Guerreiras, cotidiano suburbano e o vai-e-vem de improváveis trens que maltratam as comunidades desfavorecidas de São Paulo compõem o universo dos livros do inquieto Alessandro Buzo.
Conheci a figura simpática do Buzo lá no bar Zé Batidão quando ele recebia seu segundo prêmio Cooperifa. Isso demonstra que o cara merece respeito. Tem moral na quebrada. Sua comunidade e cotidiano são a razão de ser de seus escritos. Demonstra raiz, não é tronco à deriva.
Sua carreira, centrada na busca da elaboração jornalÃstica e poética, é parte de luta pelo respeito e melhoria material das periferias. Seu principal viés de acesso à causa é a palavra: escrita, declamada, cantada ou conversada. E ele é bom, seja na condição de autor, editor ou produtor.
Adquiri, dele mesmo, três obras: “O trem: contestando a versão oficialâ€; “Suburbano convictoâ€; e “Guerreiraâ€. Li tudo rápida e prazerosamente. Texto sem proselitismo e sem querer aparentar o que não é. Palavras com tensão suficiente para seqüestrar o leitor.
Sua sinceridade é surpreendente, sua narrativa despojada. Objetivo. Condução jornalÃstica das crônicas, relatos e crÃticas que nos colocam in loco. Em “O trem†parece que estamos ouvindo o sambão, paquerando as meninas, adquirindo dos camelôs, tomando um trago, respirando o aroma forte da erva, ou mesmo nos esquivando das mãos malandras que tentam bafar nossos bonés, relógios, carteiras. São dramáticas as histórias de acidentes, as descrições dos pingentes e dos inacreditáveis remendos de madeira do chão dos trens. Suas severas crÃticas aos órgãos públicos que “organizam†todo o caos relatado fecham o cÃrculo.
“Suburbano Convicto†é totalmente familiar para todos que respiram o ar suburbano e sujam os sapatos na lama rude dos becos e vielas do mundaréu. Não sei aonde vai o biográfico, mas soa sincero. Lido e respeitado, revela-se verdadeiro um documento da realidade do povo humilde.
Buzo dispensa tÃtulos para traçar um mapa das mazelas que afligem as comunidades de baixa renda. Mas também mostra a dignidade e a alegria presentes e possÃveis, e quanta vida pulsa na periferia, “lado b†da paulicéia, seu lar, lado, laudo. Sua alegria, dor, suor. Sua missão, sua famÃlia.
Em “Guerreiraâ€, estréia no romance, delineando uma personagem tÃpica das metrópoles. Consumo de drogas, prisão injusta, amor sincero, prostituição chic, fazem parte da vida de uma mulher que vai à luta com todas as armas que a sobrevivência lhe permite. Ele apimenta a narrativa com cenas sexuais explÃcitas e toda sorte de vÃcios e violências que temperam o submundo; botando em contato os dois “m†extremos da balança social brasileira: milionários e miseráveis.
A busca de neutralidade e a condução cinematográfica destacam-se em “Guerreiraâ€. Perece um filme terrÃvel sobre nossas verdades mais cortantes. Um traçado desconcertante de nossa sociedade com realismo de causar náusea aos que mitificam nosso paraÃso ao sul do Equador.
Bem... Buzo tem moral na quebrada, e isso tem a ver com seu pertencimento, com o respeito pela sua gente. Por isso ocupa um lugar privilegiado, para “observar†e relatar o trajeto da sua guerreira: uma série de fatos genéricos ao cotidiano urbano sem julgamentos levianos. Seu texto ressalta o ser humano. Drogada e prostituÃda, porém, primeiro, sua guerreira é observada e representada na sua dimensão mulher possÃvel.
Sua literatura revela um pouco mais de nós, mesmo que nos assuste com nossa imagem no espelho. Mas nunca nos refletimos tão nós mesmos.
Eu, que cheguei a comprar livros nas mãos de PlÃnio Marcos, sei bem da importância da contra-literatura de “O tremâ€; “Suburbano convicto†e “Guerreira†para a compreensão de minha condição humana.
E você, o que já leu ou está lendo de Alessandro Buzo? (www.suburbanoconcvicto.blogger.com.br)
Pra quem quiser seguir o link do blog do cara:
http://www.suburbanoconvicto.blogger.com.br/
Valeu, Roberto.
Grafei errado lá no texto, não é?
Obrigado pela visita e pela correção.
A propósito, o Buzo mantém também o blog:
http:/www.literaturaperiferica.blogger.com.br/
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