A peça coreográfica que mais me impressiona é o duo "Adeus deus", de Sandro Borelli. Interpretada por um casal de intérpretes do Balé da Cidade (SP), esta coreografia foi apresentada no Teatro do SESI; não me lembro ao certo quando foi que assisti.
Os corpos dos dois dançarinos estão sempre ligados por um fio invisível que é desenhado na continuidade dos movimentos, que extendem um corpo sobre o outro, numa confusão entre os limites da individualidade corporal de cada um. A sequência de "fusões" físicas é de tirar o fôlego. A transferência de pesos e pontos de apoios que baseia a coreografia é genialmente traçada por Borelli.
Mas me lembrei de "Adeus deus" porque hoje é o dia dos namorados. E nada me remete tanto ao sufoco da relação a dois quanto esta peça. Peça esta que tematiza o suicídio, este ato radical do ser humano de desprendimento ao que lhe pertence por legitimidade. O corpo pertence ao Estado. A mente sofre a ascendência de um milhão de autores. Mas a vida é nossa propriedade. E viver com o Outro é de certa forma viver sem si mesmo, no escuro que é estar em Outro. É uma forma autêntica de suicídio. Crime consentido contra nossa própria individualidade, e o extremo disto é a paixão. Amantes não são quem são, não são quem parecem ser. Amantes são a sombra mortal do seu Outro, aquele Outro sempre confundido com o que sou, aquele que se intromete no que não sou. O Outro é um vasculhar de gavetas, um abrir álbuns de fotos de família, um entrar no banheiro nas horas menos propícias. E o Outro é sempre alguém que eu queria de algum modo ser, ter, entrar, escancarar. Mas ele é alguém que não está sozinho. Ele está atado ao seu Outro. (Então, mesmo quando em casal, somos um triângulo amoroso: eu, o Outro, e o Outro do Outro. Às vezes a terceira e a primeira pessoa deste triângulo coincidem.)
Em "Adeus deus" os parceiros se amarram por pedaços de roupa, se entrelaçam por membros, respiram o mesmo ar. Estão unidos por uma força em estado bruto que ora impulsiona um ora impulsiona o outro em direção ao seu par, para quase atravessar a pele de seu par. Dança suicida, que ritualiza uma partida em direção aonde nenhum deus nos governa, em direção à paixão, no Outro que nem sempre está a nossa espera. E então, morremos no coração de alguém que nos comporta. Alguém que suporta o quão pesados somos, e o quão leves poderíamos ser.
Olá, Natália.
Vi em BH uma apresentação de um projeto que era uma parceria entre o Borelli e a Cia. de Dança Palácio das Artes. O nome do projeto era Entremundos.
Bacana ler um texto sobre dança aqui. É um assunto que pode ser muito mais divulgado.
muito legal natalia , não gosto de ler textos grandes , mas confesso que vc me surpreendeu, fiquei curiosa do que se tratava e acabei me envolvendo na historia, deu vontade de até assistir ao espetáculo, para ver esta confusa confusão da vida.
sou da area de dança e achei muito interessante sua matéria.
Parabéns, espero a votação
A dança assim descrita é como se a vê... enleiam esses movimentos com as imagens que crias e se pode perceber.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 20/7/2008 11:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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