Amazônia - da praia para o seringal

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Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC
26/10/2006 · 224 · 23
 

“Altivos e nobres cidadãos... se a pátria não nos quer, façamos outra.” Fala mais que decorada pelos seringalistas que ouviam, repetidamente, o discurso de Luis Galvez (José Wilker) ao proclamar a República Independente do Acre, na cidade cenográfica de Porto Acre, que era a Puerto Alonso boliviana lá pelos idos de 1899. O sol escaldante imobilizava dezenas de figurantes que lançavam um olhar obediente, quase fascinado ao orador. “Estou com três saias, quatro blusas, meia, chapéu e aquela escada tem 65 degraus...,” disse Joadila Sales, que nesse dia era uma seringalista casada com um dos coronéis da época, “...mas essa cena é muito linda!”

Para entender a cena

O Acre, região rica em látex e ocupada por seringueiros brasileiros, especialmente nordestinos, pertencia oficialmente à Bolívia até 1899, ano em que entra na história o jornalista espanhol Luis Galvez, que denuncia nos jornais paraenses uma aliança entre Bolívia e Estados Unidos. Os EUA apoiariam militarmente os bolivianos em caso de guerra contra o Brasil. Enquanto o governo brasileiro continuava reconhecendo os direitos da Bolívia sobre a região, revolucionários decidem pela fundação do Estado Independente do Acre, com capital na cidade de Porto Acre, antes chamado Puerto Alonso. Luis Galvez, não poderia ser diferente, foi aclamado presidente do novo país. Os 65 degraus fazem parte da escada construída em madeira para o acesso dos atores e figurantes ao mirante, às margens do Rio acre, local do discurso de Galvez.

A minissérie "Amazônia - de Galvez a Chico Mendes" mudou a rotina de muitos moradores de Rio Branco, desde agosto, quando a equipe que seleciona figurantes chegou. Cerca de 600 pessoas foram escolhidas. Estudantes, educadores, crianças, músicos, artistas locais, donas de casa, enfim, membros comuns e muito bem-humorados da sociedade acreana dispostos a fazer parte de um pedaço de cena ou apenas ver como é feita. “Fiz a inscrição na Usina de Artes, no primeiro dia de seleção. Semanas depois recebi um telefonema chamando para participar das gravações. Acordei às cinco da manhã e peguei o ônibus dos figurantes na Praça Plácido de Castro. Entramos num ramal do km 48 da estrada de Porto Acre, eu estava ansiosa e quando via as tendas brancas do set e o palácio do Galvez, pensei, puxa, vou participar disso!” , conta Karolina Araújo, estudante de Ciências Sociais, com quem conversei nesses dias. A primeira participação de Karolina foi na Companhia de Dança Zarzuella, cuja estrela é Maria Alonso (Cristiane Torloni). Ela e mais quatro amigas vestiram-se de dançarinas espanholas, ensaiaram a música e no momento da gravação apenas seguiram a instrução de um dos diretores “vai no ritmo da música e sente...” O resultado foi a cena de uma belíssima e sensual apresentação de Maria Alonso, com cinco meninas de Rio Branco, lá no fundo, sentindo a música e indo no ritmo dela. Então veio a idéia: Tudo bem, pensei, posso não parecer uma dançarina espanhola, mas fico bem como seringueira. Fiz uns contatos e fui à luta...

No vilarejo de Quixadá, a uns 20 km do centro de Rio Branco, atores anônimos recebem as roupas para compor seus personagens seringueiros. Sol forte, bandejas com melancia passavam a toda hora. Devidamente vestidos e com suas ferramentas, era hora de caminhar pelo seringal, fingir sangrar a árvore, mostrar o cansaço dos anos no semblante. Isso é representar! Incrível como cenário e figurino podem mesmo transportar-nos para a história, algo era real. Pensava nos cortes de seringueira – descobri seus nomes pouco tempo atrás, quando estive no vernissage de um artista local – federal, pestana, espinha de peixe, comum e dente de cachorro. Qual seria o menos danoso para a árvore? Não lembro... Achei curioso o fato de preocupar-me, naquele momento, com preservação. Acho que esta acrioca está criando raízes. Minha mente foi para um passeio que fiz em junho deste ano no Rio de Janeiro: “Leblon ou Jardim Botânico?”, um amigo perguntou. A escolha foi fácil: “Jardim Botânico!” Escolher um jardim ao invés do mar depois de três anos sem vê-lo é inusitado, quase esquisito. A explicação para isso veio naquele momento, ali no seringal. O verde da Amazônia é diferente do verde do litoral, o céu daqui parece estar perto da nossa cabeça e o horizonte mais próximo. Mesmo na cidade há abundância de árvores e o sol se põe no meio do céu. O Jardim Botânico fazia-me sentir bem perto de casa.

Os figurantes trabalham com seriedade. Instruídos para não tietar, dão sempre um jeitinho de tirar fotos com os atores sem que a produção perceba. Nos intervalos, fazem amizades, criam vínculos. Quando falavam sobre cenas que gravaram, diziam: “Ah, fiz aquela do altivos e nobres cidadãos... -- Mas por que todos dizem a mesma frase?— É que repetiu muito, moça!” De todos os participantes com quem conversei, sem dúvida, o mais interessante foi Cícero Franca. Artista plástico, repentista e ator, com fala rápida e alegre, cantou um repente para Glória Perez e recebeu o papel de Aristide, um soldado da revolução que, por beber muito, leva uma bronca de Plácido de Castro, interpretado por Alexandre Borges. “Eu fui decorando no ônibus, o texto do Aristide era só reclamação. Aí, uma mulher achou que eu falava com ela e começou a brigar comigo.” Risos. “O Plácido não gostou de ver o Aristide beber, então pegou a garrafa e derramou. Eu acompanhei com tristeza a bebida derramando enquanto dizia que ela ajudava a sustentar...”

A guerra sangrenta entre as forças regulares bolivianas e o exército acreano formado por seringueiros mobilizou centenas de figurantes por vários dias. Homens corriam por um terreno acidentado, portando armas cenográficas, sob o comando dos diretores da minissérie. Essa grande batalha resultou na tomada definitiva de Puerto Alonso, mas o objetivo final dos acreanos era obter a anexação do Acre ao Brasil. A história do Acre é bonita e vivê-la, mesmo que por alguns minutos, é emocionante. Sempre que perguntava qual foi o momento marcante desses dias, todos faziam um apanhado deles: a guerra, a dança, o corte da corrente, o almoço com peixe assado na palha de bananeira, ônibus atolado no ramal... A equipe e elenco seguem agora para Manaus, onde irão gravar vários capítulos sobre o ciclo da borracha e devem voltar em janeiro para gravar os capítulos sobre Chico Mendes, o que já vale outro texto. A conclusão que posso tirar dessa experiência fantástica é que apesar de todas as dificuldades, a população acreana permanece fiel às suas origens e tradição de lutas para pertencer ao Brasil. Conhecem o seu lugar e não abrem mão de mostrar a mais bela identidade amazônica.

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Thiago Camelo
 

Muito bacana! Estava há algum tempo curioso para ler um relato sobre essas gravações.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 24/10/2006 20:13
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Fabiana Mesquita
 

Bom que gostou, Thiago! Pena que não consegui colocar a foto do pessoal alegre tentando desatolar o ônibus, era vertical...

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 24/10/2006 22:57
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farofeiro
 

Excelente, heim Fabi! Deu até vontade de acordar às 4:00Hs só pra ir comer melância lá na cidade cenográfica também! É por essas e outras que o Acre não se troca!!!

farofeiro · Belo Horizonte, MG 26/10/2006 13:32
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LineDutra
 

Muito bom! A idéia de mostrar as gravações do ponto de vista dos figurantes é muito interessante, principalmente porque foge da regra de noticiar apenas as atividades dos famosos... Parabéns!!!

LineDutra · Rio Branco, AC 26/10/2006 13:33
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Marise
 

Eu te disse, que você dava pra coisa. É isso minha amiga estou muito feliz pelo seu desempenho. Mais degrauzinho na sua vida. Parabéns.

Marise · Brasília, DF 26/10/2006 16:22
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farofeiro
 

"Melância" foi péssimo!

farofeiro · Belo Horizonte, MG 26/10/2006 16:50
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Fabiana Mesquita
 

É mesmo, Aline. A mobilização dos acreanos foi tão bacana que não dava para deixar de falar. Sem contar que muitos enviaram para a autora fotos e documentos de parentes que viveram a época da revolução: http://www.globo.com/blogdaautora
Farofeiro, a melancia, outras frutas e muita água ajudava a sustentar o povo no sol forte, que mesmo no inverno amazônico é difícil de aguentar. Marise, surpresa boa!

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 26/10/2006 21:09
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Marcos Valério de Azevedo Maia
 

Entre os brasileiros que moram abaixo de Brasília, a Amazônia não tinha direito nem a estereótipos, tal era - e ainda é - a ignorância do Brasil quanto a região Norte. Mas parece que de um tempo para cá a Amazônia está aparecendo mais no mapa cultural Brasileiro. Um exemplo é a divulgação que Hermano Vianna e este Overmundo vêm fazendo das festas das grandes aparelhagens que ha décadas acontecem em Belém - capital do Pará, aquele estado representado pela estrela isolada acima da faixa de Ordem e Progresso da bandeira brasileira.
Fabiana, deve ter sido muito interessante participar destas locações, viver os dias agitados e divertidos das filmagens, sempre excitantes a todos os povos. Também é legal saber que "a população acreana permanece fiel às suas origens e tradição de lutas para pertencer ao Brasil." Mas... engraçado que depois de mais de um século "a luta continua!" Por que será, hem?
Um abraço e prazer!

Marcos Valério de Azevedo Maia · Belo Horizonte, MG 27/10/2006 01:23
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Fabiana Mesquita
 

Ficava chocada com o espaço relativamente pequeno que a imprensa nacional dava ao extremo norte do país, sendo uma região tão rica em notícias. Quando mudei do Rio de Janeiro para o Acre, há quatro anos, sabia apenas o que tinha coletado pela Web: programa de manejo florestal, nº de habitantes e cursos oferecidos pelas Universidades locais. Conheci a história do estado porque é exigida no vestibular daqui, o "movimento autonomista" nunca passou pelo meu caderno no colegial.
Inserir a Amazônia no mapa cultural brasileiro é um desafio, mas posso dizer que o espaço no Overmundo tem sido muito bem aproveitado.
Abraço, Marcos!

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 27/10/2006 12:43
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Geisy Negreiros
 

Oiii Fabi, adorei seu texto, gostei muito mesmo, só tenho a agradecer por ler um texto com tamanha qualidade e conteúdo! Mais uma vez arrasou! Soube passar aos leitores de forma clara e objtiva um pouco da história da Revolução Acreana na visão dos figurantes, muito bacana! Parabéns! :***

Geisy Negreiros · Rio Branco, AC 27/10/2006 19:49
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Geisy Negreiros
 

Oiii Fabi, adorei seu texto, gostei muito mesmo, só tenho a agradecer por ler um texto com tamanha qualidade e conteúdo! Mais uma vez arrasou! Soube passar aos leitores de forma clara e objtiva um pouco da história da Revolução Acreana na visão dos figurantes, muito bacana! Parabéns! :***

Geisy Negreiros · Rio Branco, AC 27/10/2006 20:15
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eric renan ramalho
 

o que gosto nessas miniseries e que elas trazem à tona parte da historia, que nas escolas não mos permite conhecer. alem delas possibilitarem que muitos brasileiros sem instruçao possa conhecer atraves deles a constituiçao de seu povo , que a nossa politica educacional, os excluiiu e não permitiu que eles conhecem! os idealizadores do projeto estao de parabens pela iniciativa e vc por reportar sua experiencia!

eric renan ramalho · Belo Horizonte, MG 28/10/2006 13:55
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Guilherme Mattoso
 

E viva o Overmundo que nos dá chance de ler coisas tão legais (antes remotas para nós aqui dos mares do sudeste) como o texto. Bacana a idéia da minissérie, afinal, é até sacanagem deixar uma história tão rica quanto esta, do estado do Acre, fora de órbita.

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 28/10/2006 17:33
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apple
 

Achava que o Acre "sempre" esteve ligado ao Brasil... Foi ótimo ler essa matéria para ficar melhor informada.

Achei curioso porque os Estados costumam disputar os territórios. No caso, o Brasil aceitava tranqüilamente a ligação do Acre com a Bolívia. O movimento de anexação do Acre ao Brasil partiu do próprio Acre...

apple · Juiz de Fora, MG 29/10/2006 07:59
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Tatibitati
 

Estou orgulhosa de vc amiga. Parabéns!

Tatibitati · Vitória, ES 30/10/2006 14:07
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eric renan ramalho
 

Sobre o processode anexação do Acre ao Brasil, foi como tudo por aqui, deixa do jeito que tah, quem chegar pŕ;imeiro e dono.

eric renan ramalho · Belo Horizonte, MG 30/10/2006 17:22
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Fabiana Mesquita
 

È, Vetruviano, só que "do jeito que tá" não deu certo por muito tempo por aqui. Um território ocupado por brasileiros, pertencendo à Bolívia e correndo o risco de ser dominado por americanos... deu no que deu. Sorte a nossa! Mattoso, concordo com você, viva o Overmundo e vamos aproveitar qualquer espaço. Cris, por ter sido diferente no Acre, devia ser falado nas escolas, não acha?

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 30/10/2006 18:53
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Simplesmente Milena
 

Fabiana esse texto é seu ?

Simplesmente Milena · Rio Branco, AC 5/11/2006 17:16
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Fabiana Mesquita
 

É meu, sim, Milena.

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 5/11/2006 21:21
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apple
 

fabiana,

Ainda bem que é mesmo porque não pode ficar publicando textos dos outros sem citação dos créditos. De qualquer forma, você poderia ter esquecido, entâo aproveitaria a oportunidade para citar...

A Milena deve ter perguntado porque ficou impressionada, admirada, encantada com seu texto. Pelo menos, eu fiquei.

apple · Juiz de Fora, MG 5/11/2006 22:14
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Fabiana Mesquita
 

Agradeço os elogios, Criss! Conheço as normas sobre citação dos créditos, mas o texto é um relato da experiência que tive durante as gravações da minissérie e a história do Acre, um resumo do que estudei e ouvi aqui.
Abraço!

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 6/11/2006 00:18
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Paty33
 

Parabéns pelo texto Fabiana! Acompanho seu trabalho já há algum tempo e é íncrivel sua capacidade de imprimir simpatia nas informações jornalísticas precisas que seus textos carregam...vc é muito talentosa.Estou aguardando ansiosamente suas novas impressões sobre outros fatos da vida, créditos totalmente seus -claro- com a modéstia que lhe é peculiar, e que a fará vítima de grosserias por muito tempo...como dizia Paulo Francis: "nada incomoda mais aos medíocres do que o talento". Patrícia Doimo

Paty33 · Rio Branco, AC 6/11/2006 13:00
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Talitta Cordeiro
 

oi Fabiana, achei otimo o texto. E logo falando do Acre, por quem sou apaixonada.
parabéns, beijos!

Talitta Cordeiro · Rio Branco, AC 14/4/2007 00:20
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