Ai que vida - Se fosse fácil fazer cinema

Foto: Divulgação
Cícero Filho e a equipe de Ai que Vida em intervalo das gravações
1
Natacha Maranhão · Teresina, PI
25/9/2011 · 19 · 2
 

“Nam, mermã, nam. Arrrmaria...” A fala de Mona, carregada de sotaque nordestino e do jeito piauiês de falar virou mania em Teresina nos idos de 2008 e até hoje diverte as pessoas por aqui. Lançado em setembro de 2007 nos cinemas do Shopping Riverside, em Teresina, e exibido também no Cine Praia Grande, em São Luís, Ai que vida! virou um fenômeno. Segundo a revista Movie, mais de três milhões de pessoas já assistiram ao filme do diretor Cícero Filho, a imensa maioria através de cópias piratas, já que centenas de camelôs, estimulados pela intensa procura, venderam as cópias dos DVDs em quantidade industrial.

Até hoje, quase quatro anos após o lançamento, o filme ainda é procurado no Shopping da Cidade – espaço formal criado pela Prefeitura de Teresina para abrigar os camelôs que foram retirados das ruas – e principalmente nos bares e restaurantes, onde o comércio de CDs e DVDs piratas é muito forte.

O camelô Edmilson Ferreira trabalha vendendo CDs de MP3 e DVDs há sete anos e diz que nunca viu um filme brasileiro fazer tanto sucesso nas ruas. “Eu já cheguei a vender vinte, trinta cópias num só dia. Hoje vendo menos, mas o povo ainda procura. Tem gente que compra ‘de muito’, pra dar de presente pra amigos que moram fora. Acho que foi assim que o filme se espalhou, né? Um foi comprando, mostrou pra outro, que levou pra outra cidade. Agora o Brasil todinho já viu o filme desse menino. Eu mesmo já vi umas três vezes, e toda vez morro de rir porque é engraçado demais”, conta, enquanto tenta me vender quatro DVDs por R$ 10,00.

Esse menino que o Edmilson falou, o Cícero Filho, hoje com 27 anos, é apaixonado por cinema desde pequeno e desde os onze anos faz filmes amadores em Poção de Pedras, município do interior do Maranhão. Veio para Teresina, se formou em Jornalismo e encontrou aqui gente disposta a acreditar nas suas idéias. Encontrou também pessoas que nunca haviam atuado antes, mas que estavam dispostas a dar vida a seus personagens.

Ai que vida! só tem três atores profissionais, o restante do elenco é formado por amigos do diretor e por pessoas das cidades onde o filme foi gravado.

Cícero Filho hoje tenta concluir uma pós-graduação em Cinema, Vídeo e Fotografia em São Paulo e falou ao Overmundo sobre sua obra mais famosa, demonstrando alegria pelo sucesso do filme, muita empolgação pelo próximo, Flor de Abril, que será lançado ainda este ano, e uma certa mágoa pelo que ele chama de “pessoas inescrupulosas que destroem toda a chance de retorno dos suados investimentos colocados” em Ai que Vida!. Cícero se refere à pirataria, vista hoje por ele como negativa. Quando iniciamos a pesquisa para este caso para o projeto Open Business, no entanto, a opinião do diretor que encontramos na internet era diferente. Ele parecia gostar do que a pirataria teria feito por seu filme, e até mesmo ria do caso, como nesta matéria publicada no site Cabeça de Cuia:

“Chega a ser assustador como ‘Ai que vida’ se alastrou, tudo culpa da pirataria”, diz Cícero às gargalhadas, completa ainda, “Fico feliz, ao ver que o “Ai que vida”, está sendo aceito de forma positiva pela população. Difundir o cinema para a população menos favorecida é um foco primordial do meu trabalho. Meu maior lucro é ver as pessoas comentando que gostaram muito do filme, que se retrataram com o enredo e as personagens!”, finaliza.

Mesmo com a mudança de opinião sobre o modo de difusão do cinema, achamos importante manter este caso no projeto, por todas as discussões que ele é capaz de provocar.

Como na maioria das produções cinematográficas underground, ninguém fez só uma coisa em Ai que Vida!. O próprio Cícero criou, escreveu, produziu e dirigiu. E também deu pitacos na iluminação, na maquiagem, no figurino, carregou equipamentos e ainda é o autor da música mais famosa da trilha sonora, o delicioso forró “Ai que Vida”, que já foi regravado por bandas de forró que fazem sucesso pelo Nordeste. A música foi registrada e ele afirma receber pelos direitos autorais quando há execução em shows.

O filme foi rodado em cidades do interior do Piauí, como Amarante, e do Maranhão, como Barro Vermelho, São Francisco e Poção de Pedras. Com pouco dinheiro, a equipe teve que contar com a solidariedade e o apoio dos moradores dessas cidades para se hospedar, comer e se locomover.

O diretor conta que nunca pensou em tornar o filme um negócio, até porque o orçamento era baixo. Boa parte da equipe inclusive abriu mão do cachê, mas agora já percebe que é importante investir na profissionalização do processo e tomar cuidado para que suas produções não caiam em mãos erradas. “Minha maior concorrência, sem dúvida, é a pirataria. Depois de oferecerem o filme ’Entre o amor e a razão’, produzido em 2005, como a continuação do filme ‘Ai que vida’, agora está sendo divulgado um filme sem título, de produção cearense, como o ‘Ai que vida 3’. Trata-se de mais uma artimanha da pirataria para extrair lucros com minha obra. A pirataria prejudica a produção de novas obras, especialmente porque os realizadores do trabalho propriamente dito nada lucram”, reclama, acrescentando que só agora se deu conta do lado negativo da pirataria. “Na verdade nunca fui a favor da pirataria, de início eu não sabia de fato os prejuízos causados por ela, mas agora sinto na pele; seria ótimo se houvessem outras formas de distribuição, mais justas com os artistas”, desabafa Cícero, quando questionado sobre sua mudança de opinião em relação à pirataria.

Ele revela que na época do lançamento do filme, fez algumas cópias e deu para os atores e apoiadores, e acredita que as primeiras cópias piratas surgiram a partir daí.

Os DVDS originais hoje são vendidos através do blog de Cícero Filho ou por e-mail (cicerofilho07@bol.com.br ), mas a receita é bem pequena. Foram vendidos em média 800 DVDs, a R$ 30 cada. Curiosamente, políticos do Piauí e do Maranhão já encomendaram cópias para dar de presente a amigos, talvez por se identificarem com os tipos hilários – Zé Leitão e sua comparsa Chica do Pote e a idealista e barraqueira Cleó - que disputam a eleição em Poço Fundo, cidade fictícia onde se passa o filme.

A Rede

Jornalistas do Piauí e do Maranhão têm sido grandes parceiros das produções de Cícero Filho. Na época do lançamento de Ai que Vida! no cinema, todos os jornais e portais de Teresina fizeram ampla divulgação, algumas TVs também. O diretor acredita que o trabalho da imprensa dos dois Estados também ajudou a espalhar o filme pelo Brasil. Percebe-se claramente a intenção de ajudar e todos os veículos de comunicação acabam sendo parceiros, ainda que informais.

Cícero reconhece a ajuda e afirma que é impossível fazer cinema, cultura de um modo geral, sem parceiros. Ele revela que tem tido a sorte de encontrar pessoas dispostas a ajudar e colaborar com seu trabalho das formas mais variadas. “Não sei explicar ao certo, mas as pessoas ‘aparecem’ na minha vida. No Ai que Vida!, por exemplo, a grande maioria dos produtores e atores vieram por meio de indicações de amigos que já haviam trabalhado em outras produções, ou mesmo andando pela rua. O ator Danilo Costa, que interpretou o divertido Vanderlei, o homossexual não assumido do filme, eu conheci no dia da gravação. O ator que interpretaria Vanderlei desistiu no dia da filmagem. Após uma sugestão de uma das integrantes do elenco, Danilo fez o teste e foi um sucesso. Ele, com aqueles olhos negros e curiosos, perguntou-me que dia seria essa tal gravação. Lembro-me como se fosse hoje, respondi: ‘Pega essas roupas, alisa os cabelos, tira as sobrancelhas, raspa os bigodes, que a cena será gravada daqui a uma hora’”.

Como convém aos grandes realizadores, o jovem cineasta já percebe que não é possível centralizar todas as ações e começa a compartilhar com parceiros as responsabilidades de suas produções. “Precisamos estar abertos ao envolvimento de novos criadores e parceiros, sempre. Nos primeiros filmes que fiz, estava concentrando funções. Nos últimos filmes, estou aprendendo a compartilhar, a deixar certas tarefas nas mãos de técnicos. Hoje, tenho um time de produtores. Também tenho roteiristas que dão forma às minhas histórias e estou tendo a colaboração de atores profissionais. Estou diminuindo gradativamente o amadorismo e passando a encarar os desafios do cinema profissional, mas deixo claro que ainda não estou usando película nesse processo, o que alçaria meus filmes, que custam em torno de 100 mil reais, para a casa dos milhões”, conta.

Propriedade intelectual


Cícero Filho assegura que todas as pessoas que trabalham em seus filmes assinam contratos e termos de cessão de uso da imagem e som, e tem contratos formais com parceiros e apoiadores, para se proteger de eventuais aborrecimentos.

O diretor registrou o roteiro de Ai que Vida! como obra original na Biblioteca Nacional. “Adoto esse procedimento com todas as minhas produções profissionais. Também registrei as músicas originais do filme. Sou autor de uma dezena delas. A música tema do filme é um sucesso, e várias bandas de forró se apropriaram dela antes que eu recorresse ao Ecad. Também tenho cuidado especial com a produção de DVDs, camisas e outros brindes decorrentes do filme, tudo reconhecido em firma, pela BN (Biblioteca Nacional) e Ancine (Agencia Nacional de Cinema). Apesar disso, ainda tenho que ficar atento ao movimento de pessoas que usam o filme em exibições-shows no interior do Maranhão e parte do Norte do país, com parte do elenco, mas sem a minha autorização”, relata.


Tecnologia muda tudo

MSN, Facebook, Orkut, blog e email. Cícero Filho conta que a internet é uma amiga de todas as horas. É pela web que ele e sua equipe se comunicam, fazem contatos com a imprensa e com o público que entra em contato através do blog. “A internet é sem dúvidas nossa maior ferramenta de divulgação, até porque é barata, acessível a todos, interativa, tudo acontece muito rápido. Quando lançamos o Ai que vida! usamos todas as redes sociais. Quero criar um site, mas pra isso preciso parar um pouco”, diz.

Apesar da pouca idade, por ter começado a fazer filmes muito cedo Cícero Filho acompanhou de perto as mudanças no modo de fazer cinema que aconteceram da década de 1990 para cá, especialmente no que diz respeito a equipamentos. “Antigamente, há dez anos, eu gravava meus filmes com uma câmera grande e pesada. Rodava meus filmes no formato VHS, S-VHS (Panasonic M3000 e 9000). A resolução e o som das câmeras usadas não eram muito bons. Com o áudio em mono, quase não se ouvia o que os atores falavam. A resolução da imagem gravada em VHS era péssima comparada à de hoje. Com o passar dos anos as coisas foram se modernizando, se reinventando. Tudo está acessível agora. Dispomos de câmeras que filmam em HD, FULL HD, enfim, com qualidade melhor que as de antigamente. Até celular filma em HD, se faz filmes com isso. As novas tecnologias estão aí a preços acessíveis, facilidades mil. Hoje tudo é possível”, comemora.

Ai que vida! foi filmado com uma câmera mini DV emprestada da Faculdade Santo Agostinho, e que até hoje é utilizada pelo diretor, que é ex-aluno da instituição. “Ainda hoje uso a mini DV, agora que estou começando a comprar meus equipamentos. Ainda é muito caro fazer cinema no Brasil”.


Pouco dinheiro para muitas ideias


As facilidades trazidas pela tecnologia, com equipamentos modernos e que possibilitam melhorar a qualidade dos filmes não são suficientes para baratear os custos de fazer cinema. Conseguir patrocínios é tarefa hercúlea, por isso todos os apoios são bem vindos. O diretor conta que Ai que vida! teve desde o apoio do Governo do Piauí e das prefeituras de Poção de Pedras (MA) e Amarante (PI) a pequenas empresas dos dois estados. Sem falar na ajuda inestimável e indispensável dos moradores das cidades onde o filme foi rodado. “Ai que vida! custou cerca de R$ 30 mil, que consegui junto a empresas privadas, Governo do Piauí e Faculdade Santo Agostinho. Também investia o meu salário no filme. Conseguia convencer as pessoas a ajudar conversando, contando como era o filme. As prefeituras e as comunidades dos municípios do interior nos ajudaram com alimentação, hospedagem e transporte”, relata.

Cícero Filho não tem informações precisas sobre lucros ou prejuízos gerados por seu filme mais famoso, mas diz que não é possível se manter só com seu trabalho em cinema, principalmente por causa dos custos de produção que são muito altos. O dinheiro nunca sobra, e tudo que entra é dividido mediante a atividade desempenhada no filme. “Tudo em cinema é caro, os nossos maiores gastos são com aluguel de carros para transportar os atores, aluguel de câmera, aluguel de locações, pagamento dos figurantes, atores, produtores, redatores, editores, músicos, sonoplastas, assessoria de imprensa, produtores de eventos, técnicos de som e iluminação, fotógrafos e outros profissionais”, informa.



Flor de abril


O sucesso de Ai que Vida! abriu portas para Cícero Filho e sua produtora TVM Filmes. Seu novo longa, Flor de Abril, que está em fase de finalização, já conta com mais recursos, embora ainda não possa ser chamado de uma grande produção.

Empolgado, ele fala do filme, que tem a participação de atores profissionais e foi gravado em Pedreiras (MA), Igarapé Grande (MA), São Luis (MA), Teresina (PI), Amarante (PI) e São Paulo (SP). “Flor de Abril pretende materializar a dramática trajetória de uma jovem de passado triste. A sua sina trágica encaixa-se na realidade de muitos nordestinos que passam dificuldades para sobreviver em meio às condições hostis. Teresa (Dayse Bernardo) terá sua vida mudada na sua busca incessante pelo amor. Mas não será um romance ingênuo”.

O filme enfoca sentimentos como a dor e o ódio, a incapacidade do perdão, as conseqüências de cada escolha. No centro da trama, a questão da fidelidade, que não se refere apenas ao relacionamento afetivo, mas aos vínculos com a sociedade. O nome Flor de Abril se refere a uma flor única do nordeste brasileiro, que nasce apenas no mês de março, mas suas pétalas - de cor amarela escura - desabrocham em abril e murcham no mesmo mês. Assim será Teresa, que da ingenuidade típica dos adolescentes apaixonados, murchará com as decepções. O filme não pretende reproduzir o Nordeste idealizado, dentro de uma estética acadêmica formal, mas revelar por meio de diversos referenciais culturais os contornos da realidade nordestina”, adianta o cineasta.
Cícero Filho está finalizando o filme no Rio de Janeiro, juntamente com o diretor Dalson Carvalho, também piauiense, conhecido pelo perfeccionismo em seus trabalhos.
A trilha sonora, composta por canções originais e outras cedidas por compositores, foi gravada no estúdio Jardim Elétrico, em Teresina, e é interpretada por artistas piauienses, como a cantora Soraya Castelo Branco, e maranhenses como Emanuel de Jesus e Fernanda Garcia.

O filme tem um orçamento bem mais ousado que os modestos R$ 30 mil de Ai que Vida!. “Flor de Abril é o meu filme mais caro até agora. Nosso plano era gastar cerca de R$ 500 mil, mas sequer conseguimos a metade. Temos o apoio dos Governos do Piauí e do Maranhão e de empresas privadas”, informa Cícero.

A previsão do diretor é de que o trabalho seja concluído até setembro.


A cara do Nordeste


Assim como em Entre o Amor e a Razão, o primeiro longa-metragem de Cícero Filho, o sucesso de Ai que Vida! deve-se, em grande parte, à intimidade que o público do Nordeste tem com os personagens. Toda pequena cidade tem o seu Zé Leitão (político corrupto e cheio de vícios), sua Cleó (mulher idealista, briguenta, que não leva desaforo pra casa), seu Vanderlei (gay não assumido, confidente das meninas), sua Charlene (dançarina de forró, romântica, que sonha com o príncipe encantado), seu Jerod (um tipo meio cafajeste, mas como “tem carro” é visto como o melhor partido da cidade), sua Mona (menina espalhafatosa, mas dona de um coração enorme), seu Valdir (rapaz bonitinho, mimado pela mãe e imaturo, que não quer nada sério com ninguém). O mérito do cineasta está em capturar a essência desses personagens e colocar tão claramente em seu filme, fazendo com que o povo se reconheça ali. O Ai que Vida! da ficção imaginada por Cícero Filho é, em muitos momentos, a vida real de quem está em frente à tela.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Natacha Maranhão
 

Tem mais fotos de Ai que Vida! aqui http://www.overmundo.com.br/banco/ai-que-vida-se-fosse-facil-fazer-cinema

Natacha Maranhão · Teresina, PI 30/9/2011 10:07
sua opinião: subir
catengo
 

Curti demais esse post! Vou atrás do DVD com o Cicero! ;-)

catengo · Brasília, DF 27/2/2012 10:48
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados