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Afogando num mar de rosas

João Alvarez/Coperphoto/AE
Ana Carolina: filmografia marcada pelo olhar crítico da condição feminina
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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
14/1/2007 · 101 · 11
 



De que adianta a vida ser um mar de rosas para quem não sabe nadar?

Em 1977 eu tinha acabado de entrar para a Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás e já era apaixonada por cinema. Como tinha feito o curso de Tradutor Intérprete no segundo grau, onde o foco maior do currículo eram aulas de inglês, francês e espanhol, via e lia tudo que se relacionava aos idiomas.. Foi naquele ano que conheci o livro -- e o filme I Never Promised You a Rose Garden (até hoje mantenho uma cópia em VHS na minha videoteca).

O filme me chamou a atenção porque tinha Bibi Anderson, uma das atrizes prediletas de Ingmar Bergman - o cineasta sueco cultuado por 10 entre 10 jovens cinéfilos de minha geração. E também por causa de uma música do mesmo nome que fazia sucesso desde 1975 na voz de Lynn Anderson.

Foi naquele ano que a cineasta Ana Carolina lançou seu primeiro filme de ficção: Mar de Rosas. O filme chamou minha atenção pelo título inusitado e, principalmente, por ser dirigido por uma mulher, coisa rara no cinema nacional da década de 70. Não sei exatamente por que, mas relacionei o filme à produção americana que tinha visto no mesmo ano: mar de rosas, jardim de rosas...

Anos mais tarde, já totalmente conquistada pelo cinema de Ana Carolina, descobri que sua filmografia, marcada pelo olhar crítico da condição feminina, tinha igualmente como marca a combinação de imagens visuais com trocadilhos e imagens verbais nos diálogos e às vezes até nos títulos. Depois de Mar de Rosas ela fez Das Tripas Coração e Sonho de Valsa. E 12 anos depois de Sonho de Valsa, Amélie. Todos merecem ser vistos e revistos.

De Mar de Rosa tenho algumas lembranças. A principal delas é que este foi o primeiro filme que vi mais de uma vez na mesma semana. Fiquei realmente intrigada com a trama inventiva e desconcertante. Outra memória é da personagem interpretada por Cristina Pereira como Betinha, filha de Felicidade (Norma Bengell). Dona de uma imaginação diabólica, Betinha propõe as mais absurdas situações quando ela e a mãe fogem de Otávio Augusto, capanga do pai (Hugo Carvana), que Felicidade acredita ter matado.

Mar de Rosas é uma espécie de road-movie, aonde as personagens, após o ataque de Felicidade ao marido, vão encontrando outras personagens histéricas e vivenciam experiências inusitadas. A própria cineasta definiu seu filme, na época, como uma sátira feroz ao casamento pequeno burguês vista pelos olhos de uma adolescente. Humor negro e toques de surrealismo pontuam a história da família em pé de guerra.

Agora, exatos 30 anos depois, a Videofilmes está colocando no mercado de vídeo Mar de Rosas, e prometendo que ele é o primeiro da trilogia que Ana Carolina usou -- os outros dois são Das Tripas Coração, Sonho de Valsa -- para falar das várias formas de poder sobre as mulheres - na família, na escola, na relação amorosa. Das Tripas Coração, datado de 1982, mostra a diretora usando uma tradicional escola de moças para observar o poder na instituição e seus efeitos sobre jovens com a sexualidade à flor da pele. Em 1988, apresentou Sonho de Valsa, o retrato de uma mulher de 30 anos em busca do homem de sua vida.

É interessante e divertido assistir a Mar de Rosas 30 anos depois de sua realização. Impossível também não rir das caras e bocas de Cristina Pereira e da forma bem humorada com que a cineasta fala das doideiras que assolavam o País naqueles tempos -- e a gente pode comprovar que pouca coisa mudou em três décadas. Duvida? Assista ao filme e a frases como "A sujeira anda medrando no mundo”, “Todo mundo se esquece da eternidade...” e principalmente essa: “Se vocês se elevarem para o espírito, tudo se transforma: o imóvel fica fixo, o iníquo fica inócuo e o histérico fica histórico”.

A vida em família, definitivamente, nunca foi e nunca será um mar de rosas. Está mais para Parente é Serpente (1993), de Mario Monicelli, que, a exemplo do filme da cineasta brasileira, mostra a relação de pais e filhos de forma cômica, que causa riso. No entanto, no final do filme, o riso é provocado como constrangimento de uma situação desagradável. Os dois filmes só confirmam o pensamento de “de perto, ninguém é normal”.

Ah! Outro bom motivo para se ver Mar de Rosas é o especial que Evaldo Mocarzel fez com a diretora para a série Retratos Brasileiros, do Canal Brasil; e dois outros extras preciosos. Ana Carolina fala do passado, dos filmes que já fez, e do futuro, dos que pretende realizar.

É no documentário que Ana Carolina fala: “As imagens cinematográficas, de certa forma, podem ser o espelho da alma, o reflexo de uma maneira de ser que não teria nenhuma outra forma de exprimir-se se não fosse por meio do cinema”.



Mar de Rosas (Mar de Rosas) Brasil, 1977
Direção: Ana Carolina
Elenco: Norma Bengell, Cristina Pereira, Otávio Augusto, Hugo Carvana, Ary Fontoura, Myrian Muniz, Maria Sílvia
Distribuição: Videofilmes



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kiki jaguaribe ekman
 

gostaria de lhe convidar a colaborar em meu projeto http://seasound.multiply.com

kiki jaguaribe ekman · São Paulo, SP 11/1/2007 21:24
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Marcelo Candido Madeira
 

gosto dos teus textos, vou te seguindo e lendo tudo que vc publica...legal!

Marcelo Candido Madeira · Rio de Janeiro, RJ 14/1/2007 15:02
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Tacilda Aquino
 

Marcelo, brigadão. Continue lendo e não se acanhe em "palpitar" sobre os escritos. Tacilda.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 14/1/2007 20:42
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Roberto Maxwell
 

Oi, Tacilda, queria te sugerir que coloque linques nos proximos textos. Principalmente, acerca das pessoas. Acredito que muitos leitores desse site sao jovens e nao conhecem os atores e diretores citados. Eh uma forma de faze-los saber a importancia dessas pessoas. No mais, o texto esta otimo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/1/2007 08:14
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Roberto Maxwell
 

Ah, outra sugestao que eu dou eh que vc destaque os nomes dos filmes do resto do texto. Nao sei porque, mas como os nomes dos filmes sao frases, as vezes, demorei um pouco para me tocar que era um nome proprio como, por exemplo, "Das Tripas Coracao" ou "I Never Promise You A Rose Garden".

Um abracao.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/1/2007 08:15
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Tacilda Aquino
 

Roberto,
Obrigada pelaa sugestões. Não sei se vou conseguir fazer os links mas com certeza vou tomar mais cuidado em relação aos nomes dos filmes e obras literárias citadas.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 15/1/2007 21:25
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Roberto Maxwell
 

Tacilda, me escreve pelo perfil que eu te explico como colocar os links se vc nao souber. Beijo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 15/1/2007 23:21
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Marcos Paulo
 

Gostei, Tacilda.

Onde posso conseguir os filmes, caso eu queira assistir? Principalmente o 'Mar de Rosas'.

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 16/1/2007 17:22
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Fábio Fernandes
 

Maravilha, Tacilda! Os filmes da Ana Carolina são mesmo o máximo! Ainda lembro da primeira vez em que vi Mar de Rosas - a Cristina Pereira me causou um estranhamento tão grande que eu fiquei vidrado na tela, não sabia se queria continuar olhando ou desviar o olhar. Em tempo: já vi Mar de Rosas em DVD numa locadora aqui perto. Acho que vou alugar (ou comprar)!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 16/1/2007 21:17
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Tacilda Aquino
 

Marcos, Mar de Rosas está à venda nas lojas especializadas de som e imagem e nos hipermercados. Mas você também pode comprar pela internet. Os outros filmes da trilogia ainda não foram lançados e estão prometidos para este semestre ( Das Tripas Coração) e no próximo semestre ( Sonho de Valsa). Algumas locadoras também têm o título no seus acervos.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 17/1/2007 15:52
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Marcos Paulo
 

Ah, beleza. Como aqui as locadoras não oferecem um acervo, digamos, extenso de filmes (quase sempre as mesmices)..vou procurar na internet. Valeu, Tacilda!

Marcos Paulo · Porto Velho, RO 18/1/2007 11:59
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