Acará - parte 1

Andre Stangl
1
agnes mariano · Salvador, BA
9/11/2007 · 122 · 14
 

A cena se repete há décadas, sempre no mesmo lugar. Naquela tarde, aconteceu assim: no pequeno largo que dá acesso à lagoa do Abaeté, ela surgiu sem avisar. Toda de branco, vestia-se majestosamente, com uma longa saia engomada, linda bata feita de rendas e torço delicado sobre os cabelos. Maquiagem, um discreto esmalte cor-de-rosa, colar, brincos, pulseiras e anéis dourados completavam a indumentária dessa filha de Oxum e Iansã, que combina fala arrastada e temperamento obstinado. Com andar firme, mas sem pressa, mal olhou para os lados ao atravessar a rua, enquanto os carros pararam para vê-la passar. Quem a vê assim, como uma rainha, nem imagina que a vida de Cira é feita de muito suor e esforço. Ela acorda cedo, compra pessoalmente os ingredientes, participa do preparo da massa e acompanhamentos, orienta suas funcionárias sobre cada detalhe. Depois vem a hora da venda na rua, fritando os bolinhos e atendendo os fregueses até altas horas, todos os dias. Quem começou tudo foi sua mãe, que já ocupava esse lugar antes dela nascer. Naquele tempo, o bairro de Itapuã era pouco habitado, a clientela era pequena e mesmo no resto da cidade de Salvador não havia muitas baianas. Hoje, as coisas mudaram. Onde quer que elas estejam – Cira, Dinha, Loura, Chica, Ivone, Neinha e tantas outras - uma multidão se desloca diariamente para reverenciá-las e deliciar-se com o quitute incandescente que somente elas sabem fazer: o acarajé.

Feito apenas com feijão fradinho, cebola, sal e frito no azeite de dendê fervente, não é à toa que esse misterioso bolinho tem a cor e a temperatura do fogo. O acarajé é um alimento sagrado, oferecido a Oyá, também conhecida como Iansã, a deusa africana que controla os ventos, as tempestades, os relâmpagos e tem poder sobre o fogo. Na religião dos orixás , os homens dialogam com seus deuses através dos sacrifícios e oferendas de alimentos. O akará é um deles e veio parar no Brasil através dos escravos africanos iorubás . Como eram as mulheres negras que dominavam as cozinhas, não demorou para que essa e outras receitas africanas começassem a ser conhecidas e admiradas nas mesas brasileiras, conta Luis da Câmara Cascudo. No Brasil colonial, acarajés, abarás e carurus, entre outros pratos, eram vendidos nas ruas em tabuleiros que as escravas de ganho equilibravam sobre suas cabeças, enquanto iam cantando pregões para atrair a freguesia.

Com o que conseguiam juntar, muitas até conseguiram comprar a própria liberdade. Corajosas, independentes e empreendedoras, as baianas foram aos poucos arriando seus tabuleiros e se fixando em pontos estratégicos da cidade. Montar um tabuleiro para vender quitutes na rua, típico hábito africano, passou a significar, cada vez mais, a garantia do sustento da família. Além do preço acessível, do sabor delicioso e das qualidades nutricionais do bolinho de feijão, a simpatia das baianas sempre foi um tempero a mais, ajudando a conquistar uma freguesia cativa. A partir da segunda metade do século XX, muitas delas foram ficando famosas, como Romélia, Vitorina, Damásia e Quitéria, espalhadas principalmente pelo centro e Comércio de Salvador. Nas últimas décadas, a cidade cresceu na direção norte, levando prosperidade às baianas que trabalhavam perto do mar: Dinha, no Rio Vermelho; dona Chica; na Pituba; Cira em Itapuã. Mas há muitas outras rainhas do dendê, como Regina, na Graça e Rio Vermelho; a Loura; no Horto Florestal; dona Ivone, no Bonfim, ou Neinha, nas Mercês. Apareceram também alguns rapazes que nada deixam a dever a nenhuma baiana, como os irmãos Gregório e Zé Antonio.

Algumas delas chegaram a pegar o tempo do feijão ralado na pedra, ao modo africano, e do acarajé servido só com pimenta. A trabalheira era enorme, pois, além de triturar o grão, é preciso tirar toda a casca e bater bem a massa. Com o passar do tempo surgiram os moinhos elétricos, para diminuir o trabalho, mas os clientes exigiam novidades, obrigando as baianas a acrescentarem novos recheios no acarajé, como salada, vatapá, camarões e caruru. O antigo tabuleiro de madeira sobre um cavalete em X, hoje visto raramente, foi cedendo lugar aos tabuleiros de alumínio e vidros, maiores e mais confortáveis. O que não mudou foram as figas, folhas de arruda, fitas e contas que todas usam sobre o corpo ou dispõem sobre o tabuleiro para garantir proteção, tão necessária a quem trabalha na rua. No inverno, elas lutam contra o vento e chuva, que afasta os fregueses e respinga sobre o azeite, provocando queimaduras. No verão, se desdobram para atender à clientela exigente que não gosta de esperar e só aceita acarajé bem quentinho.

Micro-empresárias intuitivas, a maioria das baianas trabalha todos os dias da semana, empregando filhos, amigos, vizinhos e sustentando toda a família. No começo, a atividade estava restrita às filhas de Iansã e Xangô, mas o acarajé se popularizou tanto, que começaram a surgir baianas de todas as religiões e passou a ser vendido também em lojas, bares, delicatessens, restaurantes caros e supermercados. Com o crescimento enorme do número de tabuleiros, surgiram também baianas de primeira viagem, que, despreparadas, oferecem produtos de má qualidade. A atividade foi regulamentada por decreto municipal em 1998, definindo normas para a indumentária, tabuleiro e localização. Em 2002, a divulgação de uma pesquisa comprovando a falta de higiene no preparo de alguns acarajés deflagrou uma nova onda de iniciativas que buscam melhorar a qualidade do produto. A implementação de cursos de capacitação, fiscalização e a concessão de empréstimos para que as baianas possam modernização suas cozinhas passaram a ser assuntos prioritários para prefeituras e associações. Reconhecido como patrimônio cultural de Salvador, pelos vereadores, o ofício das baianas de acarajé foi reconhecido, em 2004, como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Mas, na verdade, o akará de Iansã está acima de todas as polêmicas e interesses mundanos. Ele é um alimento místico, artesanal, que só é saboroso se for feito com rigor. Um prato cheio de segredos que só podem ser desvendados após anos de observação paciente, cheia de riscos, porque envolve o fogo, o azeite fervente, o sucesso e o fracasso. Ser baiana é uma escolha difícil. Significa assumir o compromisso de ser incansável e ter coragem o tempo todo, assim como Iansã, a dona dos acarajés. É também tornar-se capaz de dar colorido e perfume às nossas comidas, tornando o nosso cotidiano bem mais saboroso.



ALIMENTO DO POVO

Sobre os balcões, caixotes e carrinhos de mão, que percorrem a feira sem parar, se misturam o vermelho intenso das pimentas, o dourado do dendê viscoso e o verde escuro dos quiabos, pimentões e folhas. Por toda parte se vê também feijões e camarões. Muitos outros ingredientes das comidas dos homens e dos deuses podem ser encontrados nas barracas da feira de São Joaquim, por isso, é lá que quase todas baianas de acarajé de Salvador se abastecem. As pequenas e as grandes, as famosas e as anônimas. Mas saber chegar até esses temperos e frutos do mar e da terra é uma arte para poucos, pois não basta ter dinheiro: é preciso saber onde comprar, como escolher e negociar. Se não aprender esses segredos, o comprador não levará o melhor produto e ainda pode se perder numa das intermináveis vielas da feira misteriosa, sob o olhar divertido dos feirantes que, como bruxos, sabem de tudo que se passa nesse labirinto de cores, sons, sujeira, cheiros e sabores.

No preparo da massa do acarajé e acompanhamentos, a busca pelo melhor começa na feira, mas vai muito além dela. Cada detalhe deve ser respeitado e é necessário vigilância constante para perceber os imprevistos – massa que azedou, dendê que não serve para a fritura - suspender as vendas e substituir o produto. “Ter qualidade é difícil, mas o prejuízo compensa. Se não ganhar hoje, ganha amanhã”, ensina Maria Francisca dos Santos, a dona Chica, que vendeu acarajés por 30 anos na Pituba.

Para quem não conhece a feira, pode dar trabalho chegar até Jailton de Jesus da Pureza, 40 anos. Mas o esforço vale a pena, pois é lá, na “Casa Pureza”, rua cinco, quadra sete ou “rua do Camarão”, que se encontra alguns dos melhores litros de dendê, feijões e camarões da cidade. Jailton começou em Jaguaripe, onde nasceu e aprendeu a pescar o camarão e defumá-lo. Quando veio para Salvador, há mais de 20 anos, começou as vendas no balaio, “depois aluguei um box, empacotava o camarão, botava no ônibus e ia vender de porta em porta, no Bonfim. No sábado vendia no balaio, até que vi que dava pra me manter na feira”, relembra. Hoje, em sua barraca espaçosa, ele vende produtos selecionados que vêm de longe: “Os camarões são do Maranhão, Rio de Janeiro, Alagoas, Maragogipe, Nagé, Acupe, Valença. O dendê vem de Valença e Nazaré”.

Comprar bons produtos envolve dois quesitos: um bom fornecedor e um comprador que saiba escolher. O dendê, explica Jailton, tem os seus mistérios: “O povo pensa que é só ver bonito e comprar, mas não é. Tem dendê que presta pra moqueca, mas pode não servir pro acarajé. Se espumar quando esquentar, não serve”. No caso do camarão, a alma da comida baiana, o assunto é ainda mais delicado: “O produto tem que ser do dia, depois que chega aqui, só dura oito dias. Hoje não estão mais defumando o camarão devidamente, porque quanto menos defuma, mais ele pesa”. Com a sua experiência, Jailton se tornou o queridinho das baianas, por isso, para conseguir produtos da Casa Pureza é preciso ir cedo. No começo da tarde, muitas vezes, já não se encontra muita coisa à venda. Os grandes sacos abarrotados com camarões “filé” empilhados no fundo da barraca, certamente, já estarão reservados para alguma das suas clientes famosas: Cira, Dinha, Regina ou Neinha.

Padrão de qualidade
Saber comprar é importante, mas é só o início de um longo processo. Antigamente, se começava catando o feijão e quebrando os grãos, para depois colocar de molho, explica dona Chica. Hoje, o feijão fradinho do acarajé já é vendido partidinho, só que antes da trituração é preciso retirar toda a casca, num trabalho meticuloso que envolve deixar o feijão de molho na água e depois lavá-lo várias vezes, passando pela peneira, explica José Antonio Vieira, filho de dona Chica e um dos mais famosos baianos da cidade, ao lado de seu irmão Gregório Bastos, primeiro homem da família a assumir o tabuleiro. “Lavar o feijão é a parte mais pesada”, explica Zé, que começou pequeno, junto com os irmãos, a ajudar a mãe no preparo do bolinho. Gregório também lembra que só saía pra jogar bola se antes fizesse o amigo prometer que, na volta, ajudaria a lavar o feijão.

Lavado e sem casca, chega a hora de triturar os grãos, em moinhos elétricos que se compra na feira ou lojas populares. Então é hora de bater bastante a massa com colher de madeira e depois acrescentar sal e cebola ralada. Aí, é fritar pequenas porções no dendê bem quente. Como a massa está crua, é preciso ter cuidado para que não azede com o calor, recomenda Zé. Exigentes, Dona Chica, Cira e Dinha contam que, para garantir a qualidade, acompanham todas as etapas de perto. “Nunca confiei em ninguém, sempre fiz tudo”, diz Dona Chica, que hoje só faz acarajés em casa, por distração. Cira vai com freqüência na feira escolher os ingredientes, “senão vem mercadoria ruim”, enquanto Dinha até desistiu de manter suas franquias em Brasília e Rio de Janeiro: “Acarajé é comida caseira, não dá pra industrializar, tem que ser feita todo dia”. Com a experiência, cada uma desenvolveu suas técnicas para zelar pela reputação: “Cansei de parar de assar e voltar pra casa, porque o azeite não estava bom. Também joguei panelas inteiras de massa no lixo, porque tinha algum problema”, conta dona Chica, cujo exemplo é seguido pelos filhos. Cira, não satisfeita em usar o mais caro camarão da cidade, também os lava, cozinha e tempera. Já Dinha, no restaurante que construiu no coração do Rio Vermelho, usa fogareiros e panelas de aço para manter tudo aquecido.

Alimento sagrado
Tanto rigor não é à toa, pois o acarajé é um alimento sagrado, para o corpo e o espírito. No passado, para montar um tabuleiro e ir vender na rua era preciso ser filha de Iansã ou Xangô e ser designada pelos orixás para cumprir essa missão. Na África, explica Pierre Verger em seu livro Orixás, Oiá, também chamada de Iansã, é a divindade dos ventos, tempestades e do rio Níger, que se chama Odò Oya, em iorubá. Conta a lenda que, após se separar de Ogum e se unir a Xangô, Iansã foi enviada pelo segundo marido à terra dos baribas em busca de um preparado que, ingerido, lhe daria o poder de lançar fogo e chamas pela boca. Ousada, Iansã provou do líquido, tornando-se também capaz de cuspir fogo, conta Verger. É por isso que, para homenagear esses deuses, os africanos fazem cerimônias com o fogo, como o ajere, onde um iniciado carrega na cabeça uma jarra cheia de furos com fogo dentro ou o àkàrà, onde os iniciados engolem mechas de algodão embebidas em azeite-de-dendê em combustão, narra Verger.

Filhas de Oxum vendem cocadas; filhas de Nanã, mingaus, filhas de Oxossi vendem frutas e filhas de Iansã e Xangô, acarajés, explica a cachoeirana Ivone do Carmo, que vende acarajés ao lado da igreja do Bonfim há 44 anos.

- Quando tinha 12 anos, fui num terreiro perto da minha casa, no Pau Miúdo, procurar emprego. Tomei a benção, peguei a conversar e perguntei se precisavam de empregada. Veio a mãe de santo, Maria do Socorro, e disse que eu não ia ser empregada não, que ia ser do terreiro, porque ela tinha sonhado com uma senhora dando uma menina a ela. Ela terminou de me criar e me iniciou. Eu tomava conta de tudo. Foi lá que eu aprendi a fazer os acarás dele, compridinhos, e os dela, bem redondinhos. Fazia pra comida, pra vender do lado do barracão e repartir no candomblé. Ainda mocinha vim morar no Bonfim e aqui eu tive um sonho com Iansã me dizendo: ‘Ivone, você vai ser baiana, a baiana mais famosa da Bahia’.

Obediente, essa filha de Xangô não pestanejou e, até hoje, mantém no alto da colina sagrada o seu tabuleiro, que é também o local de encontro com uma legião de amigos e filhos de consideração que ela arranjou em todos esses anos em que enfrentou os perigos da rua, o vento, o sol e a chuva, para alimentar o povo baiano com o acará africano.




RECEITA AFRICANA

São apenas 9h de uma manhã de quarta-feira e o largo do Pelourinho já está tomado pela multidão que transborda do templo azul e dourado erguido pelos escravos, a Igreja do Rosário dos Pretos. Nas saias, blusas, calças e adereços, todos os tons de vermelho e branco, para homenagear Santa Bárbara e Iansã. Enquanto desce apressada a ladeira em direção à missa, a mulher comenta:
- Devo tudo que tenho a ela, meu apartamento, meu carro. Ave Maria, graças a Deus sou filha de Iansã.
A amiga, orgulhosa, responde:
- Eu também, sou filha de Xangô.
A missa já está perto do final, quando Iansã resolve mostrar a sua presença: nuvens negras surgem de repente e pingos grossos desabam sobre o povo, abençoando-o.
- Já estava até demorando, porque no dia dela sempre tem trovoada - explica uma senhora.
Na Bahia, todos os anos é assim: quatro de dezembro é dia de homenagear a santa do manto vermelho e a orixá dos ventos e das tempestades, dia em que tem emoção, chuva, procissão, música e muito acarajé.

Essa mistura de fé e comida é uma história antiga, que começou na África, prosseguiu no Brasil e perdura até hoje, porque as comidas que os africanos faziam para oferecer aos seus deuses caíram no gosto dos brasileiros e nunca mais deixaram de ocupar um lugar de honra em nosso cardápio. A semelhança é tão grande que um africano se sente em casa na Bahia. Como conta a empresária nigeriana Rasidat Lola Akanni, que mora há muitos anos no Brasil, quando quer relembrar o sabor do legítimo akará da sua terra, bem crocante, ela não precisa fazê-lo em casa, apenas vai ao tabuleiro de uma certa baiana.

Na África, o nosso abará se chama moìn-moìn. “É uma massa de feijão fradinho temperado com cebola, pimentão, tomate, gengibre e dendê. Depois a gente coloca camarão e ovo cozido dentro e cozinha na água enrolado na folha da bananeira”, explica Rasidat. Como é considerado um alimento leve, ele é comido “de manhã, junto com o mingau”. O caruru tem quiabos, dendê, pimenta, camarão e carne ou peixe: “A gente come na hora do almoço, junto com amalá, uma bola de massa feita no fogo com farinha de inhame seco e água”. Já o akará, é “a massa de feijão moída com temperos como pimentão, cebola, pimenta e quando vai fritar coloca camarão ou peixe dentro. A gente come qualquer hora, em qualquer lugar, é uma merenda. Lá, vende akará na rua, na feira, no restaurante, as mulheres ficam sentadas fritando e servindo, como aqui”.

Segundo o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, a palavra acarajé pode ser uma versão reduzida do pregão cantado pelas antigas vendedoras ambulantes. Na sua música A preta do acarajé, Dorival Caymmi reproduziu livremente um deles: “O acará jé ecó olailai ô”. Pregão que era um convite aos fregueses para virem comer (jé) a sua iguaria (acará). Em cada grupo étnico iorubá o acará era feito de certa forma, explica Costa Lima: acarakere bem pequeno entre os egbá, acarájexá bem maior, entre os ilexá. Na Bahia, aos poucos, se definiu um tamanho médio para a venda ao público. O que não mudou foi o desabafo que Caymmi ouvia da baiana e registrou em sua canção: “Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é”.

Enfeitiçando o paladar
Muitos dos ingredientes e receitas vieram da África, mas foi na cozinha das nossas casas-grandes e senzalas que surgiu a culinária afro-baiana, tendo como elementos centrais o dendê africano, a pimenta sul-americana e o côco da Índia. Como lembra Luis da Câmara Cascudo, em seu texto A cozinha africana no Brasil, escravos iorubanos foram levados para muitos lugares, mas somente aqui a culinária africana se aprimorou e difundiu tanto. A explicação, propõe ele, é que “no Brasil, a presença da preta na cozinha classificava-se como indispensável e regular”, o que não ocorria em outros locais, onde havia até quem condenasse a colaboração das escravas na cozinha. De fato, ao se tornarem responsáveis pela alimentação das famílias, essas mulheres recebiam um fardo e um poder, o de recriar receitas, acrescentar ingredientes, fundir costumes africanos com portugueses e indígenas.

No começo do século XVII, a palmeira africana da qual se extrai o azeite de dendê foi introduzida no Brasil, explica Costa Lima. Com a chegada desse e outros ingredientes, sabe-se que, no mínimo, em fins do século XVIII, além de degustados nas residências, os pratos africanos já eram comumente vendidos nas ruas. É de 1802 uma carta do professor de grego Vilhena queixando-se da venda a pregão, pelas escravas de ganho, de mocotós, carurus, vatapás, mingaus, acaçás, acarajés, entre outras “couzas (sic) insignificantes e vis”. Segundo Costa Lima, desde essa época, os tabuleiros das baianas já alimentavam a preço acessível a população subempregada e pobre da cidade com seus quitutes deliciosos. Com essa venda nas ruas, a serviço dos patrões, muitas chegaram a reunir quantia suficiente para comprar a própria liberdade.
Também no final do século XVIII acontecia na Bahia um fenômeno importante para o desenvolvimento da culinária: “Começa a se organizar em comunidades estruturadas o sistema religioso dos escravos de origem nagô e iorubá”, como explica Costa Lima. Onde havia orixás, havia sacrifícios e oferendas de alimento, pois é assim que os africanos dialogam com seus orixás: fazem seus pratos prediletos, colocam um pouco em frente ao altar e repartem o resto após as cerimônias. Foi por isso que receitas antigas que vieram de longe nunca foram esquecidas. Como esquecer o ebô de Oxalá, o doboru de Obaluaê, o omolucum de Oxum ou o acará de Iansã?

Nessa época, onde as panelas eram de barro, o fogão, à lenha, e não havia eletrodomésticos, o feijão do acarajé era moído na pedra de ralar: “Mede cinqüenta centímetros de comprimento por vinte e três de largura, tendo cerca de dez centímetros de altura. A face plana em vez de lisa, é ligeiramente picada por canteiro, de modo a torná-la porosa ou crespa. Um rolo de forma cilíndrica, da mesma pedra, impelido para frente e para trás, sobre a pedra, na atitude de quem mói, tritura facilmente o milho, o feijão, o arroz”, explicou Manuel Querino em seu texto "A arte culinária na Bahia", de 1916.

Nos terreiros mais tradicionais, até hoje se mantém o hábito de usar a pedra de ralar. A baiana Ivone do Carmo, que alcançou esse tempo, conta que o ato de moer na pedra servia também como uma espécie de treinamento corporal para o momento do transe. “Tinha que passar o feijão na pedra pra dar o ‘gincar’ no ombro, pra quando o santo pegar a gente, tremer bem o ombro. Hoje o santo é cá embaixo, é um remelexo danado. Naquele tempo era no ombro. A não ser quando é Iansã que pega, porque aí tem que remexer tudo mesmo”, diz ela, que sabe muito bem que cozinha e magia se misturam.

CONTINUA EM: Acará - parte

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Cintia Thome
 

Parabens...Estea colaboração é excelente.
Rico conteúdo.
Vou até salvar...
Parabens Agnes.
bj

Cintia Thome · São Paulo, SP 7/11/2007 11:39
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Saramar
 

Nossa, verdadeira aula, excelente leitura.
As fotos estão perfeitas.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 7/11/2007 11:47
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agnes mariano
 

Bom saber que vocês gostaram. Foi muito bacana (e saboroso)apurar e escrever.
bj

agnes mariano · Salvador, BA 7/11/2007 14:03
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jjLeandro
 

O único perigo em toda essa deliciosa reportagem é passar do ponto...explico: no peso depois da sedução de tal iguaria. Excelente.

abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 7/11/2007 15:42
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agnes mariano
 

pois é, leandro, o risco é grande. e o acarajé é light perto de rangos como o "caruru de são cosme e damião", que pode incluir até 10 alimentos distintos. é comer, celebrar e dar uma caminhada depois...

agnes mariano · Salvador, BA 7/11/2007 18:36
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André Teixeira
 

Saborosíssimas colaborações (p1 e p2)!!!

Ainda hoje vou comer um acarajé na Nêga, no bairro jardim Esperança, que também serve abarás (às sextas!) É uma das 3 melhores baianas que vendem esses quitutes aqui em Aju City.

GRANDE abraço!!!

André Teixeira · Aracaju, SE 8/11/2007 13:36
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agnes mariano
 

Valeu, André. Qdo for a Aracaju, provo esse acarajé tb.
Abç

agnes mariano · Salvador, BA 8/11/2007 23:11
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gabriela chaves
 

Excelente Agnes, poxa, deu até vontade de comer um acarajé agora, hummm
Estou dando aulas de Portugues na Argentina, os alunos vao adorar esse texto, posso?
bjos!

gabriela chaves · Brasília, DF 9/11/2007 12:31
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gabriela chaves
 

ah, votado

gabriela chaves · Brasília, DF 9/11/2007 12:32
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Paulo Apolonio
 

Muito bom!

Paulo Apolonio · Salvador, BA 9/11/2007 15:26
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agnes mariano
 

gabriela,
se pode? vc deve... o sentido é esse mesmo: espalhar essas histórias pelo mundo. se precisar, tenho outros textos sobre cultura afro-brasileira.
obrigada, paulo.
abç

agnes mariano · Salvador, BA 9/11/2007 20:55
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Francolino
 

Essa gosta!! E como não há de gostar? Foi buscar longe...imagino a pesquisa de campo como não foi! Dia de sexta então...hum...nem se fala! Não tem coisa melhor.

Francolino · Salvador, BA 9/11/2007 21:43
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agnes mariano
 

Franc, na verdade, durante a apuração estava mais ligada nas histórias, que são muitas. Sou fã de acarajé, mas só como em três, talvez quatro tabuleiros... E descobri que acarajé com axé é na quarta-feira.

agnes mariano · Salvador, BA 10/11/2007 15:29
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Lula Dantas
 

Muito bom!!!

Bela apresentação, me deu vontade de comer comida de azeite com feijão de leite.

Lula Dantas · Itabuna, BA 26/1/2011 14:19
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