Com Eduardo e Mônica perto de completarem bodas de prata, vale a pena recordar o que acontecia quando eles se conheceram. Aquela festa estranha, com gente esquisita, não tinha uma trilha musical tão inovadora em termos de sonoridade, mas tornou-se uma identidade, imagem da juventude da época. Uma imagem tosca, mas real, talvez a única possível, diante das circunstâncias.
Tudo começou com Evandro Mesquita que, vindo do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, trouxe a linguagem teatral à sua banda Blitz, suas apresentações em palco e suas canções, a partir de “Você não soube me amar” que, em 1982, abriu as portas para o denominado BRock. Do grupo de teatro, também fazia parte a camaleoa Regina Casé. Da banda, Lobão e a carioca Fernanda Abreu. Marina Lima, Ritchie e Lulu Santos chegaram sozinhos, os dois últimos vindos de um grupo não muito conhecido, de nome Vímana, junto com Lobão. Num cantinho, meio deslocada, uma turma fazia uma festinha paralela: 14 Bis, Boca Livre e Roupa Nova.
Sem microcomputador, internet, telefone celular, CD e MP3, a informação era menos acessível. A televisão acabava de entrar na era dos vídeo-clips e as bandas de sucesso tocavam na rádio Fluminense e no Circo Voador, ambos no Rio de Janeiro, e apresentavam-se em programas de auditório como o Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. Rolava de tudo: Miquinhos Amestrados, Abóboras Selvagens, Kid Abelha, Kid Vinil, Absyntho, Herva Doce, Sempre Livre, Camisa de Vênus. Difícil descrever, por exemplo, a loucura que era a apresentação dos Titãs, com seus oito integrantes se espalhando pelo pequeno palco em performances alucinantes, em meio à gritaria do auditório, estripulias de Chacrinha, toques de sirene e requebros das chacretes.
O Rock in Rio I, ocorrido em janeiro de 1985, ajudou a consolidar o BRock como algo rentável para as gravadoras e, por conseqüência, a disseminar o surgimento de bandas que apareciam por todas as bandas, de qualidade ou não. Mesmo não fazendo parte de suas atrações, os grupos Titãs, Legião Urbana, Ultraje a Rigor e RPM alcançaram um maior destaque após o festival, o qual ajudou, também, a alavancar a carreira de grupos que já se destacavam, como Kid Abelha, Blitz, Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, este último protagonista de um de seus melhores momentos, quando Cazuza cantou, abraçado à bandeira brasileira, “Pro dia nascer feliz”. Era o dia da votação que elegeria Tancredo Neves presidente da república.
Nas escolas, na década anterior, os filhos da “revolução” cresciam tendo aulas de “moral e cívica”, que reverenciavam “nossos” presidentes. O movimento estudantil não tinha mais força, as manifestações culturais eram censuradas, a televisão deixava-nos burros, muito burros demais. Todo esse cerceamento de liberdade teve conseqüências na formação intelectual dessa geração perdida, que parecia de outro mundo, uns aliens alienados, que não tinham outra cara pra mostrar. Eram o fruto de todo esse lixo, “toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer”. Não havia outra saída: “vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.
Na década de 80, enfim, o sinal fechado do período de repressão tornou a abrir. Em 1979, veio a Lei da Anistia e em 1982, eleições diretas para governador, embora ainda não para presidente (Diretas já já). “Eu vejo a vida melhor no futuro”. Porém, o que fazer com essa senhora liberdade, que abria suas asas sobre nós? Que caminho seguir? Não sabíamos lidar com isso.
Por outro lado, se a política caminhava em direção a uma maior abertura, a liberdade sexual trilhava o caminho inverso: “meu prazer agora é risco de vida”. Frutos da revolução sexual dos anos 60, os jovens de então depararam-se com um vírus desconhecido, o qual, por ter sido, a princípio, entendido de maneira equivocada como exclusividade de homossexuais e africanos, alastrou-se rapidamente, resultado da filosofia egoísta dos “sem-risco”: “se não seremos atingidos, por que nos preocuparmos?”. Hoje, paga-se o preço por esse descaso.
Alienados, desiludidos, sem posições políticas definidas, “cansados de correr na direção contrária”, a seu jeito, os jovens protestavam: “indecente é você ter que ficar despido de cultura”, “as ilusões estão todas perdidas”, “os meus sonhos foram todos vendidos tão barato que eu nem acredito”, “meu partido é um coração partido”, “minha metralhadora cheia de mágoas”, “meu cartão de crédito é uma navalha”, “ideologia, eu quero uma pra viver”, “a gente não sabemos escolher presidente”, “ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação”. Que país é esse?
Outros, em crise de identidade, apenas experimentavam o inédito prazer de comprar um disco e gostar de uma banda da qual seus pais não gostavam, que tivesse suas caras. Como rebeldes sem causa (“como é que eu vou crescer, sem ter com quem me rebelar?”), querendo negar os preceitos de Belchior de que “nossos ídolos ainda são os mesmos” e que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como eles, queríamos nos sentir capazes de produzir algo de valor e não mais ter que repetir: “a gente somos inútil”.
Até que não nos saímos tão mal e, em meio ao lixo que cuspimos, pudemos garimpar e encontrar belas poesias expelidas por Cazuza, Renato Russo e Júlio Barroso, que poderiam ter feito muito mais, não fosse o destino tão cruel ao dizimar algumas das principais cabeças dessa geração. Herbert Vianna escapou por pouco e outros talentos também sobreviveram: Arnaldo Antunes, Nando Reis e Paulinho Moska, que à época rondava o lixo com música barata, junto com os Inimigos do Rei, entre outros.
O alívio definitivo e a certeza de que a década não fora perdida veio, então, quando escutamos Gal Costa, Caetano Veloso, Ney Matogrosso e Luiz Melodia cantando Cazuza, Chico Buarque cantando com Paula Toller, Tom Jobim com Marina Lima e Gilberto Gil cantando e compondo com os Paralamas do Sucesso, assim como exaltando o que acontecia, em seu “Roque santeiro – o rock”. O paradoxo estendido nas areias escaldantes, então, desfez-se, junto com um mar de dúvidas. Descobrimos, enfim, que poderíamos gostar desses expoentes da nossa geração sem romper com nossos grandes e insubstituíveis ídolos, os mesmos de nossos pais. Roqueiro brasileiro deixou de ter cara de bandido.
Sensacional! Realmente a ponte foi cambaleante pra quem seguia e seguiu.
Este texto é um dos meus. 85. Morava no Rio, Cazuza era a voz!
Poeta inesquecível da virada do BR.
Salvei o texto. Boa análise (musica/social/cultural). abç
Querido Paulo:
Mais do que uma simples reflexão, enxergo o seu texto como uma tese de quem muito pesquisou o assunto tratado. Admirável sob todos os aspectos. Parabéns
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Gostei muito do texto. Somos dessa geração meio "filha" de Eduardo e Mônica. Já fazem boda de prata? Lembro bem de quando a banda Blitz estourou e começamos a ouvir todos aqueles caras que vieram depois. Os adolescentes de hoje sabem dessa história toda? Que ideologia afinal escolheram para viver?
Lu&Arte · Porto Alegre, RS 10/1/2008 23:09
Mutito trabalho. Perfeito texto.
dmiro esta fase. Parabens Voto.
Oi, pessoal, obrigado pela força!
Meninas, lembro que assisti, vidrado, ao Rock in Rio I pela televisão, sobretudo por causa das bandas nacionais, enquanto na minha infância, nos anos 70, a música americana ainda dominava as rádios, apesar de tanta coisa boa sendo feita no Brasil. Goste-se ou não, o BRock tem esse mérito, difícil explicar isso aos mais novos...
Joca, muito obrigado, foi um tanto de pesquisa e um outro tanto de conhecimento de fã mesmo!
E prometo que vou dar uma olhada no Ousar!
Querido Paulo:
Tinha certeza deque vc era fã, pois, parodiando o Roberto Freire, Sem tesão não há tese que se sustente (esta é de lascar!)
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Caro Paulo. Adorei o seu texto. A Legião não foi apenas uma banda de Rock. Foi um grupo que soube transmitir através de suas músicas tudo aquilo que podemos sentir. Não é necessário ser fã de carteirinha ou tocar todas canções,.. apenas sentir e sentir com muito intensidade é o suficiente para gostar da Legião.
Não sei se você lembra do site LU.com.br, mas durante 5 anos, mantive sem fins lucrativos a memória da banda e do Renato Russo sempre viva através desse site que foi considerado o principal sobre a Legião na internet. Hoje em dia, não existe mais o domínio, mas ainda tenho o site guardado. Penso em doar para alguém que realmente cuide dele com a mesma seriedade e carinho que eu tive durante todo esse tempo. Já obtive inúmeras propostas, inclusive de compra, mas não é esse o objetivo. O Dado e o Bonfá, gostavam muito dele e tenho certeza que a família do Renato também sempre aprovou a minha iniciativa. Se você não conhecia, precisava ver.. como eram bonita as mensagens que os mais de 10 mil fãs cadastrados deixam no mural "Meninos e Meninas" e outras sessões especiais que eram dedicadas a poetas urbanos e a recados para o Dado, Bonfá, Renato... enfim, o que posso dizer é que seu texto me trouxe saudades.
Parabéns e ganhou meu voto!
Desculpem pelos erros.. acho que me empolguei. (rs)
Georges Kirsteller · São Paulo, SP 11/1/2008 16:56
Georges, obrigado pelo seu depoimento. Que bom que meu texto tá trazendo boas lembranças. Infelizmente, não conheci o site, mas imagino como ele deve ter lhe dado prazer e espero que você consiga colocá-lo no ar novamente, da maneira que melhor lhe convier, para o bem de nós todos, admiradores da legião. Depois, escreva sobre esse seu trabalho aqui, deve ter muito o que contar, seria legal.
Paulo Bap · Recife, PE 11/1/2008 17:53
Está bem, Paulo. Vou pensar no assunto. Pode ser mesmo uma delícia falar a respeito. Talvez, quem sabe, elaborar uma campanha para a doação do site. De repente, aparece um grupo interessado em tocar o projeto.
Georges Kirsteller · São Paulo, SP 11/1/2008 19:14Adorei o texto! Uma visão panorâmica sobre a importância musical dos 80! Parabéns!
Isabela de Sousa · Rio de Janeiro, RJ 11/1/2008 21:43
Muito bom, Paulo! Tá nos favoritos, até.
Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 12/1/2008 14:54
Obrigado, Isabela e Camila. Bom saber que vocês gostaram. E Georges, boa idéia, conte com meu apoio.
Paulo Bap · Recife, PE 12/1/2008 23:13Parabéns Paulo. Ótimo texto. Eu por ser jovem e viver em uma sociedade acomodada e influênciada por uma "pseudocultura", agradeço a meus mestres (professores, velhor amigos, escritores, músicos...) pela ótima educação que tive. Aprendir a gostar de bons livros, boas músicas... Paulo, são textos como o seu que dão estimulo a minha grande vontade de aprender mais sobre a verdadeira cultura brasileira presente em limitados lugares... Obrigado. Salve, salve os verdadeiros construtores da cultura brasileira. Salve Assis, Lobato, Chico, Cazuza, Legião... Abraço fraterno, Gladson Oliveira
GladsonOliveira · Belo Horizonte, MG 13/1/2008 00:52
Gladson, eu que agradeço e fico bastante satisfeito com suas considerações. Grande abraço.
Paulo Bap · Recife, PE 13/1/2008 22:29
Excelente texto!!!!
Fiz uma verdadeira viagem ao passodo...
Abraços
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