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Os Mechanics dentro de sua cidade-robô, Goiânia
Áudio
Cow - música para a vaca que amamentou S.F., cidade-fortaleza-andante (2.3 Mb)
O disco começa com uma música chamada The End (O Fim) e termina com The Remains (Os Restos). Respirei aliviado. Pelo menos sobrou alguma coisa depois do fim... Mas, ressabiado, fui ver como acaba a letra da última música: "Horror will be spread" (o horror vai se disseminar). Caramba! Será preciso mesmo enfrentar a audição, nesse caminho do fim para o horror? Márcio Jr., no prefácio de Music For Anthropomorphics/Música Para Antropomorfos, pragueja: espero que você sofra. Eu, que não vejo utilidade, mérito ou charme no sofrimento (concordo com quem diz que podemos aprender muita coisa sofrendo - já sofri o bastante para saber disso e também que é muito melhor aprender as mesmas coisas com a alegria), quase desisti da audição. Ainda bem que coloquei o CD para tocar. Não sofri não. Tive um dos melhores momentos mais "animados" da minha vida.
Music For Anthropomorphics/Música Para Antropomorfos é um disco e também um livro. Os dois trabalhos se complementam de maneira que eu saiba inédita. Podem até ser "consumidos" de maneira separada, e se sustentam sem depender um do outro. Porém o mais interessante é ler e ouvir ao mesmo tempo. Até porque suas gêneses são totalmente interdependentes. Music For Anthropomorphics é o disco da banda goiana Mechanics, mestre no cruzamento entre extremos do hardcore-metal e da pancadaria industrial etc. Música Para Antropomorfos é história em quadrinhos de Fabio Zimbres, um dos mais criativos artistas visuais brasileiros. Tudo teve início com as músicas sem letras, que foram enviadas para o Fabio e voltaram em forma de um roteiro, que foi transformado nas primeiras letras num esquema de ida e volta de desenhos/sons/palavras que durou de março de 2004 a maio de 2006 - dois anos de intensa fertilização entre campos artísticos. O resultado, lançado no final de 2007, é brilhante e mostra como são necessárias mais parcerias como esta entre criadores de formações/expressões diferentes (neste caso, como diz o Márcio Jr.., entre o "rock sujo e doente" e o "quadrinista-artista-designer-esquizóide").
O livro e o disco são vendidos num mesmo pacote. A reunião de boas idéias pode ser percebida já na embalagem: o encarte do disco atua como uma espécie de sobrecapa do livro, um trabalho envolvendo e protegendo ("dando cobertura para" - agradeço aqui ao meu amigo Branco Mello que um dia me disse que amigo serve para dar cobertura para amigo) o outro. Cada detalhe tem mil e uma utilidades e pode ser visto/ouvido/usado de acordo com a preferência e o estado de espírito de quem se relaciona com a(s) obra(s). O encarte/sobrecapa pode virar um belo e também esquizóide pôster, dignamente emoldurável. Numa advertência no início do livro, um texto "sério" nos ensina a ler seu conteúdo de forma linear, de cima para baixo, da esquerda para direita, da frente para os fundos (isto aqui não é um mangá!). Mas admite: "não devemos nos sujeitar a essa ditadura se quisermos usufruir de toda a obra". Evidentemente: o ouvinte/leitor pode "circular" não apenas testando ordens aleatórias das faixas e páginas, mas também entre idas e vindas do CD ao livro, num shuffle transmídia. Milhares de combinações, sempre surpreendentes, são possíveis.
Cada faixa corresponde a um capítulo, mas não necessariamente o capítulo da faixa é o que mais "esclarece" sua audição. Mesmo os títulos ganham traduções-transposições sugestivas: por exemplo, a faixa 7 se chama Fever (Febre) e o capítulo 7 é Felicidade Viral - o que pode ser a mesma coisa, dependendo do gosto do freguês... O bom é que muitas faixas são bem curtas (quase todas não completam 2 minutos) e então várias delas podem ser ouvidas enquanto lemos um único capítulo. E vários capítulos podem também ser lidos/vistos durante a introdução de uma microfaixa. Ou não. Alguns capítulos contêm doses não-homeopáticas de texto, alguns dos mais bem escritos dos quadrinhos nacionais. Então, digo mais uma vez, a navegação da(s) obra(s) pode ser feita por uma estonteante e jocosa infinidade de caminhos, lineares ou não.
Tanto o livro quanto o CD são construídos em cima de uma trama que nem Philip K. Dick em conversação delirante com William Burroughs ousariam imaginar: as andanças e guerras de duas gigantescas cidades-robôs, S.P. e S.F., que carregam entre si milhares de habitantes adequadamente problemáticos. Fiquei fã de uma vaca extremamente mal-humorada que desanca com todos os candidatos a escritores de S.F. Ela mereceria estrelar numa longa série de histórias em quadrinhos. Aliás os debates artístico-filosóficos em S.F. são todos antológicos. Fabio Zimbres está em sua melhor fase, sem papas na língua e no traço pós-tosco (na verdade nada tosco, tudo ali tem uma sofisticação mais que evidente). Pena que seus lançamentos não tenham mais destaque, para mais gente ter acesso a suas boas invenções. Fui procurar o que havia de reflexão sobre seus outros trabalhos (e mesmo sobre Música Para Antropomorfos) na internet, para colocar links por aqui. Não encontrei nenhuma entrevista ou análise mais aprofundada, mesmo com muita gente o chamando de gênio ou superlativo merecido semelhante. (Aliás existe pouca reflexão e informação sobre o estado atual dos quadrinhos brasileiros, mesmo com muita gente bacana produzindo por todo o país - seria ótimo que aparecesse mais textos sobre quadrinhos aqui no Overmundo).
O CD leva a trama para outras paisagens sonoras (com letras que acrescentam informações, inclusive "saudações" para Nietzsche, à história dos quadrinhos). A produção, do Mechanics com o Iuri Freiberger (que também é baterista da Tom Bloch), é uma das mais impactantes do rock nacional recente (escute os discos num equipamento bom - os MP3s disponíveis na internet, inclusive o que está aqui do lado deste meu texto, dão apenas uma pálida idéia do som pra valer). Tem o peso alucinado-progressista do que mais gosto pelo mundo afora: as últimas experiências do System of A Down ou do Mars Volta. Começa com sinos bem goticamente artificiais, passa por guerras sonoras violentas, e termina num mar de microfonias e outros barulhos abissais. Clima ideal para recomeçar a ouvir/ler tudo novamente.
No seu prefácio, Márcio Jr., vocalista dos Mechanics e autor das letras com Fabio Zimbres, diz também que o livro/disco é a "experiência empírica" de sua dissertação de mestrado em comunicação, que teve como tema as "possibilidades de interface" entre rock e quadrinhos. Fiquei com pena do texto da dissertação não vir junto com o pacote Music For Anthropomorphics/Música Para Antropomorfos (quem sabe ele se anima a publicar a dissertação aqui no Overmundo - sou pidão mesmo...) Haveria ainda mais (mesmo com as combinações infinitas: parou por quê?) possibilidades de boa circulação dentro da(s) obra(s).
tags: Goiânia GO musica quadrinhos rock-brasileiro fabio-zimbres mechanics monstro-discos
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Ei Hermano!
Então somos integrantes de um grupo de pesquisa em comunicação e cultura aqui na UFES (Federal do Espírito Santo)
Segue o texto de uma integrante do grupo...
Cultura popular nos meios de comunicação de massa? Esta foi a pergunta que me veio a cabeça quando assisti pela primeira vez o programa Central da Periferia. De início fiquei impressionada, já que, muito bem apresentado e longe de interpretações estereotipadas, se tratava de manisfestações culturais até a pouco marginalizadas pela televisão. Fiquei curiosa. Como estudante de origem popular e com uma grande afinidade pelo tema, senti a necessidade de compreender como se dá esse processo cultural nos meios de comunicação da contemporaneidade.
Com o título O popular no Programa Central da Periferia, comecei a desenvolver um projeto de pesquisa que tratasse da questão apresentada acima. A pesquisa seria dividida em dois momentos: o primeiro, já iniciado em meados do ano passado, se realizaria com leituras acerca da discussão de cultura, a fim de me proporcionar uma fundamentação teórica sobre o tema. O segundo momento se daria com o desenvolvimento de análises acerca do programa. Atualmente, a pesquisa se encontra nessa fase, tornando-se necessário a posse dos episódios do programa.
É nesse sentido, que venho solicitar a possibilidade de empréstimo ou doação dos episódios de maio de 2006 a maio de 2007, período que será abrangido pela minha análise. Em último caso, poderei efetuar a compra, entretanto, peço a compreensão da equipe, pois sou voluntária da pesquisa e não recebo nenhuma ajuda de custo para o desenvolvimento da mesma.
Agradeço desde já a colaboração de todos,
Tatiany Volker Boldrini, Estudante de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo, voluntária do grupo de pesquisa de percursos culturais em comunicação, orientado pelo professor doutor Alexandre Alvarenga Curtiss.
Abração
wlmansur · Vila Velha (ES) · 21/3/2008 13:13
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oi wlmansur: teria sido melhor você ter enviado esta mensagem para o meu perfil, pois meu post aqui trata de um outro assunto... vou responder privadamente, ok?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 02:09
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Hermano,
Imagino que o trabalho do Mechanics e do Fabio Zimbres seja super relevante (o do Zimbres é bem legal, pelo pouco que pude ver naquele blog linkado). Achei contudo que o diálogo meio aleatório-meio premeditado entre as linguagens, pelo que você narra, tão entusiasticamente, sendo uma idéia bacana (apesar de recorrente) não aparece no post já que, a única faixa de streaming soa (pelo menos para mim, que sou um leigo em música gringa anglo-saxônica) como apenas mais uma banda de heavy metal com um vocal meio inaudível)
Fiquei sentindo falta de mais informações audio-visuais sobre os caras.
Uma coisa no entanto me chamou mais a atenção ainda, me suscitando uma questão que, aliás, poderia até ser discutida aqui no Overmundo, induzida por certas características do trabalho dos caras, indicadas pelo seu post-release:
Primeiro: O texto do material-texto também é em inglês, como as letras das canções?
Segundo: Como um usuário normal que, como eu por exemplo que não compreendo inglês e nunca convivi, suficientemente, com música popular inglesa ou norte americana, vai poder avaliar o trabalho dos caras? Fica boiando na 'parada'?
3- Tá bom, eu sei que os caras são brasileiros, e de Goiás! Sei também que compor em inglês (as vezes até em 'ingrês') é uma nova onda das modernas bandas de Rock Brasil, mas, convenhamos, em se tratando do Overmundo e de suas regras - que, até eu, ainda considero nacionalistas demais- não seria o caso de estimular um debate?
Me lembro que ali por volta do início dos anos 80, participei como representante do Vissungo, das reuniões da SOMBRAS que culminaram com a criação do ECAD. Uma das principais questões a certa altura era definir, para efeito de reserva de mercado (ou coisa que valha), o que seria MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. A questão, é claro, era muito polêmica (xenofobia?) e após longos debates em Brasília, por preguiça ou por pressão de algum lobby fonográfico ganhou a seguinte definição: "Música Popular Brasileira é tudo aquilo que é cantado em língua portuguesa". Apesar de achar reserva de mercado um equívoco (neste caso) minha opinião era bem outra. A do Aldir Blanc e de outros tantos também. Venceu o ramerrão.
Enfim.
Sugiro uma conversa aqui, mais ou menos por aí.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 09:37
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parece boa a dica do Hermano. Fábio Zimbres é top. Fui no lançamento da revista-objeto Charivari, no SESC Pompéia. Além dele, outros tantos bons, muito bons. Pouca mídia. Triste. Sobre cidades caminhantes, há uma tese aqui.
Na vida real, Zaha Hadid já deu a largada. Sobre a discussão proposta por Spírito, citando Sahlins, ela é Borrrrrrring!
Kuja · São Paulo (SP) · 22/3/2008 12:51
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Kuja,
Borrrrrring??? Was ist das?
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 13:19
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oi Spírito Santo: nos links do meu texto acima dá para ouvir várias músicas dos Mechanics e também conhecer melhor o trabalho do Fabio Zimbres
quanto ao inglês, no meu post A xenofobia e o Overmundo eu tentei discutir o tema, e não saberia acrescentar muito ao que está dito por lá... apenas cito aqui novamente, um trecho que estava na primeira Ajuda do Overmundo, mas que foi resumida (mantendo o mesmo espírito, mas sem a profusão de exemplos) pois todo mundo reclamava que era muita coisa para ler:
O foco do Overmundo é a diversidade da cultura produzida no Brasil. Preferimos falar cultura produzida no Brasil, no lugar de cultura brasileira, para não entrar no debate interminável sobre a definição do que é brasileiro ou não. Sabemos que essa definição muda de acordo com a região geográfica, o grupo social ou a época histórica. Claro que podemos falar de punk cantado em inglês ou haicai escrito em japonês desde que tenham sido criados no Brasil. Mas mesmo com essa definição aberta, o Overmundo não é o local adequado para você publicar um texto sobre o último livro do Harry Potter, a não ser que fale sobre como o livro é recebido no Brasil, ou é lido pelas crianças brasileiras. Outro exemplo: se você quiser publicar uma crítica sobre o último disco do White Stripes, por favor procure outro site (há muitos que vão ficar felizes em receber sua contribuição); mas se o seu texto for uma crônica sobre a passagem do White Stripes em Manaus, com reflexões sobre a cena do rock indie na Amazônia, isso sim tem a cara do Overmundo.
abs
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 16:10
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ps: os textos do livro são todos em português - o encarte do disco é em inglês
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 16:16
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Hermano,
Agora saquei a parada! Posso Entender o'xenofobia e o Overmundo com outros olhos. havia feito uma leitura bem mais 'nacionalista' e radical. É bem na linha do que se decidiu lá atrás, quando se criou o ECAD. Esta nova compreensão pra mim cai como uma luva porque estou mergulhado até à cabeça em letras - e artistas- da música Angolana, Moçambicana, da África do Sul, etc. reelaboradas aqui no Brasil pelo meu renascido Grupo Vissungo.
O fato de serem letras e conceitos nas línguas Kimbundo, Lingala, Shona, me intrimidavam de escrever mas agora, não só relaxei, como arranjei um filão para muitos novos posts.
O Brasil é o Brasil de cada um de nós! A pátria não é mais a língua, é o lugar.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 16:48
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olá spírito: eu diria que a pátria não é mais a língua nem o lugar: é um estado de espírito!
Kuja · São Paulo (SP) · 22/3/2008 17:50
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Kuja,
É. Deve ser por aí: Pátrias virtuais, idealizadas, individualizadas, cada um 'na a sua e a amizade continua'. Milhões de países-pessoas andando por aí. Pátrias-pessoas semelhantes se organizando em continentes fantásticos (antropomorfos unidos?).
E já que o papo é mesmo assaz cultural, será que não estaríamos diante do que se poderia chamar de O Paradigma da Babel invertida, aquele momento meio 'ninguém mais se entende' (embora invertido, já que todo mundo tenta se entender em inglês - num monoglotismo de apavorar javanês), aquele momento crucial que obrigou Deus a dar aquele 'freio de arrumação' na civilização humana?
Ou, como diria o Chacrinha, 'na natureza (na TV) nada se cria. Tudo se copia.
But, fazer o quê? Com a licença do Curiamdamba e do Curiacuca: So ist das leben, meine liebe freunde! So ist das leben!
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 18:29
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E não é que é isto mesmo? vejam só este post do Maxwel, nosso homem no Japão.
Italobrasileiros, teuto-brasileiros, sinobrasileiros, afrobrasileiros, sirio-libaneses-brasileiros, uní-vos! Façamos como os anglo-americo-brasileiros: Ampliemos à larga o nosso conceito de cultura brasileira. A brasilidade ampla geral e irrestrita do Overmundo pode ser o passaporte perfeito para entrarmos de vez, na sociedade globalizada (pelo menos a da internet).
Xenofobia go home!
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 22/3/2008 18:58
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Em sendo assim, o território fica pros espertos explorarem a força de trabalho e reproduzirem aqui o capital que nos aplasta.
Me incluam fora dessa que tenho filhos e netos morando bem aqui sem green card (aliás, aquilo tá uma zona mandada por sacana com a tragédia da economia de guerra deles).
Ainda penso que música pode ser agradável também ao ouvido.
E alerto que continuo gostando de Jimmi Hendrix.
Letra de música também pode ser mais um instrumento da banda, mas prefiro que seja poesia ou toque de inteligência.
Ferreiro-araponga em condomínio urbano é pior que o vira-latas aqui de casa... late pra qualquer passante e mesmo pra sombra dele.
É som também, o que os bichos emitem, de caráter universal a língua deles.
Latido é latido em qualquer parte.
Além de ser o que digo apenas o que penso, é só um gosto, pouca diferença fazendo para quem se enrosca noutras.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 22/3/2008 21:25
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acabo de voltar de um passeio que me fez perceber, mais uma vez, que minhas pátrias são muitas (sem contar as mátrias e fátrias etc.): comecei na deslumbrante exposição tropical do CCBB (me senti irmão de índios das Filipinas, de sacerdortes de Indra na Índia e de Oxum no Benin, de bordadeiras da América Central e de artistas conceituais alemães) - depois samba da Rua do Ouvidor (hoje totalmente bombado depois da matéria do Globo), onde dei um alô para meus amigos da excelente livraria Folhas Secas (sou carioca?) - depois passei no Tambor de Aleluia, na Rua do Mercado, com direito a carimbó e ladainha do Divino (sou maranhense, paraense?) - depois a Vigília Pascal no Mosteiro de São Bento (que tem, na minha opinião, a igreja mais bela do mundo, mesmo em reforma, junto com a São Francisco, de João Pessoa, onde nasci - sou paraibano?), com benção do fogo e canto em latim (sou ainda súdito do Império Romano?) e leitura cantada do início do Gênesis (quando Deus cria tudo e vê que tudo é bom - sou ainda nômade, vagando por desertos em torno do Monte Sinai?) - e tudo foi de graça (como tem gente que ainda reclama que não acontece nada de bom?) - o que tornou melhor ainda minha peregrinação identitária...
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 00:47
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para evitar que me entedam mal: quando falei em "gente que reclama que não acontece nada de bom" não estou me referindo a nenhum dos participantes desta conversa aqui nos comentários
outra coisa: Kuja: muito boa a tese sobre cidades caminhantes
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 01:05
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Pô, Hermano,
Entendi mal sim (mas acho normal).
Até agora são só três no papo, você nesta de cidadão das pátrias boas do mundo (e sobre as outras pátrias? Emudecemos?), ressalta só um dos convivas como bom de tese, ora, os pessimistas citados só poderiam ser os outros. Sem problemas. Eu mesmo me assumo como chato de galocha mesmo. É este o meu jeitão: Gosto de falar de mazelas, de tocar em feridas, de sarcasmo, de ironia. Como todo mundo, escrevo e comento, como e sobre o que me interessa e mobiliza. Fazer o quê?
Mas, voltando ao assunto, sem salamaleques: Qual seria o problema de se discordar da relevância para a cultura brasileira da existência de bandas de heavy metal de Goiânia? (aliás, porque tantas bandas de rock em Goiânia?)
Porque deveria eu achar moderno (ou mesmo importante) esta garotada cantando e escrevendo em inglês, simplesmente, imitando bandas gringas? Quer saber? Acho aculturado, colonizado, submisso, um comportamento, uma atitude constrangedora, digna do século XIX .
Seria feio expressar esta minha opinião sobre aculturação? Seria antiquado, 'caído', 'demodè', politicamente incorreto relativizar o conceito cultura globalizada? Cultura - constatação óbvia- é uma coisa relativa e ponto.
Pois foi isto que tentei colocar em discussão.
E, cá entre nós, esta história de só ressaltar apenas coisas boas, lindas e positivas do Brasil (uma tendência editorial sutilmente sugerida aqui no site) também precisa ser pensada melhor. É preciso também ampliar um pouco mais o nosso conceito sobre o que realmente é o Brasil. O Brasil não é 8 ou 80.
Não sei se a omissão das 'coisas ruins', os 'panos quentes' é uma boa opção editorial para o que é, queiramos ou não, um veículo de comunicação. Devíamos cuidar melhor da qualidade (estética, literária) do material que disponibilizamos, mas, a variedade das opiniões e dos conteúdos deveria ser melhor respeitada, preservada e, até estimulada.
Acho que informação seria mostrar tudo (uns mostram isto outros mostram aquilo). Esconder (só como exemplo) o garotinho favelado apertando um baseado e só mostrar o outro, feliz da vida, tocando um violino doado pela Petrobras, não me parece uma forma correta - ou completa- de se difundir a cultura do Brasil. Pode até ser um imperativo em conteúdos para grandes redes de comunicação, mas, acho que aqui, não é o caso.
A periferia não é só fashion e moderninha. A periferia não deveria ser centralizada tanto assim. E a diversidade, onde é que fica?
É o que espero de um site que se assume de vanguarda, mas, posso estar errado, certo?
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 10:02
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Olá Spirito,
Tenho acompanhado suas intervenções aqui no Overmundo. Meu respeito por você é infindo. Mas permita um contraditório. Tenho a impressão de que seu modo de ver cultura é “essencialista” (posso estar enganado, e, se estiver, perdoe-me). Por essencialismo, leia-se, “tudo que é bom para mim, DEVE SER OBRIGATORIAMENTE BOM PARA OS OUTROS”. Por isso eu fiz aquela citação de Sahlins, antropólogo americano que considera chata toda a discussão que reduz a cultura a uma questão de poder. Você acha mesmo que os garotos de Goiânia estão sendo “colonizados” por cantarem em inglês? Você acha mesmo que o poder é exercido por meros recursos lingüísticos? Pode ser. Pode ser que o Japão seja um país totalmente ocidentalizado em função do “engrish”. Mas será que é mesmo? Falta uma pesquisa etnológica aqui. Eu prefiro seguir os ensinamentos do mestre Eduardo Viveiros de Castros, um dos maiores antropólogos do mundo (estarei sendo xenófobo ao afirmar isso?). Pois então, afirma ele: CULTURA É A NATUREZA DO SUJEITO, ou seja, ela é a forma pela qual toda a pessoa experimenta sua própria natureza. Os povos ameríndios entendem isso perfeitamente: ao invés de o ponto de vista criar o objeto, o ponto de vista cria o sujeito. Isso é chamado perspectivismo. Enfim, essa é uma discussão apaixonante. Não sei se aqui é o fórum. No mais, acho as proposições do Overmundo corajosas e elas fazem todo o sentido para mim. Ao menos no meu ponto de vista.
Kuja · São Paulo (SP) · 23/3/2008 10:36
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oi Spírito Santo: eu não estou defendendo todas as bandas brasileiras que cantam em inglês - estou falando do Mechanics - há bandas boas e ruins cantando em inglês no Brasil (o ambiente é bem diverso...) - assim como há bandas boas e ruins cantando em português no Brasil - e assim por diante
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 12:03
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Nem se há de negar que há uma possível cultura em cada um, posto que humanos somos.
Nem se deixa de aplaudir que haja vontade de um ser igual ao outro, que humanos somos.
Há que se observar, penso, que uns se atiram de ponta cabeça para ser o outro, e aos que pretendem ser apenas o que são, que é muito, e peculiar e local e, daí, universal, aqueles que se tornaram outros querem negar a existência, ocupam expaço, aplastam.
Quanto a que o território tenha tanta desimportância assim, discordo, posto que tambores se fazem de algum material, assim como outros artesanatos, de embelezar ou de vestir... e por aí vai-se.
Sem contar que a água não cai toda dos céus em quantidade potável suificiente para saciar a necessidade dos humanos no planeta.
Então, se fosse apenas para cuidar desse elemento, necessário é ter o pé em algum chão, ou um canhão para mandar vir de alhures em que se esteja o de beber.
E os canhões estão ao largo, em porta-aviões, ou mesmo em solo já, diriam colombianos mais espertos sobre o que move a roda da história humana, que também sãos as circunstâncias objetivas determinadas pelas relações sociais oriundas daquilo que se costumava chamar de relações de produção.
Ainda há produção.
Ainda há relações, quer se queira, quer não.
A cultura é uma relação social.
A pessoa humana é, mas não sendo ilha, é em situação com as outras.
Não paira na idéia de si, nem de si por si só faz verão, a andorinha que só queira ser ela.
Muito bom que tenhas outros exemplos do que fazem as pessoas no planeta, Hermano, assim queria que todas as demais pudessem fruir disso que relatas. Eu mesmo teria muito gosto em fruir muito do que mancheteias. Faz os artigos, sugiro.
Porém, o que nos chegou por ti de tuas tantas andanças relatadas foi tão somente o rock-lixão de goiânia.
É dele que estou, eu pelo menos, falando.
Minha mãe fará 83 anos em junho e canta todo dia a meninice dela no Maranhão.
De graça, pra mim.
Mas não se enxerga nas novelas que também vê todo o dia. Ouve, muito mal já, a sonzeira embalando o consumo.
Sei disso porque ouço as guitas mais escabrosas de fundo nas trilhas, eu aqui numa outra peça de nossa pequena casa, de onde me pego pensando, que diabo de cena na favela glamurizada tá precisando dum révi métau pra se fazer melhor?
Eu tentei ouvir as músicas que indicaste da banda Antropomorfos, mesmo não sabendo inglês, coitado de mim...
Eu espero, sinceramente, que mesmo tão unidos como convocas, eles não vençam definitivamente, porque haverá de interessados outros em música, unirem-se para libertarem-se então do que também considero uma ocupação cultural.
No lugar de um fazer goiano, ali, naquele grupo, há um fazer do outro, de muito volume e pouca harmonia.
Pelo que disse que tinha ainda muito gosto por Hendrix.
Quando estou falando disso aqui, não estou falando de outra coisa, portanto, estão me ocupando também, não é isso?
Podia estar na praia, pescando, conversando com mamãe, certo, mas quando voltasse aqui, se não digo o que penso, talvez, quem sabe, talvez sequer pudesse voltar, por ter me ausentado de debater o que aqui vai.
Ainda vale quem vai ao ar perde o lugar?
Kuja, se cultura é a natureza do sujeito, que eu concordo, e o sujeito é macaqueação do outro, esse sujeito primeiro existirá de fato?
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 12:15
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Há que se observar, penso, que uns se atiram de ponta cabeça para ser o outro, e aos que pretendem ser apenas o que são, que é muito, e peculiar e local e, daí, universal, aqueles que se tornaram outros querem negar a existência, ocupam expaço, aplastam.
Universalizar uma particularidade é o princípio de todo o preconceito.
se cultura é a natureza do sujeito, que eu concordo, e o sujeito é macaqueação do outro, esse sujeito primeiro existirá de fato?
É mesmo "cópia" o que os goianos estão perpetrando? Tenho dúvidas... Sobre a questão do Sujeito... Xii, já mataram e ressuscitaram tanto esse pobre diabo que já não sei mais...
Kuja · São Paulo (SP) · 23/3/2008 12:53
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Kuja (vamos por partes)
Instigante esta sua última intervenção. Só em ter mantido - e até elevado- o nível do papo já é bacana.
Saiba contudo que não é primeira vez que sou classificado aqui como um cara 'essencialista', não há porque te perdoar porque não há também como saber se você está enganado. A teorização (a formulação indiscriminada de conceitos e citações) é sempre um mar sem margens e sem fundo. Explico: A sua definição de 'essencialismo' é completamente oposta as anteriores. Já me atribuíram o pensamento de que em cultura popular as manifestações populares teriam uma 'essência' própria, sacrossanta, por aí. Esta de “tudo que é bom para mim, DEVE SER OBRIGATORIAMENTE BOM PARA OS OUTROS” é nova (e, afinal, o que teria isto a ver, etimologicamente que seja, com essencialismo?). Nesta eu boiei. De onde você tirou a idéia de que estou ignorando o que é bom para os outros? Falei em diversidade de opiniões, debate gerando a evolução do pensamento em sociedade. O que estou questionando é esta idéia de pensamento hegemônico, superior, acadêmico, 'avançado'. Sobre a citação de Sahlins (perdão se não conheço o cara) não julgo que esteja 'reduzindo' a cultura achando - como acho realmente- que Cultura É poder. Será que você interpretou o Shalins legal mesmo? E quanto ao esoterismo dos pomposos jargões que servem de base estética para a argumentação destes pensadores da moda? E quando o pensamento do Shalins se tornar anacrônico e der lugar a outro, completamente oposto?
É por isto que quase não cito. O que penso é o que eu penso. Assino em baixo fujo dos jargões o mais que eu posso (acho o uso deles - as das citações- inclusive meio rococó)
Aliás, tenho sempre o maior cuidado ao usar, da forma que você usou, Kuja, conceitos como 'essencialismo, porque acho que não existe nada mais volátil e imponderável do que classificações teóricas terminadas com 'ismo'. Inda mais quando se cita o 'autor', o 'descobridor do conceito.
Não acho que os garotos de Goiânia estão sendo “colonizados” SÓ por cantarem em inglês? Claro que não. nem tampouco que eles são ruins SÓ porque cantam em inglês. Não abordei uma questão meramente relacionada ao idioma (permitam-me usar o termo lingüistica aqui com um sentido mais amplo), claramente falei mal da música deles como um todo, do caráter imitativo dela.
Sem querer ser didático, todo mundo sabe que palavras de outros idiomas são inseridas em outros desde que o ser humano aprendeu a falar. O Português do Brasil é cheio desta saudável e natural simbiose com o inglês, com o francês, o kimbundo (de Angola). Mas, veja bem, eu disse - frisando- 'Natural' e 'Simbiose'. Se isto é ser essencialista, tá legal, eu assumo na boa.
Então vejamos CULTURA É A NATUREZA DO SUJEITO, mas, é também o contexto no qual esta 'natureza individual' é exercida (ou experimentada, como você diz). O contexto é a sociedade, o grupo, as outras pessoas, ora. Senão é, desculpe, individualismo. Cultura é a relação, o dinamismo, entre os elementos, as pessoas, o meio, não é não? Não posso avaliar - e aqui de novo a ausência da relatividade- se como os povos ameríndios pensam. Como saber se eles pensam assim ou assado se não somos, nem eu nem você ameríndios, se não convivemos, suficientemente, com o meio deles, com a cultura deles?
_ Perspectivistas? Nós quem, cara pálida?_ poderia dizer, coberto de razão, um ameríndio destes para a tua tese.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 13:16
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Hermano,
Desculpe aí, mas, acabei inserindo na resposta ao Kuja, opiniões que, na verdade seriam opiniões para o último comentário feito por você.
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 13:32
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Kuja,
Em homenagem à inteligência dessa nossa conversa, explico:
Disse eu:
aos que pretendem ser apenas o que são, que é muito, e peculiar e local e, daí, universal
são porque existem para si, de per si.
de um lugar original e não a imitação de outro
dái, universal, porque com identidade serão assim entendidos em qualquer lugar do universo.
Quanto a tua dúvida real se Antropomorfos são de fato cópia, não me atreveria a tanto se assim me fiz entender, disse macaqueando - pobres macacos que tanto não merecem - porque imitadores, cópia deveria ter um original e ser o mais igual possível posto que igual nada é.
Nessa imitação, no entanto, existe a banda no tempo e no espaço que ocupam. Nisso são originais, únicos.
Bem, se me fiz entender, no primeiro comentário disse que é exatamente do que não gosto e pelo que ainda prefiro música com alguma qualidade e sugeri Hendrix como um parâmetro.
Que lástima tu pensares que não são necessários sujeitos para tentar transformar essa calhordice de mundo de eus=bastantes de si em algo mais qualificado para pelo menos a maoiria.
Eu ainda me recuso a ser objeto do saber de quem quer que seja.
No máximo troco, se o ambiente da troca for democrático.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 14:21
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CARO HERMANO!
Após ouvir Zé Kéti, João do Valle e Nara Leão, a opinião pessoal sempre será discutida...
Depois de entender que "tomada não é focinho de porco", percebi que escrever é algo natural... Livre! Mesmo que a crítica seja confundida com um "release" comum...
O que é ser vencido na roça de "Jeca-Tatu"? O "engrês" não é inglês! O "pooortugês" não deve ser confundido com "portunhol"! É uma questão de cultura e estética! Dê a Mazzaropi o que é de Mazzaropi! Dê a "Mané" o que é de "Zé"? Estranha a minha análise?
"Mangá" no Sertão de Pernambuco é rir! Mofar a Antropologia é coerente? A Antropologia mofada é história! Música é música! Boa ou ruim! O resto é comum... Descartável!
Abraços.
Lailton Araújo
LAILTON ARAÚJO · São Paulo (SP) · 23/3/2008 15:47
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Caros debatedores.
Obrigado por manterem o nível civilizado do debate. Um dos legados mais legais da cultura islâmica é a itijihad, o exercício do debate. Pena que os muçulmanos deram mais atenção à jihad. Pena mesmo.
Spirito: eu cito, pois sinto-me grato aos responsáveis pelo meus pensamentos. A minha noção de essencialismo (“o que é bom para mim...”) eu mesmo construí e devo a Sahlins e Eduardo Viveiros. Eu sempre cito as fontes de meus pensamentos. Desonesto não citá-las. Curioso ouvir alguém dizer “o que penso é o que eu penso”. Seu motor mental funciona sozinho? Não há biocost? Diga-me qual o segredo!
Pois então, caro Spirito. Não estou propondo uma síntese intelectual baseada em contraposições a nenhuma cultura hegemônica (aliás, “cultura hegemônica” é um termo que considero contestável; você fundamenta uma “cultura hegemônica” só pelo fato de acreditar nela; “cultura hegemônica é uma espécie de “ismo”, apesar da ausência do sufixo).
Sim, acho que cada um é um “país”. Temos de fazer valer nossa autodeterminação antes de nos lançarmos à descoberta de outros “países” (eu prefiro “mundos” a “países”). Pão e pães, questão de opiniães. E, Bauer, claro que acredito no Sujeito. Disse apenas que ele foi quase extinto pelos estruturalistas, mas conseguiu sobreviver graças a Deus. Creio que as relações de produção não são as cadeias [de produção], mas sim os agenciamentos. Quero dizer, o Sujeito que faz os agenciamentos pode não ser o Sujeito da História, mas pode ser um espírito. Eu não sou parte de nenhuma tribo ameríndia – pelo contrário, meus haplóides são eslavos –, mas procuro exercitar o tipo de perspectivismo deles. Isso me faz ser mais tolerante, equilibrado e feliz.
Abraços a todos que respeitam a itijihad desse debate.
Kuja · São Paulo (SP) · 23/3/2008 15:55
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Kuja,
ItJihad pra você também, embora eu não esteja abalizado para saber, dependendo do contexto histórico, quando é hora de jihad (guerra) e hora de ItJihad (diplomacia). Não posso criticar os muçulmanos, sendo assim.
Ademais, não costumo citar a fonte dos meus pensamentos porque, se fosse fazer isto, não faria outra coisa na vida. Até porque (como já dizia o Donga, suposto autor do suposto samba 'Pelo telefone'), os pensamentos, depois de formulados (engraçado...exatamente como conteúdos da internet), não são mesmo de ninguém. Quando os digo 'meus', claro que é força de expressão, quiz dizer que assimilo pensamentos por aí, lendo, ouvindo, debatendo, sempre de forma crítica, formulando a minha própria opinião (o 'meu' pensamento), uma síntese bem anárquica e sempre incompleta de tudo que coube na minha pequena cabeça. Não tenho a menor condição de elaborar uma bibliografia com as fontes do que ando pensando e falando por aí. Sou um modesto pensador folclórico, auto didata, de domínio público.
Logo, quase nunca cito porque quase nunca não sei, exatamente, a quem atribuir a origem de um pensamento. Vai que eu erro a autoria ou distorço, sem querer, o que o cara quiz dizer. Quem nasceu primeiro? O ovo a a galinha? Quem descobriu o Brasil? Quem descobriu a pólvora? O que fazer?
Olha só que coisa: Você citou os estruturalISTAS, os que quase destruiram o conceito de 'sujeito'. Lembra-se que, em sua época áurea eles eram o crème de la crème do pensamento ocidental?
relativisemos, Kuja.
Não poderiam ser os eslavos também (as tribos do passado dos bálcãs), tão perespectivistas quanto os ameríndios? Para que ir tão longe do seu 'Eu', do seu 'país' individual? Porque não se assumir logo como um antropomorfo normal (mesmo desunido), comum, mortal, tanto quanto eu?
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 16:42
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putz... grafamos errado. É ijtihad, o certo. E o pior é que usei ontem mesmo o termo num conto de ficção científica que estou escrevendo. Memória, memória... Sim, para que ir tão longe? Fala-se muito em relativismo hoje em dia. Eu pessoalmente uso com cuidado o termo. Sim, pois se tudo é relativo, então as nuanças caem por terra e a ciência acerta a conta das diferenças no final. Prefiro me igualar com o que temos de diferente, já que a única semelhança é a diferença. Se o referente é múltiplo, então nunca estaremos falando da mesma coisa, certo? Faz-se necessária uma ciência da equivocação! Uma metodologia dos mal entendidos a que somos acometidos sempre, sejam com nossas namoradas (e namorados), seja com os estrangeiros, seja com os povos ameríndios.
Kuja · São Paulo (SP) · 23/3/2008 17:06
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Ora viva!
E não é que agora (mesmo que ache que, pelo que havia entendido antes, você está se contradizendo) chegamos a um consenso. Pois não era exatamente sobre a relativização exagerada do conceito 'países-pessoas' que debatíamos? Uma 'Ciência da Equivocação' ( se é que o que é científico pode ser também equivocado?)
Viva os mal entendidos que nos unem a todos, antropomorfos sim, porém, sobretudo, humanos.
Abs.
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 17:59
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como o Kuja, adoro citações: então em homenagem aos 80 anos do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, vai aqui uma citação bem batida (mas não exatamente compreendida): "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago."
outra coisa: obviamente não acho que tudo é bom no mundo (se achasse tudo bom não teria ajudado a criar o Overmundo, estaria satisfeito com a cobertura/distribuição cultural existente): mas é uma questão de temperamento: tenho pouco tempo: quando escrevo por aqui gosto de falar daquilo que gosto - quero dar força para aquilo que acredito, para aquilo que acho que tem valor e precisa ser melhor conhecido - outras pessoas podem gastar seu tempo e o espaço do Overmundo para outras atividades, é claro
também é um gosto meu pela diversidade: a cultura da reclamação é dominante (e tem bastante espaço na mídia) - alguém precisa falar daquilo de bom que está acontecendo, só para variar um pouco...
no texto Sobre o Overmundo está escrito que este site nasceu com "a motivação comum de atacar de frente um grave problema do atual cenário cultural brasileiro: a produção é cada vez maior, mas só uma mínima parcela do que é produzido consegue ser divulgada ou distribuída para o público." São constantes as reclamações de que a mídia tradicional não dá espaço para as inúmeras coisas importantes, interessantes e valiosas que estão acontecendo no Brasil, sobretudo fora dos palcos mais ilumidados do eixo Rio/São Paulo (pois esses palcos já têm grande espaço nos cadernos culturais da grande mídia). Estamos por aqui tentamos encontrar uma saída. Então é sim uma missão essencial do Overmundo revelar o que acontece de bom pelo país. Não é a única missão, reconheço. Nem há nenhuma regra por aqui impedindo críticas negativas e reclamações (só gostaria de ser poupado de reclamação lugar-comum, mas isso continua sendo questão de gosto e temperamento), já que o Overmundo é, mesmo no seu lado revelador-do-que-há-de-bom, um projeto militante que, como disse, partiu justamente de uma grande insatisfação com o (portanto crítica negativa do) estado da cobertura sobre cultura da grande mídia.
agora: resumir o trabalho do Mechanics e do Fabio Zimbre como "o que nos chegou por ti de tuas tantas andanças relatadas foi tão somente o rock-lixão de goiânia" me parece uma injustiça (e certamente um desrespeito com o trabalho alheio - imagine se eu chegasse por aqui chamando classificando de "poesia-lixão" a produção literária de algum autor que publica no Overmundo ...) - repito o que escrevi no texto acima: Music for Anthropomorphics/Música para Antropomorfos é um trabalho de brilhante qualidade artística, uma das melhores coisas que li/vi/ouvi recentemente produzida em qualquer lugar do mundo - sei que é apenas minha opinião pessoal, não quero impor minha opinião pessoal para ninguém - mas peço um favor: quem quiser falar mal do disco/livro deve primeiro ler o livro e escutar o disco (e para perceber a originalidade do trabalho deve ter alguma informação sobre o que tem sido produzido de rock contemporâneo e história em quadrinhos) - é o mínimo que precisamos para tornar a conversa produtiva e respeitosa (assim como só acharia proveitoso um debate sobre meu trabalho para a televisão com pessoas que realmente viram os programas - dizer que o Central da Periferia só mostrou garotinho favelado "feliz da vida, tocando um violino doado pela Petrobras" é coisa de quem não viu os programas...)
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 18:46
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uma correção: o nome da livraria citada em meu comentário acima é Folha Seca - lugar que todo mundo que passa pelo Rio deve tentar conhecer
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 18:58
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Hermano,
(Só pra sair do papo que já começa a circular, viciosamente)
1- Embora tenha ficado parecendo, o papo do menino do violino (precisamente uma imagem de anúncio de programa de responsabilidade social governamental), não era uma crítica direta ao 'Central'. Seria um reducinismo barato, reconheço (eu vejo os programas sim, e gosto, com as ressaltas de direito). Contudo - a realidade maquiada- é o que que também vejo (vemos?) como recorrência na grande mídia (talvez mais cínica no Brasil do que em outros países), na qual (as regras), de algum modo, imagino que o 'Central', dentro de parâmetros éticos relativizados para o contexto, deva em alguma medida, se submeter, as vezes, por mera responsabilidade editorial ('centralizar demais a periferia', dizia eu).
Lembremos contudo que, nos comentários, o nosso foco era este site, livre e, portanto, independente da grande mídia. Achava que aqui, não seria o caso de se esconder nada. Aqui sim, mostraríamos, sempre que quizéssemos, o que a grande mídia não mostrou, certo? Outros pontos de vista e, inclusive certas mazelas e idiossincrasias, por que não?
O 'Central' foi citado portanto como um exemplo específico do que ocorre na grande mídia, muito pelo fato de estar relacionado a você, é claro, o autor deste post, que desempenha papéis algo semelhantes lá e aqui, embora em contextos ideológicos bem diferentes - e contraditórios, arisco dizer.
A missão a qual o Overmundo se propõe é muito meritória, mas, as vezes (como neste caso) é um pouco arrogante demais para o meu gosto. Quem decide aqui o que é ou não é mais relevante do que na grande mídia? Os usuários, certo? Quem nos garante que estes usuários decidem acertadamente? As regras (ambíguas) estipuladas pelos criadores ou o site será um reflexo do pensamento de seus colaboradores (entre os quais me incluo, por enquanto)?
Não há nada que garanta que a 'missão' poderá ser cumprida pelo caminho traçado, pelos parâmetros que porventura tenham sido sonhados por você e os demais criadores que não seja a mera e constante desqualificação de tendências divergentes?
Só para exemplificar, a grande questão deste nosso morno debate, é que eu me arvorei em expor a minha discordãncia quanto a pertinência de uma banda de Heavy Metal de Goiás que você, ao contrário de mim, acha o supra sumo da cultura pop universal. Só isto.
Bastava respeitar meu ponto de vista. A conversa só se estendeu porque este meu direito de discordar, não aceito, passou a ser, como de outras vezes, questionado em bases completamente fora de contexto ou propósito. Minhas alegações acabaram sendo desqualificadas, como coisa de 'mal entendedor', de crítico apressado, que insiste em críticas 'lugar-comum'. Ora, uma clara subestimação, certo?
Saiba quem ainda não soube que, apesar de ser músico, não sou (só por acaso) um especialista em Rock and Roll. Brasileiro que sou (também por acaso) nem sou obrigado a ser um especialista em música pop norte americana (no original), nem seria necessário, para simplesmente poder dizer: Não gostei do Anthropomorphics. Pronto! Não preciso siquer ler o encarte (lembre-se: não leio, nem devo ser obrigado a ler inglês) para expressar esta simples opinião de mero ouvinte.
Aliás, o cerne da minha colocação inicial, discretamente, colocado era: É mesmo lícito (e, em que circunstâncias) um site que afirma como norma prezar tanto pela cultura brasileira ' de fora da grande mídia' gastar tanta vela com uma banda de Rock and Roll que tenta fazer Heavy Metal (mesmo que seja ótimo) em inglês no Brasil. Cultura globalizada seria só isto aí?
Legal que você me repetiu aquele texto sobre 'Xenofobia e Overmundo', mas, eu cansei de ver posts ameaçados com sutis reprimendas de 'nada a ver', quando tocaram em questões culturais de fora do Brasil brasileiro mulato inzoneiro (eu sei: É difícil saber o que realmente brasileiro hoje em dia).
Contudo, se as regras (tá certo, 'recomendações, vá lá) forem como havia entendido (e não estou dizendo que fecho totalmente com elas), acho que, de certo modo, qualquer banda de Heavy Metal É um produto da grande mídia, aqui em Goiás ou em Nova York. Acho que o Antrophomorphics não precisa nem um pouco do Overmundo para ser feliz (embora tenha todo o direito de estar aqui pela admiração de um colaborador como você, ou eu ou qualquer um). A regra não é clara quanto a isto. Uns podem isto e aquilo, outros não. Tudo é tão confuso quanto a vã e rala antropologia que debatemos, grosso modo, aqui.
Enfim...
Abs,
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 20:22
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"Rala antropologia"? Estamos debatendo ALTA antropologia. Você acha mesmo que o conceito de "países-pessoas" é relativista, Spirito? Seria, se eu estivesse frisando a palavra "pessoas", mas não é o caso. Sujeito não é necessariamente gente, não é necessariamente "antropomórfico". O que eu estou frisando é mais uma idéia "prospomórfica". Quem não é gente também tem o direto a uma humanidade. Quem sabe os "mechanos" da banda goiana não tenham o direito a uma também?
Kuja · São Paulo (SP) · 23/3/2008 20:59
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prosopomórfica, digo
Kuja · São Paulo (SP) · 23/3/2008 21:00
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como assim "gastar tanta vela com uma banda de Rock and Roll que tenta fazer Heavy Metal"? que velas foram essas? sigo todas as regras do site, não tenho um caminho especial para publicar minhas coisas por aqui - se não votarem nos meus textos, eles não serão publicados, as pessoas podem clicar o alarme se acharem que meu texto está fora de foco etc. - este texto aqui passou alguns minutos na home e só - não teve quase nenhum destaque - é só mais um texto, entre as dezenas que publiquei por aqui
além disso: assim como você expôs sua discordância diante do meu texto, eu expus minha discordância diante do seu comentário - por que sua discordância é respeitosa e a minha é desqualificação? Tenho o mesmo direito de discordar que qualquer outro colaborador do site tem (e você não está dando importância demais para o meu texto?)
agora, o disco/livro não precisa do Overmundo? você pode me citar alguma matéria sobre o disco/livro que apareceu na grande mídia? escrevi porque fiquei revoltado por não ter lido nada sobre o lançamento que eu julgava ser tão importante - eu comprei o disco/livro em janeiro - fiquei esperando as matérias e nada...
você não gostou do disco baseado só numa música em MP3 (foi o que você disse ter escutado)? dá para julgar um disco assim? isso é respeitoso? você gostaria que o seu disco você julgado assim?
e "qualquer banda de heavy metal é um produto da grande mídia"? há tantos estilos de heavy metal que têm vidas totalmente fora da grande mídia... E o Mechanics nem é uma banda de heavy-metal...
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 21:25
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Então Hermano, a tua contrariedade com o que falei parece ser porque tenha eu escrito em português sobre o que não gostei.
Eu disse rock-lixão e deveria ter dito trash rock metal.
Posso te poupar sim dos meus comentários aqui, tão pouco estás entre nós que aqui passamos algum tempo, mesmo pessoas que fazem alguns versos.
Se tens contrariedade com o que se publica, penso que seria muito razoável, tu como responsável administrador, que nos dissesse diretamente ou comentasse nos locais apropriados.
Peço que não me obrigues a escrever e a ler inglês em um sítio sobre cultura feita no brasil e por brasileiros.
Eu não falei sobre a linguagem dos quadrinhos, nem da relação dela com a música, justamente porque não tenho contrariedade com o dito da importância da relação entre os dois universos e tenho por Zimbres um conceito positivo.
Disse apenas que há macaqueação de subprodutos do movimento internacional desse tipo de música, ainda que consideres a banda
"um trabalho de brilhante qualidade artística, uma das melhores coisas que li/vi/ouvi recentemente produzida em qualquer lugar do mundo".
Pouco tenho acompanhado o movimento atualmente, porque tenho me apegado mais a escrever em português alguns versos e algumas histórias que algumas pessoas outras têm me incentivado a continuar escrevendo porque têm-me dito, também aqui em Overmundo, que gostaram.
No entanto, cito:
Thrash Metal
Guitarras distorcidas, som rápido e pesado, com forte presença e influência do Hard Core. Pode-se dizer que o Trash Metal é realmente a fusão do Heavy Metal com o Hard Core. As letras são na maioria das vezes protestos contra governos, políticos, religião e também falam de esportes radicais como skate, surf e bike. Este estilo musical fez a cabeça de muitas bandas Punk das antigas e acabou por converter várias delas de Punk para Trash Metal, por motivos não somente ideológicos mas sobretudo comerciais. Algumas bandas que se converteram ao Trash Metal são The Exploited e GBH, entre outras.
Converse lá com o pessoal, não comigo, que apenas não gostei de ouvir a música que indicaste e disse publicamente aqui, sem insinuações do tipo: imagine se eu chegasse por aqui chamando... classificando de "poesia-lixão" a produção literária de algum autor que publica no Overmundo
São eles que se autodefinem, hermano, eu continuo preferindo Jimmi Hendrix.
És fundador deste sítio, do que também me orgulho de ser um incentivador, porém, penso que os espaços de comentários estão abertos também para ti, que por certo não está em outra esfera.
Overmundo, a meu ver, é feito menos por ti a cada dia, e nem nunca foi feito só por ti, por certo.
E nem considero que tenhas já essa vontade.
E também não penso que poderias ser tão amigo assim como das pessoas que aplaudes no mundo como das que pontualmente, em um único postado, pelo menos eu, não concordam contigo.
Ou alimentas de antes alguma antipatia comigo por eu não publicar bons versos em overmundo a teu juízo?
Saravá!
---
Po óbvio que a banda tem direitos, Kuja, o mesmo que os maus poetas. De serem aplaudidos e criticados. O que fiz foi dizer que não gostei e localizá-los, conforme um código bastante ultrapassado de avaliação das circunstâncias de agrupamentos de pessoas, lugares e produção, como obra pouco contribuinte para, por exemplo, a defesa da água para todos entre pessoas que falam apenas português, como, por exemplo, a maioria das que vivem nesse território ainda chamado Brasil.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 21:30
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admito sim que as regras não são tão simples como poderiam ser - afinal estamos lidando com questões bem complexas (definições de cultura, brasilidade etc.) num ambiente assumidamente experimental (não existe outro site no mundo como o Overmundo) - estamos aprendendo com a prática, com os usos - já incorporamos muitas sugestões dos colaboradores no software mesmo do site - portanto aceitamos com alegria sugestões de regras mais simples e claras
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 21:35
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Adroaldo: meu trabalho no Overmundo não se resume ao que é publicado - estou aqui praticamente todo o tempo em que estou acordado
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 21:44
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ah - não gosto de falar inglês, não tenho talento para línguas, mas se não soubesse um pouquinho de inglês o Overmundo não existiria - o mundo do software é dominado pelo inglês - isso é fato - não acho bom que seja assim, mas não vejo muita possibilidade de uma mudança em breve - a não ser que o mandarim...
ainda sobre línguas: ontem ouvindo o canto gregoriano em latim, eu pensei no Império Romano, que impôs o latim por toda a Europa, e essa imposição deu até no nosso português... o mundo dá muitas voltas - ainda bem que não é estático...
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 21:51
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Que bom Hermano.
Um parâmetro para nosso debate por escrito e a música que citaste, para mim, é o que Rubênio acaba de postar.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 21:51
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Nem estático sou, Hermano, me acusam alguns do contrário.
De pretender racidalidades.
Uma delas, em razão das circunstâncias de período, que em um sítio de cultura feita por brasileiros, ainda que as ferramentas para pô-lo em movimento sejam as do império, não se deixe de promover a língua, digamos assim, da aldeia, embora não possa essa se assemelhar a invicta gaulesa.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 21:56
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Quis dizer radicalidades!
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 21:57
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CARO HERMANO!
Que justificativa... Desculpe: não gostei!
Estou apenas lendo e percebendo. Quem produz cultura e quem
está apenas na cultura?
Justificar algo injustificável é mais grave do que criticar o que não pode ser criticado! Fui claro? A Petrobrás não pode gastar dinheiro com a "importação cultural". Devemos exportar! Somos um país carente e desdentado...
E o MinC? O Brasil tornou-se uma "Bunda-Larga ou Banda-Larga"?
O "Adroaldo" tem razão na exposição dos fatos overmundanos...
Ele continua produzindo! Dando a cara pra bater! Até consegue ler meus textos e ouvir minhas composições! Estou aprendendo com o velho e bom escritor "Adroaldo". Estamos em fase de parcerias... É o lado bom da "Banda Larga" do Overmundo.
"Hermano", Axé irmão!
Entenda o que tentamos explicar... Você é brasileiro?
Abraços.
Lailton Araújo
LAILTON ARAÚJO · São Paulo (SP) · 23/3/2008 22:07
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Uns poucos reparos:
Falei só da música, do disco (sobre o Mechanics) portanto. Sobre o livro nada vi, nada sei e nada falei. Acredito que seja muito bom. Falei também sobre o Zimbres cujo desenhos vi e achei ótimos também.
Não acho, e nem remotamente insinuei, que você, Hermano, não segue as regras do site. Só disse que as regras, elas sim, são ambíguas e que o sistema de administração do site também é ambíguo a este respeito, dando margem a incidentes desagradáveis como este (uns poderem isto e aquilo e outrso não, sempre à luz das regras do site).
Na verdade, se querem mesmo saber, acho esta história de 'cultura brasileira que não está na grande mídia' uma impossibilidade sem tamanho. Não acredito em cultura nacional , muito menos nestes termos streitos como pareceu
Nestes termosJá que somos brasileiros escrevendo do ou para o Brasil, por que não é só CULTURA e ponto? (de preferência em português para que a maioria nos entenda)
Kuja,
Desculpe aí. Não achei rala a SUA antropologia. Achei a nossa, no geral. Ijihad, lembra?
No mais, para mim e por hora, tudo já está suficientemente dito.
Abs
Abs
Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 22:21
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oi Adroaldo: mas o software do Overmundo, mesmo usando palavras em inglês, é totalmente nacional - produzido do zero (a não ser uns adendos, como o novo player de vídeo) aqui no Brasil
mas pensando disso me lembrei de uma mestre minha, doutora em linguística, defendendo o uso do "deletar": afinal os ingleses roubaram a palavra do latim (lat. deletus, part. pass. do v. lat. delere, 'apagar', 'riscar') - então ela está mais em casa numa lan-house do Complexo do Alemão do que num ciber (do grego, ``kybernetiké'', piloto, no sentido utilizado por Platão para qualificar a ação da alma) café (Do ár. qahwa(t), pelo turco qahuyé, pelo fr. café e pelo it. caffè.) do Vale do Silício
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 23/3/2008 22:26
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Hermano,
Conformou-se aqui nesse território há algum tempo um estado-nação que se chama Brasil que adotou para si uma língua não autóctone, como mostras, que não é outra, é o Português.
Quem sabe, na tua visão planetária, que não discordo, que se haja entre os que estão para o bem em todo o mundo, se adote para as relações o Esperanto, sem pátria e inteligível a qualquer que a estude e não carrega a submissão do outro em si.
Bem sabes porque refiro a dominação cultural ao inglês estadunidense.
Não nos desviemos do assunto que é a aculturação para a dominação, não a conformação dos idiomas e suas origens.
Em outro parâmetro, a religião católica (aspecto cultural) abonou a entrada de conquistadores espanhóis e portugueses que conformaram por séculos impérios outros nas Américas e em África.
Eu já sabia que o mecanismo de funcionamento do overmundo fala inglês, mas desenvolvido por brasileiros.
Foi bom informares aqui, no entanto.
Nem por isso, a ferramenta exigiu mudança de identidade e aprendizado de outra língua por quem a usa, não é mesmo?
O blues e o rock de Hendrix me parecem melhores porque mais tecnicamente elaborados e de qualidade superior a muito que existia antes dele e do que lhe sobreveio no mesmo perfil. Há música inteligível ali, harmonia, elaboração técnica e, veja, até poesia melódica. O código da música, como o Esperanto, é também um código universal, em si, não submete, liberta até, penso.
Não faço do meu gosto um cavalo de batalha, é só o meu gosto.
Minhas batalhas são as que se decidem coletivamente, em espaço em que eu possa opinar, dizer também a minha palavra.
Falemos uma linguagem outra então: os Estados Unidos da América (por enquanto territorialmente apenas do Norte) é um império armado contra a humanidade.
Seus instrumentos de dominação e submissão de outros povos nacionais, mesmo os que falam inglês, são o canhão, os foguetes e as bombas.
A diplomacia, o comércio, a moeda-padrão internacional e a imposição dos negócios culturais, via cinema e música principalmente, vêm sustentados por aqueles, como a espada sustentou a cruz no antanho.
Eu sei inglês um pouco, também leio poetas e críticos estadunidenses do próprio sistema que lá também corrompeu uma revolução. Chomsky e Withman me dizem isso.
Porém, Hermano, não tenho os EUA como paradigma sequer para a sobrevivência do planeta, que o ideal deles continua sendo "os negócios", ainda que eventualmente falando macio, carregam o velho porrete de sempre.
Também, como Spirito, penso que já nos dissemos tudo.
Eu, pelo menos, ainda preciso preparar a marmita para levar ao trabalho amanhã.
Boa noite.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/3/2008 23:09
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mas toda língua sempre foi dominação e luta contra a dominação:
vou fazer algumas outras citações (peço desculpas) - não estou citando por concordar com o que é dito na citação, mas para colocar mais idéias, totalmente divergentes entre si (e afastadas do meu pensamento), na conversa:
Deleuze:
"não há língua em si, nem universalidade da linguagem, mas uma mistura de dialetos, de patuás, de gírias, de línguas especiais. Não há um locutor/auditor ideal, nem uma comunidade lingüística homogênea. A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, 'uma realidade essencialmente heterogênea'. Não há língua-mãe, mas a tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política."
e Richard Rodriguez:
"E esta é a diferença entre digamos, o francês e o inglês americano, a razão para que o inglês americano seja a língua do mundo agora é porque ela toma. Ela continua tomando, tomando e tomando. Quando aqueles gringos chegaram nas pradarias no século 19, eles se defrontaram com o que restava do império espanhol, e aqui estavam todas essas palavras espanholas jogadas sobre os solos dos montes e dos vales, palavras para arroyo e para mesa e palavras como Pueblo, Colorado. Os gringos podiam decidir fazer uma destas duas coisas, ou decidir que essas palavras não eram inglês, e não iriam usá-las, ou poderiam decidir que fariam delas inglês. Eles iriam roubá-las, e foi o que fizeram. Eles tomaram todo o espanhol para si, como eles tomaram o alemão, e eles tomaram o italiano, como eles tomaram o ídiche. A língua americana, que não é mais nem inglês, é tão cheia de palavras estrangeiras, precisamente porque este país se abriu, abriu sua boca e engoliu todas essas culturas, e não apenas o trabalho das avós ídiches das fábricas espeluncas do Lower East Side, mas tomaram sua linguagem e a usaram e fizeram dela uma piada, fizeram dela numa schitck na rotina de um nightclub de comédia. É muito agressivo, por isso é a linguagem do mundo. Enquanto isso o francês é a Academie tentando decidir, bem, nós temos le weekend, e o que podemos fazer? O pior disso é em lugares como Quebec, por exemplo, com sua pequena polícia da língua patrulhando fora de um restaurante chinês em Montreal para ver se a palavra é mesmo francesa. Quando você congela uma linguagem assim, você a mata. Porque no mundo moderno as linguagem que vão se transformar em linguagens globais são as linguagens mestiças, ou as linguagens que podem absorver impurezas dentro delas."
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 24/3/2008 02:12
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