Abrace a Avenida Paulista

Juliana Sayuri
Avenida Paulista
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Juliana Sayuri · São Paulo, SP
8/12/2008 · 210 · 4
 

Rogério Silva Cunha já é figurinha marcada na Avenida Paulista. O paulistano de 32 anos tem seu ganha-pão nessa avenida, considerada o principal centro financeiro e cultural da capital, trabalhando como um “homem-sanduíche” na Galeria Trianon do Condomínio Edifício Conde Andréa Matarazzo. É praticamente impossível trocar duas palavras com Rogério sem que seus camaradas o interrompam com risadas amigáveis e tapinhas nas costas, desde os engraxates com seus banquinhos na rua e os garçons nos cafés da Galeria até os executivos engravatados que transitam pela Paulista. Todos o cumprimentam com respeito e, principalmente, com a notável familiaridade de quem todos os dias re-encontra um amigo pelo caminho.

De segunda à sexta-feira, fielmente às 8:30 ele está na Avenida Paulista, nas redondezas do Parque Trianon e do Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Das 9:00 às 18:00, Rogério “veste” um cartaz da empresa Planet Print, com os dizeres: “Cartuchos e Toners para impressoras e copiadoras Laser e Ink Jet”. Na verdade, para quem passa em frente à Galeria Trianon, o anúncio de serviços e acessórios para informática não é o mais importante, pois o que realmente atrai a atenção é o sorriso puro estampado no rosto de Rogério. Por que está sempre sorrindo? “Simplesmente porque eu sou um cara de bem com a vida”, justifica.

Ele trabalha como “homem-sanduíche” na Avenida Paulista há 6 anos, mas já conta 15 anos “nessa estrada do público”. Morador da Avenida 9 de Julho, Rogério iniciou seu trabalho na Avenida Rebouças e conta que foi subindo aos poucos até conquistar um lugarzinho na Avenida Paulista. Por uma dica preciosa de uma amiga, Maria, Rogério continuou na Paulista. “Não saia daí, você vai vencer aí”, ela previu com a clareza lúcida e tendenciosa de uma querida amiga. Ele é popular nas cercanias da principal avenida da cidade, e vaidoso, conta que recebeu convites para trabalhar com “a turma do Pânico”, possivelmente por sua personalidade carismática, sua atitude altamente comunicativa e por ser, inevitavelmente e às vezes sem querer, engraçado. Ele é um homem humilde, espirituoso e surpreendente em sua sabedoria inspirada do cotidiano das ruas. Se questionado por seu discurso rico, ele responde na lata: “Converso bastante”.

A face humana do homem
Simpático, Rogério lida com “o público” todos os dias, exibindo o anúncio do patrão e tentando amenizar o cotidiano maçante de quem passa por ele com ares de “poucos amigos”. Para ele, “tratar bem o ser humano hoje é uma coisa ímpar”. Se alguém está bravo, triste ou “puto com o mundo”, Rogério oferece um sorriso como quem, de fato, não quer recompensa, só um sorriso de volta. “Para tratar bem as pessoas, a gente tem que pensar na diferença, não na indiferença”, diz ele. É assim que ele busca “fazer a diferença” na vida das pessoas. E ele filosofa: “O ser humano só pensa em uma coisa: o poder. O poder é muito bom, mas o amor, um carinho, um sorriso... Há várias maneiras de você ter o poder de mudar a vida das pessoas, não só o dinheiro. Todo mundo quer dinheiro, dinheiro, dinheiro. Mas não é só o dinheiro que é importante, há outras coisas boas na vida que temos que gozar”.

Pensando assim, na teoria, seria simples mudar o mundo e transformar a existência humana em uma experiência sublime. E para Rogério, a prática é absurdamente simples. “Eu vim ao mundo para fazer o bem”. O que a humanidade precisa para viver bem? “Carinho, respeito, calor humano. Tudo isso é fundamental”, e é isso que ele busca transmitir a quem passa por ele. Ele conta que às vezes se sente triste, porque a realidade é triste: “Às vezes eu tenho uns cinco minutos também, porque antes de ser o ‘Risadinha’, eu sou o Rogério ‘ser humano’ também. Sou o ‘Louquinho’, brinco, converso, mas também sou um ser humano”.

Recentemente, além do sorriso sempre presente, Rogério tem apostado em outra iniciativa para passar um “astral positivo” para os paulistanos. De quarta à sexta-feira, após o expediente, ele se despede do anúncio publicitário que vestia, caminha até a estação de metrô Consolação, ainda na Avenida Paulista, e estende sua jornada por mais duas ou três horas. Nessas noites, na saída do metrô, ele veste sua própria causa: o abraço grátis. Em suas palavras, “isso começou com um trabalho lá nos Estados Unidos, com o negócio do abraço grátis, aí vinha uma turma da Internet para cá [para a Avenida Paulista] na hora do almoço, aí era bacana porque fazer uma coisa boa hoje é raro, né?”.

A causa do abraço
Na verdade, é atribuída a Juan Mann a iniciativa da Free Hugs Campaign na Austrália em 1986 e traduzida a idéia corresponde a ‘Campanha dos Abraços Grátis’. O site Free Hugs Campaign, atualmente fora do ar, destacava: “Às vezes, um abraço é tudo o que precisamos”. E uma nota na página eletrônica dizia: “Nessa época de desconectividade social e falta de contato humano, os efeitos da Campanha dos Abraços Grátis se tornou fenomenal. Como esse símbolo da esperança humana se espalhou por toda a cidade, a polícia e os oficiais ordenaram banir a Campanha do Abraço Grátis”. Apesar disso, a última mensagem do site era: “No espírito da campanha pelo abraço grátis, passe isso a um amigo e abrace um estranho!”.

Essa experiência social se alastrou pelo mundo e, a partir de 2001, o norte-americano Jason Hunter está sendo apontado como fundador do movimento. No site Free Hugs, a carta de Hunter lembra a tristeza com a morte de sua mãe, “uma pessoa que incorporava fé, amor e esperança; tudo com um simples abraço”. A lembrança estimulou a vontade de compartilhar com as pessoas o que ele sempre teve: um abraço grátis. Ainda que pensasse que seria absurdo, Hunter pintou um cartaz com as palavras “abraços grátis” e passou a abraçar estranhos que passavam por ele. O mote atual da campanha é “Abraços grátis: Todos nós precisamos de um”.

Com a Internet, e principalmente com os vídeos do YouTube, esse manifesto coletivo de solidariedade se difundiu por vários pontos do globo e se tornou uma mania. Na capital paulista, as manifestações são raras e pontuais, mas marcam sua presença com atores sociais como Rogério. “A turma” paulistana importou a idéia, mas após um tempo, as manifestações foram ficando mais escassas. “Mas coisa boa tem que fazer sempre, tem que ser constante. Aí eu abracei a idéia”, conta Rogério. Apesar de acompanhar a onda free hug, a atuação de Rogério não é institucionalizada, não iça pretensões de figurar como uma movimentação sócio-cultural cool, nem atrai todas as noites os olhares das câmeras de vídeo particulares e de celulares dos curiosos transeuntes e usuários do metrô. Ele está ali, quase todas as noites, ao alcance de quem quiser abraçá-lo. Ele não é mais um dos astros anônimos do YouTube. Sua idéia de “amor ao próximo” não é midiatizada. É real.

Na esquina entre a Rua Augusta e a Avenida Paulista, entre 18:00 e 21:00, Rogério ostenta sua plaquinha com frases como: “Se você acredita que as coisas boas não são desgastadas pelo tempo, me dê um beijo”. Sem o cartaz, ele diz que já ganhava abraços na rua por seu “astral”. Mas com a campanha, ele ri e diz que, de acordo com suas contas, abraça em torno de 100 pessoas por dia, sendo que já ganhou a simpatia e o abraço de empresários e advogados da Paulista: “Tem uns advogados que são humanos”, diz, quase sem malícia. “A gente é uma coisa e ao mesmo tempo não é nada. A gente pode morrer com 40, 50 reais no bolso ou com 100 trilhões no banco e é a mesma coisa. Quando chegar a hora, Deus não quer saber se você é uma pessoa importante ou uma pessoa simples”, argumenta.

Nunca recusou um abraço, mas na inocência de suas palavras, ele vacila e revela seus conceitos de personalidades desviantes: “Eu não tenho preconceito com nada. Pode vir um mendigo, uma mulher gorda, uma mulher negra para me abraçar, para mim, não faz diferença”. Questionado sobre episódios em que foi maltratado na rua, ele hesita e responde em um suspiro desolado: “Ih, apanhei”. Para ele, as pessoas que o agrediram estavam vivendo um mau dia e que não vêem a beleza da vida.

A beleza da vida
Rogério não é casado, é “amigado”. E diz que sua companheira não tem ciúmes dos abraços que distribui, mas logo vacila: “Mentira, ela tem um pouquinho, sim”, admite, com a timidez de quem não sabe mentir. E teoriza sua solteirice: “Hoje realmente poucos homens e poucas mulheres de boa índole, de bom caráter, querem uma vida a dois, uma vida elevada de amor e conquista. São poucas as pessoas que almejam isso”.

Apesar de ser articulado com as palavras, Rogério dificilmente dá respostas diretas a respeito de tudo. Antes, sorri, pensa na vida, filosofa, desconversa, teoriza acerca da sociedade e desliza a resposta mais simples a importantes questões morais da humanidade. Para ele, “Deus, o tempo, o vento e o silêncio” são os maestros do universo e nossa vivência na terra depende de nossa sintonia com eles. “A gente tem que viver uma vida louca, no bom sentido”, curtindo as benesses de valor inestimável que a vida nos dá.

Rogério, o “Louquinho” como é apontado, vive assim. Um dia ao seu lado é um banho de otimismo, esperança e de um realismo mágico que atrai a atenção dos passantes “normais”. Na metrópole louca em que vivemos, é considerado louco quem quer distribuir abraços de graça! Mas o maluco beleza nem se importa. Se seu ofício é exibir banners e seu hobby é dar e pedir abraços, seu cotidiano está intrinsecamente relacionado a reportar mensagens. Invariavelmente, ele veste uma camiseta branca e um jeans surrado pelo tempo. Com esse figurino básico, Rogério está na rua para se comunicar com o mundo por suas mensagens, umas escritas, outras indescritíveis. Se estivesse às vésperas da morte, suas últimas mensagens seriam: “Viva uma vida elevada. E me dê um abraço”.

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Gabriel Sales
 

Ótimo! Gostei do lado humano reportado.

Gabriel Sales · Belo Horizonte, MG 8/12/2008 17:18
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Juscelino Mendes
 

Belíssimo trabalho. É minha parte preferida de São Paulo. Charmosa e européia. Abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 9/12/2008 11:55
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Sérgio Franck
 

Juliana, belíssima matéria perfeita.

Arigatou, sayonará!

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 9/12/2008 13:42
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Djalma Nery
 

Tragicômica a situação do "Louquinho" - bem como a do nosso mundo discrepante.
Texto muito bem escrito e, de fato, que personagem brilhante esse Rogério!

Djalma Nery · São Carlos, SP 10/12/2008 14:11
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