Antônio Snake - O Buttman da Amazônia

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Vladimir Cunha · Belém, PA
6/3/2006 · 379 · 21
 

Fã de heavy-metal e devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Antônio Snake é só sucesso. Com receita infalível que consiste em sexo explícito (praticado só por paraenses) em belas paisagens da floresta, seus filmes começam a ganhar o mercado internacional

Antônio Snake é gente que faz. Ator, produtor, diretor, editor e distribuidor, ele é a peça central - na verdade, a única - da nascente indústria do filme pornô amazônico. Seus filmes vendem bem (só a série Cotijuba extremamente anal já está no volume 6), ele é reconhecido nas ruas, dá autógrafos e já não precisa mais implorar para que as mulheres participem de seus filmes. Além disso, Snake começa a experimentar um certo reconhecimento internacional, com filmes distribuídos na Holanda, Dinamarca e em outros países europeus.

Nada mal para quem, até pouco tempo, trabalhava como entregador em uma empresa de distribuição de gás de cozinha. Entre uma entrega e outra, Snake aproveitava para fazer fotos amadoras de sua namorada e de outras meninas com quem saía. Nessa época, o público das suas, digamos, produções se limitava a ele mesmo e ao segurança da empresa em que trabalhava, o maior incentivador para que ele largasse os botijões de gás e se lançasse na carreira de produtor pornô, segundo o cineasta. "O cara pirava nas minhas fotos e dizia que eu levava jeito pra coisa. Vivia metendo corda para eu comprar uma câmera de vídeo e fazer filmes. Até que recebi uma grana de umas férias e comprei uma. No início filmava e não mostrava pra ninguém. Ficava vendo sozinho e pensava "égua, bacana isso", conta ele.

O salto dos vídeos caseiros para a indústria do pornô só aconteceria em 1997, quando Snake tomou coragem e lançou Cotijuba - Ilha do Prazer devastação anal Vol.1, que, apesar de ter dado bastante dinheiro, rendeu 15 dias de prisão para o cineasta após ele ser acusado de usar menores de idade nas gravações. Depois de puxar uma cana, Snake foi inocentado, pois ficou provado que a menina falsificou a idade para participar das filmagens.

Como já dizia Malcolm MacLaren: "Não existe publicidade ruim, só publicidade". Após a sua prisão, o escândalo acabou atraindo o interesse local pelas obras de Snake, o que o levou a investir sete mil reais em uma seqüência para Cotijuba - Ilha do Prazer. Dessa vez foi tudo nos conformes e o filme vendeu bem, tanto para as locadoras quanto para o mercado de vídeo doméstico.

Atualmente Snake comanda a Amazônia Sex, uma pequena produtora de vídeo encarregada de produzir e distribuir os seus filmes. A temática continua a mesma dos tempos de Ilha do Prazer: o sexo explícito protagonizado por paraenses aliado às belas paisagens da região amazônica e aos pontos turísticos de Belém do Pará. Para o cineasta, além de ser um diferencial dentro das produções brasileiras, essa postura é também uma jogada de marketing. "Tudo meu é regional e eu faço questão disso. Tu nunca vai comer aquelas loiras dos filmes da Private, rapaz. Mas as meninas que eu uso nos meus filmes são meninas comuns, daqui de Belém. Podia ser a menina da tua escola, do teu prédio... É por isso que o meu slogan é "Uma delas pode ser a sua vizinha". Isso dá certo porque o cara se identifica e fica naquela expectativa de ver transando uma menina que um dia pode ser acessível a ele. Tanto que o que tem de gente que liga aqui querendo saber delas não é brincadeira", explica.

Apesar do regionalismo de seus filmes, só não vá falar para ele de carimbó, tecnobrega e outros ritmos paraenses, pois o negócio de Snake é mesmo o rock, especialmente o heavy-metal. "As trilhas dos meus filmes sempre trazem grupos de rock. Odeio brega. Dia desses até briguei com a vendedora de uma loja de surf daqui. Cheguei lá e tava tocando Banda Calypso. Porra, brother, Calypso em loja de surf? É um desrespeito. Mandei a dona da loja tomar no cu e não voltei lá nunca mais. Eu gosto de rock. E só atuo usando camisas do Iron Maiden, dos Misfits e do Whitesnake, os meus grupos preferidos. Aliás, "Antônio Snake" é uma homenagem ao Whitesnake, a banda de rock que mais curto."

Mas e a opção pelos monumentos e prédios históricos de Belém? Seria a produtora de Snake uma espécie de Paratur pornô? É possível que sim, já que outra de suas manias é mostrar os pontos turísticos da cidade em seus filmes. Até mesmo como forma de acabar com certos preconceitos com relação ao Norte do Brasil. "O Buttman faz os filmes dele em Los Angeles, mostrando pro mundo a cidade em que ele mora. Eu, como não posso ir pra lá, faço os meus no Ver-O-Peso. Assim eu mostro que aqui em Belém a gente não vive no meio do mato, que não somos um bando de gente atrasada. Outro dia eu tava em João Pessoa filmando e um cara veio perguntar se aqui em Belém a gente morava em oca. Porra, brother, não me fala de oca. Oca eu só vi uma vez e foi pela televisão. Fico puto com isso."

Tudo bem. Mas é o próprio Snake o primeiro a admitir que foi a novidade de ver um filme pornô feito na Amazônia - no imaginário mundial uma região exótica, repleta de índios, animais selvagens e florestas exuberantes - que lhe abriu as portas do mercado internacional. Especialmente para a Europa, onde os filmes da Amazônia Sex começam a chegar nas lojas e locadoras especializadas. Cidade portuária e porta de entrada para a região amazônica, Belém tem uma longa tradição de zonas de prostituição. E foi observando o movimento dos lupanares da cidade que Snake sacou do que os gringos gostavam. Pensando nisso, começou a perceber que existia um mercado fora do Brasil que poderia ser explorado pela sua produtora. "Gringo não tem muito luxo com mulher, basta ser brasileira. Se for da Amazônia, melhor ainda, porque os caras lá fora piram nesse lance. Agora tu imagina fazer isso com mulheres bonitas. É sucesso na hora. O nome Amazônia é muito vendável. Basta ter Amazônia no meio pra vender. É nisso que estou investindo. Já vendi filmes para a Dinamarca, Holanda e agora recebi uma proposta do Japão, de distribuidoras de lá querendo comprar os meus filmes", revela Snake.

De fato, parece que os negócios do cineasta têm progredido. Um filão explorado por ele de uns tempos para cá é a produção de filmes para consumo privado. Casais que têm fantasias de fazer um filme pornô, mas não têm coragem de se expor, contratam Snake para que ele dirija produções caseiras que nunca vão chegar às locadoras. Algumas, dependendo da animação do casal, trazem até o cineasta como um dos protagonistas. Segundo ele é um mercado em crescente expansão, que lhe rende viagens constantes para o interior do Pará e outros estados da região Norte.

Talvez seja essa aceitação do seu trabalho por parte do público local que tenha contribuído para que ele comece a sair da marginalidade. Volta e meia Snake é reconhecido na rua e encontrar mulheres para estrelar as suas produções já não é mais uma missão impossível. "Hoje em dia as meninas me ligam, vêm aqui na produtora, me abordam na rua… Acho que além da grana as pessoas têm uma fantasia de querer fazer filme pornô. Só pode ser. Aliás, outro dia aconteceu um negócio engraçado. Pode não parecer, mas eu sou um cara bastante religioso. Não perco uma novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Pois então, eu tava na missa e um casal me abordou perguntando se eu não era o Snake. Disse que sim e começamos a conversar. Eles eram meus fãs. Volta e meia tô na reza e alguém me reconhece".

Mas não seria o catolicismo uma atividade incompatível com a profissão de ator e diretor de filmes pornô? "Não pra mim, cara. É só um emprego como outro qualquer. Além do mais quem paga as minhas contas sou eu e não o padre. Eu sei o que faço da minha vida."

É então que Snake aproveita para falar que a carreira de produtor pornô em Belém do Pará não é tão tranqüila quanto se pode imaginar. Uma de suas principais reclamações ainda é o preconceito contra a profissão, segundo ele um dos principais empecilhos para que ele rode o seu primeiro filme gay, uma exigência antiga dos fãs. "Os gays dão muito em cima de mim. Onde me vêem eles me abordam, dão cantada, querem conversar. Mas até agora não consegui que eles topassem participar de um filme meu. Ainda tem muito preconceito contra a profissão aqui em Belém e eu acho que eles não topam trabalhar comigo com medo de ficarem estigmatizados. Só que isso está mudando aos poucos, tanto que com a maioria das mulheres eu já não tenho problema nenhum", comemora.

Ainda que modesto, o negócio de Snake vai bem, o que lhe permite, inclusive, produzir sem precisar entrar no incrível mundo das verbas públicas e da captação de recursos. Os sete mil reais que, em média, ele precisa para rodar um filme saem do lucro obtido com produções anteriores. Não que o cineasta não tenha tentado se aproximar de outros produtores locais, mas a dificuldade e a burocracia em criar projetos e captar recursos fez com que ele optasse por fazer seus filmes de maneira independente. "Fui lá no Palacete Bolonha participar de uma reunião de cineastas paraenses", conta Snake, "Chegou uma hora em que tínhamos que levantar e dizer o nosso nome e o que a gente fazia. Levantei e disse que era o Antônio Snake, produtor, diretor, ator, editor e diretor de filme pornô… Rapaz, ficou todo me olhando… meio espantado. De repente uns e outros começaram a dizer "ê, rapaz, eu já vi o teu filme, eu sou teu fã". Ficou nessa história até que eu disse: 'Tá vendo? O meu filme vocês já viram, agora o de vocês eu nunca vi. Enquanto vocês pedem uma fortuna pra fazer esses curtas que ninguém vê, eu meto a cara e faço os meus e todo mundo me conhece. 70 mil pra fazer um curta de 15 minutos? Com 70 mil eu faço logo é dez filmes. É filme que nem presta. Faço dez filmes, tiro mil cópias de cada um e vendo o DVD a R$ 40. Calcula quanto eu ia ganhar. Além do mais, pra que vou meter em lei de incentivo? Ninguém nunca ia patrocinar um filme meu mesmo. Prefiro continuar independente e fazer tudo do meu jeito'."

Sábias palavras, caro colega, sábias palavras.

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André Maleronka
 

D E M A I S !!

André Maleronka · São Paulo, SP 5/3/2006 09:35
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Ricardo Sabóia
 

O Pará sempre na vanguarda! Muito bacana.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 7/3/2006 14:59
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Natacha Maranhão
 

O Pará sempre surpreendendo!!
A matéria tá excelente, Vlad. Parabéns!

Natacha Maranhão · Teresina, PI 7/3/2006 17:44
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Carol Assis
 

Ei Vlad, saudações amapaenses! Muito boa matéria. Parece que o Snake já tá até influenciando a galera em Belém do Pará. Pode ser acaso mas o Fausto Suzuki me mostrou um vídeo chamado Os Grandes Pensadores III (era três se não me engano) que uma galera aí fez. Só que a pornografia era do tipo bizarra e tinha uns trechos de um texto do Walter Benjamim no fundo... acho que era "A obra de arte na épo

Carol Assis · São Paulo, SP 7/3/2006 19:13
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Yuno Silva
 

fala Vlad, manda uma cópia autorizada via creative commons pra cá 'rapá'. muito boa a matéria, realmente impressiona a criatividade artesanal nesse país continente!

Yuno Silva · Natal, RN 8/3/2006 01:28
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Maíra Ezequiel
 

incrível essa figura, hein? demais o texto, vlad!

Maíra Ezequiel · Aracaju, SE 10/3/2006 17:45
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sibilante
 

Vladimir, excelente matéria. Antõnio S. traz divisas preciosas ao país. Lula certamente ira ver os filmes (em cópia não pirata !) de Antonio S. em Brasília.

sibilante · Rio de Janeiro, RJ 11/3/2006 09:26
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bia moraes
 

Genial: a pauta, o texto, o personagem, a história. Só faltou a foto dessa figura.

bia moraes · Curitiba, PR 11/3/2006 21:10
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Gui Moura
 

Huhuhu... fazer filme XXX por lei de incentivo seria o máximo! Poderia entrar como incentivo ao turismo e exportação das raízes brasileiras. Afinal, o que é mais promiscuo que a divisão das verbas públicas pra cultura ?
agora sério... tem uma entrevista (de 2003) com 'Snake' no B*Scene: http://www.gardenal.org/bscene/cinema/snake.htm
vale uma lida &059;)

Gui Moura · Recife, PE 11/3/2006 21:59
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Glauber Uchôa
 

Fala Vlad,
Boa matéria!
Abraço.

Glauber Uchôa · Fortaleza, CE 23/3/2006 14:57
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Jarmeson de Lima
 

Pois é, juntar exotismo cultural, o fetiche internacional pela Amazônia, mulheres brasileiras e, principalmente, é claro, sexo. É uma receita de sucesso.
Há algum tempo, e talvez haja ainda, um videasta de Caruaru fez grande sucesso dirigindo produções pornôs com "atores" locais. A identificação do espectador de filmes pornôs em locações que lhe são familiares dá um atrativo a mais.
Por isso é que, novamente, aqueles diretores gringos piram tanto em vir pro Brasil e "escolher" atrizes no calçadão de Copacabana.

Jarmeson de Lima · Camaragibe, PE 3/4/2006 18:47
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Daniel Cariello
 

Tô procurando os filmes dele no shareaza. Fiquei curioso. Excelente matéria!!!

Daniel Cariello · Brasília, DF 3/4/2006 23:36
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Coletivo Rádio Cipó
 

ótima matéria, acho que até poderiamos fazer um trilha sonora especial num filme dele.
abs
carlinhos vas

Coletivo Rádio Cipó · Belém, PA 10/4/2006 18:31
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escaber
 

Pô Puta man... tu tens razão mesmo. R$ 70000,00 pra um so film é grana mano. Mesmo se pra fazer um film pra cinema isso ai é merda pouca.
Eu faço documentario, não tenho o sucesso que encontras na tua terra, muito menos o que conheces la fora. Na verdade meu trabalho é bem acolhido mas pouco comercializado e eu não estou esquematizado pra fazer uma produção comercial.
Mas, ja que tu é empresario e que andas de vento em popa. Porque não finanças os filmes dos outros? Eu com R$ 7000,00 faço 5 documentarios de 26 minutos pra TV e ando buscando parcerias. Toparia um documentario sobre teu trabalho?
Pois sim! Pareces mesmo uma figura brasileira, vivendo as contradições desta terra na pele... e com sucesso. Não é piada, vale o exemplo. Precisa acreditarmos no que somos capazes de fazer sem medo de censura... sem medo da auto censura que é pior que o caso de consciência.
Parabens ao autor da materia, parabens ao artista... to procurando ver se acho alguma video por ai.

escaber · Rafael Godeiro, RN 28/4/2006 18:53
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SILVASSA
 

Grande matéria!

SILVASSA · Salvador, BA 1/9/2006 19:45
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SILVASSA
 

bota um link aê

abçs

SILVASSA · Salvador, BA 1/9/2006 19:47
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loura do filme
 

Cotijuba ilha do prazer volume 1, foi o único filme que fiz, como toda estréia eu estava nervosa mais foi uma experiência, Antonio Snake você esta de parabéns.

loura do filme · Ananindeua, PA 7/2/2007 12:03
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Nelson Maca
 

Boa matéria Vladimir!!
Será que o SNAKE já pensou em fundar uma ONG???
Não tem o que elas não consigam.

Nelson Maca · Salvador, BA 9/2/2007 02:51
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Pedro Vianna
 

Demais a matéria! Viva a pornoparaensidade!

Pedro Vianna · Belém, PA 13/2/2007 18:01
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mormaxrocha
 

Antônio Snake, quero ser um ator pornô, me contrata vai!!

mormaxrocha · Belém, PA 17/7/2007 18:58
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Martinha Rodrigues
 

kkkk, também quero ser um ator porno. Me contrata! Muito interessante o texto.

Martinha Rodrigues · São Paulo, SP 7/7/2014 23:47
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