André Mehmari, o menino do dedo verde

Gal Oppido
Mehmari é um Tistu às avessas: no lugar de flores, tudo que ele toca vira música
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Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ
17/10/2008 · 101 · 6
 

* Escrita a quatro mãos com Helena Aragão *

Instrumento ali não fica em cativeiro. Case é como roupa para os humanos: vestimenta para sair de casa em ocasiões especiais. Pela sala tem clarinete, bateria, rabeca, violão, guitarra. Tem até um cravo, porque gosta-se muito do estilo barroco. No centro (não por questão de ângulo, mas de relevância), o piano, absoluto. E passando por tudo isso sem derrubar uma palheta, Miguilim. Porque gato é um bicho muito sensível. “Os instrumentos ficam espalhados. A pessoa quer sentar no sofá e não pode: tem um cavaquinho ali”, ilustra, com um sorriso desenhado na boca, o multiinstrumentista André Mehmari, um peso-pesado no quesito música brasileira contemporânea.

É neste ambiente lúdico que o músico passa boa parte de seus dias. Mora na "paisagem cinza de São Paulo", como diz, mas numa área pra lá de privilegiada: a Serra da Cantareira. Prepara o fraseado para orquestras de dezenas de integrantes, mas o faz sozinho na sala. Quer dizer, na companhia de Miguilim, cravo, piano, rabeca... e mais microfones, mesas de som, computadores e o que mais for necessário para cumprir todas as etapas de se fazer música: compor, escrever, gravar, masterizar. “Sou meu próprio engenheiro de som. Leio, pesquiso, compro equipamento. E a minha música é inseparável do som que desenho na minha cabeça”. Foi assim que nasceram os itens de um currículo de gerar beiços de boa impressão. Aos 31 anos, acumula a experiência de um Prêmio Visa, arranjos para grandes orquestras como a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), aulas com o maestro pernambucano Moacir Santos (1926-2006), álbuns em companhia de gente com o gabarito das cantoras Mônica Salmaso e Ná Ozzetti e do bandolinista Hamilton de Holanda, shows no país e no exterior com Ivan Lins, Joyce e Dori Caymmi... Sem contar os vários discos solo, como 'Canto' (Núcleo Contemporâneo, 2002) e 'Lachrimae' (CAVI Records, 2004).

Engana-se quem pensa que tanta experiência foi fruto de uma formação quadradona. Os contatos iniciais de André com a música foram a partir dos vinis do pai, do piano da mãe – aliás, ela estava tocando quando a bolsa estourou para ele nascer – e das aulas de orgão eletrônico (“era moda, como o acordeon no tempo da minha mãe”) num curso particular de Ribeirão Preto, cidade onde cresceu depois de nascer em Niterói, no Rio de Janeiro. Foi quando aprendeu o repertório de baile. Não só no sentido figurado. Aos 11 anos tocava boleros e foxtrotes aos montes para o pessoal dançar. Com a chegada da pré-adolescência veio o até previsível momento de ruptura, de revolta. Também em forma de música. "Larguei aquele repertório e me interessei pelo jazz. Imitava os grandes improvisadores, como Chick Corea, e, literalmente, tocava junto com os discos. Ouvi muito um álbum em especial, da Ella Fitzgerald cantando Duke Ellington. Fui desenvolvendo meu estilo, o fato de botar a música deles embaixo do dedo me ajudou a criar a minha", revela.

A esta altura, André estava com 13 anos e já era uma espécie de menino prodígio das redondezas. Freqüentava os círculos musicais da cidade e se entrosava com uma turma na faixa dos 40 anos. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas começou a sentir que o "solfejo rudimentar" aprendido no curso de órgão não seguraria as pontas por muito tempo e foi “tirar o atraso” numa escola de música local. Estudar piano erudito foi um suplício duplo no começo. "Ser estritamente fiel à partitura era muito penoso para mim. Queria improvisar, o que não é bem-visto na música erudita". Por outro lado, a família queria que ele enquadrasse um canudo qualquer e vivesse a música apenas como hobby. Mas quem disse que ele deu ouvidos à vontade dos pais?

André Mehmari peitou o que queria. Aos 17 anos foi morar em São Paulo e entrou no curso de música da Universidade de São Paulo (USP). Lá, percebeu que poderia conciliar as músicas popular e de concerto. "A faculdade foi importante para refinar o toque. Toquei muito Brahms, meu herói romântico. O rigor germânico do professor Amilcar Zani me ajudou, mas ele não tolhia meu desejo de tocar Brahms e Tom Jobim”. E a família entendeu que o garoto podia ser bom na profissão eleita e viver com conforto. André metia as caras no estudo, mas não economizava energia na hora de fazer trilhas e escrever arranjos numa agência de publicidade. “Foi assim que comecei a me sustentar decentemente em São Paulo – e aquela disciplina de seguir o briefing me serve bastante até hoje. Eu dava conta de várias trilhas simultâneas", lembra. Haja fôlego. Não faz tanto tempo assim, mas naquela época em que não existia MP3 e PDF tão acessíveis, a biblioteca da faculdade foi o oásis de onde pegava emprestado fitas e partituras de orquestrações. Cotejando o que fizeram os mestres como Stravinski e Mahler, foi criando suas próprias idéias. Aliás, método parecido com o que desenvolveu na adolescência com o jazz.

Aos 20 anos, abocanhou o Prêmio Visa, divisor de águas na carreira que promoveu o menino prodígio do interior ao posto de músico profissional de respeito na metrópole paulista. Os desdobramentos foram o primeiro disco – o único cujos fonogramas não pertencem a ele – e um curso em Boston, na prestigiada Berklee School, interrompido na metade. "Acho importante viajar, mas estava velho para isso e tinha uma vida musical intensa no Brasil. Cheguei lá e achei que não fazia sentido. Já tinha meu apartamento, meu piano, meu estúdio e a Osesp já estava tocando arranjos meus... Li 'Grande Sertão: Veredas', do Guimarães Rosa, naquele cenário norte-americano e isso me deixou com uma saudade imensa do meu país”. Era o vento que faltava para trazer André de volta.

De lá para cá, ele deu o maior gás na carreira solo. “Fiz muita coisa nestes dez anos: muitos arranjos, muitas composições”. Em 2007, por exemplo, foi o compositor residente da Banda Sinfonica do Estado de São Paulo. O convite para este trabalho – que André amou fazer, diga-se, inclusive porque tinha total liberdade para criar – veio através de um balé chamado 'Atmosferas', que ele havia composto para o grupo e a Cisne Negro Cia de Dança. Com o perdão do trocadilho infantil, André nunca foi mesmo o patinho feio de nenhuma história. Ele construiu uma rede de trabalho muito produtiva e soube se cercar de artistas fantásticos, como Rodolfo Stroeter, Teco Cardoso, Nailor Proveta e Tutty Moreno – com esta turma, gravou o disco 'Nonada', lançado em 2008 pela Biscoito Fino. Conhecido por sua atuação ao piano, André trabalha hoje mais como arranjador e orquestrador do que como pianista. E acha uma maravilha ouvir seus arranjos serem executados ao vivo “quando bem tocados”. Diz que é “cruel” quando não funcionam porque é uma tarefa que requer muita dedicação para ficar nos trinques.

Há um leque de heróis atrás das cortinas do André. A inventividade do multiinstrumentista Egberto Gismonti soa entre as principais. André devia ter uns 16 anos quando assistiu ao programa 'Ensaio' (dirigido há décadas por Fernando Faro e atualmente na grade da TV Cultura de São Paulo) com Egberto. Ficou boquiaberto com a relação do músico com o instrumento. Guinga é outro herói inconteste. Para ele, “um compositor de qualidades estratosféricas”. Recentemente, André Mehmari gravou com o cantor e compositor Milton Nascimento em Paris, a quem considera uma lenda viva. E Chico Buarque, claro, não poderia faltar na lista. “Eu toparia fazer qualquer coisa com ele, até ajeitar o microfone”, confessa, às gargalhadas, esse rapaz cheio de predicativos e de bem com a vida.

Acabamos deixando o lead jornalístico para o final porque o história do músico nos pegou pelo pé. Ele está em turnê de lançamento de dois discos lindos: 'Contínua amizade' (Deckdisc), em duo com o bandolinista Hamilton de Holanda, uma ode aos compositores brasileiros de todos os tempos – que realça o que Cartola e Pixinguinha têm em comum com as autorais da dupla, e '...de árvores e valsas', que chega às lojas através do Estúdio Monteverdi. Este é um álbum representativo porque inaugura o selo do André e também marca a estréia de um disco completamente autoral. Traz um punhado de convidados: da cantora Mônica Salmaso ao compositor Zé Miguel Wisnik, incluindo o cantor Sérgio Santos, o flautista Teco Cardoso e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi – com quem ele vai gravar em breve. Foi um disco que levou quatro anos em processo de feitura, aos poucos, sem grandes ousadias, até nascer bonito, bonito. Bonito e espontâneo como a natureza.

Até a árvore de arame retorcido em formato do mapa do Brasil que ilustra a capa foi feita em casa, pelo jardineiro Marcelo Rezende. E as fotos do encarte – todas estonteantes – são do multiinstrumentista. “Quero fazer quantos CDs forem possíveis até esse formato, que gosto tanto, acabar. E sempre com projetos gráficos refinados”, avisa. André Mehmari é generoso: disponibiliza as partituras no seu pontocom, administra bem a conta no MySpace e fica com um brilho nos olhos quando fala sobre seus (já muitos) discos. Bom para ele e melhor ainda para nós, que acompanhamos a obra fantasiosa deste menino do dedo verde - apelido inspirado em Tistu, personagem infanto-juvenil de Maurice Druon, mas em vez de flores, tudo que ele toca vira música!

Para conhecer mais sobre a obra do Mehmari, visite:
www.andremehmari.com.br
www.myspace.com/andremehmari

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milu leite
 

mônica, vc não tem noção de como fiquei feliz de ler esse perfil do andré. gosto demais do trabalho dele. num show que vi aqui recentemente, a minha impressão só melhorou.
o apelido que vc deu é bem apropriado. tem gente que tem mesmo o poder de tocar nas coisas e transformá-las em tesouros.
o andré, pra mim, faz parte dessa turma de magos. e ainda coloca pra todo mundo baixar as partituras! é um fofo total.
ab

milu leite · Florianópolis, SC 14/10/2008 11:48
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Ilhandarilha
 

Tudo muito bonito! texto, fotos e música! O André, além de um senhor músico, parece ser também uma simpatia.
bjos

Ilhandarilha · Vitória, ES 15/10/2008 23:17
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Claudia Holanda
 

mas que moço bonito!
E com o essencial: uma enorme alegria e música por todos os lados.
beijos

Claudia Holanda · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2008 10:59
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Monica Ramalho
 

andré é mesmo um mago simpático cercado de música por todos os lados, meninas! beijos pra milu, ilha e claudinha ;)

Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2008 11:07
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Pedro Paulo Malta
 

Ei, Ramalho. Também quero um beijo!
Bela matéria, meninas.
Beijão.

Pedro Paulo Malta · Rio de Janeiro, RJ 22/10/2008 15:07
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Gabriele
 

Gabriele · Rio de Janeiro, RJ 25/10/2008 23:29
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