'And Kim's got her watermelon gun...

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Cury · Salvador, BA
21/8/2007 · 75 · 4
 

...cause it’s the consciousness of love" ¹

Em meados de 2002, eu tive uma pequena agência de propaganda. Chamava-se Ditys. Era eu e mais três. Éramos estagiários de uma então grande agência de Salvador e, num ímpeto punk, sonhador e saltimbanco, decidimos que iríamos fazer a nossa própria agência. Ditys é uma tentativa de abreviação para “do it your self”, e um dos sócios era um cara chamado Faustão. A gente tinha a mania de fazer piadas com tudo, sobre os mais diversos temas. Podiam ser assuntos idiotas ou sérios. Era só piada o dia inteiro. E dessas piadas saíam os anúncios. Ou quase saiam, pois a esmagadora maioria era reprovada pelos clientes. A agência fechou em dois anos. Pior que o mercado baiano de publicidade, só os clientes desse mercado.
E uma dessas “piadas” que costumávamos fazer em conversas banais era trocar o P e o B de Pepeu Gomes e Baby Consuelo, chamando o guitarrista de Bebeu Gomes e ela de Papy Consuelo.
Tarde silenciosa, cada um em seu computador, e do nada, um dizia:
– E a Papy e o Bebeu?
E esse ato simples, gerava gargalhadas intermináveis e conversas pueris:
– Me amarro na guitarra do Bebeu- dizia eu.
– É, o Bebeu é massa, mas a Papy também é boa – dizia ele.
– Tô ligado, a Papy foi importante ali, mas o Bebeu..
– É, o Bebeu é o Bebeu... O Bebeu é demais – finalizava ele.
E a gente ria pra caralho com essa merda.

Para me preparar pro carnaval 2007, um dia antes do início das festas, eu fui numa certa loja.
– Onde tem? (fiz o gesto de “apertar o gatilho”).
– Revolveres? – perguntou o atendente. Giovane.
– É.
– Venha comigo.
Fomos andando e ele me levou até uma sessão onde tinham três tipos de armas.
– Essa aqui é a melhor – disse ele, pegando a maior de todas – o material dela é mais resistente, atira com precisão e é muito fácil de carregar.
– Hmmm – disse eu coçando o queixo.
– E essa aqui? – apontei pra uma que estava na prateleira de baixo, que era bem parecida, porém, mais barata.
– Essa é boa também, mas o material é de qualidade inferior e ainda é mais pesada. Pode ver o senhor mesmo – disse Giovane.
A terceira arma era do mesmo modelo. Só que menor. E a metade do preço. Eu não precisaria de mais do que aquilo. Ela me pareceu suficiente.
Cheguei em casa e quando abri pra testar... PUTAQUEPARIU. Era uma merda. O tiro não era potente e pra carregar tinha que ter sempre um balde por perto, pois ela não era como as outras mais simples, que enchemos de água pelo fundo. Voltei na Le Biscuit na hora.
– Boa tarde, quero trocar a minha arma por outra.- disse eu pra uma atendente da seção “Trocas”.
– Trouxe a nota fiscal? – disse ela, mastigando chicletes.
– Não, eu tô sem a nota/
– Ô meu lindo, sem nota fiscal a gente não troca – falou ela, com um olhar de pena misturado com satisfação.
PQP.
Quando você sai da Le Biscuit, tem mais de 20 urnas, de entidades filantrópicas, para depósitos de notas fiscais.
Argumentei isso pra ela.
¬– Você lembra que dia foi a compra? – já impaciente.
E com os dados do cartão conseguimos uma segunda via da nota.
– Qual é o brinquedo?
– Esse aqui – disse eu puxando o meu revolver do Batman.
– Ô meu lindo,você já abriu?! Tso tso tso tso – disse ela, enquanto balançava a cabeça negativamente e parecia ter um orgasmo – não podemos trocar naaada com a embalagem violada.
Foi no nervo. Achei melhor não discutir, até porque eu tinha uma carta na manga que me faria gozar depois dela.
– Tudo bem. Então eu só vou trocar esse daqui – e puxei do saco o outro revolver do Batman, devidamente embalado. Eu tinha comprado dois.
Foi lindo. Ela pegou o revolver, respirou fundo, conferiu a embalagem e disse resignada que eu podia ir escolher outro produto qualquer. Voltei pra seção de armas e só achei as mesmas. A do Super-Homem, que era igual a do Batman, só que maior (sem viadagem) e a outra de qualidade inferior, segundo o cara que me atendeu da primeira vez.
Perguntei a um funcionário que passava se tinha mais armas e ele apontou o caminho. Eram revolveres mais simples. Porém, bem mais baratos e ideais para o evento. Leves, fáceis de guardar, recarregar... fiquei escolhendo alguns junto com um casal de aproximadamente 50 anos.
O senhor de barriga protuberante, chinelo, bermuda e camisa de botão só com o de baixo fechado, pegava um revolver, analisava minuciosamente e fazia mira fechando um olho, atirando e fazendo a onomatopéia “tuf tuf tuf ”.
– Tem que pegar um bom, viu, Zé Raimundo? Pra não ficar fazendo feio – disse sua mulher, que o ajudava a escolher. – Esse aqui é mais bonito – recomendava ela.
Eu, sem querer outra decepção, perguntei ao funcionário se tinha como testar.
– Tem sim – disse ele pedindo pra que o seguisse.
– Tem como testar?! – disse Zé Raimundo, empolgado, pegando uns 4 modelos e já seguindo a gente.
Fomos andando pelas gôndolas e eu fui imaginando onde seria o lugar de testar armas que atiram água da Le Biscuit. Imaginei o que seu Zé Raimundo estaria imaginando.
Paramos na porta do almoxarifado. Ali tinha um bebedouro.
Ele encheu um revolver e atirou. Tava beleza. Jato forte, preciso, veloz. Boa arma.
Seu Raimundo pediu pra atirar.
Ele pegou a arma carregada, fechou um olho, fez mira numas bonecas que estavam a venda nas prateleiras e atirou.
Deu umas 8 jatadas. Encharcou o chão e a várias bonecas.
– Vou levar esse.
Tive que perguntar:
– Vai pra Olinda no carnaval?
Ele fez cara de quem não entendeu a pergunta e respondeu:
– Não, não... É pro meu neto. Me pediu uma.
– Ah tá.
– E você, é pro seu filho? – perguntou seu Zé Raimundo.
– Não. É pra mim.
– Pra você?! – os olhos de seu Zé Raimundo brilharam.
Expliquei para ele sobre o carnaval de Olinda, onde o calor da cidade e as metralhaguas, principalmente por estarem em mãos de crianças, formam uma dupla fantástica. A única regra é que só pode atirar em quem estiver armado. Pra quem está solteiro também é uma boa arma de sedução.
Fui embora da Le Biscuit com a promessa que seu Zé Raimundo iria passar o carnaval de 2008 em Olinda.
Com o valor da do Batman dava pra comprar 5 da mais simples. Paguei a diferença e levei mais 3.

Como em 2006, eu fui passar o carnaval 2007 em Recife. E como em 2006, eu fui na “sexta feira de carnaval”. Mesmo horário. 21:30.
O pensamento “será que Caê vai de novo?” passou pela minha cabeça enquanto eu fazia o check-in. Fui na livraria só pra consciência não pesar e ele não estava. Mas o Bebeu estava.
Tive que ir em sua direção com Cris me beliscando e cochichando “você não vai fazer isso... vou sair daqui’. Ela saiu. E eu fui. Tinha que trocar uma idéia com o Bebeu. Eu vi um show dele em 1989, com 11 anos, num reveion, que me deixou hipnotizado. Fiquei na frente do palco, imóvel. Anos mais tarde, descobri os Novos Baianos e sou viciado até hoje. Tinha que trocar meia dúzias de palavras. Ele estava olhando umas revistas especializadas em som para estúdios de gravação.
Falei de uma maneira pra que ele não percebesse. Com na vez que fui assistir Bahia X Avaí e tive que ficar na torcida do Bahia por causa dos meus amigos e então, pra torcer pro Avaí, eu tinha gritar “Bora Avaêa”
– E ai Bebeu, beleza?
– Opa. E ai? – apertamos a mão. Ele não percebeu o Bebeu.
– Vai passar o carnaval fora de Salvador?
– Sim e não... Tô indo pra Recife, fui convidado esse ano pra tocar no Galo da Madrugada.
– Sei....
– Mas volto no domingo e toco aqui em Salvador com Armandinho.
Falamos sobre Armandinho, guitarras e blá, blá, blá e eu disse:
– Coincidência Bebeu (mais uma vez ele não percebeu) ano passado encontrei com Caetano aqui mesmo. Ele estava indo também pela primeira vez pro carnaval de Recife.
– Eu sei. Ele me falou.
– Que se encontrou comigo?
– Não...que foi ano passado.../
– Ah..
Ele riu.
Na hora de nos despedimos, eu falei do show que assisti com 11 anos, no Iate Clube.
– Pô, bixo, você lembra daquilo? – ele fez cara de que estava buscando algo da memória e continuou: – Eu me lembro bem daquele show... armaram o palco no mar... foi bem legal... me lembro bem daquele show – disse ele, bastante empolgado.
– Eu também me lembro bem – respondi.

Passei pelas máquinas de raio x preocupado. Imaginei os 9 revolveres sendo mostrados na tela e o policial dizendo pra eu abrir a mochila e tirar as armas.

No avião, enquanto lia a edição 4 da Revista Piauí, vi uma matéria falando sobre um produto que revolucionou o mercado de papel para fumos. A Leda. Um papel transparente, que parece plástico, mas não é. É celulose pura, daí a transparência. No fim da matéria, a coincidência surpreendente com o jornalista falando de Pepeu Gomes.
Na saída do avião mostrei pra ele a citação na revista.
Expliquei rapidamente sobre a matéria, ele apertou um pouco a vista e eu então comecei a ler pra ele.
-... Aí o jornalista escreveu: “E como diz o sábio Pepeu Gomes, ‘você pode fumar baseado.../
Ele me interrompeu, completando a frase, prevendo o que estava escrito:
-... Baseado em que você pode fumar quase tudo – disse ele, rindo. Assim como eu e o casal de desconhecidos que ouviam a nossa conversa.
Não resisti, e na despedida tive que chamá-lo de Bebeu de novo. Gargalhava por dentro, pensando em meu ex- sócio ali comigo. Grande amigo até hoje.

A casa estava cheia. Nos hospedamos na casa da irmã de Cris com mais 4 casais de amigos.
Eram 10 pessoas no total. Só tinham 9 armas. Faltavam duas. Ninguém queria a do Batman.

Em Olinda, se entende o porquê da expressão “brincar carnaval”. Boa parte dos foliões, de todas as idades, vão fantasiados.
As crianças, nas portas das casas, na espreita, tensos... aí eu chegava por trás e descarregava a minha Waterfun. E saia correndo, pois muitos deles têm megas bazucas. Tinha um que tinha aquela mochila de bombeiro, com um sistema de bombeamento profissional. Se duvidar, melhor do que os usados pelos voluntários da brigada de incêndio do Vale do Capão.
O sol derretendo a moleira, o clássico frevo Vassourinhas “pann nan nan nan nan nan” tocando pela nonagésima quarta vez, enquanto a guerra entre os foliões era interminável. Não vi nenhuma briga. Acredito que tenha havido ali confusões violentas, apesar de eu não ter visto mesmo. Talvez os anos no carnaval alucinado de Salvador me vacinaram pra que tudo pareça mais tranqüilo.

Os solteiros atiram uns nos outros. Se o outro contra-atacar, é só partir pro abraço. E pro beijo.
Numa praça onde milhares de pessoas transitavam ao som dos mais diversos conjuntos musicais que passavam pelas ruas (todos tocando o secular frevo “Pan nan nan nan nan nan nan”), por um momento, a divisão masculina se afastou um pouco das 5 soldados. Tinham alguns inimigos com suas MaxWaterPower XR3 nessa área e fomos fazer a ronda. Numa pesquisa posterior, descobri que todos do nosso batalhão tiveram Comando em Ação na infância. Imaginei qual terá sido a brincadeira de seu Zé Raimundo.

Enquanto fazíamos a ronda, afastados de nossas mulheres, um cara armado, ao ver uma das supostas solteiras, atirou nela. Ainda um pouco desacostumada com o carnaval, ela atirou de volta. Depois ela explicou pra gente que atirou nele pensando “O que é seu otário, sou casada, se saia”.
Como o cara não lê pensamentos, e minha amiga é bastante bonita, ele deve ter pensado “Porra, me armei”, agradeceu a todos os anjos por aquela sorte e foi na direção dela. Feliz da vida.
Ela como não lê pensamentos, ficou mais indignada com a aproximação. Começou a atirar sem parar e pensando (depois ela contou) “que otário, se saia meu filho... oxe”.
A cena era ela atirando pra ele ir embora, como se a arma fosse uma ameaça, e ele sem acreditar na sorte e indo em sua direção cada vez mais empolgado. Se deliciando com a água.
Tivemos que entrar em ação.
Enchemos ele de água. Ele entendeu tudo após o primeiro fuzilamento e saiu correndo.

No meio da folia, um cara fantasiado de palhaço veio me molhar. Me acertou três jatos na cara. Sem viadagem, caro leitor.
– Colé mermão...Você é palhaço, é? – disse eu, atirando e gritando – "galera, aqui".
Foi fabuloso. Imaginei seu Zé Raimundo ali. Ensopamos o palhaço. Que foi embora rindo. Como todo mundo.
_________________
(1) Watermelon Gun, música da banda Flaming Lips. Disco: Cloud Taste Metallic, 1995, WEA.

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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Parabéns Buly:
Meu amigo temos aqui um belo e raro exemplo de "non sense" extremamente criativo e bem humorado. Que eu me recorde nunca li tanta baboseira com tamanho interesse até o gran finale, e me deliciei com a imagem do Buly e do Zé Raimundo ensopando o palhaço. E o palhaço quem é.........?
joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 19/8/2007 16:17
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Querido Buly
Votado!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 20/8/2007 18:25
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Bernardo Carvalho
 

cury, tu é o cara!

Bernardo Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 21/8/2007 16:52
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Esso A.
 

impagável.
bebi tudo.

www.sitiodoesso.com

Esso A. · Natal, RN 22/8/2007 11:36
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