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Este texto traz alguns dos resultados da pesquisa institucional que coordenei nos últimos dois anos. Um dos objetivos da investigação foi buscar subsídios para entender a distância, cada vez mais acentuada, entre as culturas infantis e juvenis e a cultura da escola.
Um dos espaços escolhidos como campo de estudo foram os animencontros,
mega eventos presenciais, organizados por empresas da iniciativa privada, que reúnem fãs da indústria de entretenimento nipônica (crianças, jovens e adultos, embora o público juvenil seja predominante) em torno de práticas relativas ao consumo e recepção de mangás, animes e jogos eletrônicos, tais como: jogar cards, games; participar de palestras conferidas por editores de mangás, dubladores de animes e especialistas em videogames; participar de desfiles e concursos de cosplay (prática de fantasiar-se como heróis e heroínas de mangás e animes); encenar jogos de arena próprios da cultura japonesa; participar de oficinas de produção de mangás e de dublagem de animes; trocar informações sobre os artefatos; adquirir mercadorias; constituir grupos de amizades referentes à identificação com um ou mais artefatos.
Uma olhada de relance nesses eventos, como ocorreu nas primeiras idas do grupo de pesquisa aos mesmos, dá a impressão de um conjunto desordenado, desregrado de pessoas configurando a multidão, categoria que expressa o caos das metrópoles modernas, o desencontro dos indivíduos no espaço da cidade.
No entanto, a recorrência das idas, o olhar mais atento lançado aos eventos e o contato com os depoimentos dos jovens, nos permitiu descobrir regularidades ordenadoras que possibilitam pensar a juventude como uma categoria social e não apenas como uma fase biológica de transição para o mundo adulto.
Longe de configurar a multidão que homogeneíza a massa, os eventos, como observamos, são espaços propícios à constituição de socialidades que são fabricadass em torno de preferências por um ou outro produto; de identificação com os personagens; de habilidades indispensáveis ao exercício das práticas identificadas com os produtos. Nesse sentido, pudemos perceber que os animencontros não são espaços que congregam individualidades juvenis eufóricas, representativas da visão atomizada e degradada dos grandes centros urbanos, mas lugares de identidades compartilhadas que constituem as “comunidades interpretativas” (Varela apud Fernandes, 2006).
As comunidades interpretativas expressam o modo pelo qual grupos de indivíduos compartilham gostos, objetivos, crenças e idéias semelhantes, o que leva o consumo e a recepção dos produtos a serem entendidos não em função de gestos irrefletidos de compulsão, mas como ações capazes de possibilitar a interação, a troca e a produção de sentidos, como mostram essas falas de duas jovens entrevistadas : “Então, pra mim, evento é um dia que eu posso ser quem eu sou, sem ter medo de errar, sem ter medo de falar besteira, porque eu sei que as pessoas vão estar me entendendo, porque elas são iguais a mim, elas estão aqui pelo mesmo propósito”, “Bom, pra mim o evento é um lugar especial. Um dia da semana que eu não tenho aborrecimento. Um dia só de alegria, um dia só de amizade, um dia de companheirismo. Você tá lá, você tá triste, as pessoas vêm, te acalmam, te fazem... sabe, melhor.”
O que estes e outros depoimentos parecem indicar é que, diante da desterritorialização da sociedade contemporânea, os sujeitos necessitam de territórios em que possam buscar indicadores de pertencimento que lhes garantam segurança afetiva e clareza quanto aos grupos com os quais possam se relacionar e se entender. É a procura por esse entendimento compartilhado, comum às práticas observadas nos eventos, que configura as “comunidades interpretativas” ou as redes de sociabilidade ou ainda os territórios de pertencimento.
Quanto a isso, percebemos, por exemplo, que o sucesso do mangá entre os jovens pode estar relacionado aos novos modos de sociabilidade engendrados pela maneira como se constituem hoje as relações cotidianas (Martín-Barbero, 2001). Embora se relacionem individualmente com as HQs, é no plano coletivo - através da partilha das revistas, das competições sobre quem sabe mais sobre determinado herói ou heroína, da disputa sobre que coleção é mais rica do que a outra - que esse consumo adquire relevo e lógica (Canclini, 1999). Ao contrário da individualidade que a “arcaica quietude do livro” (Benjamin, 1987, p. 28) supõe, a recepção do mangá é ruidosa, envolvendo animadas discussões, trocas de conhecimento, sendo elemento de união e fortalecimento de amizades.
Além disso, também foi possível observar que, ao contrário da alienação que o senso comum ou as interpretações científicas apocalípticas computam aos consumidores de produtos da indústria cultural, esses jovens demonstraram um conhecimento esmerado de questões históricas, filosóficas, mitológicas relacionadas às HQs e aos animes, que é buscado em bibliotecas, na internet, na leitura minuciosa das próprios quadrinhos ou, ainda, com leitores mais experientes, inclusive professores.
No que se refere à relação dos sujeitos com os games, ficou visível, nos animencontros, o espaço que esta mídia ocupa no cotidiano de crianças e jovens (especialmente estes últimos) que vêm produzindo sentidos sobre ela a partir dos usos e atribuições que, coletivamente, conferem a este artefato cultural. Para eles, longe de serem uma ameaça à sua capacidade criadora, como destaca a mídia e os estudos que se voltam à análise da mensagem sem focalizar a recepção, os jogos eletrônicos são um incentivo a essa capacidade, inclusive quando os estimula a assumirem múltiplas identidades, como revela o depoimento de uma jovem jogadora:
“[...] Então o videogame tem aquela coisa da fantasia, [...] no videogame você pode simplesmente apagar e começar tudo de novo, na vida não rola. [...] no videogame você tem milhões de vidas, ainda pode tirar um card e começar tudo de novo, do zero, com 99 vidas. Ainda tem gente que tem jeito de golpear ali e ter mais 99 vidas. Na vida real infelizmente não dá para fazer isso. Esse é o fascínio do videogame.”
Com relação à questão da violência contida nos jogos, veiculada frequentemente pela mídia, as entrevistas e observações apontaram que não é o gosto gratuito pela violência que seduz os jogadores. O que as entrevistas permitiram vislumbrar é que, ao eleger para si o anseio em derrotar o maior número de opoentes possíveis em uma trama digital com outros jogadores, o que o jovem pode estar querendo é garantir sua aceitação em um grupo que compartilha com ele essa mesma vontade, o que garante e reforça a constituição de sua identidade pelo que há em comum entre os jogadores: os anseios e desejos proporcionados pelos games.
Se as observações e as entrevistas mostraram que as sociabilidades que os eventos propiciam, principalmente aos jovens, são o motivo primordial que os levam a freqüentá-los, seu olhar crítico também se voltou para a escola onde se chega “com vontade ir embora”. A escola “chata e séria” não vê com bons olhos os grupamentos, os risos, a zoada. “Lugar de mangá na escola...só se for na mochila. E de videogame...só em casa”.
Mas não é só a escola que não investe na constituição das redes de sociabilidade. Chamou atenção o fato de nenhum dos entrevistados ter mencionado a participação em práticas culturais coletivas em espaços públicos. Brenner, Dayrell e Carrano (apud Abramo e Branco, 2005), comentando os dados da “Pesquisa da juventude brasileira”, mostram que tanto as escolas ainda estão longe de se transformar “em equipamentos culturais que favoreçam a expressividade juvenil e, ao mesmo tempo, dialoguem com os projetos pedagógicos escolares”, quanto chamam atenção para o escasso envolvimento do Estado na promoção de atividades culturais em espaços públicos, indispensável para garantir “a apropriação da cidade como espaço educativo, de encontro e de sociabilidade”.
Nesse sentido, causam estranheza as críticas dirigidas aos jovens que se deixam cooptar pelo apelo das indústrias que promovem o consumo dos produtos da cultura de massa. Se isso vem ocorrendo talvez em demasia, é porque elas ocupam um lugar que está vago.
Tendo em vista que estes resultados, apresentados de forma resumida, foram alcançados por intermédio de estudo comprometido em trazer contribuições ao campo da educação, cabe dizer que esses aspectos evidenciados, além de outros que os limites desse texto não comportam, trazem contribuições importantes para pensarmos processos contemporâneos de ensinar e aprender. Se como aponta a fala a seguir de um dos jovens, “então, talvez lá [na escola] ninguém entenda o que a gente aqui [nos animencontros] sente lendo mangá e vendo anime...”, tudo indica que para garantir seu compromisso de educar as gerações mais novas, promovendo que elas, de fato, se apropriem dos benefícios da escolarização, a escola está precisando olhar alteritariamente para as experiências dos alunos, entendendo que elas provêm de atores sociais historicamente constituídos.
Se é verdade que as gerações mais velhas, inclusive os professores, precisam ficar atentas ao que ocorre contemporaneamente com a cooptação das gerações mais novas pela cultura de consumo, por outro lado, como ficou claro na investigação, não dá para continuar generalizando apocalipticamente a inadequação do contexto cultural dos mais jovens, como insiste em fazer a mídia, sem a devida aproximação a ele.
Ao fazer isso, o que o estudo verificou foi que além de ensejar o consumo e, portanto, a solidificação da poderosa indústria de entretenimento japonesa, e de possibilitar a diversão ruidosa e animada de seus fãs no exótico universo dos animencontros, mangás, animes e videogames possibilitam às crianças e aos jovens sonhar, pensar a respeito de suas condições de vida e de suas experiências, posicionar-se diante da sociedade e acreditar em ideais que entendem como escassos hoje. O alcance dessas aspirações, motivadas pelas sociabilidades que o consumo e a recepção dos produtos japoneses supõem, parece afetar seus modos de ser. Sua incompletude (das crianças e jovens), que ganha visibilidade na escola, desaparece e eles parecem incorporar sua dimensão de protagonistas sociais.
Enfim, seria descabido supor que os resultados aqui apresentados poderiam vir a resolver os sérios problemas do sistema educativo. Mas não parece demais supor que eles trazem contribuições para se pensar a superação da contradição que vem sendo imposta às gerações mais novas, inclusive as que vivem em condições de vida menos privilegiadas, de viverem num mundo high tech e terem que conviver com o anacronismo da escola. A aproximação mais sistemática entre os campos da educação e da mídia, que essa investigação se propôs a empreender, poderia contribuir para que a escola se instrumentalizasse para lidar com as transformações que vêm ocorrendo na cultura, que influenciam a constituição das subjetividades e identidades de crianças e jovens e, portanto, suas maneiras de lidar com o conhecimento e com as práticas que o promovem.
tags: Rio de Janeiro RJ cultura-e-sociedade animencontros redes-de-sociabilidade mangas animes jogos-eletronicos
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Agradeço as valiosas sugestões de edição do texto do meu amigo Joca, o anjo andarilho, inclusive a alteração do título.
Joca querido, eu tinha colocado as referências bibliográficas, mas acho que por falta de espaço elas não foram regsitradas. Como vc está certíssimo, incluo-as aqui:
ABRAMO, Helena W. e BRANCO, Pedro Paulo M. Retratos da juventude brasileira: análises de uma pesquisa nacional. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005.
BENJAMIN, Walter. Guarda-livros juramentado. In: ______. Obras Escolhidas II: Rua de Mão Única. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 27-9.
CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1999.
FERNANDES, Adriana Hoffmann. Mangá e narrativa: reflexões sobre a produção de sentidos dos jovens sobre as narrativas dos mangás. Trabalho apresentado no X CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC, 2006, Rio de Janeiro, UERJ. 1 CD-ROM
FERREIRA, Helenice Mirabelli Cassino. Modos alteritários de ser jovem. Capítulo de Dissertação de Mestrado, 2008, mímeo.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Saberes hoy: diseminaciones, competências y transversalidades. Revista Iberoamericanade Educación, n. 32, mayo-agosto 2003. Disponível em http://www.rieoei.org/rie32a01.htm Acesso em 22 de outubro de 2006.
Beijos
da Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 4/7/2008 18:47
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Benvinda de retorno às plagas overmundanas, te saudamos os da planície, Ize.
Aqui já falamos de refilão nesse teu conteúdo agora magistralmente apresentado, por douta ilustração, quando referimos a publicação em que és co-responsável pela organização da edição.
Também recordo que disse lá do protagonismo, bem lembrado por ti e não referido aqui, da construção do conhecimento enquanto existência que as juventudes realizam, enquanto vivenciam o mundo, da mesma forma que podem apreendê-lo e nos ensinar a ver que não só de letras se faz uma sopa, que também de desenhos, imagens que nos acompanham, perdão a redundância, o imaginário desde as rupestres ilustrações em paredes e cavernas.
Posso depor também que sou formado na escolinha da matinê (curiosamente à tarde, em nossa mais perfeita tradução), em que se trocavam gibis, novos, usados, e antigo mesmo valia dois, até três se raro o exemplar de um Tarzan, de um Superman, de um Zorro (o mascarado do cavalo branco Silver - aiôu!, das balas de prata, e da discriminação do fiel companheiro, o índio apelidado Tonto), da fantástica Nioka, uma rainha das selvas em plenos anos 50 ainda, do impagável Gato Félix .
E que também formamos tribos roqueiras e hyppies nos anos 60, uns outros mais comportados ficaram na Jovem Guarda e nos Beatles até 70, e outros nos Stones e na Tropicália + Mutantes + Raul Seixas e Tom Zé, depois Hendrix e Joplin e Led, mas não se deixou de ir fazer a escola formal e havia grupos articulados até para a política quando era proibido fazer política e também proibido proibir.
Menos imagens, mais gestos, como dos panteras negras, ou de Muhamad Ali, deixando de ser Cassius clay, em protesto contra a guerra de coupação do Vietnã pelosm EUA que hoje desocupados e para queimar uns estoques ocupam o Iraque.
Ali perdendo na justiça WASP dos EUA e voltando a ganhar o título de campeão mundial de boxe de todos os pesos na memorável batalha do Zaire.
Então, Ize, os grupos, tribos, gangues, crews do hip-hop e da galera das noites de correrias pelas paredes murais ou mesmo apenas assinaturas tais, são reedições, reciclagens, revitalizações, reinaugurações e - sim! - também inovações.
E há indústria lá nos idos dos 50.
E há indústria nos 60, nos 70, nos 80, nos 90, nos 2000.
E há induústria hoje.
E o dono da vaca não é a multidão quem necessita beber o leite.
É uma discussão que também carece de ser feita, porque fanzine e parede, por exemplo, se faz em contracultura, contra a hegemonia burra dos nossos media tupiniquins.
Burra porque tendo a tecnologia não tem vida inteligente nela. é só repeteco da exploração, antes laurenbacalizada, marilymonroeizada, brigittebardotizada, hoje niponizada, amanhã, espere e espero que vivamos pra ver, chinizada, porque essa tampa vai saltar em breve, que não se tem 1bilhão e 300 milhões de almas socadas num canto sem que algo delas se relacione com os outros quatro quintos de gentes, ou, pelo menos com alguns cantos de relação de pertinência e influência.
Continuo pensando que o campo principal da batalha, o território a libertar, é o da consciência.
O das pessoas para si, por seus objetivos humanos.
Assim feito, a reprodução material da vida já assegurada, vamos ao prazer das possibilidades, aos animes, aos jogos, aos dublês e, por que não, aos próprios heróis locais de nosso país mesmo, que poderão ser todos os que vivemos a vida pelo amor contra a opressão e a iniqüidade.
A teu convite vim aqui.
Ninguém, nem tu, é obrigado a ler tudo o que escrevi, porque simplesmente tive vontade de escrever e podia, e não tenho auitorização médica para fazer o que a maioria das pessoas todas fazem às festas-feiras.
Ainda não posso sair à noite.
Agradecido
Adroaldo
(a Juli mandou uma cartinha de rom-côngui!).
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 4/7/2008 22:22
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Querido Adroaldo:
Li, com atenção, mesmo sem ter sido obrigado, a tua colaboração e, de maneira geral, concordo com ela. A sociabilização dos adolescentes, não é de hoje, se faz ao largo, e mesmo, à revelia da escola. E a Ize tem razão, a natureza odeia o vácuo. Então esta indústria cultural globalizante aproveita-se da falência da Escola, instituição que, graças a Deus, tem pessoas, como a Ize, ocupadas em repensá-la, e investe pesado nesta juventude. O que aparentemente, e de forma alentadora, parecem indicar as pesquisas coordenada pela Ize, é que a apropriação que muitos jovens fazem do massacre cultural intentado pela indústria é criativa a ponto de torná-los sujeitos de sua própria história.
Na outra ponta gostaria de pedir-lhes que lessem com atenção um relato de exceção que tentei contar neste texto mas que só pode ser entendido em toda a sua dimensão acessando o Blog da Moça. Claro que é uma bastante grande exceção – na contramão mesmo de tudo o que se pode esperar de uma jovem de 16 anos, saudável, esportista (jogadora de futsal na sua escola), isto é, com um nível aparentemente satisfatória de sociabilidade – mas creio que bem pode nos fazer pensar melhor na regra, ou, pelo menos, deve ser digna de registro.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 5/7/2008 03:32
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Ei Adro, a essa hora da manhã, já trocando as bolas, fiz de um tudo pra entender seu comentário, mas ficou difícil. Se estou certa, ainda que depois do vinho que tomei, ao final e ao cabo, vc considera que o consumo e a recepção da mídia "niponizada", lá no fundinho, coloniza e domestica as mentes. Pois não foi isso que encontrei não. Sabe por quê? Porque se a poderosa indústria de entretenimento japonesa chega aqui, como tem chegado ao mundo inteiro, de olho no mercado e, quiçá, na reprodução do capital simbólico dos seus produtos massivos, do lado de cá dos produtos tem gente que pensa e que não se deixa cooptar tão ingenuamente pela mensagem. Até pq entre a mensagem e a audiência existem inúmeros mediadores que garantem que os consumidores não sejam docilmente capturados. Diante de um Estado que está longe de se preocupar em ser esse mediador, é nas micro instâncias que essa mediação vai ocorrer. E, se por óbvio, não podemos deixar de nos preocupar, de lutar ou até de sonhar com transformações de cunho estrutural que garantam à sociedade, entre outras coisas, uma redistribuição mais justa de educação e cultura que promovam a liberdade da consciência, por outro lado não dá pra ignorar que essa consciência tb pode ser "fabricada" politicamente no dia a dia das pessoas, cujos objetivos humanos não supõem que fiquem a esperar que milagres aconteçam. Não consigo imaginar que só depois da reprodução material assegurada é que venha o prazer dos animes, dos jogos, dos dubles. Essa perspectiva dura e por demais sóbria não combina com a perspectiva dos jovens com quem tenho convivido. Vou dormir lembrando Gonzaguinha: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz...Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será, mas isso não impede que eu repita é bonita, é bonita e é bonita".
Agradeço por sua vinda aqui, esclarecendo que vc entendeu mal
o convite. Não convido ninguém pra ler meus postados. Como amiga que sou de vc, avisei que tinha colocado um texto no overblog pensando que vc podia se distrair com a leitura.
Bjs da
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 04:10
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Oi Joca, consertei o "nesses eventos". Qto à repetição dos termos "entrevistas e observações", amanhã depois do meio dia rsrsrsrsrsrrs vejo como posso resolver.
Obrigadíssima meu editor favorito.
Bjs
da
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 04:19
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Ize,
Bom que você a esta altura dos acontecimentos já saiba o que penso sobre isto, pelo menos assim, de leve. Eu também já havia tido a oportunidade de ler, ainda que, parcialmente, o seu projeto e gosto de poder comentar alguma coisa agora, mesmo percebendo uma certa eletricidade fluindo nos comentários, gerando quase um debate entre a pertinência evidente do seu projeto e alguns aspectos subjacentes, não explícitos no enunciado dele, mas contidos nas entrelinhas da discussão, talvez por serem inevitáveis.
Se bem entendi, de certo modo concordo com o que dizem Adro e Joca a respeito dos processos socio educativos observados nestes animencontros não representarem, a rigor, nada de realmente novo (e está mais do que claro que o ineditismo não é um parâmetro, necessariamente, válido para se atestar a pertinência de um projeto, existem outros mais bem mais precisos).
Contudo, é fácil se reconhecer o peso decisivo que representou na nossa formação de pra lá de cinquentões, a presença de gibis, seriados de cinema, coleções de figurinhas e uma enormidade de outras mídias alternativas, moderníssimas em nossa época (até pelo fato de serem produtos da mesma indústria cultural).
Não é fortuito nos lembrarmos também que a nossa paixão por estas mídias infanto-juvenis propiciou animados encontros, com a formação de grupos específicos, clubes de colecionadores fanáticos e tudo o mais que os atuais animencontros propiciam, sem tirar nem por.
É mais ou menos notório também que todos nós intuímos, rapidamente, a existência de uma enorme contradição entre a rapidez e o dinamismo impressionante da nossa alfabetização, na formação de nossas habilidades para 'ler' e entender o mundo por meio destas mídias, em comparação com a rigidez quase estúpida da ‘lousa fria’, do quadro-negro (mesmo quando verde), do 'cuspe-e-giz', das apostilas e do ‘calem-a-boca!’da escola convencional, até hoje enfernizando os sonhos de tantas mentes pueris.
Enfim, são muito recorrentes - e todo mundo está careca de saber - que o anacronismo da escola convencional, no que diz respeito ás mídias e pedagogias, é absolutamente deprimente. Um problema elementar de comunicação (e é isto que nos assusta). Alunos, professores, pedagogos, psicopedagogos, notadamente a chamada ‘Academia’ (sem nenhum juízo de valor) praticamente todas as instituições voltadas para a Educação (principalmente a Educação pública) estão conscientes desta incongruência secular da escola convencional e se debruçam honesta e diuturnamente na superação deste quadro. E mesmo assim, nada muda.
O que se discute pouco, no meu leigo entender, é a que se deve a perpetuação deste anacronismo, a eternização deste conservadorismo cristalizado e doentio que todos conhecem, todos combatem, mas que permanece assim, inalterado, insuperável. Ao que parece, existe uma certa inapetência social (ou institucional) para avaliar, profundamente, a eficiência destas instituições que, pelo menos sob olhar deste leigo, colaboram de algum modo - e por razões que precisam ser conhecidas - na manutenção
Deste estado de coisas. Falta de mecanismos eficientes de autoavaliação, ausência de procedimentos de autocrítica, empáfia, talvez seja esta uma razão importante no caso.
É esta, com efeito, a crítica cifrada que os ‘ de fora’ fazem à Academia (e não aos acadêmicos, particularmente). Se ela, a crítica, é pertinente ou não, é outra questão que precisa ser debatida. Já seria um bom mecanismo de avaliação.
O que se supõe - e está sujacente em nosso ainda estreito debate (e que coloco aqui me arriscando a estar também trocando as bolas), considerando-se é claro a gravíssima situação de incompetência da Educação pública brasileira, talvez sejam perguntas do tipo:
Que relação tão pertinente assim existe entre estes animencontros e os demais encontros de jovens em geral relacionados a mídias similares do tipo HQs de outra origem, RPGs, não necessariamente nipônicas (ou americonipônicas, como talvez preferisse o nosso Adro)
que justificasse um projeto de pesquisa exclusivamente voltado para este aspecto da questão?
Mais precisamente (e me arriscando, de novo, a cair numa armadilha positivista) os praticantes deste animencontros representam, socialmente, um grupo generalizado e significativo de jovens ou integram um grupo social restrito, em especial?
Mais no foco ainda: A experiência desta pesquisa, com este tipo específico de jovem (se for o caso) estaria diretamente relacionada ou contribuiria para o aumento da qualidade da educação pública no Brasil e com a superação do acima proposto anacronismo lingüistico-pedagógico da escola convencional? Em que aspectos?
(segue)
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 11:21
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(concluindo)
Como já se disse, um projeto acadêmico, pinçado isoladamente, retirado de seu contexto, não poderia ser visto jamais como sendo capaz de resolver esta questão tão complexa, mas, talvez esteja ainda mal compreendido na ‘defesa desta tese’, onde os animes e certo tipo de jogos eletrônicos, assim tão isolados de seu âmbito geral (mídias gráficas, etc.) se encaixariam no campo das propostas para a Educação pública do Brasil (mesmo que não tenha sido estes os seus objetivos específicos) e a que outros aspectos linguístico-pedagógicos eles poderiam ser associados (o grafitti do hip hop, os murais daquela escola entrariam nesta discussão ou não?)
Acho que foi só isto que faltou para convencer velhos meninos rabugentos que, cada um a seu modo, insinuam ‘já terem visto este filme’.
Mais papo à vista, é o que espero.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 11:24
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Ize,
Desculpa ter entendido o aviso dapublicação como um convite à leitura.
É tênue a diferença entre os dois, inda mais que, quando considero do interesse das pessoas aqui, as que conheço, eu convido.
Mas tenho de parar em definitivo de ficar tirando as demais por mim, porque de intenções boas ou más há muito equívoco em outro lugar.
Então, do que dizes, tendo acordo de conjunto, apenas reparo que não me passa a idéia de resolver antes uma questão material para depois solver as demais questões em uma transformação necessária da sociedade, não só a nossa, nacional, mas penso já planetária, posto que a supremacia do modo esse que reproduz as relações sociais que quero mudar (revolucionar para o bem, quem sabe?) está em toda terra.
Ao contrário, creio que é a conscientização sobre a importâncias das artes, da cultura, das relações humanas, do respeito e preservação à biodiversidade, hoje, que imporão as transofrmações, já penso que até é possível passo a passo, posto que a classe que necessitaria de urgentes trasnformações melhora de condições materiais aqui e ali e reduziu-se expressivamente de importância física no mundo cada vez mais uma miríade de sujeitos individuais ou micro-coletivos de garagens ou mesmo de barracos e choças em todo o plaenta.
Saliento que, mesmo adepto dos gibis e dos bang-bangues, deixei de aplaudir o assassinato de índios pelos facas compridas-cabelos-longos e caras-pálidas assim que tomei conhecimento, já aos 13 anos de idade, superada a fantasia infantil, do livro Enterrem meu coração na curva do rio, que nem me foi indicado na escola formal, onde a recomendação era Memórias de um sargento de milícias e o Ateneu, sobre a nossa realidade colonial local.
Penso que há necessidade de sinergia nas circunstâncias, tanto as existentes como as que necessitem ser revolucionadas.
Só afirmo uma coisa nisso tudo, não se põe abaixo o edifício da exploração com as ferramentas da exploração, daí que um movimento de pessoas para si, por uma motivação objetiva e um tempo determinado ainda sejam questões necessárias a se pensar, como pensou-se a partir do Que Fazer?, também num início de século, no milênio passsado.
pensar e agir, porque só o pensamento nada muda na realidade objetiva.
Um abraço.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 5/7/2008 13:14
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Meu Deus Spirito Santo, já lá se vai o meu sábado depois de questões tão instigantes que vão exigir de mim um certo recolhimento. Mas sabe de uma coisa, vou me divertir mais tentando responder aos "meninos rabugentos" do que saindo por aí pros chopes da vida. Ou quem sabe, saio pros chopes e volto mais inspirada: a diversão é esclarecedora tanto ou mais do que o recolhimento, né não?
Pra vcs não pensarem que fugi da raia, divido aqui com vcs o conceito de "barbárie positiva" de W. Benjamin só pra instigar o papo (que seria melhor que estivesse acontecendo com nós quatro nos olhando nos olhos, certo?).
Só pra lembrar, Benjamin foi um crítico da cultura, tal como ela se apresentou no entre guerras, mas sem adotar a postura apocalíptica, inclusive por causa da perspectiva utópica de seu marxismo. Quem tiver interesse, indico: "Walter Benjamin: o marxismo da melancolia" de Leandro Konder.
"Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso. Nem sempre eles são ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes, podemos afirmar o oposto: eles "devoraram" tudo, a "cultura" e os "homens", e ficaram saciados e exaustos. "Vocês estão todos tão cansados — e tudo porque não concentraram todos os seus pensamentos num plano totalmente simples mas absolutamente grandioso." Ao cansaço segue-se o sonho, e não é raro que o sonho compense a tristeza e o desânimo do dia, realizando a existência inteiramente simples e absolutamente grandiosa que não pode ser realizada durante o dia, por falta de forças. A existência do camundongo Mickey é um desses sonhos do homem contemporâneo. É uma existência cheia de milagres, que não somente superam os milagres técnicos como zombam deles. Pois o mais extraordinário neles é que todos, sem qualquer improvisadamente, saem do corpo do camundongo Mickey, dos seus aliados e perseguidores, dos móveis mais cotidianos, das árvores, nuvens e lagos. A natureza e a técnica, o primitivismo e o conforto se unificam completamente, e aos olhos das pessoas, fatigadas com as complicações infinitas da vida diária e que vêem o objetivo da vida apenas como o mais remoto ponto de fuga numa interminável perspectiva de meios, surge uma existência que se basta a si mesma, em cada episódio, do modo mais simples e mais cômodo, e na qual um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha, e uma fruta na árvore se arredonda como a gôndola de um balão". (Tirado do ensaio "Experiência e Pobreza")
Bjs e até
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 13:16
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Pois então? Não é exatamente isto que estamos dizendo os quatro, uns para os outros?
..."Pobreza de experiência: não se deve imaginar que os homens aspirem a novas experiências. Não, eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna, que algo de decente possa resultar disso.
Senão for isto, paradoxo total pois, estaríamos na Babel daqueles alguns que não deveríamos ser, de modo algum.
Convicto convencido Saúdo Benjamim bem lido e suas luzes.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 13:32
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Ize,
(E olha que os outros rabugentos - com todo o respeito - nem mesmo me deram procuração).
Como diria o genial entomologista ango-suíço Larry Brüssel (que a mais que discreta Ilhandarilha também conhece):
"...Qualquer qualquer fogueira na qual se colocou boa lenha, esta, além de espantar os mosquitos, também assa batatas".
Abs
..'Braim storm evolution ist not, explosion
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 14:30
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Corrigindo a tradução livre do alemão:
...Como qualquer qualquer fogueira na qual se colocou boa lenha, esta, além de espantar os mosquitos, também assa batatas".
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 14:31
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Bom dia Adro! Quando que eu podia imaginar que ao postar esse texto por aqui, fossemos enveredar por um papo tão cabeça. Não estou reclamando não, acho que este é um dos poucos espaços da internet em que isso pode acontecer. É incrível que uma ferramenta que comprova o qto o capitalismo pós-industrial é perversamente excludente, dividindo os habitantes do planeta entre os de cima e os de baixo, ou entre "turistas e vagabundos", como diz Bauman, pode, por outro lado, juntar pessoas de lugares tão extremos desse Brasil pra pensar questões que vão muito além do que meu texto pretendeu. Que bom que ele está servindo pra isso. Agora vou me trancar no quarto pra refletir sobre tudo que vcs disseram. Por enqto queria dizer que, como vc, lastimo que o contexto histórico atual não enseje a presença de um Lenin. "Que fazer" qdo os partidos em que tanto acreditamos, que deveriam ser revolucionários, se empenharam mais com a causa dos de cima, passando por cima dos de baixo pra negociar de forma tão esquisita a edificação de uma sociedade mais justa e solidária.
Na minha maneira de pensar (que pode estar equivocada), as ferramentas da exploração podem ser subvertidas, implodidas, por aqueles que - como os jovens que se reunem nos animencontros, no movimento hip-hop, nos bailes funk, nos eventos de RPG, no grafitti etc, etc - encontram maneiras criativas de fazer política que poderiam apontar para outras formas de botar abaixo o edifício da exploração. É o que eu, talvez simploriamente, penso. Mas não como representante daqueles que só pensam, e sim como alguém que envolvida até a tampa com a causa dos de baixo (que é a minha causa), vou fazendo a minha parte e conseguindo aqui e ali instituir movimentos de mudança.
Bjs
da Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 14:50
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Me alcança um remo que tô nessa barca.
Ou me dá o balde, mesmo sem alça e furado, pra eu ir tirando a água que tá entrando pelo casco.
Vamos cachoeira acima, devagar, mas vamos, como um salmão aos saltos, tentando escapar dos ursos!
Beijo
do Adro
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 5/7/2008 19:23
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E pobres dos ursos claro, porque estes hão de morrer de fome (até porque patata - quero dizer, pancada - de amor não dói.)
Vamos que vamos!
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 20:11
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Ei meninos, estava um pouco angustiada com nossos desencontros. Que bom que agora nos entendemos: então, tá combinado, vambora cachoeira acima.
Bjs da
Ize
E que a fogueira asse as batatas. Quem sabe elas apaziguem a gula dos ursos
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 21:30
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Como diria Bocaccio " com licença de entrar na rodinha". Ola amigos, li todos os comentarios e o texto. Sinceramente reconheço a importancia da pesquisa apenas como averiguação. Registro de um tempo. Não pode ela mudar nada. Nem costumes e nem empresas e muito menos a cabeça da juventude, q hoje em dia começa aos 12 anos e vara a casa dos 30.
Mas nada me assusta. Quando tomei conhecimento das juras do povo japones: " Dominaremos o mundo nao pela guerra ou pelas armas, como as bombas que hora nos arrasam, mas o povo japones vai dominar pela cultura, inteligência e principalmente pelo comércio, a mãe de todos!" E aassim estão a cumprir esta promessa. Dominaram o proprio EUA praticando um comércio agressivo e chegando a suplantar até mesmo a menina dos olhos amaericanos: a industria de carros. Depois, suplantou a todos os países com a inteligencia, abocanando em todas as universidades as melhores vagas. E nao bastasse isto, começaram o tempo do dominio das mentes, através do eletroncio. E hoje dominam as mentes de jovens incautos, assim como os americanos fizeram com nossa geração através dos gibis e super herois. Nao crescemos assim? E morreremos vendo a expansao do imperio do sol nascente!
Nic NIlson · Campinas (SP) · 5/7/2008 23:12
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Corrigindo: eletronicos.
Nic NIlson · Campinas (SP) · 5/7/2008 23:13
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Obrigada Nic por ter se dado a tanto trabalho. Respeito seu modo de encarar a recepção dos produtos das indústrias de entretenimento, embora discorde dele.
Agradecida, fica aqui meu abraço
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 5/7/2008 23:44
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Parece que entro no meio de um papo já enveredado por um caminho bem diferente do que realmente me interessou seguir ao ler sobre a pesquisa do grupo da Ize. Me interesso particularmente sobre a pesquisa pq, como a Ize e seu grupo, estou debruçada sobre essas duas questões fundamentais da educação hoje: o descompasso entre a escola e a infância e juventude, e a investigação sobre a produção de sentidos desses (que a escola solenemente ignora).
Para simplificar bem o papo, acho que as coisas estão nesse pé: a escola continua (apesar de todas as teorias pedagógicas bacanas) a ignorar que a criança e o jovem são sujeitos produtores de sentidos e que têm um histórico de vida anterior e paralelo à escola.
Ignorando Paulo Freire, para quem todos são sujeitos no processo educativo (educador e educando), a instituição e os professores (com raríssimas exceções) continuam a agir como se seus alunos fossem um receptáculo vazio onde eles podem despejar todos os conteúdos curriculares. A escola e a vida estão cada vez mais distantes. E a criança e o jovem, nesse vácuo, constroem suas subjetividades. E que subjetividade é essa? Essa é uma questão que nenhum educador pode se furtar a tentar responder, não é? Dai a importância de trabalhos como esse realizado pelo grupo de pesquisa da Ize e por tantos outros que estão acontecendo na academia.
O Jesus Barbero (só pra citar um autor que a Ize já citou) fala num artigo sobre a TV alguma coisa sobre nós, adultos, termos dado às crianças um passe livre especial para o mundo adulto ao deixarmos que ela participe - por meio da TV - de assuntos que antes só eram permitidos e só diziam respeito ao mundo dos adultos - sexo, traição, intrigas, guerras, tragédias etc. A criança na redoma do lar, cuidada, protegida e monitorada pelos pais e pela escola, poupada da parte ruim da vida, não existe mais. Todas essas coisas entram sala a dentro das casas tanto para os adultos quanto para os bebês de colo. Seria muita ingenuidade nossa esperar que eles não produzam, a partir disso o que vêm e ouvem, algum sentido. Assim como seria ingenuidade esperar que as crianças de hoje tenham com os velhos contos de fadas a mesma relação que nós, adultos oralizados (e letrados) de hoje, tivemos na nossa infância.
Esse mundo dos mangás e afins é um mundo que a maior parte dos adultos de hoje não domina. Difícil para nós ver algum sentido ali. E também no que disso se origina - os encontros citados pela Ize, os cosplay, a fantasia de herói etc. Mas que há, há. E se quisermos estabelecer alguma comunicação com a juventude é necessário buscar compreender que sentido é esse.
A educação não pode se fechar no velho chavão da diferença entre gerações e ignorar o protagonismo dos jovens. Não mais. Reverter esse quadro de descompasso entre a escola e a juventude deve ser uma missão meio cálice sagrado para educadores e pesquisadores da educação (olha eu usando essa metáfora velha! Coisas da geração Indiana Jones!). E acho que a importância e relevância da pesquisa que a Ize apresenta aqui é que esses pesquisadores estão reconhecendo e tentando conhecer esses sentidos gerados. Seja usando como campo de pesquisa esse mundo dos mangás, seja o dos video games, o da nova construção do discurso nos msn da vida, da produção audiovisual etc.
Aconselho aos interessados no assunto a entrar na página do Lab Educação e Imagens. O grupo de pesquisa coordenado pela Ize está lá.
Ize, valeu por apresentar aqui a pontinha do iceberg que esse vasto campo de pesquisa.
Ilhandarilha · Vitória (ES) · 6/7/2008 00:22
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Oi Nic gostaria de completar esclarecendo que a investigações que realizo, dentro da maior seriedade e responsabilidade, não se limitam a averiguar os objetos de estudo, como ocorre no campo das ciências exatas. No campo das Ciências Humanas e Sociais, em que o objeto da pesquisa é simultaneamente sujeito, o ranço positivista de se fazer pesquisa de forma neutra, sem a intencionalidade de que pesquisar seja uma forma de intervir na realidade, não existe mais há algum tempo.
Logicamente, a intervenção não supõe mudar "nem costumes e nem empresas e muito menos a cabeça da juventude". Nem Deus alcançaria esse tento. O alcance das investigações de cunho qualitativo-etnográfico é bem menor. Que pena que os jovens com quem vc convive lhe dêem essa impressão tão equivocada da juventude. Ainda bem que aqueles com quem eu tenho contato, mesmo os que vivem em condições bastante adversas, não têm cansado de me mostrar que não tá tudo dominado não .
Outro abraço
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 00:29
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Ilha querida, que bom que vc apareceu por aqui e colocou o bonde dessa conversa nos trilhos. Vc é uma interlocutora e tanto!!! Precisamos dar um jeito de aproximar nossos projetos. Pensando nisso, queria lhe fazer um convite pra participar de um dos dois jornais que o Laboratório Educação e Imagem produz para professores de algumas redes municipais de ensino aqui do Estado do Rio. Como não encontro seu e-mail, vou lá no seu perfil explicar do que se trata, esperando que vc nos honre com com sua participação.
Bjs da Ize
Para quem se interessar pelos jornais, ambos estão no site do Laboratório (é só clicar no link no comentário da Ilha)
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 02:30
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Oi Joca querido,
em primeiro lugar queria dizer que esse pedaço do seu comentário - "o que aparentemente, e de forma alentadora, parecem indicar as pesquisas coordenadas pela Ize, é que a apropriação que muitos jovens fazem do massacre cultural intentado pela indústria é criativa a ponto de torná-los sujeitos de sua própria história."- mostra que vc não só me ajudou a editar o texto, mas entendeu meu objetivo de tentar mostrar para a escola que os alunos têm razões que ela (por se pautar nos princípio da razão iluminista) muitas vezes ignora. Queria apenas ponderar que se a recepção é criativa, a idéia de "massacre cultural" poderia ser relativizada.
Sobre a menina Vanessa que vc traz lá no texto indicado, cujo blog li, não me parece que ela seja tão excessão como vc aponta. Sem dúvida, ela é incrível, mas vc precisa ver o que tenho encontrado em blogs de garotos e garotas com menos idade que a Vanessa. Não posso disponibilizar os endereços aqui pq esses blogs são objeto de estudo de uma doutoranda e ficaria pouco ético socializá-los sem a permissão de seus autores. Isso mostra que o discurso que julga a infância e a juventude pelo seu "pouco siso" ("pouco siso, muito riso") é meio que opinativo, repeteco do senso comum que atravessa os séculos colocando as gerações mais novas como devedoras da grande experiência das gerações mais velhas. Não foi o que nossos pais e mestres fizeram com a gente, e que os pais e mestres de nossos pais a avós fizeram com eles? Conflito de gerações é o nome da coisa que, por certo, hj se complexificou pq as inovações tecnológicas colocam, muitas vezes, os mais jovens em posição de superioridade diante dos mais velhos que, contraditoriamente, são mais inexperientes. Pasolini tem um texto lindo, intitulado Os jovens infelizes, que diz que a infelicidade dos jovens vem da obrigação que lhes é imposta de terem que assumir os gestos cansados e a desesperança da época que os antecedeu. É uma espécie de sina que é transmitida de geração para geração. E é uma urgência que esse continuum seja rompido pq é do espírito jovem que nascem os sonhos florescentes e a utopia. É o que eu penso e isso acaba me rejuvenescendo, o que é muito bom.
Beijo grande
da Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 04:04
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Querida Ize:
Não sei se me fiz compreender completamente ao sugerir a leitura do Blog da Vanessa. Apesar dela ter, evidentemente, uma inteligência acima da média, não foi este aspecto que procurei ressaltar, mas sim o conteúdo de suas preocupações e escolhas, a começar pelo ídolo, mas não apenas, por todas as sua preferências, digamos, culturais e principalmente por seu caminho solitário. Curioso é notar, por exemplo, a maneira que ela nomeou seu blog "fã de João Cláudio Moreno", isto é, se, de um lado, faz tudo para divulgar a carreira do ídolo, por outro, jamais aventa a possibilidade de criar um fã-clube, isto é, pouco está se importamdo em encontrar "iguais" no gosto. É isso o que me chama mais a atenção na Vanessa, essa coisa de ter, decididamente, opinião formada a respeito das coisas que a afetam, o que, havemos de concordar, é raro nos adolescentes, que costumam mimetizar-se nas tribos. Como eu disse antes, trata-se de uma exceção cujo conhecimento nos faz pensar melhor sobre a regra.
Mudando de assunto, mas ficando no mesmo, gostaria de sugerir sua leitura da entrevista que fiz com o João Cláudio Moreno, principalmente na parte em que ele fala da sua infância e juventude.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 6/7/2008 07:10
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Ize, Ilha, demais,
Em 76/77 fiz parte de um grupo de estudantes universitários que começou um estudo da Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, com uma camarada que desenvolvera a ação com o próprio Freire na época anterior ao golpe militar de 64. O Barreto e mais 32 guris e gurias, fizemos o grupo e fomos trocar saberes com pessoas analfabetas da classe operária em uma ocupação de área verde (terra pública) num morro da zona sul da cidade. Das pesquisas de levantamento social à formatação das ações dos encontros, para encontrar as palavras e os temas geradores, sentimos que ficáramos também amigos das pessoas daquela comunidade e elas de nós... que apenas ainda não sabiam ler um alfabeto, mas tinham as suas leituras de mundo e vivências ricas para trocar, sejam as oriundas do interior, expulsas pela mecanização da lavoura, seja as já nascidads nas cidades, à beira do asfalto.
No torneio de futebol, nosso time, o Bola Murcha, foi o último colocado. E, por uma extrema curiosidade, goleiro mais vazado, eu, fui o destaque do campeonato.
Falo disso porque comemorava, como goleiro, mas não muito bom de bola, cada gol dos times adversários, numa conduta de aplaudir o bem feito e o sucesso deles também. O que foi reconhecido com a láurea de destaque.
Quero dizer; mesmo entre os que não lêem escritos, há leituras.
Mesmo entre os jovens, há sentimentos de pertecimento às gerações que lhes antecederam... são humanos, assim se reconhecem.
Mesmo entre os mais velhos, há o sentimento de que os jovens têm, sim!, uma compreensão de mundo que lhes pode dar uma outra alternativa (talvez o sucesso até financeiro e econômico e social que não tiveram, é o que primeiro pensam, em razão das deprimentes circunstâncias materiais que lhes oprimem).
O que temos acordo é que há uma falta grande de humanidade entre as pessoas, ainda muita orientação egoísta oriunda e preconizada pelas relações sociais, e muito pouco altruísmo nas ações que se propõe a reencantar quaisquer pessoas sobre aquela idéia de "mudar o mundo".
Que se mude, se mudar, pelo menos para melhorar as condiçoes da existência da maioria, no que devemos incluir o continente africano para os cálculos gerais.
Não fujo ao tema. Me incluo no rol dos que lêem, mas aprecio a paisagem, as fotos, as ilustrações, as fantasias, não só as do carnaval, as do dia a dia nas urbes também, que as há... e uma boa pintura ou mesmo um bom jogo de futebol.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 6/7/2008 11:35
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Bom dia querido Adro, que coisa linda vc escreveu. Me lembrou que as concepções de infância, de juventude, de idade adulta e de velhice que construímos estão interelacionadas. Uma erige a outra: alteritariamente, ou não. O problema está justamente na falta de alteridade com que as gerações se olham. E o que está faltando é mesmo essa dose de humanidade, de que vc fala, que levaria as pessoas a precisarem do outro pra lhes dar acabamento. Com as crianças, isso ocorre com mais facilidade: tanto pedem a mão do adulto pra lhes ajudar a seguir pela estrada, como, qdo menos se espera, enfiam a mão mão na nossa pra nos apontar o caminho. Mesmo que não peçamos, porque guardam aquela sensibilidade, ou humanidade, que vamos perdendo qdo crescemos e nos consideramos maduros, prontos e acabados. Sentimento de inacabamento é o que falta pras relações se humanizarem. E pra isso, é preciso olhar em volta como vc faz. Já conversamos sobre isso qdo falamos de filhos, lembra? Pq a mudança precisa começar com os que nos cercam num exercício diário de amorosidade, de inclusão mútua.
Vc é mto querido e não fugiu do tema não, só um pouquinho lá no primeiro comentário qdo deixou o pensamento jorrar para a escrita e me confundiu um bocado.
Beijo pra vc e ótimo domingo. O sol aí já saiu?
Sua amiga Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 12:22
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O sol brilha lá fora, Ize.
Onde o latido incessante de cachorros trás uma cadela no cio enlouquece
e anima
a pensar que a vida seguirá, pelo menos para os cães.
Eu pus os fones e ouço concerto para aranjuez ao máximo volume, com a orquestra de varsóvia, os latidos ao fundo.
Ofrio danou, a friagem e a neblina obumbraram.
mas tudo é já passado,
Agora é ver o meu futuro milharal já um broto e as pimenteiras e feijões surgirem verdes da terra molhada, atrás desse tênue sol do inverno.
O que acontece quando uma criança enfia a mão na tua mão e te guia é o futuro que se cria, guria.
E o que acontece quando tu escreves, é esse destrabelho das palavras quererem chegar primeiro que o pensamento no teclado e uma pouca confusão conceitual, mínima para os tempos sem paradigmas.
Eu até diria e acredito que tudo vai mudar, um dia, quem sabe, talvez.... ou não. Matrix fala disso, se erra, se erra , se erra, até que, se erra de novo...
O melhor de tudo é que o sol saiu a passear e eu vou atrás dele, feito um Zé Pereira enlouqecido por uma porta bandeira, linda.
O que me recordam os cachoirros... que deram uma trégua. Acho que desataram a cadela.
E, inda bem para vocês, só posso tomar 100 ml de vinho.
O domingo etá cada vez melhor.
Se assim continuar, quero só que deus me dê uma mãozinha.
Ontem, estivemos o artista plástico Danúbio Gonçalves, o esvcritor e poeta Affonso romano, a Rô, editora do jornal, e o poeta Zé Augustho num belo chá de 14 anos do Fala Brasil. Delícia de programa.
Fui de ônibus e sozinho.
Também tive coragem e maturidade para voltar de ônibus e só.
Um beijo.
Quer dizer que andar de ônibus ajua a seguir em frente sem perder o passo com a história... o Spírito podefalar bem disso, que é como ele vai junto com o povo e aprende a poetar porque o povo lá está, no banquinho do lado dele.
Té.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 6/7/2008 14:51
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Quer dizer que quem não anda de ônibus perde o passo da história...Pois eu não ando e não perco não...às vezes, sim, mas quem não perde?
Mas o que eu queria dizer mesmo, depois de ler esse recado arretado aí de cima, é que vc é o meu herói. E que ninguém venha dizer que isso está descambando prum site de relacionamento. Nosso papo cabeça aí de cima permite que nos desdobremos em nós mesmos e falemos da vida e do que ela tem de bom.
Que o domingo continue maravilhoso pra vc! Ah! e não vai ultrapassar os 100 mlde vinho.
Bj estalado da
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 15:32
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Citado ali pelo Adro (se ele é o herói dela, eu sou o herói dele, pelo visto) afirmo que só ando de ônibus porque não sei dirigir. Sempre desconfiei disto, mas, só agora, que tenho carro, confirmei. Vejo a fubequinha parada na vaga e não sinto a mínima vontade. Outro dia entupiu um treco lá, de tanto que o bicho fica parado.
Agora numa coisa o Adro está coberto de razão, ter 'o povo no banquinho ao lado' (fazer parte, reconhecer-se como integrante, 'vestir a camisa', estar junto, falar a mesma língua, etc.) é uma condição essencial para não se perder o passo da história. É uma condição essencial à nossa humanidade.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 15:50
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muito bom, votado e aplaudido de pé!
Jair Jnusi · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 17:46
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Ize, seu texto é uma aula bem interessante. Coisa de boa professora leciona com amor e paixão. Algum tempo atrás, escrevi um texto infantil e pedi que uma certa professora o lesse pra posteriormente falar a respeito dele, comentar a respeito. Ela passou um mês aroximadamente e após esse tempo, ela respondeu: adorei a conversa do cachorro. Na história sequer havia cachorro.
Sérgio Franck · Belo Horizonte (MG) · 6/7/2008 20:15
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OI Jair, puxa que honra que vc tenha gostado da leitura e dos comentários que enriqueceram tanto minhas reflexões. Muito obrigada.
Abraço pra vc
Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 22:47
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Franck querido, meu texto não é bem uma aula, pelo menos não foi essa minha intenção, embora me orgulhe de ser uma excelente professora. Tenho mesmo amor e paixão pelo magistério que, ao contrário do que muitos acham, não é pra mim uma missão ou um sacerdócio, mas uma profissão tão importante quanto outra qualquer. Outra coisa é que, também ao contrário do que muitas professoras dizem, não escolhi o magistério por vocação, por amor imenso às criancinhas. Nem ao menos escolhi o magistério. Ele caiu na minha cabeça por força da necessidade. Já com 3 filhos, aos 25 anos, precisei trabalhar e a única coisa que eu sabia fazer era lecionar. Carlos Drummond de Andrade diz que amar se aprende amando. Pois foi isso que aconteceu: foi praticando o magistério que aprendi a amar o que faço e a me comprometer de corpo e alma com a causa do ensino público. Costumo dizer pros meus alunos - futuros professores - que um dos direitos do professor é o de ser feliz na sala de aula. E exerço esse direito sempre.
Embora seu comentário não tenha muito a ver com o que escrevi, agradeço a vc a oportunidade de ter falado disso aqui.
Tenho certeza que não foi seu objetivo, mas ao engatar a crítica a essa profª tão irresponsável que o deixou na mão, vc deu impressão de que A Professora é assim. E não é querido. Há professores e professores, como há médicos e médicos, jornalistas e jornalistas, advogados e advogados... Se vc tivesse me mandado seu texto, ou pra tantos e tantos professores e professoras maravilhosos que há por aí, com certeza a atitude seria outra.
Se fosse outro que tivesse deixado esse recado, eu agradeceria e ponto. Mas achei que vc, a quem tenho na mais alta estima, merecia essa extensa explicação.
Beijo grande
da Ize
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 6/7/2008 23:31
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Spirito, ainda que correndo o risco de ficarmos aqui nessa "rodinha" e tb de afastarmos os possíveis leitores com esses imensos comentários, não resisto a contemplar, ainda que não de uma só vez, sua excelente intervenção ao meu texto. Selecionei este trecho pra comentar agora:
"Se bem entendi, de certo modo concordo com o que dizem Adro e Joca a respeito dos processos socio educativos observados nestes animencontros não representarem, a rigor, nada de realmente novo (e está mais do que claro que o ineditismo não é um parâmetro, necessariamente, válido para se atestar a pertinência de um projeto, existem outros mais bem mais precisos)".
Nos parágrafos seguintes vc continua, mostrando como as práticas juvenis de entretenimento (vá lá que seja, embora eu prefira chamá-las de práticas culturais) da nossa geração tb suscitaram "a formação de grupos específicos, clubes de colecionadores fanáticos e tudo o mais que os atuais animencontros propiciam, sem tirar nem por".
Depois vc segue destacando "a enorme contradição entre a rapidez e o dinamismo impressionante da nossa alfabetização, na formação de nossas habilidades para 'ler' e entender o mundo por meio destas mídias [ gibis, seriados de cinema, coleções de figurinhas e uma enormidade de outras mídias alternativas] em comparação com a rigidez quase estúpida da ‘lousa fria’, do quadro-negro (mesmo quando verde), do 'cuspe-e-giz', das apostilas e do ‘calem-a-boca!’da escola convencional
Perfeito em relação à costituição das grupalidades juvenis em torno desses artefatos e perfeito em relação à contradição entre a alfabetização dinâmica proporcionada por essas mídias e o anacronismo da escola.
O que não está assim tão perfeito é a afirmação de que o que ocorre hoje em termos dos processos sócio-educativos não difere do que ocorreu em décadas passadas. Não é bem assim. A Ilha já explicou muito bem isso, mas me deu vontade de reforçar o que ela comentou, dada a importância da questão. Acontece que a rapidez das inovações tecnológicas, e o consequente contato, cada vez mais intenso, de crianças e jovens com as mídias visuais, com as hipermídias e com as mídias digitais, tem mudado, de forma surpreendente, a maneira pela qual as gerações que já nasceram sob esse contexto se relacionam com o conhecimento e a cultura. O pensamento hj é processado hipertextualmente, enqto na nossa época ele era processado textualmente. Essa é a diferença. E ela tem aumentado ainda mais a tal contradição entre a lógica que os mais jovens usam nos processos de aprendizagem e a maneira pela qual a escola ensina. Chegamos, então, a um limite em termos do conflito de gerações que ultrapassa significativamene a questão do choque entre valores, estilos de vida, preferências culturais (tão bem abordado por Hobsbawn no que tange aos conflitos geracionais das décadas de 50, 60 e 70. Qto a isso [e bom lembrar o que já cantava a música: "Não confie em ninguém com mais de 30 anos"). Contemporaneamente, este choque persiste, mas é complexificado, entre outras coisas, pela maneira como hoje tempo e espaço são percebidos e apropriados, o que obviamente influencia a aprendizagem. Pensar no ciberespaço ajuda a entender porque há sim um ineditismo nos processos contemporâneos de aprendizagem. Falar disso hoje implica também falar de migrações e mobilidade, de redes e de fluxos, de instantaneidade e fluidez, coisas que não existiam na nossa época.
Continuo amanhã
Bj
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 7/7/2008 03:07
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"Falar disso hoje implica também falar de migrações e mobilidade, de redes e de fluxos, de instantaneidade e fluidez, coisas que não existiam na nossa época."
Querida Ize:
Desculpe, meu bem, mas professora que você se orgulha de ser, com toda a razão, não pode se dar o luxo de se utilizar de conceitos como os apontados acima, ou essa história de "textual" e "hipertextual" dando de barato que todo mundo sabe de que se trata, isto é, elitizando, ainda mais, um papo que você mesma chama de "cabeça". Isto não é "correr o risco de ficar nesta "rodinha" e tb de afastarmos os possíveis leitores com esses imensos comentários" mas sim apostar na certeza de que isto vai ocorrer. Penso que o problema não seja a extensão do comentário mas a maneira, me desculpe a franqueza, pouco didática com que você, às vezes, nem sempre, aborda o assunto. Acho, de uma maneira geral, que nada é óbvio, isto é, que nenhum conhecimento, mormente conceitual, pode ser considerado universal.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI) · 7/7/2008 07:37
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Quando li o E. Hobsbaun sobre isso, Ize, li em uma rede de pano, em uma praia, olhando céu azul e ouvindo o mar de janeiro.
Tirando o livro, era tudo tão parecido como sempre foi ao início da observação humana, sem as letras.
Céu, imenso e lindo mar azul da Pinheira, pássaros, uma baía em ferradura belíssima, cingida ao fim à esquerda, pela Praia do Sonho.
Esse era o Hipertexto. É ainda para quem queira. Vê, inclusive o nome da pousada era apropriado: Pasárgada, e eu era amigo do prícnipe, da princesa e da Rainha, e dos cachoros e gatos deles.
A imgem como hipertexto é pré-existente ao homem que lê.
A velocidade com que a mesma imagem é percebida por mais pessoas é que mudou de um tempo pouco pra cá.
Há muito um homem ou uma mulher olham o céu e o mar embevecidos. Desdde a terra, desde o barco no mar, desde mesmo o ar.
O fato de Hobsbaun dizer das massas percebendo a música, e dançando conforme ela se apresentava, com até uma qualidade não percebida antes por ele, nem pela academia, diz dessa música o que os dançadores de África sentiam ao redor do fogo, em noite de lua, ao som ancestral de tambores provocantes e incessantes (e não eram todos eles pigmeus de Bandar, observados pelo Espirito que Anda, o senhor Walker, a identidade secreta do Fantasma em qualquer geração da personagem imortal).
Eu não tenho reparos ao contexto, tenho algumas concordâncias com o Joca sobre o tratamento do texto, mas linguagem é mesmo assim, parte de grupos para outros grupos e vai afinando conforme se a exercita, até porque, nem todas as pessoas trabalham conceitos, escrita, fala e comunicação da mesma forma, fe-liz-men-te.
Também queria dizer que o observado pelo Hobsbaun (eu insisto no U porque ele mesmo fala disso na autobiografia) é correto.
Eu quero renitentemente afirmar que não há 'um nosso tempo outro' que esse de hoje.
Quiseste, por certo, dizer de um tempo em que éramos de juventudes outras, a alguns 'detalhes' fisicos e biológicos passados.
Se os comentários te parecem longos, não me importam que assim sejam, se dizem sobre o que pretendem, com a qualidade necessária. Algum trabalho sempre é necessário no garimpo e na lapidação mesmo de pedras brutas.
Mesmo uma conversa de bar, olho no olho, gera curiosidade sobre conceitos e termos ao ponto de nos levar a repensar práticas e consultar até dicionários.
A troca com o saber de outros não pode impor a anulação do espaço da manifestação de qualquer saber.
O rebaixamento do discurso não é requerido, o que é requerido, penso, é a qualidade do que o discurso vá comunciar; sutil, mas profunda diferença.
Inda sendo em português, citadas as fontes, vamos bem...
Um bom dia.
um beijo.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 7/7/2008 10:55
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Queridos Joca e Adroaldo,
bom dia. Só estou aqui agora por acaso pq já deveria estar trabalhando, mas contingências me prendem em casa. Então passei por aqui e sabem o que constatei? Que viver o mundo real - com as pessoas próximas da gente, podendo interagir, ou melhor, falando no pé do ouvido, com gestos, expressões faciais, proximidade do corpo - é milhões de vezes melhor do que viver no mundo virtual. Desculpe Joca e Adro, um dia vou a Oeiras, e depois dou uma passada em Porto Alegr, pra bater um papo com vcs e explicar tin-tin por tin-tin o que eu disse. Só de pensar no tempo que eu iria gastar para traduzir teclando o que falei em linguagem por demais didática (vcs têm razão), me desanima. E sabe Adro pq? Pq na interação virtual a gente diz uma coisa, o interlocutor entende outra, aí a gente explica daqui, o outro diz coisas que a gente sequer tinha cogitado e a conversa vai se esticando como conversa de doido. Com um chope na frente até que é legal e animado, mas desse jeito vai ficando mto cansativo. Por ex, o que vc explicou sobre hipertexto, a partir do Hobsbawn (mantenho o w porque é assim que o nome dele está grfado na capa do livro que tenho em mãos), em linguagem poética, é lindo, mas não dá conta de explicar o que o hipertexto representa na era digital, certo?
Esse parágrafo a seguir é de uma beleza sem par, mas não entendi o que vc quis dizer com ele. "O fato de Hobsbaun dizer das massas percebendo a música, e dançando conforme ela se apresentava, com até uma qualidade não percebida antes por ele, nem pela academia, diz dessa música o que os dançadores de África sentiam ao redor do fogo, em noite de lua, ao som ancestral de tambores provocantes e incessantes (e não eram todos eles pigmeus de Bandar, observados pelo Espirito que Anda, o senhor Walker, a identidade secreta do Fantasma em qualquer geração da personagem imortal)." Nem entendi o que isso tem objetivamente a ver com as questões que eu abordo.
Por isso, meus lindos amigos, pra não enlouquecermos os leitores, é melhor deixar do jeito que está.
Só uma última coisa: o que eu quis dizer sobre as diferenças que se colocam entre as nossas juventude e as de hj não são meros detalhes físicos e biológicos. São expressivas diferenças que são determinadas pelas revolução cultural que vivemos e que afeta, inclusive, o biológico.
Joca, enqto espero que as contingências se desenrolem pra eu poder ir pra uerj, tento explicar pra vc o que rola com a linguagem hipertextual que afeta a maneira de pensar das criaturas do tempo de hj. Essa tal linguagem supõe a sopreposição quase que simultânea das falas, o que não ocorre com o texto escrito, presente no livro, suporte ainda primordialmente usado pela escola. Então, essa sobreposição das falas, dos enunciados que os interlocutores usam para se comunicar, quebra, de certa forma, a linearidade canônica da narrativa escrita, estruturada de forma fixa. Desse modo, o pensamento que, no Ocidente, estava preparado para funcionar a partir da orienatção da cultura escrita - da esquerda para a direita e de cima para baixo - perde o pé, pira. Isso pq a lógica da tecnologia computacional - não linear - invadindo o ambiente, afeta o próprio funcionamento do cérebro que passa a não mais aceitar as mensagens cifradas com base na linearidade e na sequencialidade da cultura escrita. É como se as mentes hj pensassem a partir da lógica audio-visual. Isto, obviamnete, não significa que as crianças e os jovens não saibam ler ou escrever. Nunca se leu e escreveu tanto como hj, haja vista o orkut, o msn, os blogs, os chats etc, etc. O que rola é que nessas hípermídias a leitura e a escrita acontecem fora da "arcaica quietude do livro", num formato não linear, mais adequado à maneira pela qual o pensamento das crianças e dos jovens funciona.
Espero que agora tenha ficado mais claro.
Vou indo que as contingências me favorecem.
Beijos para vcs. e um ótimo dia.
PS Spirito se vc tiver alguma dúvida sobre o que falei aí em cima, me poupe da teclação. Conversamos pessoalmente. Como dizia minha adorada Clarice, escrever é duro feito quebrar pedras. Um dia ainda aprendo, é o que mais quero, a destituir a minha escrita do viés de poder que essa prática tem. Tenho esperanças que o convívio com as formas de escrever hipertextuais das crianças e dos jovens com quem convivo, que dobram a arrogância da escrita, me ensinem isso logo, logo.
Bj pra vc tb
Ize · Rio de Janeiro (RJ) · 7/7/2008 12:30
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Ize, primeiramente corrijo-me: Matéria bem interessante. No mais, me recuso a pedir desculpas pelo simplório e falho comentário. Em segundo lugar, deixo bem claro que a intenção não foi de criticar a classe das professoras, não me sobra cacife pra isso. A minha critica foi direcionada a atitude de um indivíduo que, por estar diretamente ligado ao público infanto-juvenil, poderia contribuir muito para o meu trabalho.
O que quis dizer e, acabou se tornando um ato falho, é que, se um elemento cultural exerce tanta influência e fascinação sobre variadas faixa etárias de consumidores, por quê não utilizar tais linguagens que despertam tanta paixão, para somar às ferramentas tradicionais de ensino?
Como jogos de vídeo game, mangás e principalmente os animes. O novo está aí, não dá pra simplesmente guiar-se de costas pra ele e, com radicalismos, questionar sobre os benefícios ou malefícios que eles podem trazer ao comportamento de nossos jovens e crianças.
Sem medo de aprender, pois são as palavras que têm poder...
“Então, pra mim, evento é um dia que eu posso ser quem eu sou, sem ter medo de errar, sem ter medo de falar besteira, porque eu sei que as pessoas vão estar me entendendo, porque elas são iguais a mim, elas estão aqui pelo mesmo propósito”, “Bom, pra mim o evento é um lugar especial. Um dia da semana que eu não tenho aborrecimento. Um dia só de alegria, um dia só de amizade, um dia de companheirismo. Você tá lá, você tá triste, as pessoas vêm, te acalmam, te fazem... sabe, melhor.”
Ize, obrigado pela categoria...
Sérgio Franck · Belo Horizonte (MG) · 7/7/2008 12:47
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Queridíssimo Franck, desculpar-se por quê? Fui até procurar se tinha | | | |