Admirável Novo Mundo

foto joel sagardia/arte victor gargaro
Capa do livro de Regina Beatriz e reprodução do jornal Novo Mundo
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
5/4/2007 · 323 · 12
 

Certos livros têm o incrível poder de mexer com nossos sentimentos. Trazem à tona fragmentos de memórias que fazem emanar sensações de fatos passados: um cheiro, um som, uma paisagem, uma situação marcante, afazeres cotidianos, tudo pode provocar uma reação orgânica diretamente ligada a eventos passados. O livro, Cidades da Mineração-memória e práticas culturais, escrito pela historiadora, Dra. Regina Beatriz, publicado pela EdUFMT, em parceria com a Carlini & Caniato editorial, sacudiu minha memória, provocou rebuliços orgânicos que me fizeram (re)ligar com os movimentos históricos de pessoas que foram fundamentais na formação da cidade que nasci. Falo de Guiratinga, interior de Mato Grosso.

Os fatos narrados, rebuscando memórias, são como fios de lembranças daqueles que viveram tais fatos, trazem em seu bojo uma perspectiva poética e extremamente imaginativa. Os relatos de Eva Balbino Guimarães, por exemplo, fluem como um rio de memórias poéticas, caudalosos, literários, literalmente um livro dentro do livro.

Achei muito interessante a riqueza da abordagem, da investigação, das relações que Regina estabeleceu com outros autores buscando contar a história a partir de uma noção mais aberta do tempo e seus múltiplos recortes, quebrando (pré)conceitos que mitificam e oficializam determinadas práticas reducionistas. Ela confronta vícios historiográficos que dirigem seu foco para interpretações de estruturas baseadas num tempo encadeado por fatos-eventos, restringindo a história a esses momentos eleitos, como se não houvesse um fazer cotidiano, aspectos lendários e imaginativos, férteis mentes humanas que criam realidades a partir de suas experiências. A história se faz cotidianamente, as relações se organizam dentro de um contexto específico, do espaço físico, da paisagem, das características das pessoas, dos novos cruzamentos que vão se estabelecendo e gerando novas formas de comportamento. Nessa perspectiva, tudo é extremamente dinâmico.

Contar histórias é prática muito antiga e isso produz imaginários que representam e constituem as sociedades, são partes da composição das cidades e a autora foi muito feliz na extensa tarefa de pesquisar e colher relatos riquíssimos em detalhes que ressaltam as práticas culturais na formação da cidade de Guiratinga e da ocupação de toda a região do antigo Leste matogrossense. A região ficou muito marcada pela descoberta de veios diamantíferos em terras Bororo - nação indígena que ocupava grande extensão do território do estado - que levou a deslocamentos de grande número de pessoas, principalmente do Maranhão, Bahia, Pará e Goiás, em busca de riqueza e uma nova vida.

Alguns aspectos são muito curiosos por se tratar de uma cidade que se formava em pleno sertão matogrossense, fora dos centros produtores de cultura, um lugar sob a égide da barbárie (visto por fora), contrapondo a uma idéia de civilidade, que perpassava o sentimento dos habitantes que escolheram o lugar para se fixar, um lugar a ser conquistado e civilizado por eles. Vizinhos (invasores?) dos indígenas Bororo (bárbaros e selvagens, segundo a visão dos letrados), fazendeiros e do movimento intenso de garimpeiros que chegavam de todo o lugar carregando a fama de bêbados e encrenqueiros, além de seu aspecto nômade, portanto, sem compromisso com uma idéia de sociedade organizada. Os confrontos culturais, na prática, eram constantes.

A produção de jornais literários, revistas e leituras públicas de textos, a prática teatral disseminada pelos colégios, salesiano e das freiras, as festas e encontros, constituíram uma vocação e uma prática cultural que elevou Guiratinga à categoria de capital dos garimpos, a Princezinha do Leste, como era chamada. Dentre os impressos, destaque para o jornal literário, Novo Mundo, editado e produzido por Raimundo Maranhão Ayres, contador e professor de geografia que realizou um trabalho absolutamente ousado e inédito na época (de 1945 a 1948). Segundo o poeta e design gráfico Wladimir Dias Pino, que mora no Rio de Janeiro atualmente, Raimundo Maranhão talvez seja um dos precursores mundiais da arte-correio, concomitantemente ao movimento Intensivista, que o Wlad comandou em Cuiabá.

O Novo Mundo tinha como ideal a publicação de poetas de toda a América do Sul, dos Estados Unidos e da Europa, além de circular por mais de 70 países. Os jornais eram distribuídos a partir dos correios de Uberlândia. Segundo o poeta da Academia Matogrossense de Letras, João Antonio Neto, que trabalhou no jornal, Raimundo Maranhão chegou a falir, disponibilizando tudo o que ganhava trabalhando em suas profissões. Ele investiu no sonho de manter um jornal com características tão inovadoras e tão capazes de chamar a atenção da mídia nacional e de várias academias e movimentos importantes na época. Os textos dos colaboradores estrangeiros eram publicados em suas línguas originais: uma autêntica babel poética.

Um artigo de Afonso Schmidt publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1946, ressaltava a surpresa de ter em mãos uma publicação tão avançada para aquele momento vinda de um lugar absolutamente desconhecido. Como podia, uma publicação de característica tão cosmopolita, ter sido produzida no mais longínquo sertão, nos confins do Mato Grosso? Um povoado? Uma vila?

“Aquele jornalzinho chama-se “Novo Mundo”, e o seu título, ao contrário do que tem acontecido com outros periódicos, não representa figura de retórica, mas o nome que rigorosamente lhe convém. É um quinzenário de oito páginas, medindo palmo e meio de alto por um palmo de largo, mas as modestas dimensões são sobejamente compensadas pela obra que realiza. Basta lembrar que o seu intuito é o intercâmbio cultural nas três Américas. ...O jornalzinho de Raimundo Maranhão Aires (é esse o nome do seu diretor) está repleto de prosa e verso tanto de escritores brasileiros como de seus colegas de toda a América Latina, com os respectivos endereços, para o caso dos leitores daqui e de alhures desejarem corresponder-se entre si. Nesse elenco internacional encontram-se representados homens de letras argentinos, uruguaios, chilenos, bolivianos, paraguaios, hondurenses, equatorianos e “tuttiquanti”. Supõe-se que um periódico disposto a realizar obra tão viva e oportuna tenha a redação no Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Paulo ou Porto Alegre, quando menos pela facilidade de comunicações com o mundo.Esse não. Uma das maiores curiosidades que surpreendem aos leitores é o seu endereço: Povoação de Guiratinga, perto da Vila do Lageado, Mato Grosso.
...Foi lá, tão longe, que o poeta pendurou a lâmpada do seu sonho, para ser vista e compreendida em todos os ângulos da América.” (Afonso Schmidt, O Estado de São Paulo, em 15-02-1946)


O poeta acadêmico João Antonio Neto, figura de peso em Mato Grosso, em um de seus relatos no livro, descreve: “Sobre a penetração do Novo Mundo, o adjetivo apropriado é: incrível! Quando fui secretário de redação, o jornal atingia mais de setenta países (setenta e três, se não me falha a memória) e com todos mantínhamos correspondência.” Segundo Regina Beatriz, em sua pesquisa, “apareceram condecorações e distinções de diversas academias, como a Academia de Letras da Bahia, do Rio Grande do Sul, Paraná, Academie Palatine de France, e, ainda, de várias associações de escritores, da Bélgica, de Nova York, Uruguai, Argentina. Além disso o Novo Mundo recebe convites para colaborar com jornais e revistas literárias tanto de países americanos, quanto europeus.”

Regina escreve história por um viés literário, extremamente agradável e de rara pertinência. Sua escrita revela um olhar sensível, uma poética madura que redimensiona o valor da história local, universaliza, expõe uma realidade que conecta todos a uma dimensão humana, de qualquer aldeia a qualquer capital do planeta. Em seu livro podemos perceber a importância da cultura no modelo de sociedade que os novos habitantes desse lugar inóspito elegeu: o teatro, as festas, a literatura, o rádio, o cinema , as revistas que vinham do Rio de Janeiro, a moda, enfim, tudo era parte de uma efervescência que animava e dava o suporte necessário para que a pequena Guiratinga assumisse a condição de centro cultural mais importante da região na época. Muitos e bons artistas, intelectuais e comunicadores, que hoje ocupam espaços importantes em Mato Grosso e várias outras cidades do país, são filhos desse lugar.

Como uma garimpeira, a autora nos oferta o olhar com esse diamante: “Mas espera-se, basicamente, que haja correspondência entre vida e literatura e que os destinos representados aqueçam as almas em sua fria solidão e ofereçam paisagens com o poder de nos transportar do mundo aqui vivido.”



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Felipe Obrer
 

Eduardo, muito maneiros o texto (como está escrito) e as informações que ele traz.
Ofereço algumas sugestões de edição, transcrevendo os trechos com elas já incorporadas (pontuação, algum espaço sobrante ou faltante, concordância e umas preposições):

"O livro Cidades da Mineração -memória e práticas culturais, escrito pela historiadora Dra. Regina Beatriz, publicado pela EdUFMT, em parceria com a Carlini & Caniato editorial, sacudiu minha memória, provocou rebuliços orgânicos que me fizeram (re)ligar com os movimentos históricos de pessoas que foram fundamentais na formação da cidade que nasci. Falo de Guiratinga, interior de Mato Grosso.

A história se faz cotidianamente, as relações se organizam dentro de um contexto específico, do espaço físico, da paisagem, das características das pessoas, dos novos cruzamentos que vão se estabelecendo e gerando novas formas de comportamento. Nessa perspectiva, tudo é extremamente dinâmico.

A região ficou muito marcada pela descoberta de veios diamantíferos em terras Bororo - nação indígena que ocupava grande extensão do território do estado - que levou a deslocamentos de grande número de pessoas, principalmente do Maranhão, Bahia, Pará e Goiás, em busca de riqueza e uma nova vida.

O Novo Mundo tinha como ideal a publicação de poetas de toda a América do Sul, dos Estados Unidos e da Europa, além de circular por mais de 70 países.

Um artigo de Afonso Schmidt, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1946, ressaltava a surpresa de ter em mãos uma publicação tão avançada para aquele momento vinda de um lugar absolutamente desconhecido.

Em seu livro podemos perceber a importância da cultura no modelo de sociedade que os novos habitantes desse lugar inóspito elegeu: o teatro, as festas, a literatura, o rádio, o cinema, as revistas que vinham do Rio de Janeiro, a moda, enfim, tudo era parte de uma efervescência que animava e dava o suporte necessário para que a pequena Guiratinga assumisse a condição de centro cultural mais importante da região na época."

É só fazer a comparação e acatar o que te parecer pertinente.
Um abraço,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 3/4/2007 01:35
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eduardo ferreira
 

valeu felipe. muito bom esse tempo de edição para pequenos reparos. oficina overmundo. é isso aí. obrigado.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 3/4/2007 11:56
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Felipe Obrer
 

Valeu, Eduardo! Fico contente com a recepção das sugestões.
Abraço,

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 3/4/2007 12:07
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eduardo ferreira
 

sempre aberto...abs.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 3/4/2007 17:11
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Felipe Obrer
 

Legal! Cara, lembro que comentei sobre o teu "Eunóia", entre outras coisas, que tinha gostado da citação do Leminski. Aí a tua resposta foi algo do tipo "aquele filho da mãe fez chover poesia", não lembro se era bem isso... Viu que a filha dele e da Alice Ruiz tá aqui no Overmundo? Confere o Música de Ruiz, eles musicaram um poema do Paulo Leminski, nessa música que oferecem, chamada ímpar ou ímpar. Além disso, estão lançando um livro interessante, chamado Contra-Indústria.
Espero que não leves a mal as dicas aqui na tua colaboração (não tenho teu e-mail, então era o único jeito..., pensei que poderia interessar).

Abraço

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 3/4/2007 17:40
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eduardo ferreira
 

legal felipe. vou lá na música de alice da filha e do lema. nenhum problema com a dica. sempre bem vindas as boas dicas. grande abraço.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 5/4/2007 19:08
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Felipe Obrer
 

Abraço grande também, Eduardo, e reitero (sem comentário de edição nenhum): gostei do teu texto e das informações que ele traz, novas pra mim.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 5/4/2007 19:33
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jjLeandro
 

Parabéns pela sua matéria.
Uma verdadeira poesia em prosa. Flui realmente com sabor(tb evoquei momentos assim, agora com essa leitura e antes), sentimento e alma, revelando o prazer com que viveu a sua cidade e a intensidade com que recebeu este trabalho de pesquisa. Um trabalho de fôlego pelo que vc expõe, abordando a constituição de sua sociedade pela ótica humana, do indivíduo que a construiu, não através de modismos ou teorias que enquadram tudo dentro de um modelo, seja aqui, na África ou na Oceania, castrando a criatividade e as milhares de variantes que compõem o ser humano.

abcs
.
jjLeandro
.

jjLeandro · Araguaína, TO 6/4/2007 08:28
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Pedro Vianna
 

Realmente um belo trabalho. Dê-nos mais...

Pedro Vianna · Belém, PA 7/4/2007 15:22
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Alê Barreto
 

Informações que trazem um importante ecossistema cultural existente em Guiratinga. A questão do jornal O Novo Mundo ter um ideal de publicação de poetas de toda a América do Sul, dos Estados Unidos e da Europa, além de circular por mais de 70 países, me faz pensar no grau de interatividade que Raimundo Maranhão buscava. Se ele estiver hoje novamente entre nós, deve estar adorando a internet e o mundo dos blogs! Talvez até seja colaborador do Overmundo.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 7/4/2007 16:21
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eduardo ferreira
 

alê, em espírito sim. acho que ele está com a gente - antes. o cara já buscava trabalhar em rede há 67 anos atrás.
valeu pedro, jj e felipe. quanta coisa escondida nos grotões desse nosso país!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 9/4/2007 10:36
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FILIPE MAMEDE
 

Texto limpo, fluente. Me fez lembrar da cidade de Currais Novos, interior norte-rio-grandense. Assim Guiratinga, Currais Novos conheceu a "cultura" através do minério, riqueza da região. A cidade ganhou cinema, clubes, hotéis e um apelido semelhante ao de Guiratinga. Aqui Currais Novos foi a "Princesinha do Seridó". Abraço, parabéns pelo texto.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 10/4/2007 10:18
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