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AI QUE VIDA!-CINEMA POPULAR DO PIAUÍ.


AI QUE VIDA!- O MEIO NORTE NA REVOLUÇÃO POPULAR DA ARTE CINEMATOGRÁFICA.

O Mundo se surpreendeu quando o Indiano “Quem quer ser um milionário” levou para casa a estatueta dourada do homem careca de melhor filme e mais sete, incluindo o de melhor direção, derrubando às mega-produções dos estúdios americanos.
A reposta para a inevitável pergunta “como é possível?” está no saturamento da formula milagrosa de “com muito dinheiro fazer filme pra fazer mais dinheiro”.
O cinema de arte nos últimos anos tem sido o companheiro da boa música no suplicio do esmagamento pela cultura de massa. Se faz música ruim por que vende mais, se faz filmes ruins por que estouram bilheterias. A Estética do Mal Gosto é a lei do mercado.
Efeitos especiais fantásticos para encher os olhos e camuflar a falta de conteúdo ou, ainda pior, o conteúdo ruim, tem sido a máxima das super-produções.Com o computador se é capaz de suprir o dúblê e milhares de figurantes, reduzir gasto com cenários, melhorar o despenho fraco dos atores, dá vida a seres extraordinários, bombardear cidades reais sem derrubar um único prédio.
Assim, somos conduzidos às salas de projeção (os cinemas de verdade, na maioria, viraram supermercados, lojas de departamento e igrejas evangélicas), para assistir a intermináveis horas de computação gráfica, o cinema enquanto arte agoniza.
As estórias do herói americano que salva o mundo da hecatombe; as do cara apaixonado que finge ser o que não é para conquistar a beldade e depois é descoberto, passa por maus bocados, dá a volta por cima e casa com a mocinha (que antes era classificada como drama, ou romântico e agora recebe o nome de comédia romântica, que por sinal são todas iguais);as sátiras dos filmes de super-heróis e de terror,todas já se esgotaram.
E foi neste cenário que “Quer quer ser um milionário” conquistou sua famosa estatueta, deixou de ser exótico, para ser alternativo e deixou de ser alternativo para ser uma alternativa.
Enquanto isso nos dois mais pobres estados do nordeste brasileiro, um filme pitoresco, de produção local, de 2007: “Ai que vida!”, de Cícero Filho, sucesso de crítica e público, é um dos filmes mais comentado do meio-norte.
Esperei ansiosamente por seis meses para assistir a uma cópia não original, pois segundo soube, apenas trezentas originais foram produzidas e milhares de cópias piratas circulam no mercado informal nordestino, porém somente agora chegaram a São Luis, pois a grande procura chamou atenção dos “empresários do ramo’, contudo a cópia que eu conseguir veio por outra via, pois os fãs de “Ai que vida!”são praticamente obrigados a fazer cópias ou a emprestar seus dvd’s aos conhecidos que já ouviram falar do filme.
Não espere de “Ai que vida!” uma super-produção nos padrões do cinema nacional atual, nada de fotografia exuberante, edição perfeita, atuações primorosas (apesar de, em muitos casos dá inveja ao jovem elenco de malhação da Globo), participação de grandes estrelas da televisão, não tem nada disso.
Imagine que se para os padrões do cinema norte americano o orçamento e o nível de produção de um filme como o indiano “Quem quer ser um milionário” é considerado baixo, um filme como “Ai que vida!” seria tido como inviável.
Pelo o que eu sei, o mesmo teve o custo final de trinta mil reais, e a produção só contava com oitocentos reais quando começou as filmagens. No elenco contava apenas com três atores profissionais, até o momento desconhecidos da grande mídia (Anchieta Cardoso, Solange Nolêto e Zulmira Bezerra), e, como equipamento basicamente uma câmera mini-dv emprestada de uma faculdade.
De volta a pergunta: como é possível? Como um filme produzido nestas condições alcançou tanto sucesso?
A resposta está no esforço criativo do diretor que soube sintetizar a máxima de Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça.” e na identificação intensa entre filme e a população do norte-nordeste. Assistir ao “Ai que vida!” para essa gente é se vê na tela, reconhecer o próprio cotidiano, as expressões genuínas de seu povo ao invés do sotaque baiano falsificado nas produções globais; é lembrar dos tempos de menino no interior, dos tios, dos avós que ainda moram por lá, é reconhecer o jeito genuíno de ser e de falar do maranhense e do piauiense.
Cícero Filho consegue trazer o espectador para dentro da tela, como se observasse da janela de sua casa as confusões que acontecem na pracinha da cidade, um realismo acidental alcançado graças a simplicidade da produção, até por que a imagem da câmera mini-dv utilizada lembra muito a dos tele-jornais locais.
Junto ao elenco profissional, são os próprios moradores das cidades onde o filme foi rodado que completam a cena, com seu cotidiano e sua maneira natural de ser e de falar, apesar dos estereótipos explorados no filme, fica difícil distinguir quem é personagem e quem é real.
Vislumbrei em Aí que vida! uma cena mágica, na qual o expectador é definitivamente envolvido nas trama. É uma cena em que uma criança morre em frente a um hospital público, por falta de atendimento. Sutilmente a câmera muda o foco para uma mãe que apenas assiste a tudo com uma criança no colo, é como se tivesse uma legenda dizendo ”isto acontece de verdade e você faz parte.”, daí em diante é impossível tirar os olhos da tela, e não lamentar: ai que vida...
O humor de Ai que vida! é leve, sincero e bastante pitoresco, são as piadas do dia-a-dia da região contadas com originalidade, quando não, o simples uso das expressões lingüísticas locais é suficiente para arrancar gargalhadas, não com um olhar preconceituoso, mas pela tênue lembrança: eu também falo assim...
É um filme que longe de ser apelativo, é bem comportado (desde a coreografia da dançarina de forró até o humor politicamente correto e de aparência inocente).É a comedia da vida real, sem exageros e sem prepotência.
O fundo político é o outro ponto forte da trama, ambientada nos umbrais da mais antiga oligarquia do país, a conjuntura político-social parece congelada no tempo, a estória apresenta as mazelas políticas do grupo dominante que mantém os mesmos vícios e costumes da primeira metade do século passado ao passo que a mudança emerge inesperadamente da indignação perante a injustiça e do poder de mobilização popular.
A trilha sonora composta especialmente para o filme é outro grande atrativo, canções simples de letra direta e reduzida, nos mesmos padrões de linguagem utilizado no roteiro e ritmos populares característicos da região aumentam a sensação de familiaridade com o ambiente e diverte o espectador. São canções que grudam e são lembradas dias a fio após se assistir ao filme.
Filmes produzidos nas condições em que se fez Ai que vida! Desde a época da filmadora SUPER-8 até o apogeu da câmera digital, conseguem no máximo participações em festivais de cine-video, mais, este foi além, caiu no gosto popular, deixou de ser simples objeto de admiração de cinéfilos para ser de fato uma atração.
A arte cinematográfica exige mudanças e este filme é um exemplo de que se pode mudar.Se pode fazer filmes por amor a fazer filmes e ainda assim agradar.
Ai que vida! Não é simplesmente um filme feito para as massas e sim uma obra de arte extraída diretamente da cultura popular, algo assim como literatura de cordel. O que se vê é o povo na tela, fazendo, acreditando, construído e acontecendo.
Quando se faz cinema nestas condições e se tem platéia, não se faz só sucesso, se faz revolução!

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