Abaixo o cinza! Diretores de arte pintam São Paulo

Divulgação
Buraco da Paulista virou um marco do Graffiti em São Paulo
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Aninha Freitas · São Paulo, SP
14/5/2008 · 195 · 9
 

Na rua onde o diretor de arte Rui Amaral mora, os postes são pintados ou desenhados até uma altura na qual normalmente vemos apenas propagandas no estilo “trago a pessoa amada em três dias”. Por ali, as lixeiras também não são monocromáticas e um muro colorido abraça uma biblioteca.

Grafiteiro há cerca de 30 anos, Rui faz em sua vizinhança no bairro da Lapa o que gostaria de ver por toda São Paulo, arte na rua. “Podemos usar o espaço urbano como suporte para fazer arte e todo mundo pode ganhar fazendo a cidade ficar mais bonita”, argumenta.

O sonho de Rui Amaral é colocar em prática um projeto de formação de diretores de arte para a cidade de São Paulo. A idéia é criar núcleos em diversas regiões da capital para oferecer oficinas de arte de rua. Patrocinadores doariam as tintas e articulações com as subprefeituras definiriam os espaços a serem pintados, grafitados ou desenhados. “Os espaços são públicos, a cidade pertence ao povo. O ideal seria que todos participassem de seu processo de urbanização”, diz.

O projeto já foi registrado como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e se chama Artbr Social Clube. No momento, grupos de trabalho ainda estão sendo formados para estruturar e tirar do papel a proposta. Mas enquanto amadurecia a idéia da organização, Rui começou a testá-la através das oficinas de graffiti que ministra há quatro anos no Senac de São Paulo.

Nela, os alunos têm aulas teóricas e práticas sobre aplicação de tinta e spray e medição de espaços. Porém, o que o Rui professor tenta mesmo passar a seus aprendizes é uma nova maneira de olhar para o meio urbano. “Quando você pensa na composição de um jardim, por que você não pode pensar em um banco criado ou pintado por um artista? Com certeza seria um banco mais bonito, mais pra cima. A arte deve ocupar o espaço urbano e o graffiti tem a ver com isto também, pode ser inserido neste processo de urbanização”.

Produção coletiva

Com seus alunos, Rui organiza uma produção coletiva. Todos fazem desenhos, que depois são unidos em uma composição única, em um rolo de papel canson (especial para desenhos). Em uma segunda etapa, a turma vai para a rua e aplica o projeto em um local cedido pela subprefeitura ou pela iniciativa privada.

De acordo com Rui, a idéia é pensar o espaço como um todo, não apenas como uma parede. “Na primeira turma, pegamos uma biblioteca detonada e pensamos em todo um processo de paisagismo. Arrumamos suas goteiras, pensamos em como as cores das paredes internas podiam proporcionar um ambiente mais agradável e fizemos um painel na fachada”, explica.

Para o segundo grupo, o projeto foi ainda mais desafiador, ao ser aplicado na favela Jaguaré, também na zona oeste de São Paulo, onde vivem cerca de 14 mil pessoas. O objetivo era tornar mais lúdico um parquinho em uma praça da comunidade. E os barracos próximos também ganharam cores e desenhos. “Foi um grande aprendizado para mim e para os alunos. Articulamos o projeto com os líderes comunitários locais e integramos os meninos do graffiti de lá na pintura”.

Como o curso do Senac é pago (R$ 380), Rui conseguiu com alguns amigos patrocínio para jovens da comunidade Jaguaré participarem da turma. “Cada um teve sua matrícula bancada por uma pessoa e assim puderam participar de todo o processo. Foi uma maneira rápida e simples de incluí-los no curso sem muita burocracia”.

Nas demais turmas, os alunos pintaram centros de ensino e, com o apoio da prefeitura, ganharam as paredes de algumas estações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CTPM) da cidade. No lugar do tradicional cinza, as cores tomaram conta. “É na simplicidade que está o segredo das coisas. O poder público não tem grana para deixar aquilo legal e eu, como professor de uma oficina de graffiti, consigo fazer um trabalho bacana com uma aula paga e com patrocínios de empresas de tintas”.

“Arte pública”

A proposta da OSCIP de Rui Amaral é expandir o que ele faz no Senac para diversos bairros da cidade através de patrocínios, que propiciem ajuda de custo para os alunos. “E não é apenas em graffiti que pensamos. Podemos melhorar o nível profissional do cara que cuida do jardim da cidade, ensinar arte para o que pinta os postes apenas de cinza. A idéia da Artbr Social Clube é fazer as pessoas produzirem arte pública”.

A organização terá espelhos em algumas regiões da cidade e, em cada um deles, formará grupos para intervenções locais. “Cada bairro tem sua personalidade. Não tem sentido eu formar um moleque aqui na Lapa para ele ir pintar no Campo Limpo. O projeto deve respeitar e se adequar ao perfil do local onde estiver inserido, vai ser uma curtição e a cidade vai ficar bem mais bonita”, idealiza Rui.

E o diretor de arte não tem dúvida de que a cidade vai aceitar bem os muros e postes coloridos que ele imagina pelos bairros. “O graffiti nem sempre tem uma boa aceitação porque é ilegal, mas acredito que a população queira ver a cidade pintada com murais e painéis bem feitos. Se tivermos pessoas bem preparadas para ocupar os espaços o trabalho será bem aceito”.

Graffiti x poder público

Rui tem uma longa experiência em arte de rua e sabe como lidar com os eventuais contratempos com a prefeitura e até a polícia para conquistar espaços por São Paulo. É dele, por exemplo, o painel que ilustra o famoso “buraco da Paulista” (túnel que interliga as avenidas Paulista, Rebouças e Doutor Arnaldo).

Para manter seus desenhos no local há cerca de 30 anos, Rui precisou de muita persistência e negociação com o poder público. Ele começou a pintar o buraco quando Paulo Maluf foi prefeito de São Paulo pela primeira vez, no começo da década de 70. Durante o mandato de Mário Covas, a pintura permaneceu no local, mas quando Jânio Quadros assumiu a prefeitura da cidade, em 1986, o muro foi pintado de cinza.

Por um tempo, Rui e seus amigos desenhavam e a prefeitura apagava. No mandato de Luiza Erundina, a prefeitura começou a desistir da briga. “A Paulista ia fazer 100 anos e perguntei se podia fazer um painel. A prefeitura aceitou e ainda me deu um fundo azul. Então pintei todos os personagens. Uns quatro anos depois, o Maluf voltou ao poder e apagou tudo. Fiquei louco, o desenho estava bonitão...”.

Foi então que Rui começou a negociar com a prefeitura, com a secretaria de Cultura e a de Patrimônio histórico, onde encontrou o apoio do então secretário Marcos Faerman. “O Marcão resolveu tudo, disse que o trabalho tinha uma representação e que tinham que deixá-lo ali. Pintei tudo de novo em 94 e, como tive aval do Patrimônio Histórico, ele foi incorporado ao acervo da cidade”.

Agora o grafiteiro inquieto luta novamente com a prefeitura para pintar os postes da cidade. “Na minha rua, os vizinhos já apóiam o colorido. Os funcionários da prefeitura chegam para pintar tudo de cinza e tem gente que sai de casa para reclamar”, comenta Rui e finaliza, “O graffiti é assim mesmo, totalmente ligado ao ativismo, à cidadania. Ele tem uma força muito grande de comunicação. A gente começa brincando e, quando vê, percebe que tem um instrumento muito forte nas mãos. Mas precisa saber usar o instrumento e é para isto que trabalho”.

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Ilhandarilha
 

Aninha, super trabalho do Ruy, que você coloca aqui com propriedade. Adoro ver a cidade colorida: ela fica mais feliz, e a gente também.
Gostaria que aqui tivesse mais iniciativas assim.
Abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 12/5/2008 10:33
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Helena Aragão
 

Ana, me chamou atenção no título o nome "diretores de arte". Ele me remete ao mundo da publicidade e do cinema. Achei curioso ser usado para o graffiti. O Rui explica o porquê dessa escolha? Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 14/5/2008 16:21
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azuirfilho
 

Aninha Freitas · São Paulo (SP)
Abaixo o cinza! Diretores de arte pintam São Paulo

Um Trabalho extraordinário condizente com a atitude tomada em SP.
Maior alegria saber que há gente fazendo esses trabalhos para o mundo ser melhor.
Sáo Pequenas mudanças que marcam pra toda a vida a personalidade das pessoas.
Verdadeira guinada para o bem, que se constroi em atitudes cidadã e progressistas do consequente bem comum.
Parabéns Pessoal.
Humildemente me permitam votar em vocés.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 14/5/2008 18:05
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Kuja
 

Rui Amaral & Bicudo rules!

Kuja · São Paulo, SP 14/5/2008 20:18
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Aninha Freitas
 

Helena, ele tentou explicar sim. Disse seria papel de um diretor de arte enxergar o todo antes de criar o "cenário". No caso da biblioteca, por exemplo, não adiantava ter uma fachada bonita e uma estrutura problemática por dentro. Ou seja, ele tenta fazer com que os alunos pensem em projetos de fato para a cidade, sejam eles paisagísticos, lúdicos etc, mas que transmitam uma mensagem positiva e verdadeira.
Beijo.

Aninha Freitas · São Paulo, SP 14/5/2008 23:05
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andruchak
 

O papel da arte na sociedade está assegurada pelos valores culturais, sociais e individuais de cada integrante deste grande conjunto, a saber, cada um de nós, artista ou não. Essa integração da comunidade mais o auxílio de artistas e entidades políticas é o que deve garantir continuidade a projetos ousados e simples (do ponto de vista de implementação) como o de arte pública. É claro que um limite mínimo de notoriedade deve ser padrão para avaliar cada intervenção, porém através de uma pesquisa popular e não motivados por interesses de terceiros. A arte do muralismo é apaixonante e podemos nos inspirar em nomes como Siqueiros, Rivera, Di Cavalcanti ou Mestre Justino como exemplos de trabalho sólido e que agradou gerações. O Brasil é um país mais que emergente, é inovador. A arte como princípio de projeção cultural com exemplos surgidos das comunidades pode sim equiparar-se a artistas indicados por galerias e fundações, mas é preciso apoio e valorização. A arte aplicada ao ar livre acaba não só alegrando os ambientes, mas motivando ainda mais manifestações culturais similares ou simplesmente sendo veículo de fomento a toda uma base educacional emaranhada em nossa cultura. Em outras palavras, contibui subjetivamente para o crescimento do país como nação coesa a partir dos laços do povo, e "de quebra" embeleza a paisagem da cidade.
_____________________________
Andruchak é artista plástico e muralista, é professor de arte nas Universidades UMC, UNIP e UNIVAP, Coordenador do Espaço Cultural UMC e integrado à produção artística nacional através de arte e pintura em grandes dimensões.
www.andruchak.com.br

andruchak · São José dos Campos, SP 15/5/2008 03:12
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Natália Amorim
 

Bacana! E o desenho está bonitão!
Abs.

Natália Amorim · Rio de Janeiro, RJ 15/5/2008 14:36
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vidaboa
 

tudo de bom, a sampa fala pelos cotovelos, melhor, pelos grafiteiros. Cara, quem apagou aquele peixe redondo e lindo que ficava em frente à Igreja da Consolação todo mundo sabe. E quem fez, por favor, que o faça de novo, maior e delirante.

vidaboa · Belém, PA 15/5/2008 22:00
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jfparanagua
 

Excelente matéria!
Parabenizo Rui pelo brilhante trabalho que vem realizando. Gestores estaduais e municipais participem dessa bandeira! O grafite como função educativa desperta o interesse pela arte-cidadã.

jfparanagua · Salvador, BA 16/5/2008 19:01
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