As imagens capturadas por olhos frenéticos de ver, descobrir, sentir e transpor um quê de incômodo espelho na alma compõem mais que a paisagem, um itinerário de tempo transcorrido e vertido nos passos das gerações, essa sucessão na corrente sanguínea e nas águas tranqüilas de um rio de nome sugestivo: Rio Vermelho. Histórias que mexem e remexem com a gente, sem explicação plausível.
Exposta ao atrito das pedras e das almas, sigo o itinerário das pedras da Cidade de Goiás, antiga capital da Província e do Estado, os passos do imaginário e o despertar de alguns fantasmas mais vivos do que nunca nas palavras que legaram ao futuro de todos os tempos.
Espicho o olhar o mais que posso. Agora mesmo sigo o tropel de palavras de Hugo de Carvalho Ramos, que em 1917 publicou Tropas e Boiadas - leitura recomendada por Mário de Andrade, o mais modernista dos modernistas que dizia que era preciso realizar o Brasil. Procuro em Hugo um pouco das trilhas batidas pelos bois carreiros do meu avô materno que transpôs o rio Paranaíba (divisa natural de Minas e Goiás), deixando para trás os gerais de Minas que tornaram a sua alma refém de um passado saudosista.
Também tenciono reler Cora Coralina que, contrariando os críticos, deu um salto mágico além do seu tempo e da figura exótica que a popularizou plasmando-se como referência da poesia goiana, isso mais de 20 anos depois de sua morte.
Esbarro ainda em outras histórias dignas de reverência na errância e na grandeza dos becos de Goiás, esses labirintos de paredes, pedras e janelas que me convidam a olhar e sentir, profundamente...
A cidade é transpiração e arte. E também fonte de inspiração. Desperta em nós um desejo de cometer palavras e capturar imagens e almas. Mas devagar, como os passos retardados pelas pedras do caminho e no meio do caminho.
Em maio do ano passado cometi algumas palavras, registrando as primeiras impressões do contato tardio com a antiga Vila Boa de Goiás. Este ano, pela primeira vez, segui a Procissão do Fogaréu - as impressões verbais ficam para depois.
Por ora, as primeiras imagens. Espero que agucem o desejo de ver por dentro, além das fachadas, vão das pedras e o fluir sereno do rio... Compartilho aqui uma visão da primeira impressão que ficou.
Imaginem este cenário sob a luz da lua cheia...
Ladeiras abaixo e acima, becos que mais parecem labirintos para quem não está familiarizado com a geografia tortuosa do lugar. Tudo nesta cidade desafia o nosso sedentarismo e preguiça, principalmente dos olhos e dos pés. Só depois de caminhar sobre o tapete de pedras que calça esta cidade podemos vislumbrar um princípio de intuição da alma das pessoas que habitam esta cidade-redoma – distante 130 quilômetros de Goiânia. Uma cidade que flui no remanso do Rio Vermelho e tem o horizonte emoldurado pela Serra Dourada. A cidade exige olhos vigorosos para transpor os seus limites naturais e os séculos de história e tradição que transformam a antiga Vila Boa num cenário de reflexão.
Patrimônio da Humanidade, antiga capital da Província e do Estado, Goiás é uma intrigante festa para os olhos e para quem se dispõe a olhar atentamente, sob todos os ângulos: a paisagem, os monumentos, as pedras, os vãos das portas e janelas, a alma das pessoas que caminham com atenção redobrada aos passos no deslize das pedras... É uma cidade que vive pra dentro e sai para ir à missa, batizar os filhos e seguir a procissão. E a Procissão do Fogaréu, com os farricocos, reconduz a cidade ao calor das tochas do passado, reacesas com a fé, ano após ano, de geração em geração.
É uma cidade que tem aroma de mato e água fresca correndo da fonte e também cheiro de museu, de cupim no oco da madeira, de velas derretendo, de livros antigos, de quadros saltando do porão, de arte despertando os nossos olhos - de um recorte na pedra bruta às fachadas das casas e prédios públicos, tudo é transpiração e arte.
Ah, e Goiás tem sabores que vêm de longe, dos tachos de cobre aquecidos nas fornalhas de lenha onde se apuram o fio de deliciosos doces. Um, pela sonoridade do nome, me lembra figura de anjo, alfenin, e no plural, mais bonito ainda de pronunciar, alfenins... Que sonho no céu da boca!
Os sabores em Goiás têm memória antiga, muito antiga. Mas também o frescor dos frutos do cerrado, que desde criança a gente aprende a distinguir no mato... Mangaba, gabiroba, murici, cajuzinho do campo...
Poucas vezes visitei Goiás. Fiquei sempre com impressões distintas, com esta cidade mexendo comigo de um jeito incômodo. Mas cada vez vou me soltando e gostando mais e descobrindo uma coisa nova para um olhar novo.
Inegável: Goiás tem charme. Um cenário cinematográfico e um não sei quê de nostalgia, de sussurro, de embriaguez... De encantamento. É isso. A cidade encanta a gente. E da última vez foi covardia. Nem precisa daquela lua cheia, derramando-se nos contornos da Serra Dourada e no espelho do Rio Vermelho em que a lua vem se mirar na noite cor de prata... Suave, suave, de ver e de sentir.
Cida, seu passeio por Goiás Velha, como a gente intimamente chama a cidade por aí, é uma viagem deliciosa. Mestra na arte de unir as palavras, tecendo seus significados e sons, você nos leva mais uma vez... Adorei!
Roberta Tum · Palmas, TO 19/4/2007 10:10
Também apreciei viajar por esse itinerário de imagens e palavras. Revisitar a antiga Vila Boa é sempre uma experiência e tanto...
José Afonso Viana · Goiânia, GO 19/4/2007 14:25E os tucanos de manhãzinha comendo mamão no quintal da professora Maria do Carmo hein????
Tacilda Aquino · Goiânia, GO 19/4/2007 16:56Que bom ressaltar a beleza do nosso País!!! Mostrar a tanta gente que prefere roteiros internacionais, para chegar na roda de amigos e contar histórias arrogantes, em vez de redescobrir uma cenário de pura beleza. Parabéns pelo artigo é importante ressaltar sempre que o Brasil é um local abençoado por Deus.
Van Gogo · Ribeirão Preto, SP 19/4/2007 21:49
Cida. O seu texto é muito bom. Deu vontade de conhecer Goiás. Você fez uma bela pintura nesse texto. Abraço.
Obs: As fotos estão muito bacanas.
Gostei demais também desse roteiro visual. Casamento harmonioso entre texto e imagens, um bom itinerário.
Gisélia Duarte · Goiânia, GO 24/4/2007 09:43Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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