ACERCA DA

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Roberto Maxwell · Japão , WW
13/11/2006 · 145 · 12
 

inspirado no texto Quem critica a crítica?, de dolores dj

Recentemente, li alguns textos no Overmundo sobre crítica de arte. Sou cineasta e ocasionalmente escrevo para veículos de comunicação. No momento, tenho uma curta coluna de cinema no jornal japonês International Press. Por alguns anos, mantive um blog voltado para a resenha cinematográfica, com algumas incursões esporádicas no mundo da música. Aliás, vale destacar o uso da palavra “resenha†no lugar de “críticaâ€. Não vejo o trabalho que eu faço como “crítica†e esse é o objetivo do meu texto: discutir a minha política ao fazer resenhas de obras de arte.

Sou formado em geografia e em cinema, produzi cerca de 18 curtas e médias-metragens e poucas vezes tive a oportunidade de ler algo produzido sobre minhas obras. No entanto, interessado por cinema, sempre procurei nos cadernos de cultura dos jornais textos sobre filmes e entrevistas com cineastas e atores. Com raras exceções, encontrava apenas um jornalista falando “bem†ou “mal†sobre as obras retratadas. Poucas vezes, dentro do universo gigante de leituras que eu fazia, tive o prazer de ler algo mais aprofundado sobre um filme ou outra coisa. E, em geral, era em revistas consideradas como “de público especializadoâ€. Não entendia o porquê dos veículos chamados “populares†escreverem aquelas duas ou três linhas, cheias de frases de efeito, conselhos do tipo “fuja!â€, “espere chegar na locadora†e um desenho (estrelinha, bonequinho e afins) que ajudaria a entender melhor aquilo que as (parcas) palavras tivessem deixado escapar. Como cineasta, me punha no lugar de toda a equipe que produziu um filme por meses ou mesmo anos para ele terminar sendo representado por um "boneco" e algumas palavras escritas por alguém em 15 minutos de trabalho, muitas vezes. Como leitor, ficava indignado de ver alguém tomando decisões por mim na hora de escolher um filme.

Na mesma época em que comecei a escrever, um dos maiores jornais do Brasil inaugurou um blog com seus “críticos†de cinema. Comecei a ler o blog e vi que, sem o “policiamento†de uma editoria, aqueles jornalistas se tornaram verdadeiros tiranos, decidindo arbitrariamente o que “entraria para a história do cinemaâ€, sem qualquer necessidade de aprofundar suas opiniões. Ou seja, o blog, onde aqueles “críticos†tinham espaço para realmente refletir sobre cinema — o que, em tese, o jornal não oferecia — apenas reforçava o caráter “opinioso†do trabalho que eles faziam no veículo impresso. (Crítica de arte e opinião é assunto que merece outro texto.)

Decidi, então questionar os escritores do blog sobre o trabalho deles. Um dos mais ofendidos com as minhas colocações respondeu que não interessava a ele fazer uma "crítica técnica", a qual os leitores não entenderiam. Sobre o uso das frases feitas e trocadilhos infames, ele defendeu seu texto dizendo que este era muito bem escrito e que o “humor†era uma forma de fazer com que o leitor se sentisse à vontade lendo os textos. Enfim, segundo esse profissional — experiente e bem posicionado no mercado — era o leitor o responsável por sua escolha pela superficialidade nos textos sobre cinema.

Daquele momento, entendi e reforcei o uso das políticas que definiram o meu modo de escrever sobre arte. Em primeiro lugar, o leitor, sim, é o alvo do texto. Porém, nem ele é nem eu sou mais importante do que a obra sobre a qual estou escrevendo. Segundo, seja qual for a obra, seja qual for o meu “paladar†pessoal, o leitor é quem deve tirar sua própria conclusão sobre ela. Assim, o texto deve focar o processo de construção da obra, trazer informações relevantes sobre sua produção e criação, mostrar contexto em que está inserida, relacioná-la com outras obras... Terceiro, usar linguagem adequada sem subestimar o leitor. O texto não precisa ser um manual sobre como ver cinema, até porque experimentar um filme é algo individual. Mas, não custa falar um pouco sobre estética, colocando para o leitor alguns pontos que podem ser considerados quando se assiste um filme. E usar linguagem técnica não deve ser um tabu. Se for necessário, por que não socializar com o leitor palavras de uso restrito ao nicho da obra? Por que não definir certos termos no texto e enriquecer o vocabulário do leitor? Falar a mesma língua do leitor não deve significar usar as mesmas palavras que ele usa, apenas. Deve ser uma troca, onde ambos aprendem um com o outro. E, por fim, incentivar o leitor a produzir. Sim, produzir. Na coluna semanal que tenho no jornal International Press, tenho feito isso com algum resultado: leitores que já são produtores estão mostrando seus trabalhos para outros leitores.

Com essa pequena política, procuro fazer do trabalho de escrever sobre cinema algo mais do que simplesmente usar um espaço para opinar sobre as obras mas, também, construir com o leitor um olhar sobre a arte do cinema.

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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Roberto:
Acho que o seu texto tem um grave defeito: gaba o "como sei fazer" sem demonstrar "O que sabe fazer". Sinceramente tudo o que você prescreve tanto pode resultar num saco de bobagens criteriosamente selecionadas como numa crítica instigante e que me leve a querer muito ver o filme.
Se você pudesse, como dizem, "matar a cobra e mostrar o pau" isto é, mostrar na prática como funciona este teu "método crítico" vai ficar bem difícil alguém "comprar" os teus argumentos,
Porque é claro que você sabe que isto não funciona com uma receita culinária pois depende fundamentalmente dos conhecimentos, da experiência e da sensibilidade daquele que exerce a função de crítico que eu considero muito mais importante do que querem nos fazer crer alguns artistas.
Fala-se muito hoje em "Formadores de Opinião" num sentido lato e, para mim, é este, e sempre foi, o papel dos críticos de arte.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Os melhores filmes que assisti fui levado a fazê-lo por uma crítica que li em algum veículo de informação. Mas não descarto ter deixado de ver um bom filme por causa de uma crítca inconvincente.

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 11/11/2006 09:59
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Caçapa
 

Não concordo com você, Joca.

Todos sabemos que um curso universitário infelizmente não garante a competência de um artista, de um médico, de um advogado e de um jornalista; muito menos um "método crítico"; mas acredito que não é isso que está em questão!

Acho louvável a iniciativa de Roberto em refletir sobre os métodos de trabalho dos críticos de arte e propor uma outra postura - bem diferente da que encontramos na maior parte dos veículos de comunicação - e que acredito ser mais comprometida com a educação do público e o desenvolvimento do seu senso crítico.

E talvez você não tenha levado em conta o seguinte fato: você é um leitor esclarecido e de senso crítico aguçado (como se pode perceber), mas será que a maioria do público leitor tem essa capacidade de discernimento desenvolvida?

Caçapa · Recife, PE 11/11/2006 18:29
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Olha Caçapa:
A gente sabe que não, este é um dado de realidade. A maioria nem tá nada aí com a crítica. Os filmes americanos de maior bilheteria já vem escalados de fora: tem estréia nacional em trocentos cinemas, uma campanha publicitária massiva. o principal argumentto para um filme ser visto ou um livro ser lido (ou, pelo menos, comprado) é o recorde de público ou o best-seller. E as pessoas querem ver este filme ou comprar e até ler este livro porque acreditam que "estarão por fora da onda" se não o fizerem, isto é, precisam consumir esta informação, creem elas, para melhor socializar-se. Não há, portanto, critério artistico algum fazendo com que a maioria do público, mesmo do público leitor de jornal. Restamos nós, que desejamos ser convencidos a ver o filme x e não o y, na hora que desejamos ir ao cinema. E eu não digo que não possa haver fórmulas para fazer uma crítica o que digo é que a sensibilidade do crítico é fundamental nesta história.
Eu tenho um amigo que, pena que ele não escreva, mas quando fala de um filme que gostou, relata o argumento, as cenas que mais o emocionaram, vc fica morrendo de vontade de ir vê-lo. Às vezes, o filme que ele viu é muito melhor que o filme que você assistiu. E ele não inventa nada não, apenas a sua sensibilidade é mais apurada do que a minha, por exemplo.
Espero ter-me feito entender.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 11/11/2006 19:02
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Roberto Maxwell
 

Bem, Joca, o objetivo do texto nao eh fazer a critica de cinema e sim falar sobre ela. Acho que vc tem capacidade plena para separar as coisas.

Em tempo, no momento escrevo para um jornal cujo link se encontra no local. Creio que se vc for um pouco mais curioso do que critico pode passar o mouse em cima, clicar e ver o que foi feito. Uma pena q nessa coluna d0 jornal eu tenho espaco para pouca coisa.

Alem disso, vc poderia ter, ao menos, clicado no meu nome e iria encontrar uma colaboracao nao-publicada no Overmundo que trata de um filme.

Mas, sao apenas textos, talvez vc nao esteja mesmo interessado em le-los.

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/11/2006 22:17
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Roberto Maxwell
 

Seguindo a sugestao de edicao do senhor Joca, estao os links onde o leitor pode ler textos que eu escrevi. No entanto, reitero, que o texto publicado aqui nao tem o objetivo de mostrar o meu trabalho como resenhista de cinema, algo que seria pura e simplesmente uma forma pobre de auto-propaganda. O texto eh uma reflexao sobre a critica cinematografica na grande imprensa e parte da minha experiencia propria por razoes obvias.

Alem disso, peco desculpas ao senhor Joca por, na postagem anterior, ter dito que o jornal ja estava linkado na materia. Nao estava. Fiz o link agora. No entanto, as demais referencias encontram-se nos locais citados.

Roberto Maxwell · Japão , WW 11/11/2006 22:31
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Roberto:
Li seu simpático artigo e gostei muito dele. Mais, devo confessar, do que a sua reflexão teórica sobre como deve ser a crítica. Continuo, portanto, achando que a minha sugestão de edição, aquilo que chamei de "um grave defeito" foi sanada com os links. Espero que vc não saia com a impressão, que deixou esboçada em comentário anterior, de que eu seja um cri-crítico. Gostaria também de pedir-lhe que, malgrado os meus cabelos brancos, que ás vezes pinto de azul ou mesmo pink, prefiro não ser chamado de Sr., tratasmento que, creio, afasta as pessoas desnecessariamente.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 11/11/2006 23:56
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Roberto Maxwell
 

Que bom Joca que vc leu o texto. Nao me coloquei como exemplo de nada nessa colaboracao. Queria, apenas, discutir o texto da resenha cinematografica, da forma como o Dolores discute na musica. E, como vc mesmo sentiu falta por nao haver links, quis propor coisas, nao apenas me queixar. Tenho lindo no Overmundo muitas queixas. Mas, tenho visto pouca producao propriamente dita. Temos o espaco, vamos produzir o que nao consideramos bacana no ambiente do jornalismo cultural. Nao tenho mais escrito sobre filmes pq, estando fora do Brasil, eu vou ao cinema menos do que eu gostaria. Mas, sempre que posso, escrevo sobre os filmes que vejo.
Um abraco.

Roberto Maxwell · Japão , WW 13/11/2006 03:03
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toinho.castro
 

a crítica, do que quer que seja, não pode ser monopólio do jornalismo. houve um tempo em que filósofos, artistas, outros cineastas... eram responsáveis por execelentes trabalhos de crítica que eram publicados, tinham seu espaço.

acho que está faltando isso na mídia de hoje, pelo menos de uma forma mais efetiva. a mídia, o jornalismo, está precisando de mais colaboração de outras áreas da atividade humana.

quando o joca fala do seu amigo que descreve, critica, tão bem os filmes a que assisti penso que também é hora de exercemos mais e mais esse papel junto a nossos amigos. outro dia falei para um amigo próximo: vamos conectar as pessoas! não deixemos que a nokia faça isso por nós. pois bem, vamos asssistir melhor aos filmes e falar bem sobre eles para quem conhecemos. vamos exercer a crítica no nosso cotidiano.

toinho.castro · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2006 13:44
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Roberto Maxwell
 

Toinho, vc me lembrou um habito q eu e meus amigos cultivavamos quando eu morava no Brasil: o de sair para um programa e depois ir para a casa de algum de nos tomar umas e conversar sobre o que vimos. Depois, passamos a fazer isso em cafes. Conversavamos sobre livros, filmes e outras coisas. Aqui no Japao eh meio dificil pq o acesso aos meios de comunicacao se torna limitado para mim que nao domino a lingua completamente. Mas, esses dias, fizemos uma roda deliciosa com um amigo brasielrio fotografo que veio de Tokyo, uma sueca, uma alema e um japones. Foi maravilhoso.

Roberto Maxwell · Japão , WW 14/11/2006 13:56
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toinho.castro
 

vocês conhecem kleber mendonça filho? ele é cineasta (fez curtas como "eletrodoméstica" e "vinil verde", que têm participado de alguns festiveis) e crítico de cinema em recife. tem um ótimo trabalho.
o site dele, que reúne suas críticas fica em www.cinemascopio.com.br

recomendo.

toinho.castro · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2006 14:02
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toinho.castro
 

sempre que posso reuno uns amigos na minha casa para uma roda de leitura, que acaba por ser crítica, nem tanto pelos comentários mas pela escolha dos textos, como também, necessariamente, criativa.

toinho.castro · Rio de Janeiro, RJ 14/11/2006 14:42
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Roberto Maxwell
 

O Vinil Verde eh assustadoramente bacana.

Roberto Maxwell · Japão , WW 14/11/2006 14:44
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