Meu dia naquela segunda-feira começara cedo. Havia sido informado sobre a existência de uma rádio comunitária chamada 'A Voz do Cai N´Agua', localizada bem à beira do rio Madeira, em Porto Velho, e que abrangia apenas aquela área, cerca de um quilômetro aproximadamente. Resolvi averiguar de perto. Segundo comerciantes do próprio local, visitantes e trabalhadores que fazem o transporte de cargas nas embarcações a rádio realmente funcionava e era o maior sucesso. Infelizmente, 'A Voz do Cai N´Agua' fechou sua única porta de acesso há mais de um ano, de acordo com os seus ouvintes. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu. Fiquei frustrado, claro. Voltaria pra casa de mãos vazias? Definitivamente, não.
Como ainda estava cedo, resolvi fazer uma visita a lendária Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Desta vez, estava com uma máquina fotográfica em punhos. Antes de entrar no patrimônimo é impossível não enxergar um cemitério de sucatas, encoberto por matos que serve também de morada para quem não tem onde viver. Do lado de fora do complexo, tive que ser rápido com as fotos porque poderia ser assaltado a qualquer momento, embora o dia ainda estivesse claro. Entro e começo pela Rotunda da 'Ferrovia do Diabo' e o que se vê é o mais completo abandono de uma ferrovia que foi desativada há mais de trinta anos. Existem, dizem, projetos para a recuperação, mas tudo ainda não saiu do papel.
Sigo em frente: Museu Madeira-Mamoré e, diante dos meus olhos, vejo a primeira locomotiva que deu vida a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, a ‘Coronel Church Nº 12, em 1878, que recebeu este nome em homenagem ao coronel americano George Earl Church – um dos responsáveis pela construção da ferrovia. A mesma locomotiva Coronel Church foi abandonada um ano após sua inauguração, em 1879, depois de percorrer apenas seis quilômetros. Segundo o pesquisador Evandro Rocha Lopes, a locomotiva ‘serviu, no vilarejo de Santo Antônio, como galinheiro, forno de padaria, depósito de água e para tomar banho’. Muita coisa não mudou. Um rápido giro e é possível perceber que a palavra 'preservação' parece não ser muito lembrada nas leis do museu. Quando chove, o local fica decorado com várias poças significantes. As peças antigas quando não tem legendas, estão espalhadas sem organização. Uma aberração. Apenas um vigia é encarregado pela segurança do Museu. Não quero, com isso, culpar ninguém. Nem sei se adiantaria.
Saio do Museu, enfim, e duas locomotivas estão enferrujando ainda mais em cima dos trilhos. Sabe-se lá quando voltam a funcionar. A última vez que isso aconteceu, no dia dos Finados do ano passado, apenas a máquina Nº 18 fez crescer a esperança de uma possível recuperação. Pelo menos ainda existe esperança. O tour chega ao fim e o que poderia ser um dos mais fortes pontos turísticos é visto do alto do Mirante II apenas como um resgaste de uma história que iniciou a história de um Estado. Vejo dragas espalhadas sugadas pela terra, um barco rebocador servindo de varal e, pra variar, abandonado. De fora, dentro e mesmo lá do alto, não é difícil sentir um grito antigo e cansado de socorro.
Ficou legal, hein? Tem fotinhos suas para os lugares?
Roberto Maxwell · Japão , WW 30/1/2007 01:34
Aí estão, Roberto. Estava com um probleminha na edição das imagens.
Marcos Paulo · Porto Velho, RO 30/1/2007 13:55Meu, eu adoro trem. Muito mesmo. Aqui, eu fotografo os trens todos. Pareco um psycho. Obrigado.
Roberto Maxwell · Japão , WW 30/1/2007 13:58Gostei da apresentação, agora os governos Municipal, Estadual ou Federal têm que tomar providências e reativar esse espaço cultural. Não deixando-o neste estado de abandono.
marceloenasc · Porto Velho, RO 4/2/2007 08:58
Marcelo,
Gostei, realmente é uma vergonha o estado em que se encontra esse lendário patrimônio. E o que é pior, se der um giro pela cidade, descobrimos que ele ñ é o único. Se continuar assim, esse descaso com o patrimônio histórico e cultural, em especial de nossa cidade, se perderá...uma pena!
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