Aos mestres com carinho

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Francisco Ralph · Rio Branco, AC
13/4/2007 · 25 · 3
 

Convido todos a relembrar os mestres que nos ajudaram na longa caminhada dentro da academia, quem não se lembra de um professor metódico, para não dizer carrasco ou aquele “gente boa”, ou então o incompreendido que de tanta intelectualidade não se fazia entender e o que dizer das várias linhas de pensamentos que você se identificava tão ferrenhamente, mas com prazo de validade, isto é, até chegar um novo professor com novos autores e pensamentos que você prontamente abandonava aquelas e adotara estas novas e tão revolucionárias filosofias de vida, enfim, vamos ao que interessa:

No primeiro período você é um bicho, verde, só não digo recém saído do segundo grau porque levei três anos para transpor a barreira do vestibular, esse sistema maniqueísta, excludente que não seleciona e sim tolhe os verdadeiros talentos e a criatividade humana, entretanto esse é assunto para um momento posterior (...). De cara você se depara com Prof. Manoel Severo de Farias, doutor em filosofia, como o nome sugere ele realmente é exigente, começa pela história da filosofia, pré-socráticos, socráticos, Platão e seu “mito da caverna”, Aristóteles, sofistas... Quando você pensa que está pegando o fio da meada ele vem com Kant e sua “Crítica da razão pura”, se não bastasse lança mão do desconfiado Descartes, autor da celebre frase “penso logo existo” a única certeza que ele tinha, para finalizar você se depara com termos e conceitos que jamais sonhara em conhecer. Contudo você se reúne com amigos, discute os vários questionamentos do pensamento humano e chega a conclusão de que você não sabe de porra nenhuma, mas vence a disciplina com minguados 8 pontos de média. Quando você pensa que o pior já passou adentra a sala de aula um senhor de meia idade, de cavanhaque grisalho, sisudo, vira-se para os alunos e começa a fazer caretas e trejeitos, os mais esquisitos que você possa imaginar, deixando pasmos todos que ali estavam, de repente ele se recompõem e apresenta-se: “meu nome é Clodomir Monteiro”, mestre em antropologia, aponta para um rapaz na primeira fila e pergunta-lhe o nome, o discente responde: “me chamo Jadiel”, o Prof. “Doidomir” lhe refuta: “você pensa que se chama Jadiel, tudo é uma questão de como você se insere no mundo e qual mundo você considera inserido”, pronto! esse foi o cartão de visita do docente mais inusitado que um aluno pode ter. Vamos aos teóricos de antropologia I e II, primeiro lemos Edgard Morin e a sua “Teoria da complexidade”, na qual tudo é relativo, até o ser humano que em algumas situações tornar-se um “ser trivial”, a filosofia da hologramática “a parte está no todo e o todo está na parte”, a partir de então você pode imaginar os desdobramentos e as discussões que permearam todo o primeiro período de um acadêmico de Ciências Sociais.
Todos sentados como cordeirinhos em suas cadeiras, abrem-se as portas de forma abrupta quase danificando a fechadura, ouve-se a saudação: “boa noite companheiros”! Prontos para revolução? O professor prossegue a sua fala: “meu nome não importa, mas o que sei e o que vocês saberão isso sim é importante, estaremos juntos nessas disciplinas (sociologia II e III) trataremos de Marx e seus conceitos", entusiasmado como lhe era peculiar apresentou-se: "me chamo Nilson e faremos a revolução"! Soltando um grito que da cantina ouvia-se. Com uma semana assistindo as aulas do Prof. Nilson estava envergando camisetas do Che, lendo sub-capítulos de capítulo de títulos da obra fenomenal intitulada “O Capital”, não preciso nem dizer que lemos a priori “O manifesto do partido comunista”, “Manuscritos econômicos e filosóficos”, dentre outras obras preliminares de Marx e Engels. Nesse momento Marx era o cara! Tudo poderia se resumir na relação dialética entre opressores e oprimidos (burgueses e proletários), participávamos de discussões acalouradas de tal monta que as aulas do Prof. Nilson era assistida por alunos de outros períodos. Vamos fazer a ditadura do proletariado! Meu colega Toni Marle levanta-se e com o punho serrado grita: “vamos pegar nas armas”, imediatamente todos se viram para ele e não conseguindo segurar o riso, gargalhamos... Esqueceu-se que a revolução se faz ideologicamente e não de forma coercitiva, até pode, mas essa última é passageira. Embrenhamo-nos na biblioteca, começamos a lê a obra de Marx, Lênin, Trotski, Rosa Luxemburgo e etc... Colamos pôsteres do barbudo em nossos quartos, nos indignamos com a exploração que nos oprime, até que chegamos ao fim das disciplinas, então um rapaz recém intitulado doutor em Ciências Políticas chamado Elder Andrade de Paula nos apresenta os Frankfurtianos, críticos das teorias tidas como dogmas, dentre elas a teoria de Marx, a qual consideraram-na contraditória, refutando cada ponto da teoria dialética, deixando-nos com graves crises de identidade, e agora? “Muita calma nessa hora” disse o Prof. Elder, abrindo um livro, proclama: “apresento-lhes Gramsci”! Sumariamente Gramsci é um reformista marxista que defendia que uma revolução para se sustentar teria de vir das bases, ou seja, vamos trabalhar conscientizando as bases, entenda-se, temos que trabalhar o povão. Introduz conceitos de bloco histórico, infra e superestrutura... o que não vem ao caso agora... Nesse estágio de suspeição das teorias marxistas, de estudo de Gramsci, aparece o Prof. Enock, doutor em religião, por incrível que pareça ele é um pastor protestante mas sabia trabalhar bem as questões religiosas com teorias atéias, gente muita fina, considerava tudo que falávamos, apesar de 90% dos nossos diálogos não serem relacionados a sua disciplina, conhecemos então Kierkegaard, foi com ele que fizemos nossas primeiras pesquisas in loco.
Quando sentíamos superiores a maiorias das pessoas, capazes de identificar a “matrix”, surge a Profª. Norci Coelho, mestre em sociologia, em seu primeiro dia de aula nos instigou: “me provem que o ser humano evoluiu do Séc. XVIII pra cá”! Nos exaltamos, fizemos referência ao progresso da medicina e da ciência, e não é que ela calou cada aluno refutando-os, utilizando critérios meramente científicos, não se dando por satisfeita, propôs um novo desafio: “me provem que estamos acordados”! mais uma vez ela levou a melhor.
Desde o início do curso, ouvíamos sussurros sobre uma figura emblemática, um professor a quem os formandos referiam-se às vezes de forma admirável, outras vezes raivosos, mas todos eram unânimes, sua vida mudará após assistir aulas com o Prof. Fernando Pires Peixoto, mestre em sociedade e religião, até então não sabia o que isso significava. Já no apagar das luzes da turma de 2001, nos derradeiros períodos, entra na sala um senhor, de mãos limpas, sem sequer um roteiro ou livro que o guiasse... "caros! Falaremos de Max Weber e a sua obra: Ética protestante e o espírito do capitalismo”, após a primeira aula com o Prof. Fernando, senti-me menor que um grão de areia, fiquei ciente de que estava diante do maior intelectual que tivera a honra de conhecer, quão era o grau de seus conhecimentos. Não conseguíamos percorrer os meandros de suas reflexões, se nos atrevêssemos a indagar sobre algum ponto obscuro em sua fala, ele passava o restante do horário tentando explicar, só que seu raciocínio não encontrava limites. Após percorrer desde a gênesis da questão aos nossos dias, não conseguíamos alçar tamanho vôo pelas literaturas que ele engendrava. Nossa compreensão não passava dos cinco minutos iniciais de sua fala, o restante do tempo nos colocávamos a admirar tamanho conhecimento. Insistimos tanto que ele acabou falando de Nietzsche, que por sinal virou moda entre os pretensos intelectuais, após lê a introdução da obra “O anticristo” tornei-me agnóstico, não quis passar da introdução para não entrar em maiores conflitos, às vezes a ignorância é um santo remédio.
Quando mudávamos de assunto partindo para o cunho pessoal, o interesse por sua vida tornava-se ainda maior, histórias sobre sua biografia eram cantaroladas por todo o campus universitário. Ele já fora dono de garimpo, chegando a possuir aviões, estava presente na Alemanha no momento da queda do muro de Berlim, perigrinou pela Ásia e África aprendendo o hinduísmo e outros ritos, já experimentara todos os tipos de drogas fabricadas, recusando apenas o ópio por orientação de seu “mestre” que ninguém sabe se é terreno ou uma entidade, todas as sextas-feiras veste-se de branco para participar dos ritos do Santo Daime, contava algumas mirações após ingerido o chá oriundo do cipó, esses são alguns relatos verídicos contados pelo próprio em intervalos entre as aulas.
Escolhi o Prof. Fernando para orientar-me na confecção da monografia, entretanto, estava mais perdido que cego em tiroteio, fiz um projeto de pesquisa meia boca, o prof. ao ler o projeto olhou pra mim e disse: “isso é muito complicado, vai levar muito tempo, vamos simplificar”! foi cortando a tal ponto de sobrar meras frases, ocasionando meu retorno para prancheta. Acabei escrevendo sobre a história dos Judeus e seu papel no desencadeamento do holocausto, esqueci de mencionar que o Prof. Fernando também é Judeu, oportunidade em que li o livro intitulado “As origens do totalitarismo” da filósofa Hannah Arendt, a obra mais bem escrita dessa minha tênue vida de leitor.
Com o canudo na mão, sentido-me órfão, percorrendo os corredores da universidade, sou parado por um aluno recém chegado, perguntado sobre o curso, meu primeiro impulso foi de relatar cada experiência vivida, mas resistindo, disse: você nem imagina o que te espera, mas você vai descobrir logo, logo.

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DaniCast
 

Adorei esse texto! Eu senti nostalgia dos meus tempos de faculdade e lembrei com carinho de meus professores! Muito bom!

DaniCast · São Paulo, SP 11/4/2007 21:40
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Francisco Ralph
 

Bons tempos aqueles!

Francisco Ralph · Rio Branco, AC 12/4/2007 09:08
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Tê Jardim
 

achei meio denso...

talvez menos vírgulas e mais pontos; bem como mais parágrafos separados.

mas realmente, o texto é bom. só não me dá saudades porque estou batalhando pra sair da academia... arre!


Tê Jardim · Belém, PA 15/4/2007 11:52
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