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Algumas lições do racismo brasileiro que aprendi..

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silvino · Reino Unido , WW
23/12/2007 · 199 · 11
 

Algumas lições do racismo brasileiro que aprendi como publicitário

“Everybody wants an intelligent son.
My intelligence only got me into difficulties.”
SU TUNG P’O

Foi logo no início da minha vida de publicitário em São Paulo que a declaração de um diretor de arte de um dos escritórios da Leo Burnett (EUA) me chamou a atenção porque batia com um sentimento que também era meu. Ao ser questionado sobre o que mais o incomodava no fato de ser negro, ele devolveu a seguinte resposta: “O tempo que sou obrigado a perder me preocupando com isso”.Se fosse um aviso do que estava por vir, não poderia ter sido mais claro, pois aqui estou eu, neste doce novembro, mês da consciência negra, escrevendo exatamente sobre o negro na propaganda brasileira. Ou, em outras palavras, escrevendo sobre algo que praticamente não existe. Nenhuma outra atividade ou ocupação que eu tenha tido me obrigou a gastar tanto do meu tempo pensando nos mecanismos desse fenômeno, que faz com que as agências de propaganda brasileiras sejam tão brancas, como a de redator publicitário.

É claro que não foi como publicitário que descobri que 350 anos de regime escravocrata fizeram um estrago danado e deixaram marcas que se incorporaram ao nosso cotidiano. O que me surpreende é que a publicidade tenha me ensinado mais sobre a natureza dissimulada dessa herança ibérica do que os livros de Gilberto Freyre, que tive que ler (com prazer) nos meus tempos de estudante de Sociologia em Recife. Talvez eu deva até ser grato por tantas lições de vida que a minha profissão me proporcionou. Por outro lado, seria muito egoísmo não aproveitar esta oportunidade de compartilhar com você, publicitário ou não, negro ou não, algumas dessas lições. Quem sabe assim eu não me vingo e obrigo você também a ocupar mais do seu tempo com um assunto que deveria existir tanto quanto existem negros em nossas agências.

A primeira lição: a dissimulação, principal arma do racista de fabricação nacional, também pode servir para a defesa da sua vítima. Quando o assunto for discriminação racial, entre mudo e saia calado. Na verdade, você nem estava presente. Outra dica: adote frases do tipo “talento não tem cor” ou “a falta de negros na propaganda é apenas um reflexo do racismo da sociedade”, para justificar o fato absurdo de um país que produziu escritores como Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Sousa e Paulo Lins, não ter redatores publicitários negros, por exemplo. Deve ser por que ser escritor é bem mais difícil do que ser redator. Nem deixe passar pela sua cabeça o impulso de revelar que você conhece muito publicitário branco que não é tão talentoso assim, e que o pré-requisito parece ser adotado com mais rigor na hora de contratar o negro. Este sim, tem que ser muito bom para furar o bloqueio. Também não vá ser ingênuo a ponto de tentar argumentar que se por um lado a publicidade não é responsável pela existência do racismo, por outro ela é uma poderosa arma para a manutenção ou remoção do mesmo. Isso realmente pega mal. Coisa desse pessoal que não tem o que fazer e fica criando ONGs. Se possível, torne-se invisível como tão bem sabe fazer o bom e covarde racista tupiniquim. Se você for daquele tipo de negro que pode se passar por branco, não vacile: seja branco de corpo e alma. Isso aumenta exponencialmente as suas chances de se dar bem. Se alguém adotar uma postura radical e disser que racismo simplesmente não existe, concorde. Não o trate como cego, se ele se enquadra nesta categoria; nem cínico, se for este o caso. Muito menos revele que não existe outra classificação possível ou que é bastante improvável que um padrão de comportamento social se repita com tanta precisão e freqüência sem uma ideologia, doutrina ou coisa que o valha, que o sustente. E quando o álibi – todo racista brasileiro tem um álibi, pode reparar - for o repertório? Olha lá como você vai expressar a sua convicção sincera de que pôr um negro aqui outro ali nas peças produzidas pela agência é pouco, muito pouco, na verdade, migalhas. Pelo amor de Deus, e da sua carreira, não vá sugerir que contratar profissionais negros deveria ser regra tanto quanto contratar brancos. E se alguém contra-argumentar dizendo que há falta desses profissionais no mercado, engula a sua certeza de que não precisa ser tão criativo assim para encontrar maneiras de se investir na formação de tais profissionais. Sugerir que a publicidade é suficientemente rica para proporcionar este retorno à sociedade, nem pensar.

Para os raríssimos negros do mercado, um conselho básico: digira as piadinhas e as insinuações racistas. Não vá cair na besteira de responder que você, além de fazer na entrada e na saída, também faz na cabeça. Silenciar é tudo. Não vá dar uma de Silvino. Outro risco que você também corre se falar o que pensa é o de ser taxado de chato ou racista ao contrário, como se fosse comum ver negros barrando a ascensão profissional de brancos; negros impedindo a entrada de brancos em rodas de samba; ou branco reclamando porque sofreu preconceito racial por parte de um funcionário negro do Iguatemi. Se você insistir no assunto, aí é promovido à categoria de negro recalcado, pode escrever. Racista brasileiro se borra de medo só em pensar que pode ser desmascarado, portanto, se algum deles se descuidar e deixar cair a máscara diante de você, lembre-se da primeira lição: dissimule, finja que não viu nada. Jamais se ache suficientemente inteligente para desafiá-lo. Principalmente se a sua descoberta for feita a portas fechadas. Ninguém vai acreditar. Vão dizer que só pode ser um terrível engano; que aquela pessoa tão bacana não pode ser racista; que você tem mania de perseguição; que está procurando desculpa para a sua demissão; e por aí vai. Caso você viole esta regra estará perdido: vão exigir provas, te ameaçar de processo, te isolar. Prepare-se para perder algumas pessoas que você considerava amigas, pois elas vão desaparecer pelo mesmo buraco por onde os ratos abandonam o navio. Este processo purgatório, aliás, é o lado bom da coisa.

Finalmente, uma lição tão simples e tão óbvia que se o inteligente aqui tivesse o mínimo de massa cefálica, teria simplesmente consultado um dicionário, e não aprendido dentro de uma agência de propaganda: preconceito, meu amigo, é prejuízo.

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Andre Pessego
 

Silvino, que bom ainda faltam 19 hors de votação, o seu texto
atingirá o numero para publicação em definitivo. Mais um escrito seu para a posteridade.
Mas voce segue à risca as recomendações do Cristianismo; voce segue à risca às ordens das Forças Armadas Brasileiras. O primeiro a maior desgraça do negro em todos os tempos; a segunda a maior desgraça do negro brasileiro.
O que estou lhe dizendo escrevi a Chico Buarque na Feitura do seu Calabar, (teatro, 1972/73).
Silvino a culpa a perpetuação dos ranços da escravidão não é culpa da sua agencia, nem dos clientes dela; nem dos shopping centers que não admitem ser admitidas balconistas negras em suas lojas. A culpa está no ambito do Estado Brasileiro, melhor
na Doutrina Militar do Brasil. Ali está a desgraça.
Se nós tivessemos 25% de generais negros, não aconteceria nada - todo mundo ia querer ter um amigo negro "e se o infeliz fosse sobrinho do General?"
Se metadade dos gerentes das agências do Banco do Brasil fosse negros......... necas de racismo.
Se metade mais 10 dos Diretores do Banco Central fosse negros....... e ai? ..... quem seria besta para........
Meu caro, o caminho não é este o caminho está em
Castro Alves
"Cresce, cresce vingnaça feróz". como se diz no nosso Nordeste - "será pau que passa pau" e já está ai.
um abraço,
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 22/12/2007 19:28
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Spírito Santo
 

Silvino,
Boa e essencial contribuição ao surgimento da luz sobre nossas relações sociais, tornadas 'raciais' por esta estratégia cruel de dissimulação que nos acanalha a todos, de Natal a Natal.

"...Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel."..

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 23/12/2007 12:44
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
silvino
 

Caro André,
acredito que independente de quem é a culpa, não nos
resta outra saída senão fazer o possível, e até o impossível,
para acabar com a farsa. No meu caso, a arma que tenho é
escrever. Grande abraço.

silvino · Reino Unido , WW 23/12/2007 14:26
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silvino
 

Spírito,
muito obrigado pelo comentário e pela sugestão de postar
o texto. Ele foi escrito em 2006, originalmente, para o site
do Clube de Criação de São Paulo. Um grande
abraço.

silvino · Reino Unido , WW 23/12/2007 15:42
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Alê Barreto
 

Oi Silvino. É a primeira vez que estou lendo um conteúdo seu. Eu não sou negro. Sou um "índio-descendente". Mas, no fim das contas, sou brasileiro e uma pessoa que como você observa as dinâmicas do comportamento social.

O seu raciocínio sobre a estratégia para tratar o assunto do racismo, feitas as devidas adaptações aos contextos distintos, penso ser possível ser adotado também para outras formas de desumanidade.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 23/12/2007 19:58
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Roberta Tum
 

Silvino,
grande tema, boa abordagem!
parabéns!

Roberta Tum · Palmas, TO 23/12/2007 21:11
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Andre Pessego
 

Silvino, meu bom Silvino,
Eu, e tantos de nós, também estou aqui para escrever.
Só que quero escrever apontando soluções que levem a algum lugar; (queria escrever as bestagens das minhas lembranças, ou as belezas do meu lugar), dos passeios de férias...
Mas não. E nao posso escrever para dizer "amém". Para dizer eu me rendo. "Eu alcancei". "Você é, isto ou aquilo". Este discurso nunca vai medrar a Doutrina Militar Brasileira.
Voce está extamente na posição de "Calabar de Chico", na voz de Henrique Dias. "Eu sou negro, eu alcancei", isto dito textualmente. (nas entrelinhas - voce é burro).
E nós, voce, eu - negros, pardos e mulatos, cafusos" -
não alcançamos nada. Nós como Pelé estamos na quota do "cala-a-boca".
Sem medrar a Doutrina do Exercito Brasileiro, somos animal de
seva, tratados até alcançar peso e altura. Depois ou forçam a ser mão de obra de serventia ou matam. Matam!. E não é o comércio e não é elite, não - o Estado. O que a sociedade precisa saber é que tudo está no âmbito do Estado.
Silvino, fico feliz por voce "ter alcançado", pelo menos para voce, mas não alcansou no âmbito da sociedade, no âmbito do seu País, na sua Nação. Pelé é o exemplo de hoje. O de ontem foi Chica da Silva. Vou lhe dar um outro exemplo da escrita: Montezuma; outro, Machado de Assis
Silvino, do meu coração, um abraço - Feliz Natal,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 24/12/2007 04:07
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silvino
 

Meu caro André, a escrita pode ser uma arma mais poderosa
do que muitos exércitos juntos. Não acredito que o "Eu sou negro, eu alcancei' carrega necessariamente a sub-leitura 'você é burro'. Eu, o que sinto é que sou um privilegiado. Mas privilégio implica em mais responsabilidade, menos direito ao erro e nenhum direito à omissão. Eu não trocaria a escrita por mil canhões e acredito que as conquistas no âmbito pessoal podem sim ser propulsioras das conquistas sociais. É só saber compartilhar. Deixar de lado o egoísmo e dividir com o menos favorecido o resultado das nossas conquistas.
De coração, desejo um Feliz Natal a você também.

silvino · Reino Unido , WW 24/12/2007 09:10
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silvino
 

Olá Alê, eu concordo plenamente com o que você disse.
É a primeira vez que eu estou no overblog, mas tenho participado com alguns poemas e ensaios no banco de cultura. Aproveito para deixar um convite para que você visite a meu site: www.folhaderosto.com
Um Feliz Natal e um gande abraço.

silvino · Reino Unido , WW 24/12/2007 09:12
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silvino
 

Oi Roberta,
muito obrigado!
Um Feliz Natal para você.

silvino · Reino Unido , WW 24/12/2007 09:13
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Ivette G.M.
 

Silvino, não sei o que você vai pensar do meu comentário, mas estou um pouco cansada de algumas discussões que me parecem supérfluas, em detrimento de outras que precisam realmente de aprofundamento, de luta para acabar com o preconceito. Por exemplo, longas discussões sobre o correto ou politicamente correto, entre se referir a alguém como "negro" ou "preto", porque é raça ou porque é cor. Na literatura, na música, no teatro, se encontram as duas formas, referindo-se a pessoas ou não. Por exemplo, cabelos negros não pode ser dito porque negro é raça e não cor. Convenhamos que dizer "cabelos pretos", nem sempre tem a mesma intensidade do que dizer "cabelos negros, olhos negros etc". Acho que ninguém está pensando em preconceito quando usa estes vocábulos. Está pensando apenas em dar força a uma expressão.
Enquanto isso, os negros continuam sendo discriminados não só nas empresas de publicidade, mas em todo lugar. Os próprios militantes não chegam a um consenso. Vide o exemplo da reserva de vagas nas universidades.
Como professora que sou, de escolas públicas, sempre desejei ver meus alunos, de qualquer cor, raça ou religião, frequentando uma faculdade, para terem um destino profissional igual a qualquer cidadão brasileiro. Deveria ser a favor da cota para negros. Não sei se sou. Já pensei muito nisso e ao mesmo tempo em que digo sim, me pergunto se esta não é mais uma forma de discriminação. Mas se não for assim, por quanto tempo ficaremos lutando por uma educação de qualidade para todos, para que todos possam aspirar uma vaga nas melhores universidades? Só que, enquanto isso, os anos irão passando, como já vem acontecendo, e os pobres e negros continuarão sem possibilidades.
Seu texto é muito claro e oportuno. Sua luta particular é no setor da publicidade, mas apontando o dedo em riste para o preconceituoso disfarçado. Parabéns e um abração. Ivette

Ivette G.M. · Cotia, SP 1/11/2008 11:35
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