Tem que ir, tem que ver, tem que ouvir, tem que respirar fundo e se deixar penetrar por aquela mágica: um homem, um instrumento e a voz do deus da música falando através dele.
Adoro ir a salas de concerto, ainda mais quando o tempo fica assim, chuvoso e friozinho. Homens grisalhos usam golas rolê pretas e calças pretas. Mulheres usam écharpes de seda, brincos antigos, casacos de couro fora de moda. Botas com saias, batons cor de vinho, pérolas. Pra ouvir aquela música, há que se vestir bem. Lindo isso...
Jovens estudantes de música levam seus instrumentos e sentam na parte mais barata da platéia. Celulares tocam durante o show, uma mulher reclama com a dona do telefone, que retruca, ríspida: "Você tem filhos?" Ao que a outra responde com uma gargalhada cheia de sarcasmo, porém muda, pra nao atrapalhar o concerto.
Deveriam ser proibidos os perfumes doces em salas de concerto, aliás em todo o mundo. Ter-mi-nan-te-men-te proibidos! Quanto mais clássicas as mulheres, mais doces seus perfumes?
No intervalo, a gente compra balinha do lado de fora, na rua da Lapa, onde já tem um carro de xis-tudo aberto, tocando um funk batidão e por onde os vendedores de cachaça - a metro, e cruelmente flavorizadas com abacaxi, hortelã e morango - já circulam esperando o movimento da noite.
Termina o intervalo. Voltamos à Sala, passando pelo foyer lotado demais, cheio de fumaça de cigarros e cheiro de café. Sinto pena do Rio de Janeiro, pena do Brasil, pena de mim.
A sala é novamente envolta pela sublime música e pela respiraçao dos ouvintes educados, que esperam pra tossir entre os movimentos e sabem exatamente quando acabou a peça e já é permitido aplaudir.
Mas pena, mesmo, eu sinto, sobretudo, quando vejo aquele rapazinho magro, gay, solitário, barbudo, feio, excluído do mundo das bichas fortonas, das barbies lindonas, depiladas e perfumadas com o último lançamento das importadoras. Imagino-o voltando para casa, sozinho, tomando um copo de leite morno com biscoitos em frente à TV, até que chegue a hora de dormir.
Para isso serve a música de Bach. Para provar que a beleza é privilégio de todos...
*este texto foi publicado em 2005, qdo aconteceu esse concerto. Mas como a música é imortal, esse tempo não conta...
Muito bom seu texto. Parabens jornalista e cantora.
Cintia Thome · São Paulo, SP 30/6/2008 22:02
Mas naum tenha pena naum! Cada um de nós escolhe seu caminho. O texto flui tao bem ate ali.... nem precisava esta intervenção drástica, uma pincelada de pena... ficaria maravilhoso a crônica do teu olhar de pisinê! Esse insignificante detalhe da vida de um gay naum desmerece, mas nada acrescenta, apenas concentra tudo ali e tudo aquilo que era belo de palavras, texto, estrutura, se esvai... (na matéria argumentação da universidade, a gente aprende a limpar ate mesmo as virgulas e pontos a mais) Mas estou falando tudo isso como leitor. Como foi bom ler ate ali. Vc ja parou p pensar naquela mulher super vestida q estava lá? Pode ser q ela volte sozinha e mergulhe na solidão. O senhor gordo vai se embebedar em seus problemas. O Casal só de aparência aplaudiu a musica ao seu lado. E o gay, se vc pudesse segui-lo, quem sabe ele iria pra noite encontrar os seus. Quem sabe uma orgia boa, e sua cabeça so pode imaginar o contrario...
Abcs, e sucesso!
A propósito, desculpe minha ignorância mas na duvida verifiquei e naum eh pisinê e sim piciné ( óculos à la Rui Barbosa)
Nic NIlson · Campinas, SP 30/6/2008 22:41
nic,
qdo decidi publicar este texto, eu sabia que corria o risco de ser interpretada dessa maneira. Quase editei a tal passagem da pena, pra não ser mal entendida. Mas preferi correr esse risco e apontar o que me causou espécie a ser politicamente correta.
Falei dos estudantes de música que não têm grana pra pagar bons assentos, das mulheres que usam perfumes doces, das roupas de inverno fora de moda, das peruas que falam ao telefone durante o concerto. Falei de muitos detalhes que observei naquele momento, entre os quais estava o rapaz cujo ar de solidão me chamou a atenção. Talvez por conhecer a exclusão, por viver nesta sociedade de diferenças não aceitas, me identifiquei com ele e sua solidão. Fiz um retrato falado do que vi e do que senti, meu pince-nez, como vc mesmo disse. Meu coração está aberto, não me sinto culpada, preconceituosa, nada disso, estou apenas usando a minha linguagem coloquial pra me expressar sem rodeios. um beijo pra vc e obrigada por participar!
et vive le pince-nez !!!...é muito bom que exista gente talentosa que consiga precisar, em palavras, tudo aquilo que vivenciamos no nosso cotidiano. Parabéns!!! vc é muito boa.
Abraços
jocaluz, poxa, obrigada pelos elogios! beijo pra vc
andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 21:03
é inverno novamente. e aqui o sol tem insistido em economizar-se. aparições fantasmáticas. nem a música o traz. a lua fugiu, ruborizada talvez, pela cretinice do rei, astro em desalinho com a necessidade de mortais gélidos. e carregou todas as eestrelas. uma insistente neblina não lembra londres, recorda Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Alvorada, Gravataí, Canoas, Guaíba, Eldorado, Viamão... uma imensidão meridional sob o cinza.
e teu texto aquece, Andréa, mais que Bach, que para cello.
é tri-legal!
coisa linda a gente receber um comentário desses, que nem precisava ser sobre nada que já seria lindo! beijos pra vc
andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 23:58
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