Perdida numa manhã de muito calor – os dias aqui são realmente ensolarados, o que, de modo geral e paradoxalmente, nos dá um bom motivo para crermos na “salvação da lavoura” –, a cena pode ter passado despercebida. Era o último final de semana do mês de julho – mais precisamente, dia 28, sábado. A marola esportiva, acalentada pelo Pan-2007, embalava a nação, apanhada de surpresa na confecção desse patriotismo estrambótico, encerrado em ginásios, quadras de tênis e arenas, muito distante de qualquer demonstração mais convincente de consciência cívica e bem próxima de uma arraigada falta de educação ou, admitamos, espírito olímpico, seja lá o que isso queira dizer.
Na esteira dos jogos do Rio, o similar indígena. Naquele sábado estávamos todos em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, e assistíamos ao segundo dia dos Jogos Indígenas do Estado do Ceará, um evento anual, ainda bastante recente e que dura de quatro a cinco dias, reunindo cerca de dez etnias em torno de algumas modalidades esportivas. Algumas mais tradicionais, outras menos. Ao primeiro grupo pertencem a pesca com tarrafa, cabo-de-força e corrida com tora... Futebol, triatlon e natação – modalidades olímpicas, sem trocadilhos, aqui e na China – também fazem a cabeça dos nossos peles-vermelhas.
Por trás deste texto escrito às pressas, um tanto pobre de informações e extremamente pessoal e por isso mesmo intransferível, a tal cena que, agora mais que antes, acredito ter passado em branco. Sim, deve ter passado, todos muito ocupados saudando os vitoriosos, sacolejando-se ao som de forró espocado pelas caixas de som de um carro estacionado próximo ou simplesmente sentados ou de pé vendo à distância tudo aquilo. A cena, porém, é de uma simplicidade estarrecedora, de um feijão com arroz sem tempero, de um bocejo sem graça e de uma pobreza inigualável. É uma coisa bastante comum, uma mulher e nada mais que isso. Quero dizer, uma índia tapeba. Tem vinte anos e um filho de um ano ou pouco mais que isso. O nome dele é Luís Carlos. Acho que já falei o suficiente. Leiam!
A cena
Curió nada, nada. Em seguida pedala, pedala. Depois: corre, corre. Descalça, dispara na rua cujo calçamento cobre-se de pedras salientes, os pés velozes flutuando, asinhas nas laterais. Dá uma volta completa no açude, corta as ruas, não olha para trás, apenas corre e corre e corre. As demais, índias e descalças como ela, no encalço.
Antes, sem touca, braçadas firmes, pernadas ainda mais, mira a bóia branca um pouco adiante, faz o retorno ainda na frente. São três voltas. Ou duas. Ou tão-somente uma, já nem lembro. Ali não há técnica alguma, apenas a força dos braços e pernas, e as de Curió eram tão fininhas, quase como as de uma criança, uma menina cuja vida era diariamente curtida debaixo desse mesmo sol.
Às margens do açude, uma confusão de cores. O pardo dos índios confundia-se com o queimado dos moradores da litorânea Aquiraz. Tudo salpicado, aqui e ali, de branco e preto, mais este que aquele. Havia aproximadamente mil pessoas. Ou menos, não se sabe ao certo. Das portas e janelas de suas casas, muitos moradores viam tudo com um entusiasmo pouco mensurável. Alguns caras-pálidas, sentados nas calçadas ou encostados nos postes, pareciam divertir-se. Havia cerveja e muita gente circulando. Havia, inclusive, um carro da imprensa. Finalmente os índios seriam notícia.
Nas águas verde-escuras do açude, uma das atletas estaca, parece afogar-se, movimenta os braços freneticamente até ser socorrida por salva-vidas. Curió prossegue, faltam alguns metros apenas, não esmorece. Sai da água sob aplausos, toma a bicicleta, empoleira-se e forceja os pedais, que imprimem uma boa velocidade à bike no começo da corrida. Ela ganha distância, alguma vantagem para a parte final da prova...
A corrida propriamente dita, sem tênis ou água mineral ou energéticos ou chinelo ou protetor solar. Apenas a planta do pé contra os pedregulhos da rua mal calçamentada. Carne e pedras. Ela palmilha a distância, chega na frente. Vence a prova, reticente.
O corpo suado, os braços moles, as pernas claudicantes. Em torno dela forma-se um círculo de curiosos, amigos ou não. Alguém registra tudo com uma câmera digital. Curió estica-se um pouco, tenta recuperar o fôlego. Uma menina aproxima-se. Traz uma criança nos braços, Luís Carlos. A cria tem pouco mais de um ano e nenhuma roupa sobre o corpo. Curió alegra-se ao ver o filho, que ensaia algo como um choro de fome. Ela se ergue, dá alguns passos.
O fim da cena
No meio da rua, sob sol forte e aturdida com a algazarra dos competidores de outras categorias, afasta, devagar, a alça da blusa. Ninguém repara, estão todos preocupados com o final da prova masculina. O peito é agarrado por Luís. Ela curva um pouco o próprio corpo, quer facilitar a sucção do leite.
O menino agarra o peito que, para espanto geral de ninguém, era farto. Larga-o em seguida, vai brincar no chão enquanto a mãe aguarda o início da pesca com tarrafa. Brinca com pedras, que fazem as vezes de carrinhos.
Eis a cena: uma mãe amamentando o seu filho.
“Nunca treino antes das provas. Só corro mesmo na hora, começo e não paro mais”, confessou, minutos depois, Curió Texeira, índia tapeba.
Dali a pouco a prova masculina de natação. Ninguém arredava pé da beira do açude. Muitos aproveitaram para tomar uma cachaça, embalar-se num samba, assistir a tudo com lentes embaçadas, fora de foco. Índios e não-índios.
Em tempo: Eduardo e as vacas magras
O mais próximo da cultura indígena a que se tinha acesso eram uns cordões fabricados com sementes oriundas das tribos e vendidos por meninos como Eduardo, de sete anos. Ele vive ali mesmo, em Aquiraz, e pertence à etnia Jenipapo-Kanindé, a anfitriã da quarta edição dos Jogos Indígenas do Estado do Ceará. Estava acompanhado do avô, cuja idade não sabia informar. Naquela manhã, segundo o indiozinho, as vendas estavam bem ruins. Mesmo baixando o preço dos colares, não conseguira vender nada, e voltaria para casa de mãos abanando.
Henrique,
E tinha mesmo um veículo de imprensa?
Eu juro que se tu afirmas eu acredito, mas que é de se duvidar que imprensa se interesse por coisa do povo, por jogos de índios, essa gente simples, linda, maravilhosa e despojada que descreves aí, pobres como nós, os mais pobres de todos nós, sem as terras que lhes tiramos os nossos ancestrais e atuais barões.
Ah, é de se duvidar.
Mas creio em ti.
Que bonito o teu olhar e que muito bom ler o teu texto, guri.
Agradecida por me permitires ver tudo o que vistes e sentir o que sentistes.
Beijin di curumin
Henrique, gostei muito do teu texto. A cena de amamentação descrita é emocionante mesmo. Ser mãe deve dar força.
Abraço,
Felipe
Juli,
pois é: tinha, sim, carro da imprensa. mas isso não quer dizer muita coisa, sabe... ao menos não diz nada sobre aquilo que a gente tem em mente. eles estavam lá porque havia os jogos, porque a prefeitura da cidade ajuda na organização, porque havia um fato inescapável, havia um lead, havia algo a ser relatado. o que é foda mesmo é saber que tem gente por aqui, no ceará (me refiro aos advogados de grandes empresas que visam as terras indígenas), para quem índio é mais ou menos como um chupa-cabras: coisa criada pela cabeça dos crentes.
No mais, abraços.
E a você também, Filipe. outra coisa: concordo contigo, sim. ser mãe deve ser barra. mãe nordestina mais ainda. mãe, nordestina e índia... nem vou falar.
Parabéns, Henrique, por essa divulgação que mostra o valor por trás das pessoas simples e da nossa cultura .
Abraços de Betha.
Henrique, o que falas também é real, sobre a barra de ser mãe. Mas quis dizer que deve dar força no sentido de fortalecer mesmo. Tanto que ela foi campeã.
(visita os links que coloquei, são interessantes - e tem mais um).
Abraço,
Felipe
Sim, vou dar uma conferida nos links, Filipe. É que o tempo anda tão temperamental...
Valeu!
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