Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Academicismo: o cemitério das palavras mortas II

1
Tomazio Aguirre · Santo André, SP
25/2/2007 · 93 · 3
 

(Este texto é continuação direta do anterior, a parte 01, já publicada no Overmundo)

Apesar de o drama humano dos brasileiros ajudar muitos cineastas a vencer em festivais internacionais de cinema, aqui nos interessa mais o que vai acontecer com a dissertação de mestrado dessa nossa típica universitária brasileira do que com ela própria.

Após sua aprovação automática e com louvor (é provável que alguma banca brasileira de pós-graduação somente reprove algum trabalho se este for apresentado em branco, e apenas se isso não acontecer em alguma "faculdade de artes"), o trabalho de mestrado vai ter que virar artigos a serem publicados em revistas "científicas". A geração de artigos "científicos" a partir do seu trabalho de mestrado é o que mais enriquecerá o currículo de nossa jovem estudante, e, principalmente, o currículo de seu orientador; o qual, apesar de não ter feito nada, ou mesmo ter atrapalhado, constará como co-autor dos artigos que resultarem da dissertação (sendo que o “mercado acadêmico brasileiro” tem pressionado os orientandos e orientadores a fazerem suas dissertações e teses de pós-graduação já no formato de artigos para publicação, a fim de diminuir o risco de o orientador não levar a co-autoria dos artigos, caso algum aluno mais rebelde se interponha a esta pilantragem institucional).

Por esta necessidade de todos os alunos e professores do academicismo brasileiro terem artigos publicados em grande número (bem como apresentados em congressos), as revistas "científicas" e os congressos "científicos" multiplicaram-se enormemente nos últimos 20 anos. Há revistas para todos os trabalhinhos resultantes das pós-graduações brasileiras, podendo mesmo haver a possibilidade de existir maior espaço em revistas do que de trabalhos a serem publicados (devido ao aumento das verbas públicas nacionais e "internacionais" destinadas ao financiamento de tais revistas, e, consequentemente, de seus grupos mantenedores, o que se mantém em grande contradição com o fato de as universidades públicas estarem realmente falidas e sucateadas em quase todos os outros aspectos). As revistas "científicas" são ranqueadas pela CAPES a depender do status da faculdade a que pertence e do "nome" dos professores que estão em sua comissão editorial (revistas sociológicas que têm o grande sociólogo brasileiro FHC, ou sua esposa, emprestando o nome ao seu corpo editorial, por exemplo, situam-se entre as de melhor classificação na CAPES, vindo a ter mais verba, maior prestígio, e sendo mais disputadas para publicação dos trabalhinhos).

Tanto as revistas quanto os congressos "científicos" (estou colocando a palavra "científico" entre aspas devido ao fato de que as tais revistas e os tais congressos mencionados apenas continuam sendo considerados científicos de um ponto de vista oficial, além de na crença popular, e não devido ao que produzem) tornaram-se empresas, com pessoas que se profissionalizaram em geri-los, aperfeiçoando-se em técnicas e articulações com o governo de maneira a utilizá-lo para fazer a carreira acadêmica render prestígio e dinheiro aos professores/empresários do academicismo das universidades públicas. As faculdades privadas, como são essencialmente empresas, têm empresários de verdade fazendo a festa, e não arremedos de empresários disfarçados de doutores do saber, como nas públicas.

Praticamente ninguém lê as tais revistas “científicas”. Elas são utilizadas apenas para que os aluninhos possam citar seus artigos em outros artigos que serão em outras revistas publicadas, numa rede de troca de citações de artigos entre revistas e autores. Quanto mais um artigo ou um autor é citado, maior pontuação ele ganha na CAPES, nas bolsas de incentivos a pesquisa, no dinheiro público, etc. Qualquer artigo "científico" produzido atualmente, portanto, é uma costura de dezenas ou centenas de citações de autores predominantemente contemporâneos que são citados na base da troca de favores entre eles. O resultado são trabalhos que forjam a manutenção de um “evolucionismo do saber”, como se o saber científico oficial (o do academicismo) estivesse aumentando seu conhecimento ou progredindo em decorrência da predominância de autores contemporâneos, os quais estariam superando autores mais antigos. Em realidade, contudo, a quase totalidade dos autores atuais são meras fraudes, prestigiados apenas em decorrência das regras dos joguetes acadêmicos e da ignorância reinante.

O objetivo primordial dos acadêmicos contemporâneos é produzir artigos acadêmicos em larga escala a serem citados em outros artigos acadêmicos. Tornaram-se eles burocratas da palavra, produzindo artigos em série e sem conteúdo (a maioria deles gerado pelos alunos de pós-graduação). Praticamente todos os artigos e autores são citados de modo superficial, com clara demonstração de que não são lidos, no máximo sendo lido o título dos trabalhos ou resumos, e com uma escolha aleatória de algum trecho a ser citado literalmente, para parecer que ocorreu uma real leitura.

Esta rede de empresariamento e produção burocrática de artigos em série (sustentada por uma aristocracia acadêmica, simbiótica dos restos do estado brasileiro), foi montada no Brasil nos últimos 30 a 40 anos , de modo a estandardizar os professores medíocres e dóceis à ditadura militar na zona de poder do academicismo local. E lembremos que docilidade não significa apenas ausência de críticas. O PT, por exemplo, assim como a maioria dos esquerdismos brasileiros pós-ditadura, quase sempre foi muito bem aceito pelos adversários como esquerda política, por não significarem uma real ameaça na luta por cargos políticos. Esta origem política, contudo, não explica em totalidade a decadência do academicismo brasileiro, já que a mediocridade tem se tornado a tônica do academicismo em todos os países do mundo (logo colocarei neste blog outros textos, complementares a este, sobre o academicismo em geral). De qualquer modo, nesses últimos 30 ou 40 anos, alguém somente consegue fazer parte da aristocracia acadêmica brasileira de acordo com o número de favores que prestar ou do puxa-saquismo que dedicar aos professores membros desta aristocracia acadêmica filha da ditadura militar, fazendo pesquisas para eles, tornando-se seus amantes, dando aulas ou lhes fazendo outros trabalhos não-remunerados. Agindo assim desde a graduação, um aluninho se torna "amigo" de mestres e doutores que tenham outros "amigos" professores que lhe abram as portas de mestrado, doutorados, revistas para publicação, palestras em congressos, vagas de professores nas universidades, contratos temporários nos órgãos do estado, concursos públicos, etc.

Como é fácil de ver, as revistas se proliferam de tal modo que quase todo professor orientador tem uma a sua disposição na qual ele próprio e editor ou amigo de um editor. Com esta rede de amizade, um professor troca publicações com outros professores, apadrinhando também os aluninhos desses seus amigos professores, que assim ficam lhe devendo favores. Por exemplo, quando um destes aluninhos de seus amigos for editor de sua própria publicação, ele deverá facilitar o "espaço" para o seu ex-orientador e os amigos deste publicarem. Não por acaso, quase todo professor universitário atualmente quer se dedicar apenas a mestrado e doutorado, abandonando as aulas de graduação aos mestrandos e doutorandos (como parte do trabalho braçal gratuito ofertado ao orientador) e aos professores substitutos (os quais ganham pouco mais de um salário mínimo para manter as graduações formalmente funcionando).

Tanto nesse espaço de milhares de artigos publicados anualmente no Brasil - praticamente todos com a mesma qualidade "científica" que a dissertação de nossa jovem aluna das ciências sociais, descrita aí em cima -, como nas milhares de dissertações e teses de mestrado ou de doutorados que a "elite pensante brasileira" entulha em bibliotecas reais ou virtuais país afora, o resultado é o mesmo: infinitos textos produzidos pela pressão de fazer crescer o currículo devido ao fato de ser a produção em série e independente de conteúdo a regra número um do jogo. Os currículos acadêmicos assim falseados tornam-se o modo indireto, e bem disfarçado, de aquisição de dinheiro vindo de algum órgão público, como da CAPES, de outras instituições públicas de "fomento à pesquisa", ou mesmo de patrocinadores (como no caso da área da saúde, com a pesquisa concentrada na experimentação de remédios dos grandes laboratórios internacionais).

O conteúdo do que é escrito, a cientificidade, a busca de verdades, o debate de teorias, a lógica do que se argumenta, as aplicações, os métodos, conclusões generalizáveis ou não, nada disso faz parte deste universo de palavras mortas, produzidas pela necessidade burocrática de oficializar o nome do pesquisador em algum evento que registre a sua participação e lhe garanta uma somatória de participações que aumente o seu prestígio e a sua pontuação na aquisição de verba pública para "pesquisa" ou para a escalada na hierarquia do academicismo brasileiro.

Podemos, por último, tentar nos socorrer na esperança de que existam exceções a este fim degradante do academicismo nacional. Podemeos pensar se é possível, nesse contexto, a existência de alguém que, com esforço e grande rebeldia diante desses esquemas, sem dinheiro da CAPES e de outros órgãos públicos ou de patrocinadores, sem os apadrinhamentos dos catedráticos empoleirados em seus cargos e editorias de revistas, sem puxar o saco, sem trabalhar de graça, ou mesmo sem ter que dar o rabo para professores (literalmente falando); e sem desanimar por ver que todos optam pela mediocridade, já que o resultado é o mesmo, consiga ultrapassar em suas pesquisas este mar de lama de joguetes e segundas intenções. Imaginemos que alguém consiga superar todas estas forças contrárias para continuar estudando e fazendo pesquisa, com esforço praticamente heróico, aprendendo sozinho, pesquisando sozinho, e, sob risadas cínicas dos colegas de sua área "científica", consiga fazer um bom trabalho de mestrado ou doutorado, ou mesmo um bom trabalho desvinculado de ganhos curriculares. Imaginemos este herói não se rendendo a toda esta rede que o atrai para a mediocridade e para o vazio, mas com ganhos pessoais. Suponhamos, ao final de um percurso muitíssimo difícil, que ele consiga extrair de seu trabalho um bom artigo científico, com idéias importantes sobre algo relevante. E mesmo, por uma sorte enorme, ele consiga publicar seu trabalho de pesquisa em alguma revista, ou mesmo transformá-lo em livro. Podemos pensar que fim terá este hipotético e raro, muito raro, trabalho relevante produzido em meio tão perverso?

Bem, creio que tal ato heróico realmente seja possível (ao menos em hipótese puramente teórica), mais ainda assim, basta fazermos algumas perguntas sobre o desfecho desse heroísmo intelectual em torno de palavras mortas para termos a certeza de que a exceção, neste caso, faz parte da regra, ou do lodaçal de textos inúteis. Será que alguém lerá o que este herói das palavras escrever? Será que alguém, que se interesse por estudar seriamente bons artigos, conseguirá ler milhares de fraudes acadêmicas (embora oficialmente verdadeiras, legitimada por revistas oficialmente conceituadas e por órgãos "competentes") para encontrar este resíduo de cientificidade levada a sério em um meio de milhões de artigos inúteis produzidos em série? Certamente, qualquer possível pesquisa científica ou filosófica feita com apego à busca por verdades no Brasil será uma agulha intelectual num palheiro de inutilidades, a ser esquecida com todo o resto. A finalidade última da produção intelectual brasileira tornou-se a manutenção de cargos, de prestígio social e de dinheiro. E possíveis e muita raras exceções nesse contexto são ignoradas, feitas invisíveis no meio de milhares de dissertações, teses e artigos inúteis e vazios. A “seleção natural” aqui dá-se ao contrário; pelo menos ao contrário da qualidade. O que poderia ter real valor desaparece num mar de futilidades que se auto-plagiam.

Infelizmente este mundo de palavras mortas é como um buraco negro. Nele já desapareceu qualquer possibilidade de uma intelectualidade brasileira que não seja apenas o espelho da decadência do resto do país. O academicismo brasileiro é fundado na fraude essencial. Ele só existe enquanto uma grande farsa. E uma raríssima exceção que possa ser encontrada somente servirá para os esperançosos acreditarem que nem tudo está perdido. Embora esteja. Pelo menos o academicismo, não há dúvida que esteja.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ilhandarilha
 

Tomazio, apesar de concordar em alguns pontos, acho que vc foi radical ao extremo em sua crítica. Desprezar dessa forma a academia é, no mínimo, perigoso. As falcatruas acadêmicas existem, sim. Mas generalizá-las é menosprezar uma classe e uma produção científica brasileiras importantes. As universidades públicas são ainda um espaço onde a produção intelectual e científica brasileiras acontecem de fato, mesmo com todo o sucateamento, falta de professores, etc.
Se existe um exagero na produção de artigos científicos e nas citações nos trabalhos, ótimo: é sinal de que a turma está de fato pesquisando e lendo, pelo menos uns aos outros. Melhor um exagero nessa área que não existir produção nenhuma, certo? Acho meio irresponsável sua afirmação de que toda essa produção é medíocre . Você teria que ler tudo para fazer esse julgamento, né mesmo?
É bom lembrar também que esse modelo acadêmico (que também critico) não é criação nem exclusividade da academia nacional. É o que se pratica no mundo inteiro, de Oxford à Universidade do Vale do São Francisco. A existência de professores e alunos medíocres no processo não é uma prova de que a academia brasileira é medíocre em si. Se você se der ao trabalho de ver alguns programas de tv como Globo Ciência, Planeta Terra e ler algumas revistas como a D.O. Leitura (que são voltadas para o grande público e não para o fechado mundo acadêmico), você verá que os trabalhos científicos produzidos aqui são relevantes, importantes e voltados para a nossa realidade, sim.
Espero que você reformule suas idéias quando resolver se enfronhar no difícil e fechado mundo da academia.
Abraços

Ilhandarilha · Vitória, ES 24/2/2007 17:19
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Adroaldo Bauer
 

Uma enxadinha, num sábado vermelho, uma vez por mês não faria mal a qualquer pós-pós-pós-pós-pós, sem inveja ou ojeriza aos 40 anos de estudos deles financiados por nós, o povo, como diria meu falecido pai.
Sobre o fato de ser pratica acadêmica no mundo inteiro, mesmo a China já sabe que se pratica a exploração capitalista do trabalho no mundo inteiro.
Ciência que não se aplica à transformação não gera sequer consciência, nem revoluciona além do umbigo do cientista.

Certo, exagero, há exceções e eu até conheço uma pessoalmente. É séria e dedicada pessoa.
É porque não viajo muito e pouco saio de casa, onde o mundo tem entrado por esta janelinha de um pc sem banda larga.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 8/4/2007 20:58
sua opinião: subir
Emir Larangeira
 

Venho reclamando reiteradamente desse academicismo no meu blog. Como sou interessado na segurança pública, e possuo razoável vivência neste campo de estudo e de ação no Rio de Janeiro, sinto-me frustrado com as teses puramente academicistas com que deparo em tudo que é canto. Nada acrescentam e só ampliam o círculo vicioso. O autor esgotou magistralmente o assunto. Não me sinto mais isolado em minha modesta e idêntica opinião muitas vezes externada. Indago se posso postar o título com o nome do autor e detalhes para acesso ao texto integral por meus leitores. Ou então citar um pequeno trecho do artigo como abertura do meu texto, geralmente visitado por profissionais da segurança pública, com o mesmo objetivo de divulgar o pensamento do autor.

Emir Larangeira · Maricá, RJ 23/5/2009 20:38
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados