Acidente com césio-137 pela primeira vez no palco

Gisélia Duarte
Vanessa Ruiz, Fernanda Costa e Rodrigo Cunha em Azul Esgotado
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Cida Almeida · Goiânia, GO
2/7/2007 · 164 · 4
 




Azul esgotado, cena de uma tragédia no quintal



Três jovens talentos no palco e a mão sensível de uma diretora teatral, discípula do irreverente e inventivo Hugo Rodas. E o princípio dos princípios: o fio de uma idéia, aquele fiapo que puxamos de um misterioso novelo que se chama processo criativo. A cena, que inicialmente nem era cogitada no novelo que se desenrolava, uma tragédia dos tempos modernos, ocorrida em Goiânia em setembro de 1987: o acidente radioativo com o césio-137. Coincidentemente, quando se completa 20 anos do acidente, chega aos palcos pela primeira um recorte dessa tragédia, com muita, mas muita sensibilidade no olhar. No dia 3 de julho, Azul Esgotado, modestamente caracterizado como “ensaio coreográfico”, será apresentado no Teatro Goiânia Ouro, às 20 horas. Mas o espetáculo, pela qualidade e força cênica, deve rodar os principais circuitos culturais do Brasil. Já passou por audições em Santa Catarina e São Paulo, onde impressionou e aguçou curiosidades, principalmente porque a maioria do público nunca ouviu falar no acidente radioativo de Goiânia.

Mas retomando o fio daquele novelo. No princípio era a cor. E a cor era azul. Azul! Azul desejado, reverenciado, procurado à exaustão, como metáfora da irreal e fugaz felicidade. Azul desbotado. Azul das fases geniais dos mestres da pintura. Que sonho as bailarinas azuis de Degas! Azul néon das ruas, de jeans, índigo blue. Azul de tudo bem, tudo azul. Azul da cor do céu. Azul da cor do mar. Azul pertinho e azul de longe, muito longe, anos luz de azul. Azul dos olhos de Sinatra e da esplendorosa visão de Neil Armstrong, que pisou na lua e balbuciou: a Terra é azul. Azul de sonho, de luz de palco, de momentos de combustão na chama. Azul de césio-137, azul de ciência encapsulada, azul de letal segredo violado... Azul em pó, dançando de mãos em mãos numa perversa ciranda radioativa no quintal.

A jovial trindade de Azul Esgotado, um espetáculo de encher os olhos e a alma de uma penumbra azuladamente triste, é formada pela bailarina Fernanda Costa, 14 anos (um encanto de leveza no palco), e os atores Rodrigo Cunha e Vanessa Ruiz. O quarto elemento é a presença em cena da impressionante voz de Carolina Braga, 16 anos, também pianista, com varias premiações em festivais nacionais e que acaba de receber um convite para cantar no Japão. A jovem cantora lírica é uma aparição angelical, que aprofunda o encantamento da cena com uma ária.

A concepção coreográfica é da bailarina Angélica Braga, que tem no currículo 25 anos de profissão e atuações ao lado de grandes nomes do balé nacional. A direção é da professora e atriz Valéria Braga, que já trabalhou como atriz e preparadora de elenco de vários filmes da cineasta Tizuka Yamasaki, durante cinco anos.

Azul Esgotado é mais que um ensaio coreográfico, realizado pelo Núcleo de Pesquisa da Escola de Teatro e Dança Vivace. Dança, música, teatro e poesia, linguagens que se entrelaçam para narrar no palco um drama com todos os tons de realismo fantástico, se não fosse de fato real e não tivesse de fato acontecido. Mais que um drama, uma tragédia. O fantástico fica por conta da nossa incredulidade dessa tragédia moderna ter acontecido no nosso quintal. E moderna porque une no mesmo fio o máximo da conquista científica e tecnológica do homem – a fissura do átomo e o uso dos elementos radioativos para a cura do câncer – e o descaso e a ignorância. Essa tragédia narrada em Azul Esgotado é o acidente radioativo de Goiânia, ocorrido em setembro de 1987.

Às vésperas de se completar vinte anos do acidente de Goiânia, um recorte dessa tragédia chega pela primeira vez ao palco. A história já rendeu livros (precipitados), um deles do jornalista e hoje deputado federal Fernando Gabeira, filme e documentários. Considerado o maior acidente radioativo doméstico da história, a tragédia do césio-137 fez quatro vítimas fatais (logo após a descoberta do acidente, entre elas a menina Leide das Neves Ferreira, que chegou a ingerir césio, transformando-se numa fonte radioativa viva), centenas de vítimas diretas e outras indiretas. Pior que o rastro de contaminação deixado pelo césio foi a discriminação engatilhada no day after.

Vinte anos é tempo suficiente para embalar o esquecimento. Pouco se fala do acidente, que teve um enredo tão difícil de acreditar que nem o mais inventivo autor de ficção científica ousaria imaginá-lo. Catadores de papel furtam parte de um aparelho de radioterapia deixado nos escombros de uma clínica abandonada. A peça é aberta a marretadas em um ferro-velho na região central de Goiânia e a cápsula de césio violada. A pastilha de césio, que emitia uma luz azul brilhante, começa a ser distribuída em pedaços, pequenas pedrinhas, entre vizinhos e amigos curiosos. Tem gente que levou pra casa no bolso da calça. Outros inventaram brincadeiras lúdicas com aquele pó que brilhava na escuridão, como Ivo Alves Ferreira (já falecido), pai da menina Leide das Neves. Os dois espalharam o pó, apagaram as luzes, e sonharam com uma cidadezinha de fantasia brilhando na noite daquele setembro de 1987, tamanho o fascínio da luz azul emitida pelo césio-137.

Acidente do descaso e da ignorância. Descaso porque todas as pessoas e instituições que deveriam zelar pela guarda e segurança daquele aparelho falharam. E acidente da ignorância porque a maioria esmagadora das pessoas desconhecia os perigos da radiação e nem poderiam suspeitá-lo tão perto, ao alcance da mão. É cruel, mas toda tragédia tem lá o seu lado pedagógico. O acidente com o césio gerou centenas de pesquisas sobre os efeitos da radiação em seres humanos com os mais variados graus de exposição, técnicas em processos de descontaminação e de controle de resíduos no ambiente, novas normas de segurança, enfim, mais ciência e tecnologia. E a popularização do símbolo da radiação, aquele alerta de perigo que reconhecemos no trevo laranjado que ostenta algumas salas de hospitais e laboratórios.


Uma tragédia azul - E como uma história assim poderia funcionar no palco? Maestria, unindo a idéia do fascínio azul ao minimalismo de três pessoas no palco. É como se abríssemos uma caixinha de música, de onde saltam o encantamento e a ameaça. Antes, apenas um balé silencioso da menina no mundo da partícula de luz azul, amparada em suas evoluções por dois seres de máscaras, trajando macacões brancos, os mesmos que os homens da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) usaram em Goiânia quando entraram nas áreas contaminadas e logo isoladas com fitas amarelas.

O balé é encantatório, vertiginoso e trágico. A cena é carregada de simbolismo. A menina dança como se estivesse no espaço, às voltas com dois astronautas ou anjos na UTI. A dança tem o ritmo da respiração. De novo astronauta e de novo respirador artificial de uma Unidade de Terapia Intensiva. E a menina conheceu sim o medo dos vidros, das máscaras e do isolamento. Era uma fonte radioativa viva sob os cuidados de atônitos cientistas e médicos no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, onde morreu. E, claro, a música, sempre música, diáfano véu conduzindo a cena. E tem a voz de Carolina Braga, uma ária que embrulha a cena com um véu finíssimo de tristeza.

E tem também palavra para fazer recordar e acordar a história. Palavra de lembrar, de ressentir, de doer, de se colocar no lugar do outro, de abraçar, de escutar... Palavra de não deixar calar a tragédia humana que, às vezes, pula o muro e vem dançar no nosso quintal. Não pretendia tocar no assunto, mas vamos lá. No final do ano passado Valéria me convidou para assistir um ensaio. E depois pediu palavras para o espetáculo. Saí de lá comovida com o que vi. E mais do que comovida, mexida. É que voltei no tempo. Em 1987 eu era repórter e fiz toda a cobertura do acidente com o césio-137, entrando em áreas contaminadas, entrevistando as vítimas, técnicos, médicos, cientistas. E, principalmente ouvindo as histórias daquelas pessoas que da noite para o dia perderam tudo. Nunca esqueci, por exemplo, a tristeza profunda daquele olhar sem brilho de Ivo Ferreira, o pai da menina Leide, a adorada filha única. Imagens da memória e angústias sentidas naqueles dias estranhos da primavera de 1987 vieram se juntar ao invólucro cênico, em forma de poema, palavras de um azul esgotadíssimo.


Espetáculo: Azul esgotado
Coreografia: Angélica Braga
Bailarina: Fernanda Costa
Atores Rodrigo Cunha / Vanessa Ruiz
Canto: Carolina Braga
Concepção: Valeria Braga
Poesia: Cida Almeida
Voz gravada: Valéria Braga

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Tacilda Aquino
 

Quando assisti ao ensaio de Azul Esgotado me emocionei e não consegui conter as lágrimas. Talvez porque tenha acompanhado (não tão de perto quanto você) o acidente que aconteceu em Goiânia. E também pela beleza trágica do espetáculo de dança. Me encantei e me emocionei com leveza da bailarina Fernanda Costa, a impressionante voz de Carolina Braga e também com a voz de Valéria Braga lendo o “seu” poema. Agora a emoção bateu forte novamente lendo seu texto e as lágrimas começaram a rolar sem que eu me desse conta. Parabéns por mais um belo texto.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 29/6/2007 16:30
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Amanda Maia
 

Só digo que não existem coincidências... Texto lindo... Muito azul de paz para você!

Amanda Maia · Salvador, BA 3/7/2007 23:15
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FILIPE MAMEDE
 

Excelente texto. A 'peça' deve ser muito bacana mesmo. Aos que presenciaram o acidente, fica mais certo o azul, o triste azul, triste como 'blues' antigo ...
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 4/7/2007 09:04
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Cida Almeida
 

Tacilda, Amanda e Filipe, obrigada pela leitura e pelo retorno caloroso dos comentários.

Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 4/7/2007 11:08
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