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ALÊ ABREU - POESIAS EM IMAGENS

Alê Abreu
ilustração integrante do livro Barco Branco em Céu Azul
1
Elefante Bu · Brasília, DF
11/4/2009 · 116 · 1
 

A ilustração da capa desta edição (n.e. edição n°41 do fanzine Elefante Bu) é de autoria de Alê Abreu, diretor de Garoto Cósmico, ilustrador e escritor. Ele fez o desenho em questão para o livro Barco Branco Em Céu Azul, de Werner Zots. Não entendo de artes plásticas, não tenho olhos de especialista. Só sei dizer se achei bonito ou feio, se a figura despertou algum sentimento ou apenas teve minha completa indiferença. A respeito da ilustração de capa, digo que ela foi escolhida entre as disponíveis no site oficial (www.aleabreu.com.br) porque, além de bonita, despertou algumas impressões. O senhor que olha para o suposto mar traz uma sensação de saudade e nostalgia. Mas não é tão ruim. Saudade dói, mas envolve o amor. Esse moço é sábio, conhece histórias boas de serem narradas à beira de uma fogueira.

Não é o único desenho de Alê Abreu que instigou sentimentos. Olhe com atenção aos demais que ilustram essa matéria e me diga o que sente. Eu vejo utopia, curiosidade, beleza e um pouco de fantasia. Se conseguir extrapolar essa página e procurar outros trabalhos com a assinatura de Alê, vai entender que o leque de sensações que são despertados em seu traço é muito maior. Garoto Cósmico, por exemplo, é quase como um cobertor macio onde as imagens aliadas à trilha sonora descansam e confortam.

Alê Abreu é paulista que nasceu em 1971. Ainda garoto fez curso de desenho animado no Museu da Imagem e do Som. De faculdade, cursou Comunicação Social. Hoje faz parte tanto da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB), quanto da Associação Brasileira de Animação (ABCA). Em sua biografia, afirma não se lembrar de quando começou a desenhar. Mora em São Paulo rodeado de CDs, livros, computadores, jornais, tinta, lápis, papel, telas, etc. De suas influências, confessou ser fanático por Peanuts, de Charles Schulz, obra cujos traços estão presentes em Garoto Cósmico. “Charles Schulz é mais do que uma inspiração. Foi o primeiro trabalho de desenho que me apaixonei como desenhista, quando criança, ainda antes de estudar animação. Em Garoto Cósmico é uma
influência as sumidíssima, quase uma homenagem”, disse.

O leque de referências é vasto. Passa pelo filme Planeta Selvagem (de René Lauox), Miró, Frida Khalo, Miyazaki (animador do cinema japonês), Paul Klee, Violeta Parra. Para Garoto Cósmico, por exemplo, até é possível identificar um pouco da influência de George Dunning e Denis Abey, diretores do filme Yellow Submarine. Perguntei a ele se isso procedia. “Acabamos misturando no liquidificador, conscientes ou não disso, muitas coisas que encontramos ao longo do caminho e nos marcaram de alguma forma. Garoto Cósmico é cheio de citações. A própria trilha sonora lembra muito os Beatles, não acha?”, respondeu.

As referências saem também do campo visual e entra na literatura, na filosofia e na música. É quando ele também cita entre vários outros, Darcy Ribeiro, Hannah Arendt. “Quando os leio, quase sempre tenho a sensação de estar ao lado deles. De que são meus amigos íntimos. Do Darcy (quanta generosidade e amor se vê em seus textos) a idéia de que o mundo é resultado do homem, de que ele é feito por nós todos os dias. A Hannah Arendt é sempre surpreendente. A partir de seu pensamento entendi melhor as relações entreesferas pública e privada, e pude situar melhor o trabalho que faço e sua relação tão ambígua com o mercado”. E também entram a música e a literatura. Em seu site oficial, o ilustrador relaciona muitos de seus desenhos ali expostos com frases e versos daqueles que gosta. “Música e poesia me estimulam muito a desenhar. As que coloquei no site de certa forma dialogam com imagens que fiz para outros textos. Achei que ficou divertido”.

Tem até poesia própria que acompanha o homem com o sol bob a palma de sua mão que está montada em cima de uma outra de Alê Abreu na última página desse texto:

“A criança é a crença
Não envelhecer significa
Continuar a crer que tudo é possível
Nem que seja só no pensamento
É o direito de sonhar qualquer coisa
Outro mundo, por exemplo
Pois antes de mudar o mundo
será preciso pensá-lo
Antes de mudar o mundo será preciso
Conquistar o direito de sonhá-lo
O direito ao delírio
Será nossa grande conquista
Nossas Invasões Bárbaras!
O declínio do império americano de cada um de nós”

Conjunto da obra

O currículo do artista é extenso. Começou a carreira já animado, com o curta Sírius (1993). Produziu o documentário A Luz da Lona, em 1995, como parte do trabalho de pesquisa que fazia para o seu então futuro longa-metragem Garoto Cósmico. Ao longo de 16 anos de carreira, ilustrou livros e textos de muita gente, até de quem já não está mais aqui, como a poetisa de Goiás Velho Cora Coralina e de Mário de Andrade. Disse que trabalha em diálogo com a obra dessas pessoas e que isso é o que justifica a ilustração. “É sua razão de ser. A imagem quando reduzida a mimese ou a pura descrição empobrece a obra. Mas este diálogo deve acontecer em um outro nível, não necessariamente numa conversa telefônica com o escritor. Só ilustro um livro quando sinto que este diálogo é possível, quando um texto pede ilustrações, quando sei que
estou preparado para elas”.

Não apenas livros de terceiros que ilustra. Os dele próprio também, como Mas Será Que Nasceria a Macieira?, em parceria com Priscila Kellen. “Faço tantas coisas ao mesmo tempo, que as realizações ficam muito misturadas em meu trabalho diário. Desenhos que se transformam em histórias, filmes que viram livros, histórias para filmes... o mais interessante é o momento, o processo. Depois de pronto, é outro tipo de graça”.

Das exposições foram muitas tantas do seu trabalho como animador, quanto ilustrador. Por uma curiosidade, todas realizadas em São Paulo, menos uma: a do 3° Salão Internacional de Humor de Foz do Iguaçu, em 2004. Cinco anos depois de Sírius, lançou O Espantalho, um curta de história complexa, interpretativa, da relação entre uma velha, uma menina e um espantalho em um sertão. Além de ganhar prêmios e menções honrosas em sete festivais, essa animação virou também clipe da música Não Me Deixe Só, da Vanessa da Mata. “Assim que lançou seu primeiro álbum, a Vanessa me procurou para fazer o primeiro vídeo clipe. Ela queria animação, pois já tinha feito vários desenhos enquanto escrevia as letras das músicas. Mostrou-me um caderno cheio deles, um universo visual muito bacana. Mas na época eu estava bastante mergulhado na produção de Garoto Cósmicoe não tinha como desenvolver qualquer outro trabalho. Mas ao ouvir a música, percebi imediatamente a relação com o curta Espantalho e sugeri a ela a adaptação. Ficamos muito felizes com o resultado”.

A parceria entre Alê Abreu e Vanessa da Mata também foi estendida até o Garoto Cósmico, onde a cantora dublou a personagem da Bailarina. Mas isso depois do longa de animação ter passado por oito anos de produção, um trabalho lento, caseiro. Disse que quando a equipe estava em ritmo alucinante, eles conseguiam filmar dois, três minutos da animação por mês. Alê disse que fez tudo com o maior prazer, no entanto confessou que tinha momentos que quis jogar tudo para o alto. Ainda bem que resistiu bravamente porque é de fato uma obra diferenciada, feita com capricho e, claro, amor. É um trabalho premiado, internacionalmente, inclusive, com o prêmio de melhor filme pelo júri popular no Festival de Cine dos Pueblos Del Sur, ano passado na Venezuela.

Entre projetos futuros e em andamento, estão em processo de produção o longa Cuca no Jardim e o seriado Vivi Viravento. O primeiro é sobre um menino que vive no sertão e vê o pai ir embora para nunca mais voltar. “É a aventura deste menino em busca de seu pai numa mega metrópole do mundo globalizado”, explicou. “Já Vivi Viravento é uma menina que viaja com sua avó pelo mundo, registrando em seu diário, a partir de seu olhar lúdico e poético, os lugares que conhece”.

Por falar em lúdico, eis aí uma característica marcante de toda obra de Alê Abreu. “Costumo dizer que venho ao meu ateliê todas as manhãs com a mesma vontade que uma criança sai para brincar em seu quintal. A linguagem é como um jogo, um desafio. A cada dia a possibilidade de uma pequena descoberta”. E assim, entre sistemas planetários e mundos diferentes, entre a magia do circo e em figuras que estimulam o imaginário que o trabalho de Alê Abreu abre o seu universo criativo, convidando a pensar e a lembrar de belezas e pequenas coisas que esquecemos dentro de um cotidiano intenso e, muitas vezes, caótico. Um pouco de poesia, em imagens ou palavras, não faz mal a ninguém.

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graça grauna
 

...bom demais. Abraços

graça grauna · Recife, PE 10/4/2009 00:07
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