressão acabou originando seu apelido. Todos o reconheciam por amém, mas ele não suportava o rótulo. E é aí que vem a parte desconcertante da história de um dos homens mais devoto a Deus que já conheci.

Quando Amém passava na rua, a criançada gritava o apelido e ele corria atrás soltando palavrões por todos os lados. Aprendi muito deles com ele. Era e agia como uma criança num corpo de homem crescido. Parecia ter personalidade dupla, se comportando de um jeito na igreja e de outro na rua. Só mais tarde vim saber que era deficiente mental.

Recordo-me disso porque imagino quantas pessoas não-deficientes mentais freqüentam igrejas vivendo da mesma forma que o Amém da Vila. Na igreja, fazem de tudo para se livrar dos pecados por temer o Juízo Final, mas no dia-a-dia continuam pecando ao negar os valores coletivos e a dependência que uns temos dos outros.

Dizem-se felizes e otimistas, mas pregam o apocalipse afirmando que estamos próximos do fim do mundo que segundo eles será um horror. Outra noite Amém entrou no meu sonho e finalmente falou.

Disse que se a humanidade continuar capitalista ao extremo, agindo de forma depredatória com a natureza e todos os valores humanos, vamos mesmo ver o mundo acabar. "E daí um aaammmééémmm já será tarde. Mas talvez reste um tempo para os palavrões", disse ele.

Escrito em 16 de Junho de 1999.

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Fê Pavanello
 

Gostei bastante.
Simples e ditreto.
No caso do Amém da Vila, tinha deficiencia mental... Mas tantos e tantos vivem assim por hipocrisia mesmo...
Abraços

Fê Pavanello · Brasília, DF 22/3/2007 11:11
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Adroaldo Bauer
 

Três pitacos:
Amém é um achado lindo.
As crianças continuam zombando do que pareça estranho, no mundo inteiro, e ninguém diz a elas que o diferente importa.
Capitalista ao extremo é novo nome do já envelhecido e carcomido recém-inaugurado neoliberalismo, que sucedera o imperialismo, que herdara as mazelas do capital que Karl M. estudou no milênio passsado e (vixe!) certas descobertas dele ainda vigem?

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 22/3/2007 15:38
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